Tons de Vermelho (Pt. 3) – Ser Forte, Para Quê? [+18]

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Por Mille Meiffield 

Cheguei em casa me sentindo leve. Embora a equipe fosse aumentar – e tenho certeza que vai ficar muito mais forte – eu estava de volta ao meu lugar. À vida que escolhi.

Depois de tomar banho e comer alguma coisa, sentei no sofá e peguei um bom livro. Há muito tempo a leitura me deixava confortável e preenchia um grande vazio dentro de mim. Minha concentração não estava boa. A cada cinco minutos meus olhos se voltavam para a porta. Senti a falta de Hayden. Hoje ele não poderia vir, pois ficaria na delegacia com Ryan Collins, seu subsargento traçando planos estratégicos para a emboscada de amanhã.

Meu despertador tocou e acordei assustada. Havia adormecido no sofá. Com o livro sobre meu peito. Corri para tomar banho e me arrumar. Era uma emboscada perigosa. Estávamos atrás de um dos maiores traficantes de meta-anfetamina do estado.

***

 

A operação começou às quatro da manhã. Segundo nossa informante Anton Malav se reuniria com os outros membros da gang as cinco em ponto. Hayden estava com o subsargento em um carro preto à nossa frente. Hill, Miller e eu estávamos em outro carro e Doughert como era o mais antigo, ficou com Lewis e Allen, os novos detetives.

Já passavam das cinco e meia da manhã e nada dos traficantes aparecerem. Em um piscar de olhos tudo mudou. Seis carros com integrantes fortemente armados nos cercaram e começaram a atirar. Hill era nosso motorista e tentou manobrar o carro para sairmos do fogo cruzado enquanto Miller e eu atirávamos contra o bando. Nosso carro conseguiu furar o bloqueio. Olhei para trás para verificar se os outros carros nos seguiam e fiquei feliz em ver que pareciam bem, no ultimo momento o Subsargento Collins chamou Hayden e disse que se sentiria mais confortável se usássemos carros blindados. Os carros voltaram ao pátio da central da 53ª. Respirei fundo, aliviada quando todos saíram dos carros sem nenhum arranhão.

– Doughert, Hill quero que tragam Jessie Hartie aqui, agora. – gritou o sargento. – Addams, na minha sala. Miller e os outros, quero que preparem a sala vermelha. Anton Malav vai para lá ainda hoje.

Hayden teve uma breve conversa com o Subsargento e se dirigiu para a mesa de Doughert. Pegou umas folhas e veio andando em direção a sua sala. Eu estava em pé olhando através do vidro. Quando ele se aproximou da porta, fui para perto da janela que dava vista para um lindo jardim.

Senti suas mãos envolverem minha cintura e sua boca em beijos cálidos roçarem meu pescoço. Ele ficou quieto por um tempo. Sua respiração estava tão forte que senti um arrepio em minha nuca.

– Vou pedir sua transferência para a Assuntos Internos. – ele disse.

– Como é? – indaguei furiosa. – Por qual motivo?

– Não suportei o fato de pensar em te perder.

– Eu não sou nada sua. Nós apenas transamos algumas vezes. – Tentei me controlar para não gritar com ele. – Acha mesmo que eu vou deixar a minha carreira de lado porque você tem medo de me perder?

– Não quero que deixe sua carreira de lado. – ele disse com a voz doce. – A Assuntos Internos já tem interesse em você há algum tempo. Eu pensei que…

– Pensou errado. – me desvencilhei de seus braços. – E se essa reunião acabou…. preciso fazer um relatório e se não me engano você tem que entrevistar uma pessoa.

Saí da sala do Sargento e voltei a minha mesa. Todos ficaram me encarando sem nada entender.

– O que Hayden queria com você? – perguntou Abbi.

– Queria que eu mostrasse mais serviço. – eu disse sem olhar para ela. – Disse que um dos disparos que eu fiz quase acertou o carro dele.

– Não passou nem perto do carro dele. – Abbi parecia confusa. – Ele deveria ter me chamado a atenção. Eu estava do lado em que o carro dele vinha, mas tenho certeza que atirei para o lado certo. Não me formei ontem.

– Esquece Abbi. – eu disse cansada daquilo. – Deixa para lá. O sargento não foi rude.

– Ele nunca é.

 

***

 

Eu estava faminta e a comida que eu pedi ainda não havia chegado. Acabei adormecendo no sofá e acordei assustada com o som da campainha.

