Como uma Onda

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Como uma Onda

Escrito por: Lua Morgana

  Fazia um dia muito quente lá fora, amanheceu calor. E eu tinha que levantar e encarar mais uma rotina incessante. Não que eu não gostasse das coisas que fazia diariamente, pelo contrário, adorava ser professora de dança. Mas só de imaginar aquele calor infernal, dava vontade de me jogar no mar o dia inteiro e esquecer minha vida por uns instantes. Infelizmente não poderia ir à praia naquele dia, estava ensaiando uma turma para uma apresentação de férias, estava muito empolgada e ansiosa com essa performance.

Levantei da cama, saldei o sol que brilhava no topo do céu, radiante, e fui tomar meu banho. Como eu morava em frente uma praia, numa cidadezinha bem pacata, sempre escutava o barulho do mar quando ficava em silêncio. Naquele dia em especial, pareciam cantorias, durante o banho meio que entrei em transe ouvindo aquele som maravilhoso e quase perco a hora para ir trabalhar.

A cidade era pequena, logo o transporte público funcionava perfeitamente e não havia necessidade de usar um carro particular, só iria me atrasar mais, pois ainda deveria tira-lo da garagem, estaciona-lo e etc, preferia mil vezes o bom e velho ônibus.

Felizmente cheguei a tempo para ensaiar minha turma naquela manhã, todos estavam super empolgados para a apresentação daqui a uma semana. Graças a deus, tudo deu certo e todos estavam pegando os passos direito, ninguém estava perdido. Era tão divertido! Mas no fim, estávamos mortos de cansaço, tamanho esforço físico. E essa não era minha última aula do dia, ainda tinha a turma de balé de tarde e uma turma de salsa no último horário.

Resolvi tomar um tempo de descanso antes de pegar a turma do balé, que só seria às 15hrs, era uma turma de menininhas fofinhas de tutu. Amava ser professora delas! Mas precisava estar descansada para encara-las, tinham muita energia.

Como estava bem pertinho da minha costa favorita, resolvi tomar um banho de mar para me refrescar e descansar um pouco. Peguei minhas coisas e parti para a praia. Só alguns passos e estaria lá, naquela areia fofa e cheiro de maresia extasiante. Deixei minha bolsa na areia, não tinha nada de valor ali, só uns óculos, minhas roupas secas e uma toalha, as outras coisas deixei no meu armário do trabalho. Me joguei no mar como se minha vida dependesse daquele banho refrescante, o mar estava calmo e maravilhoso. A praia estava vazia, provavelmente todos estavam trancados em seus escritórios e escolas, eu tive aquele privilégio de dar uma escapada e aproveitar o sossego que a praia me trazia. Nadei, mergulhei e fui atraída pela mesma cantoria que me fez entrar em transe durante meu banho… Era estranhamente magnifica, eu não podia recusar aquele som lindo… enquanto mergulhava, ficava mais forte o canto, parecia um chamado. Os peixes nadavam em perfeita sincronia, pareciam dançar ao som da música provinda das profundezas do oceano. Foi uma experiência mística, que jamais pensei presenciar na vida, eu era meio cética quanto a isso. Como um estalo, eu acordei do transe e fui para a praia. Fiquei alguns minutos sentada e imaginando tudo o que eu acabava de presenciar, mas eu não tinha o dia todo. Precisava ir para a academia de dança e encarar os últimos horários do dia.

Todas as aulas terminaram bem depois do meu banho relaxante de mar, parecia que o dia ganhara uma cor diferente, estava tudo mais bonito e feliz. Fui para casa cansada, mas bem realizada. Chegando lá, peguei meu notebook e joguei no google uma pesquisa simples, sobre cantorias no mar… Li vários artigos sobre sereias, e quase ri, parecia algo inacreditável e algo que jamais aconteceria. Somente mais um mito que não existia e só era uma história fantástica.

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Deixei aquele assunto de lado e resolvi que aquela cantoria só poderia ser coisa da minha mente. Ajeitei minhas coisas para o dia seguinte, comi minha refeição da noite e fui para cama, depois de um banho e escovar os dentes. Entrei no mundo dos sonhos muito rápido, estava bastante cansada, sonhei com uma bela mulher dançando sobre as ondas enquanto fazia sinais para mim, que estava sentada na praia olhando-a. Ela dançava no mar, como se fosse chão. E começou a cantar… aquela cantoria que ouvi durante meu banho e meu mergulho. O sonho parecia tão real que levantei assustada, era no meio da madrugada. Dei um pulo da cama e corri para a janela, a Lua estava esplendorosa no meio do céu, era uma Lua cheia. O mar estava agitado e parecia que algo ou alguém estava no meio dele. Meu coração acelerou, era ela!

Ela dançava magicamente sobre as ondas, fazendo-as de cenário para seus passos marcados… mal pude acreditar, só poderia estar dormindo ainda. Esfreguei meus olhos e não mudou nada, ela ainda estava lá. Brincando e dançando com as águas. Eu tinha que ver aquilo de perto. Nem me troquei e já sai correndo para a praia, só deu tempo de calçar meus chinelos.

Chegando à praia, percebi que ainda a enxergava, só eu estava ali e mais ninguém para presenciar tamanha magia. Era lindo de se ver. Quando ela percebeu que eu estava perto, começou a dançar mais e olhava para mim, fazia gestos com as mãos me chamando para perto. Não pude negar, cheguei cada vez mais e mais perto, ela tocou minha mão e me chamou para o topo da onda que ela estava. Me deu um calafrio ao olhar em seus olhos, pareciam infinitos… ela era linda, toda adornada de joias, cabelos sedosamente loiros e cheirosos, ela falou em meu ouvido para dançarmos juntas. Dancei! Dancei como se o mundo fosse uma plateia e o mar meu palco, ao lado de uma dançarina mística que nunca havia visto e magicamente dançávamos sobre o mar. A cada onda, uma nova coreografia. Percebi que se juntaram a nós mais 9 dançarinas perfeitas, igualmente lindas e cheirosas. Eu não poderia acreditar, me belisquei várias vezes para ver se estava acordada e incrivelmente estava!

