Musa dos Corações Partidos

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Por Lillithy Orleander

A garrafa de Jack Daniels balançava para frente e para trás, fazendo o líquido âmbar, dançar na luz pálida.

Carros passavam por ela e buzinavam, sábado á noite, presa fácil pros “boyzinhos”, que não perdiam tempo e mexiam com palavras, assovios e convites promiscuosos.

As lágrimas lavavam – lhe a face borrando o rímel barato, que traçava um caminho sinuoso até as maçãs do rosto.

O batom vermelho manchado, o cabelo ruivo desgrenhado, a meia arrastão rasgada na altura da coxa e os pés tropeçando entre si conferiam a imagem perfeita de um coração partido. Frágil, ela parecia…

– Lola! Lola! Droga garota me deixa explicar. – disse a voz grossa entre divertida e sem vontade, proferia mentiras.

– Vá para o inferno, Renan! – respondeu ela, levantando a mão vazia e mostrando o dedo do meio. Sinto cheiro de ódio, sorri canhestramente.

O rapaz alto, de pele morena e olhos verdes, apertou o passo alcançando a garota e puxando – lhe o braço abruptamente. Ela se desvencilhou e tentou revidar um soco, mas ele foi rápido e desviou.

– Seu imbecil, filho da puta! – Lola dizia entre dentes com os olhos vermelhos arrancando a aliança de prata do dedo anelar.

– Lola você tem que entender que a culpa não é minha. Entende, poxa, é uma festa, as pessoas bebem, ficam leves e perdem a noção do que estão fazendo. Incidentes acontecem.

– De que tipo Renan? Me explica. Por que até onde me consta eu sou a porra da sua namorada, ou era, até sua noiva aparecer e te engolir na frente de todos. Quantas Renan? Quantas você já enganou desse mesmo jeito? Me diz seu desgraçado.

Ela era durona, as lágrimas não paravam de cair mas ela fechou a mão em punho pra bater nele.

– Lola, você bebeu demais. – respondeu ele já irritado segurando os pulsos dela com mais força do que o necessário. – Esquece isso.

Ele tentou enlaçar a cintura dela, mas ela resistiu. Ele tentou novamente e ela o empurrou.

– Idiota, não sou cega. – ela cuspiu nele, ele virou as costas da mão, totalmente enfurecido e limpou o rosto.

– Foda – se, sua piranhazinha.

O carro buzinou alto e o cantar de pneus, só chamou a atenção de Lola após ele tê – lá empurrado, o corpo foi arremessado no poste adiante, os ossos se partiram, veio a dor excruciante.

Os gritos de alguém se fazia alto, os carros continuavam passando, um motorista desesperado acenava para outros com o celular pendurado na orelha.

Lola engasgava com o próprio sangue, enquanto seus olhos avistavam Renan sorrir secando o rosto e fugindo. Era o ódio maciço brotando naquele instante, no último suspiro…

E foi aí que entrei em cena, afinal de contas corações magoados sempre buscam saudar as dividas, sejam elas boas ou ruins.

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– O pescoço quebrado, os órgãos em pedaços… Não sobrou nada, não havia um meio dela sobreviver. Ao que tudo indica ela estava bêbada e deve ter tentado atravessar a rua.

– Tão nova, que desastre.

– Causa da morte: Morte instantânea. Vítima de atropelamento.

Os dois socorristas colocaram a papelada dos bombeiros sobre o corpo, já fechado em um plástico preto e saíram da sala.

O corpo ainda estava morno, os olhos abertos sem vida, alguém os havia esquecido de fechar. O cheiro do sangue correndo nas veias, estava se esvaindo aos poucos. Um lindo pescoço pálido, torcido, como se fosse feito de borracha.

– Lola? Lola, minha querida? Pode me ouvir?

“A mão gélida percorria minhas pernas, mas eu não conseguia me mover. O cheiro de Éter queimava – me as narinas e o gosto do sangue me fazia salivar na esperança de contê – lo de algum modo.

Foi então que me lembrei. Renan, o carro, a queda, o rosto que me sorria, a morte… Ódio! Eu tinha planos.”

– Ora vivas ela acordou! – eu batia palminhas extasiada, ela era ainda mais bela após a morte. – Bem vinda de volta.

“Ela me olhava com um jeito estranho. Os olhos pareciam conter fogo, o cabelo comprido da cor da palha me causaram estranheza por baixo do longo chapéu negro e dos lábios vermelhos.”

– Acredito que sua partida foi no mínimo rancorosa, então tenho uma proposta a lhe fazer. Ora, onde estão meus modos, sou… Sou seu “anjo da guarda” no momento e lhe trago um presente.

– Presente? – perguntou – me ela desconfiada.

– Sim, um presente. Considere – me sua Afrodite inversa. Vim lhe trazer sua vingança, e tudo o que você tiver direito sobre ela, mas vou querer algo em troca.

– Ai meu Deus, eu morri e você é o demônio tentando comprar minha alma. Minha resposta é NÃO!

– Hey. Primeiro não sou o demônio, segundo não quero sua alma, quero seu coração. Lembre – se ele está destruído, não tem mais serventia pra você, o que se faz com um coração como o seu depois de morta? Você não vai poder dá – lo a ninguém mesmo.

Ela era forte, mas manipulável, e acima de tudo vingativa.

– Eu aceito! – ela não pensou muito e minutos depois eu já possuía o que me interessava, o que ela iria se tornar depois a vingança, não mais me interessava.

” Ela enfiou a mão no meu peito, veio o calor e em seguia a dor. Do nada tudo tornou – se cinza. Eu desejei ser o fantasma da vida de Renan…”

Era belo vê – lá, os dias passavam e lá estava ela, com a garrafa nas mãos e o rosto manchado pela maquiagem. As vezes era o pescoço torcido, o corpo arremessado, a voz ecoando longe.

Lola o enlouquecia, ele entrou em depressão.

O som das lágrimas e os gritos de socorro misturados com pedidos de perdão, era deliciosos, ela parecia saber exatamente o que queria dele. A morte…

Renan cumpriu a vontade de Lola que sorriu ao recebê – lo após o suicídio. Um tiro na cabeça.

– Agora você é meu, pela eternidade. Vou destruir aquilo que você tem de mais precioso. Pedaço, por pedaço. Até que não te reste mais nada…

Lola ainda volta, noite após noite pra buscar os corações… Meus corações.

Invade mentes, bebe almas, destrói sonhos e carrega os desavisados. No fim, foi minha melhor aquisição.

Quem eu sou? Sou aquela que te faz olhar – se no espelho com desdém do próprio reflexo. Sou aquela que bebe as tuas lágrimas de dor e lhe aperto o peito transformando teu coração em mazelas.

Vivo latejando em teu sangue em matando seu amor próprio.

Sou aquela a qual você já vendeu teu bem mais caro e se quer percebeu. Eu habito em você, sou parte de você e conto cada dia mais os minutos para te ver chegar aqui, em meus braços.

Beijarei teus lábios e te farei meu escravo. Eu sou tua musa, tua desesperança, teu fardo, teu inverso angustiado.

Eu sou você… Rs

 

FIM

 

 

 

 

3 comentários em “Musa dos Corações Partidos

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