Escarlate

Escarlate 01

☾ “Scarlet” do In This Moment

OBSERVEI-A RODOPIAR COM a leveza de uma pluma ao vento. Sua face era um papel em branco, sem deixar qualquer sentimento ou sensação transparecer. Na ponta dos pés, uma elegância que transbordava, chegando até a ponta dos dedos longos e finos de suas mãos. O vestido que usava se moldava perfeitamente ao seu corpo feérico de jovem mulher.

Contemplei além de sua dança; contemplei sua pele marmórea e as veias azuladas que saltavam aos olhos de meu demônio interior… Contemplei sua alma como um pérfido predador à caça de sua próxima vítima indefesa. Ela era tudo que queria, tudo o que ansiava em mais de três séculos de existência, além do líquido escarlate que embebia seu ser.

No palco, sob a luz mal posicionada de um teatro caindo aos pedaços, a pequena bailarina brilhava como uma estrela em ascensão, sem nunca esperar que — no meio da plateia — um monstro, estático demais para um humano, escondesse toda sua cobiça atrás da boa aparência e débil iluminação. Vinha assistindo suas apresentações desde o primeiro dia em que botou os pés calejados no tablado e, a cada instante, sentia-me compelido a cortejá-la e abrigá-la em meu obscuro mundo.

Quando tudo acabou e as cortinas desceram, uma salva de palmas começou para, poucos minutos depois, intensificar-se ao verem-nas serem içadas e minha bela bailarina aparecer, acompanhada de seu parceiro — que pouco fez diferença durante todo o ato — e com um sorriso estonteante. Pobre menina, não merecia estar em um lugar como aquele. Merecia mais. Merecia o mundo e eu poderia oferecer o elemento que faltava para sua liberdade. Eu, e apenas eu, era tudo que ela precisava.

Algumas pessoas se levantaram enquanto aplaudiam e, no meio da multidão, arremessei uma rosa vermelha aos seus pés. Os olhos da bailarina acompanharam a trajetória carmesim até que se abaixou para apanhá-la. Sua expressão de curiosidade e surpresa era deliciosamente inocente, até que, por um instante, dor cruzou-lhe a face. A jovem levou o polegar à boca no mesmo momento em que senti o perfume agridoce de seu sangue. Um dos espinhos realizou o que eu pretendia fazer mais tarde naquela noite, como um presságio para que a inocente dama soubesse o que a aguardava.

De cima do palco, ela procurou pela pessoa que jogara a fonte de sua breve aflição e, dentre tantas pessoas, nossos olhares se cruzaram. Enxerguei a bondade em seu coração, assim como orgulho, surpresa e gratidão. Em um gesto floreado, retirei meu chapéu realizando uma polida vênia antes de deixar o teatro sem contemplar sua reação ao meu galanteio. Pude sentir seus olhos em mim, quase como se desejasse que voltasse, mas não havia necessidade de apressar o inevitável.

Sob o véu escuro da noite, encaminhei-me até o beco, na lateral do teatro, onde a porta que dava para o corredor dos camarins estava entreaberta. Não tardou até ser bombardeado pelos fétidos odores humanos que tanto desprezava. Esperei, entre as sombras até que, no meio da podridão, senti o perfume de minha querida rodopiante. Ouvi seus passos leves indo em direção à porta e, quando a vi, um meio sorriso abriu em meus lábios. Ah, minha querida, irá odiar-me antes mesmo de conhecer-me. Espero apenas que compreenda tudo o que ganhará ao perder.

A realidade cortava minha pele e sangraria se pudesse, pois naquela noite estaria arriscando tudo por uma humana. Sempre presei por minha solidão, mas os séculos vinham se mostrando cruéis para com aqueles que receberam o beijo das trevas. Muitos ignoravam o perigo da alvorada e se permitiam virar cinzas sob o abraço do sol.

No fundo, muitos ansiavam pela miséria que só uma criatura como eu poderia proporcionar, mas poucos estavam preparados. Os que mais a desejavam eram os meus inimigos fiéis; os mesmos que eram o sustento para a fome que parecia alimentar-se de mim e forçavam-me a viver na sombra da sociedade: os seres humanos. Em busca da eternidade, cometiam um pecado sagrado de conceder o que não lhes era de direito: suas almas. Tudo isso para fazerem parte de uma raça em extinção, delegadas ao submundo e, ao mesmo tempo, com uma força capaz de sobrepujar toda e qualquer espécie. O poder era a chave. A chave para que qualquer humano arriscasse tudo… E eu fui um desses humanos.