As dançarinas sussurravam para mim que eu estava na presença da Deusa Rán, e ela veio me buscar.

– Como assim me buscar? – Gritei.

A onda me jogou para a praia… aquele momento se tornou mais estranho que nunca. A Deusa chegou perto de mim, me olhou profundamente nos olhos. Seus olhos eram de um azul que parecia brilhar, eram infinitos assim como o mar.

– Escolhi você, Marina. Você é minha filha agora. – As palavras da deusa pareciam cantoria em meus ouvidos mortais.

– Como assim me escolheu, quem é a senhora? – Olhava-a fascinada.

– Sou Rán, Senhora dos Mares, Deusa dos oceanos. E sempre estive de olho em você, Marina. Percebo a sua reverência ao mar, à minha casa, e admiro isso em mortais. Em meio a tanto descaso com minha casa, percebo em um milhão de pessoas àquelas que serão minhas filhas. – A Deusa estava brilhante à luz da lua.

– Sua filha? Terei que me tornar uma igual as dançarinas que estavam com a gente? Morarei com você no Mar? – Disse, afinal, estava curiosa demais.

– Não, não. Você só terá que me reverenciar, fazer oferendas. Pesquise sobre mim, minhas filhas mortais estão espalhadas pelo mundo. Logo, logo uma irá ao seu encontro. Confie. – A deusa desapareceu da mesma forma em que surgiu, do nada.

Belisquei-me várias e várias vezes, estava acordada felizmente. Aquilo tudo fora real! A deusa veio até mim, me convidou. Corri para casa e nem me liguei no horário, só queria pesquisar e pesquisar.

Olhei meu e-mail, tinha uma nova mensagem, com o título de: Bem-vinda.

Uma moça daqui de perto me mandou uma mensagem me dizendo que a deusa havia falado com ela em sonhos e não sabe como conseguiu meu contato. A deusa queria-me a seu lado, ao lado de suas filhas. Era muita informação para mim, logo eu, uma cética, nunca acreditei em magia e estava vivendo uma.

Amanhã – dia 23 de julho, segundo a moça que me contatou (Nara), era dia da Deusa e eu deveria me juntar ao grupo de escolhidas para fazer um ritual mágico para reverencia-la. Ritual? Pensei. Era tudo muito novo para mim, acabara de ser escolhida por uma deusa e deveria fazer um ritual, coisa que nunca fiz e nunca pensei em fazer, nem em sonhos mais loucos. Mesmo assim topei, como era do meu feitio, sempre me jogava em novas experiências sem medo.

Deitei para tentar dormir o restante da madrugada e caí em sono profundo, sem sonhos, apenas acordei com meu despertador e fui para minha rotina de novo, mais ansiosa que o normal.

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Terminei todas as aulas do dia tão rápido, que nem parecia que eu estava ali. Parecia apenas um filme e eu era a expectadora da minha própria vida. Só conseguia pensar no tal ritual mágico às 2 da manhã na praia… assim que acabou meu expediente, corri para uma loja mística e comprei umas coisas que a Nara passou para mim. Velas brancas e azuis, umas flores e uns incensos. Comprei tudo e fui para casa, fiz minha janta, comi e fiquei esperando a hora passar enquanto tentava ler um livro e assistir televisão. Nunca a hora demorou para passar tanto… finalmente deu 1:30hr da manhã, corri e peguei as coisas, fui para a praia esperar as meninas. Estranhamente ninguém havia chegado ainda, só eu. Sentei, fiquei mexendo no celular, até que deu 2:00hr em ponto. Olhei ao redor e vi umas sombras vindo de toda parte da praia. Contei, eram 9 meninas. Todas vestidas de branco, assim como eu.Elas se aproximaram e não disseram uma palavra, até Nara chegar e me dar um abraço. Parecia que eu as conhecia desde muitos anos, elas não eram estranhas para mim. Não poderíamos perder tempo com apresentações, todas sabíamos porquê e para que estaríamos ali. Nara deu início ao ritual, apenas fiz o que todas as meninas faziam, acendi minhas velas e formamos um grande círculo com todas as velas de todas as meninas. Ficamos no meio dele e proferimos um canto de mãos dadas, todas juntas, ao mesmo tempo. Foi incrivelmente maravilhoso. Nunca senti tamanha sensação de proteção, de amor em toda minha vida.

Lançamos flores e perfumes ao mar, a deusa surgiu. Linda e esplendorosa, dançando sobre as ondas. Ela não tinha suas filhas do mar consigo, e fez um gesto para que pudéssemos acompanha-la. Era seu dia! E nós éramos as escolhidas para suas filhas dali em diante, era nossa consagração.

Dançamos no mar ao ritmo da deusa, enquanto ouvíamos ela cantar… O mar ficava agitado a cada movimento da deusa e nós nunca nos afogávamos porque estávamos com Ela!

Cantamos, dançamos, até o primeiro raio de Sol surgir. Era chegada a hora da deusa partir. Ajoelhamo-nos na praia e reverenciamos a Deusa enquanto ela partia para suas profundezas oceânicas.

Naquele momento percebi que eu não estava mais sozinha no mundo, havia acabado de ganhar uma nova mãe e, consequentemente, uma nova família. VIVA RÁN! Senhora e Deusa dos Mares!

TheEnd

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