– Hayden? – O que ele estava fazendo ali? Definitivamente ele era louco. Abri a porta com cara de poucos amigos. – Pensei que tivesse entendido que eu não queria mais ver você.

– Eu interceptei o entregador lá embaixo e subi com sua janta. – ele olhou as embalagens de comida, confuso porque havia muita coisa para uma pessoa só. – Está esperando alguém?

– Isso não é da sua conta.

– Porque é tão arredia?

– Hayden você é surdo ou…..

Ele segurou meu rosto com ambas as mãos e por alguns milésimos de segundo olhou dentro dos meus olhos para em seguida sorver minha boca com a sua. Aquilo era irreal. Esse calor desconexo que eu sentia perto dele destruía minhas defesas. Hayden puxou meu corpo mais para si. Sua boca se demorou devorando a minha. Uma das mãos apoiando minha cabeça enquanto a outra acariciava minhas costas. Reuni forcas e o empurrei.

– Para. – gritei. – O que você pensa que eu sou? Sua bonequinha inflável que você come a hora que quer?

– Jura que você pensa isso? – ele parecia ofendido.

– Nunca vai dar certo entre a gente. Só nos entendemos na cama. Fora dela somos um desastre.

– O que eu preciso fazer para você entender que eu gosto de você?

– Primeiro tem que deixar de ser um completo imbecil e para de ameaçar minha carreira. – gritei com ele. – Odeio pessoas tentando mandar em mim. – disse mais para mim mesma.

Ele se aproximou novamente, tentei empurrá-lo mas ele se postou firme. Ele não foi sensual, não foi romântico e nem mostrou desejo. Apenas me abraçou forte. Como um bom amigo.

– Não quero que pense que eu queria rebaixá-la para atrapalhar sua carreira. Eu só queria te proteger. – disse suave. – Sei que o seu passado não foi agradável Chloe. Jamais faria algo para te prejudicar.

– Então me deixa trabalhar. – eu disse me dando por vencida. Suas palavras tocavam fundo em meu peito, mas eu sabia que não deveria me apaixonar de novo. – Meu trabalho é tudo o que eu tenho. Meus amigos são uma espécie de família que eu demorei muito para confiar.

– Eu não quero que se sinta ameaçada por mim. Entendo seu ponto de vista. – ele respirou fundo e soltou o ar devagar como se estivesse tentando processar o que diria em seguida. – Está bem. Você continua na unidade, mas por favor, não se coloque em risco. Eu te achei Chloe, não quero nunca mais te perder.

– Hayden, eu não sou a garota que você pensa que eu sou. – eu disse com a voz embargada. – Por favor, não se apaixone.

O Sargento não respondeu. Apenas me deu um beijo breve. Esta noite não fizemos amor. Apenas nos abraçamos e dormimos.

 

***

 

Chloe, hoje à noite vamos ao Franny`s. – disse Abbi. – Hill pediu para eu te perguntar se vai com a gente.

– Estou louca por uma dose dupla de tequila.

– Somos duas. – Abbi Miller, a louca que sempre organizava as saídas para reunir o pessoal. – Chloe, eu não sei bem, mas parece que Kyle tem uma quedinha por você.

– Deixa disso Abbi. – eu disse ruborizada. – Hill é como se fosse meu irmão.

– Mas não é, querida. – Abbi sempre teve uma queda por Doughert, mas ele nunca a olhou do mesmo modo. – Karl me chamou para sair com ele na nossa folga amanhã à noite. Eu já dei todas as chances que podia a ele. Ah, como eu queria que fosse o nosso sargento que tivesse feito o convite.

Engasguei na hora. Comecei a tossir para que ela não percebesse que eu havia sido pega de surpresa com sua declaração.

– Chloe, você está bem?

– Estou sim.

– Vai me dizer que você ainda não deu uma boa olhada naquela bundinha redondinha do Sargento? – Abbi não tinha limites para o que falava. – Se ele me desse mole, com certeza eu deixava durinho.

– Abbi! – exclamei. – Ele é nosso sargento. O que ele pensaria se a ouvisse falar isso?

– Pensaria que eu estou afim de morder aquela bundinha maravilhosa. Quem manda usar aquele jeans tão apertado? – perguntou para ninguém em especial.

