O Vale das Almas

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O Vale das Almas

Escrito por: Lua Morgana

Estava tudo escuro, não enxergava nada. Parecia que havia faltado luz no mundo inteiro, e eu estava sozinha. Sem nenhum barulho, nenhuma voz familiar por perto para me acalentar. Não lembro de nada que aconteceu, parece que aquele dia foi um borrão… está tudo distorcido na minha mente, estou tentando me lembrar e não consigo! Quero gritar, mas ninguém irá me escutar. Estou me sufocando com meus próprios pensamentos.

– Socorro! – Tentei, mas não saia voz, só a sensação de estar falando.

Apaguei. Não sei por quanto tempo dormi, sem sonhos, sem pesadelos, sem pensamentos… apenas apaguei. Abri os olhos com medo do escuro, mas estava claro. – Graças a deus! – Falei para mim mesma. Não faço ideia de onde estou, só vejo árvores e um sol quentinho. Agradeci mais uma vez, nunca mais veria o sol da mesma maneira, era como se fosse uma bênção, aquela escuridão anterior foi terrível, e não sei quantos dias duraram – ou meses.

Levantei, olhei ao redor e não tinha ninguém. Havia luz, mas não haviam pessoas. Eu estava assustada, para onde foram todos? O mundo acabou e ninguém me avisou? Fui deixada sozinha? De novo aqueles pensamentos sufocantes… mandei-os embora e fui caminhar para ver se encontrava pelo menos um ser vivo. Nada.

Caminhei durante horas, o sol parecia nunca ir embora, sempre no mesmo lugar. Era um dia sem fim. Será que eu tinha enlouquecido e me perdido em meio a minha loucura? Não, antes fosse, era muito real para ser alucinação. Não aguentei mais andar, me joguei em meio a umas folhas. Fechei os olhos e senti algo apertando meu pescoço, suor pingando sobre minha face. Acordei gritando e alguém me segurando.

– Ei, calma! Eu vim te buscar. – Me segurava com gentileza.

– Onde estou, pelo amor de deus?- Disse com muito medo.

– Você está bem agora, só confia em mim.

O estranho me pegou pela mão e me tomou em seus braços, eu estava cansada demais e apaguei. Aquela sensação sufocante tirou o resto de energia que achava que tinha. Ainda sentia dores em meu pescoço, parecia que foi amassado por uma força sobrenatural.

Acordei em um lugar esquisito, parecia uma cabana, algumas pessoas me olhando… não entendi nada. Há umas horas estava sozinha, abandonada, esquecida. Agora estou em meio a umas pessoas que nunca vi na minha vida, nem em alucinações mais loucas.

– O que está acontecendo? – Tentei levantar, sem sucesso, estava fraca demais.

– Querida, acalme-se, vai ficar tudo bem. Você só precisa recuperar suas forças. – Disse uma voz desconhecida, porém doce.

Olhei em volta, tinham duas mulheres, uma jovem e outra de meia idade, o estranho que me salvou na floresta infinita e um homem idoso. Todos me olhavam com compaixão. O que aconteceu comigo? Eles pararam e conversaram entre si, sem soltar uma palavra, apenas pelo olhar. Estenderam as mãos sobre mim, como se fossem me mandar alguma energia. Não lembro o que houve mais naquela cabana, mas minha visão ficou em branco. Só podia escutar vozes… agora eles falavam, mas eu não compreendia. Me deixei levar por uma canção que uma das mulheres começou… nunca ouvi nada tão tranquilizador como aquela música, foi de arrepiar.

Acordei, estava de noite, finalmente parecia estar tudo normal. Consegui levantar da cama onde estava. Olhei ao redor, estava sozinha de novo. O desespero bateu e fui direto para a porta, precisava ter certeza que não estava sozinha. Sorte que não… aquelas mesmas pessoas que eu tinha visto mais cedo, estavam sentadas ao redor de uma fogueira, conversando, estava tudo aparentemente normal de novo.

– Oi? – disse, um pouco nervosa, pois não conhecia ninguém.

– Olha quem acordou! Está melhor, querida? – Disse a mulher de meia idade. – Me chamo Ângela! Não se preocupe, estamos aqui só para te ajudar.

– Estou melhor, só um pouco tonta.

– É normal, você passou por um trauma muito grande, encontramos você na floresta depois de um mês do seu falecimento. – Disse o idoso

– Falecimento?- Gritei, nervosa.

– Sim, querida, você está no vale das almas perdidas.

– Não! Não posso ter morrido, vocês estão enganados! Ou eu estou em mais um pesadelo? Estou prestes a terminar a faculdade! Isso é muito injusto!

Ângela levantou e veio até a mim, com um olhar bondoso e empático:

– Carolina, infelizmente, todos nós um dia morreremos, não sabemos quando e nem o porquê. Mas é o ciclo da vida. Alguns partem cedo demais, como foi o seu caso… aqui, neste vale, nosso trabalho é encontrar as almas perdidas e guiarmos todas para a luz ou para as trevas.

“Trevas” aquela palavra me arrepiou. Se as trevas fosse ficar naquele escuro eterno, sem saber de nada, onde está, sem ter ninguém por perto… seria horrível passar a eternidade naquilo.