Mas não, eles não faziam ideia de tudo o que fizemos e nunca poderiam saber sem que a morte cobrasse o seu preço pela preciosa informação. Humanos eram frágeis demais para compreender toda a complexidade de nossa existência. Nenhum deles deveria saber todo o sangue que derramamos através dos milênios, encoberto pelas guerras e doenças. Essa era a cruz escarlate que deveríamos carregar até o nosso amargo fim. Não, eles nunca poderiam saber o que vínhamos fazendo. Nada de bom viria disto.

Então, por quê? Por que deveria cessar a vida da minha doce bailarina, condenando-a? Colhendo-a de sua natureza apenas para vê-la murchar e sucumbir à sede que me afligia.

Também não compreendia, ao certo, por que me importava tanto com ela. Tantas mulheres cruzaram o meu caminho através de oceanos de tempos. Poucas chamaram minha atenção e essas poucas foram apenas no início, quando ainda não fazia distinção de minha antiga natureza da atual; quando sentimentos eram muito mais banais. E, então, depois de tanto tempo, vejo-me desejoso da linda ballerine, cheia de intensidade e vida ao dançar. Atributos que se tornaram quase desconhecidos para mim. Mas a dúvida que me corroía era: se lhe roubasse a vida, ela ainda teria sua essência exuberante?

Adentro ainda mais as sombras e observo-a ajeitar seu cachecol, ainda segurando a rosa que jogara, como uma lembrança tão efêmera quanto a vida que preenchia seu delicado corpo. Meu demônio grita, tentando impedir-me de desistir do ato hediondo, mas vou embora sem olhar para trás, mantendo comigo apenas a imagem dos rodopios e o sorriso ditoso salpicado de esperança da casta jovem.

Afasto-me cada vez mais até que o som do disparo chega até mim antes mesmo da bala atingir seu alvo.

Por que tive que ir embora? Por que me afastei tão rápido?

Outro disparo.

No beco, dois corpos jaziam no chão, enquanto um humano caminhava até eles; em sua mão um revólver, em seu peito, um coração aos saltos. Ele não viu minha aproximação, mas sentiu o hálito mórbido da morte antes que meu punho atravessasse seu corpo. Seus olhos arregalaram e observaram-me com incredulidade.

Retirei-me de dentro dele e volvi na direção dos dois corpos no chão enquanto seu corpo caía estatelado e sem vida. O companheiro de palco da minha bailarina estava no chão com uma perfuração em sua cabeça. Não havia nada que eu pudesse fazer. Ao seu lado, a doce menina tentava tampar o ferimento em seu peito. Ajoelhei-me ao seu lado e pousei sua cabeça em meu colo. Mais uma vez nossos olhares estavam em harmonia; ouvi seus soluços e senti sua pele, tão aveludada quanto a rosa — que agora estava caída ao seu lado —, sob meus dedos enquanto afugentava suas lágrimas.

Minha estrela, aos poucos, evanescia por entre os meus dedos e — simplesmente — não podia permitir que isso acontecesse. Meu demônio gritou mais uma vez enquanto a jovem estava prestes a dar seu último, e doloroso, suspiro; ordenou que não a deixasse ir. Ah, minha menina, serei seu até o dia em que eu morrer verdadeiramente e não posso, não irei vê-la sangrar.

Eu sabia. Sabia como isso iria terminar, ainda que minhas ações fossem contrárias ao destino que, naquele momento, era empurrado em nossas direções, esmagando-nos contra a parede. De qualquer maneira, a bela rosa em meus braços estava prestes a morrer antes mesmo de viver, por isso não podia deixá-la partir.

Afastei uma mecha de cabelo da sua face e, com delicadeza, trouxe seu rosto até o meu. Senti o seu medo, não de mim, mas de deixar de existir em mundo que mal conhecera. Beijei seus lábios e senti o gosto de sangue e candura.

— Scarlet… — Ela murmurou seu nome contra minha boca, temendo que seu nome feneça assim como a vida que a abandonava.

— Minha Scarlet. — Beijo sua testa e, de alguma forma, a bailarina soube o que a aguardava.

Meus lábios tocaram o seu pescoço e senti o arrepio em sua pele. A morte estava tão próxima que conseguia ouvir seus passos, mas, naquela noite, o seu arauto foi mais veloz. Cravei meus dentes em sua carne e sorvi o pouco sangue que restava. Seu corpo amoleceu em meus braços, mas só parei quando atingi o limiar. Não havia mais dor. Por sua boca entreaberta, derramei o meu sangue, meu veneno, compartindo de minha cruz…

Minha cruz escarlate. Minha Scarlet.

 

FIM

 

* Imagem da série de TV “Dracula”

4 comentários em “Escarlate

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