Eu não conseguia parar de rir. Abbi sempre me fazia esquecer das coisas ruins com seu falatório. Terminamos uns relatórios que ficaram pendentes desde a época que eu levei um tiro e ela foi entregar os papéis para o sargento Moore arquivar.

Addams! Doughert! Meu escritório. – O Sargento Wright chamar dois detetives para conversarem em particular não poderia ser boa coisa. – Fechem a porta, por favor.

– Sargento eu… – Doughert tentou falar, mas ele o interrompeu.

– O motivo de eu ter chamado vocês tem a ver com o caso do tiroteio. – ele disse. Parecia aliviado com alguma coisa. – O Tenente Ward pediu que vocês dois em específico trabalhassem disfarçados por dois dias no Cleveland Heigths  High School. Ele quer que descubram o máximo que puderem sobre Ava Kensington. Ela é professora do terceiro ano e suspeita de acobertar Anton Malav. O primo dela Paul Kensington …

– O traficante de armas? – o interrompi.

– Sim. – continuou Hayden. – Paul e Anton tem uma amizade antiga e sempre que possível um tira o outro da mira da polícia. Isso acaba aqui. Temos informação que Ava Kensington escondeu Anton Malav na madrugada do tiroteio. Paul e seus comparsas armaram aquela emboscada e como Ava é o elo mais fraco, é nela que vamos apostar para saber onde Paul e Anton estão escondidos. Addams, você dará aula de inglês para o terceiro ano como substituta por dois dias. Doughert será inspetor e terá o mesmo horário de intervalo dos professores do terceiro ano.

– Começamos amanha? – indaguei.

– Na realidade você tem que estar na sala de aula em uma hora e meia.

 

***

Estar de volta ao colégio não era agradável. Foi uma época difícil que eu preferia esquecer. Doughert apertou minha mão com força quando entramos na Cleveland Heights e nos dirigimos para a sala do diretor.

 

– Senhor Doughert e… senhorita Addams. – o diretor Findlay era um homem baixinho atarracado, de cabelos espessos e barba por fazer. Sua aparência era bastante desleixada para um diretor de colégio. – O Sargento Wrigth já me explicou como será o trabalho de vocês. Espero sinceramente que nada aconteça a nenhum membro deste recinto e que ninguém além de nós saiba o que estará acontecendo aqui nesses dois dias

– Pode ficar tranquilo senhor findlay. – eu disse cordialmente. – Nossa missão não lhe causará problemas.

– Temos tudo sobre controle. – concluiu Doughert.

Findlay nos levou a nossos postos. Primeiro deixou Doughert na ala leste do prédio. Seu trabalho não exigiria muito esforço, visto que eu teria que aturar trinta crianças por três horas seguidas. Quando Findlay me deixou à porta da sala em que eu daria aula, senti uma forte pressão no peito. Não sabia o que fazer com aquelas crianças.

Ergui a cabeça, entrei na sala de aula e para meu espanto eles não eram tão terríveis como imaginei. A aula seguiu suave e harmoniosa. Nem percebi a hora passar. O sinal tocou e fui para a sala de descanso. Era a hora perfeita para falar com Ava.

Sentei à mesa próxima a ela. Doughert sentou a seu lado e puxou conversa. Esperei que ela fosse ao toalete feminino e a segui. Era a hora perfeita para conduzi-la à delegacia.

– Ava Kensington? – indaguei.

– Sim.

– Você está presa por cumplicidade na emboscada que seu primo Paul Kensignton armou contra a polícia de Cleveland.

– Eu não faço ideia do que você está falando. – disse parecendo surpresa. – Quem é você?

– Detetive Chloe Addams da 53ª.

– Eu quero um advogado.

– Jura? – indaguei irônica. – Eu nem li seus direitos ainda.

– Não preciso dessa ladainha idiota.

– Nem eu, então sua vadia, cala a boca e anda.

 

Prender Ava não fazia parte do plano, mas como ela parecia a perfeição em pessoa, seria difícil colher algo dela onde todos a adoravam e admiravam.

Quando chegamos à delegacia, Hayden estava furioso por saber o que eu tinha feito.

– Addams, qual foi a parte do plano que você não entendeu? – perguntou furioso na frente de todos. – Era para ter se tornado amiga de Ava Kensington e não a prendido.

Depois que entrei para a polícia, nunca havia abaixado a cabeça para ninguém. Nem mesmo para um superior. Essa não seria a primeira vez.