– Querida, as trevas não são isso que você está pensando. Você apenas ficou perdida entre a vida e a morte, por isso ficou naquela escuridão momentânea. Acredite, você não quer saber como são realmente “as trevas”! – Disse Ângela – Sua missão amanhã é tentar recordar o que houve com você… precisamos entender como você veio parar aqui, e você precisará entender que desencarnou para poder buscar sua luz, Carol.

A cada palavra me sentia mais esquisita. E os que deixei? E meus planos? Meus amigos, família, estágio, namorado? Namorado… quando me veio o rosto do Marcelo em meus pensamentos me senti estranha, com certo nojo e raiva. Mas eu o amava tanto! Por que estava me sentindo assim? Ouvi choros e gritos, ninguém ao redor parecia escutar, somente eu. Doía, algo doía muito em mim… senti um enjoo muito forte, corri para vomitar. Ângela e aquele rapaz bondoso vieram atrás de mim. Meu mundo girava, já não sabia mais onde estava, desmaiei outra vez.

*Carolina… Carolina… você precisa enfrentar isso! Você precisa encarar o que realmente aconteceu. Precisamos que você saiba, entenda como veio parar aqui. Nós só queremos te ajudar a encontrar sua luz.*

Essas palavras ecoavam em meus sonhos. Eu estava em um lugar bonito, passeando entre as flores. Até que eu vi o Marcelo me espreitando entre as árvores do outro lado. Ele tinha um olhar penetrante, me deu calafrios. Lembrei que havíamos terminado… estava feliz, finalmente. Ele me sufocava. Era legal, ok. Mas me sufocava. Faziam duas semanas que nós dois havíamos terminado. Ele não parava de me ligar na primeira semana, cismou que eu estava o traindo! Não! Eu não estava. Só queria tempo para mim e meus estudos, talvez amigos. Já não os via faz tempo por causa do Marcelo. Eu sempre dizia: Deixe-me em paz, Marcelo! Não te traí, não tenho outro e não pretendo ter tão cedo! Quero viver plenamente minha liberdade e desfrutar dos meus estudos. Ele nunca entendeu. Porém, naquela semana, ele finalmente tinha parado de me ligar, mandar mensagem, chamar no facebook… havia sumido! Pensei comigo mesma: Ele me esqueceu e entendeu! Ufa!

Minha vida fora ótima até aquele dia que o vi me espreitando no campus da universidade. Ele estava alterado. Dava para perceber pelo olhar. Fingi que não o vi e continuei minha caminhada. Fui para casa… esqueci que o vi no campus até que minha porta abriu e fechou bruscamente. Era Marcelo. Me estremeci em baixo do cobertor, ele estava como um cão raivoso. Tirou minha coberta, jogou longe, com a mesma violência arrancou minhas roupas do meu corpo, me senti violada naquele instante! Ele estava agindo feito louco. Começou a abusar de mim, eu não conseguia gritar, apenas deixei que ele fizesse o que queria e fosse embora, mas ele não foi. Na mesma intensidade que me penetrava, me enforcava. Eu perdia o ar e sentia muita dor. Ele sorria, loucamente. O suor escorria pelo rosto dele e pingava no meu, até que perdi a visão, apaguei…

Levantei da cama com um pulo, estava naquela cabana ainda. Ângela olhava para mim chorando, parecia que sentira minha dor durante todo o meu pesadelo real. O rapaz bondoso, que descobri o seu nome, Juan, estava segurando minha mão enquanto eu soluçava.

– Carol! Eu sei que sua passagem não foi como planejada, nem todas as coisas podemos controlar, pois o homem tem o livre arbítrio. Por isso são tão ruins, tão sem emoções, que chega a doer na nossa alma aqui em cima. – Disse Juan compadecido da minha dor.

– Como ele pôde fazer isso comigo? – Desabei mais uma vez.

– Ele estava obcecado por você, minha querida. Por isso cometeu tal crime. Ele achava que se você não fosse dele, não poderia ser de ninguém. – Ângela falou com tristeza – Mas não se preocupe mais, você está aqui agora, entendeu como aconteceu seu falecimento, precisa encontrar sua luz…

Eu não conseguia falar nada, estava com a garganta fechada de tanto que chorei. Porém Juan não saiu do meu lado nem por um segundo. Segurava minha mão, enxugava minhas lágrimas. Era estranho como eu sentia que o conhecia faz tempo, mas não tinha noção de onde o vi. Por fim, anoiteceu. Juan foi para seus aposentos, me deu um longo beijo na testa e passou a mão pelos meus cabelos. Aquilo foi como um choque! Eu, Carolina, conhecia Juan. Amava Juan. Meus olhos estavam vidrados, como se eu realmente tivesse tomado um choque.

– Pensei que você nunca lembraria… – Juan me olhou, seus olhos sorriam.

– Juan! – O abracei por minutos, talvez horas. Chorei, sorri, me afoguei em seus longos cabelos encaracolados.

Minha alma esperou séculos para aquele reencontro, e eu só me dei conta quando ele me deu um beijo na testa, como costumava fazer antes de nos separarmos. Juan era minha alma gêmea, precisei passar por diversas vidas para reencontrá-lo. Minha passagem como Carolina fora difícil, porém, reencontrei meu verdadeiro e único amor. Espero poder ficar com Juan por toda eternidade. No Vale das Almas permaneci, escolhi ajudar aqueles que, assim como eu, estavam perdidos em sua própria partida.

FIM

 

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