A Senhora da Boa Morte

macaria

Por Lillithy Orleander

A Primavera sempre me trazia boas lembranças…

O perfume e as cores sortidas de minha floricultura me traziam memórias alegres, que muitas vezes eu pensava estarem esquecidas e o doce sorriso de minha pequena Josephine.

Ela tinha o habito de entrar correndo quando chegava perguntando – me o que eram frésias, á que classe pertenciam as orquídeas e as flores do campo.

Seu cabelo sempre estava bagunçado, mas o lírio, sua flor preferida estava sempre atrás de sua orelha.

Ela partiu com 12 anos, e não mais pude ouvir sua risada de sinos e nem ver jogadas sobre o balcão de confecção, as guirlandas de lavanda, filipêndula e margaridas.

Eu já era um velho solitário, mantinha a loja por amor ao que fazia, outras pessoas sorrirem. Minha amada esposa já partirá para o plano seguinte.

Eu levará uma vida feliz, mas meu corpo sentia os anos pesarem sobre meus ombros…

Hoje me parece uma boa manhã, está cálida, extremamente ensolarada e as flores que acabaram de chegar exalam um perfume tão maravilhoso como a muito tempo eu não sentia, minha floricultura parecia ter ganhado uma nova vida.

Foi quando ela entrou na loja.

Tinha pele clara e um longo cabelo preto que fazia pequena ondulações na ponta, um sorriso iluminado e uma alegria delicada, que era acompanhada pelo olhar infantil, de imediato me lembrei de minha Josephine. Os olhos pareciam violeta e com um brilho mágico que me deixou feliz por vê – lá ali, amando a vida.

O vestido era de um azul – turquesa bem cinturado, vintage como usava minha Anne, e todas as vezes que colocava o seu se tornava a mulher mais linda do mundo e me mostrava o motivo pelo qual eu á havia amado por toda minha vida e a amaria além dela.

A moça trazia consigo tudo o que eu mais amei em minha filha e esposa, desde o lírio atrás da orelha até a forma como escolheu as flores para seu arranjo.

Ela agradeceu – me sorrindo e beijando – me as mãos antes de fechar a porta acenando um breve “adeus”.

O dia passou depressa e por todos os lados eu era cercado por lembranças, ora me fazendo sorrir, ora marejando meus olhos de saudade.

Decidi encerrar meu expediente mais cedo e deixar que Carlos meu funcionário fechasse tudo quando acabasse o dia.

Andei pelo caminho de bengala em punho, vagarosamente. Tomei meu chá favorito, framboesa com camomila roxa, na rotisseria que costumava vir com Anne, ela amava os bolos de chocolate que lá haviam e sempre levava as crianças até lá para experimentar alguma guloseima que acabará de virar novidade.

Segui meu caminho até a última morada das duas mulheres que mais amei no mundo, deixei lírios para Josephine e rosas para Anne, fiz o caminho inverso e sentei – me num banco de praça assistindo o Sol grandioso passear pelo céu nos vigiando.

Olhei as crianças correrem livres e com seus rostos corados e felizes, sem reocupações.

Vi casais trocarem juras de amor de piquenique sobre toalhas xadrezes e sombras de árvores frondosas, como eu mesmo já havia feito.

Assisti a executivos em seus ternos de linho e telefones portáteis andarem apressados ignorando a beleza daquela breve cena.

Velhos como eu entendiam cada partícula que habitava naquele momento, batíamos a porta do fim contando segundos para nossa última viagem, acordar na manhã seguinte para nós não era mais suplicio, mas sim uma dadiva.

Cheguei em casa já de noite, com um aperto estranho no peito, mas não me importei,apenas analisei o cenário.

Tudo era tão silencioso á tanto tempo, as chaves na soleira da porta, as mesmas cortinas amarelas, o prato de comida no microondas que minha nora tinha o prazer de fazer todos os dias e deixar para mim, “O senhor também é meu pai”, dizia ela. O banho quente, a cama fria e vazia…

– August… August… August…

Acordei meio sonolento, tentando entender o que estava acontecendo, esfreguei os olhos e á vi ali sentada na beirada de minha cama, uma claridade estranha invadia meu quarto e então reconheci a moça que havia estado em minha loja na manhã passada.

– Moça, como é… O que a senhorita está fazendo aqui? – eu tateava o botão do abajur para acende – lo, mas uma de suas mãos pousou sobre as minhas. O lírio atrás da orelha, o sorriso polido, um anel de prata preso por um fino fio feito do mesmo material e pequena safiras ligavam – no ao pulso, onde a pulseira com pequenas flores se entrelaçava numa tatuagem que ganhava seu braço como renda desenhada.

– Macária. – ela disse. – Meu nome é Macária, e gostaria que nesse instante o senhor atendesse ao meu pedido e viesse comigo.

Ela abaixou – se até ficar de joelhos próxima a minha cama e beijou – me as mãos novamente e entregou – me o lírio apontando para aporta de meu quarto.

Qual não foi minha surpresa ao ver minha doce Anne com o rosto banhado em lágrimas e minha pequena Josephine sorrindo.

– Acabou August. Está na hora de partir…

Eu a olhei nos olhos tendo os meus marejados e sorri, acenei com a cabeça para Macária em sinal de agradecimento, olhei meu corpo deitado ao seu lado e segui feliz adiante, para o desconhecido, em paz e para não mais voltar…

 

FIM…

 

 

 

 

 

2 comentários em “A Senhora da Boa Morte

  1. Nossa! Tocou fundo. Meu avô materno quando faleceu, dois dias antes ele viu tres filhos que ja haviam falecido(faleceram ainda criança) e mais um espirito no quarto e ficou com medo pois não conhecia o outro espirito. Voce me trouxe essa lembrança de forma muito palpável. Excelente!

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