– Porque não foi lá no meu lugar e fez melhor? – perguntei indignada. – Eu apenas segui sua teoria de que nunca se deve caçar um criminoso onde ele é querido, por que nós é que vamos acabar nos queimando. Então eu não a cacei, apenas a prendi. E se me der a oportunidade de fazer o meu trabalho, terá a localização de Malav e Kensington em menos de uma hora.

– Vou te dar uma hora apenas. Se não me trouxer a localização exata de Malav e Kensington está demitida.

Não seguir os planos era comum na 53ª delegacia de Cleveland. Não só sob o comando do nosso antigo sargento, mas também sob o comando de Hayden. Não havia motivos para ele ter sido tão cretino e tentado me humilhar na frente de todos. Jamais daria à ele o gostinho de me intimidar.

– Em quarenta e cinco minutos estarei de volta. – prometi friamente. – deixe a equipe a postos.

– Você não vai para a sala vermelha sozinha. – ele disse. – Collins, supervisione a detetive Addams e garanta que ela não piore ainda mais a situação.

– Não preciso de babá. – gritei furiosa e não esperei resposta. À passos longos e pesados me dirigi à sala vermelha no primeiro andar.

 

Ava estava sentada na cadeira das testemunhas com as pernas cruzadas. Sua postura era relaxada. Eu tiraria uma confissão dela nem que para isso tivesse que torturá-la.

– Cadê meu advogado? – perguntou Ava irritada.

– Não sei se você já ouviu falar na nossa famosa sala vermelha. A maioria das pessoas que entram aqui e não falam o que nós queremos ouvir, vão direto para o cemitério.

– Eu não tenho medo de morrer. – rebateu.

– Nem se eu disser… – tirei de dentro da pasta que estava em minhas mãos uma fotografia de uma garotinha, a filha de Ava. – que tem um policial agora indo para a sua casa para trazer sua filha para cá.

– NÃO! – gritou aterrorizada. – Deixa a minha filha fora disso. Ela não sabe de nada.

– Mas você sabe. – falei alto e bati minha mão na mesa para que ela se assustasse. Eu jamais faria mal à uma criança, mas tinha que mostrar austeridade.

– O que vocês querem? – perguntou entre lágrimas.

Até agora Collins não havia falado nada, nem se movido. O único indício da sua presença ali, era sua respiração forte.

– Onde estão Malav e Kensington?

– Eles estão em Lakewood, no condado de Cuyahoga, estão em uma casa ao lado de Plank Road Tavern.

– Se estiver mentindo, essa foto será a única lembrança que terá da sua filha. – não fazia ideia do quanto eu podia ser cruel.

Saí da sala vermelha com Collins no meu encalço. Ava gritava desesperadamente para que não fizéssemos nada com sua filha. Voltei ao escritório da Inteligência, andei à passos largos até a sala do Sargento, bati à porta e esperei que ele ordenasse minha entrada. Joguei minha anotação do endereço onde Malav e Kensington se escondiam em cima de sua mesa. Ele veio até a mim tentando se desculpar por ter sido rude.

– Me perdoe Chloe. – ele parecia angustiado. – Eu não deveria ter falado com você daquela maneira. Ainda mais na frente dos outros.

Fiquei em silêncio. Eu queria xingá-lo, machucá-lo, fazê-lo sentir como um lixo, como ele fizera minutos antes. Mas uma batida na porta interrompeu o fluxo de raiva que estava dentro de mim.

– Sargento Wright. – chamou Abbi. – Sua esposa está ao telefone e disse que é urgente.

– Obrigado. – ele agradeceu e Abbi se foi. Ficamos novamente à sós e ele percebeu meu olhar perplexo e questionador. – Chloe, um minuto por favor. – Ele atendeu ao telefone. Disse coisas carinhosas e ao final da ligação se despediu com um sonoro “eu te amo”. Eu estava zonza. Como ele pode ter sido tão canalha?

– Sua esposa? – indaguei.

– Chloe, eu posso explicar.

Não conseguir me conter e desferi um tapa em seu rosto com toda a minha força.

– Seu cretino arrogante. Nunca mais me dirija a palavra.

Saí de sua sala à passos largos que logo viraram  uma corrida. Eu já havia perdido tudo na vida uma vez. Não imaginei que perder uma segunda vez pudesse doer tanto.

 CONTINUA….

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