Venice…

 

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“You broke down my walls… You burnt all my bridges…” *

Eu estava cansada de tudo, era a última vez que eu escutava ela me dizer o que fazer. Peguei as chaves do carro e saí em disparada.

Ia dirigir sem rumo até que o combustível acabasse e eu não soubesse mais onde estava enfurnada naquele maldito vestido, comprado para um casamento arranjado. Minha vida era um Inferno e pra mim não dava mais.

“Ótimo, começou a chover…” – pensei, mas aquele poderia ser o menor dos meus problemas comparado á uma estrada quase deserta e sem iluminação, para uma pessoa á 120km/h era um grande risco a se correr.

Queria sumir, lá fora somente os vultos das árvores me acompanhavam, não sei em qual momento me perdi em meus pensamentos, que estavam desgovernados que não vi aquele animal correr na minha frente, tentei desviar o carro, mas bati.

E foi aí que começou minha história…

Meu carro capotou algumas vezes, antes de colidir, sei quando o impacto parou, a parte de algo pontiagudo perpassou o centro do meu peito.

Levantei a mão vagarosamente, eu não conseguia se que respirar, tentei puxar aquilo, mas doeu. O líquido viscoso e quente manchava de escarlate a renda do vestido.

Parei de me movimentar, a dor passou a cessar, veio o torpor, a sonolência, o cheiro da gasolina, o frio e as vozes…

Uma moça muito maquiada, de saia azul marinho no estilo anos 60 se aproximou e me estendeu a mão. A princípio tive medo, por causa da dor, mas ela me passou confiança então aceitei.

Quando finalmente cheguei á ela me virei de costas e me vi, feito uma boneca de trapos, minha beleza acabada. Suja e ensaguentada, a maquiagem borrada e o Ipod tocando, acoplado ao carro, a música que eu não cansava de ouvir em meu quarto para fugir do mundo.

– Ela está morta! – ouvi alguém dizer sem tempo de olhar quem foi, a correria me fez olhar novamente para o carro.

A explosão ecoou na noite e calou os trovões, eu assistia aquela cena com as mãos tampando a boca e os olhos ardendo em lágrimas.

Meu corpo queimava aos poucos exalando um odor pútrido, enquanto meus olhos, ainda abertos, olhavam o vazio já sem vida. Ali estava eu, empalada em meu carro, morta…

– Você vai á algum lugar? – me perguntou um senhor com olhos amarelados, fumando um charuto fedorento e com roupas rasgadas, cheirando a urina.

Ele sorriu e dentes pontiagudos me causaram medo e o arrepio me subiu pela espinha quando ele se aproximou mais e andava em círculos ao meu redor.

Ele deu uma risada espalhafatosa, mas ninguém pareceu ouvi – lo e me puxou pelo braço, lambeu meu rosto com prazer e eu senti nojo, tentei me desvencilhar, mas ele foi enérgico e sorriu satisfeito.

– Você me pertence…

Minha última visão foi o carro em chamas. O último som, o dos meus gritos.

A queda pareceu – me interminável, caí em meio a lama escura e mal cheirosa, um lago semelhante ao piche, onde mãos me puxavam para baixo na tentativa de me sufocar ou me afogar, enquanto outras corriam por meu corpo, me arranhando, me violando, causando dor. Feridas se abriam, meu cabelo era arrancado, corpos sem forma me cheiravam, aquilo sim era o pesadelo.

Fui arrastada por homens nus, com cabeças de animais e com feridas pelo corpo cheia de vermes asquerosos, minhas roupas rasgadas já não podiam cobrir meu corpo, enquanto pedregulhos e cacos de vidros ínfimos cortavam – me a pele. Eu não pedirá pra morrer e agora eu enfrentava as agurias deste Inferno, meus tormentos estavam longe de terminar.

Me jogaram em um canto fétido e me acorrentaram, era claro, mas não era a luz do Sol que ali brilhava.

Tudo parecia sem vida, cinza. Ruínas de cidades, arvores disformes, podres e queimadas. Gritos de dor e prazer se misturavam á gargalhadas sombrias de quem assistia as atrocidades que diante de meus olhos eu via.

A moça que havia me ajudado, passou por mim, estendi – lhe a mão como quem pede socorro, mas recuei quando olhei melhor. Ela estava nua, uma corrente prateada em seu pescoço, os pés feridos e no lugar do que achei ser um sorriso, havia a cicatriz grotesca, grossa e vívida em sua face de um lado á outro num eterno riso forçado.

Eu tinha sono, mas o sono de mim fugia. Eu tive fome, mas ninguém me dava o que comer, passei o que para mim pareceu ser meses naquele estado, virei pele e osso. Pedia socorro e me tornei parte do coro que ali habitava em desespero, arrancando a pele em meu rosto seco. O homem vinha e me usava para suas perversões macabras, quando acabava ria me humilhando e jogava – me novamente como um bicho no canto.

Então apareceu a chance, ele veio naquele dia, mas estava diferente, algo em seus olhos espremia medo e cautela, ele soltou minhas correntes e sem nada dizer me apontou uma direção, a principio caminhei devagar e com cautela, poderia ser mais um dos jogos dele, para em seguida apressar meu passo e correr.

Colidi com um homem forte e olhos escuros como a noite, ele me sorriu. Abraçou – me apertado e acariciou meu cabelo, pela primeira vez eu me senti protegida. Ele me pegou em seu colo e colocou – me em uma gondola.

O rio escuro tinha o sussurro das almas e cantava minha canção favorita…

” Eu vendi meu corpo incontáveis vezes, me rendi á vícios, me aventurei em libertinagens que qualquer um teria medo e agora estava livre…”

A linda Veneza bailava com suas luzes na noite eterna e ali eu ficaria pela eternidade…

You sold it all for the price of a kiss
In Venice…”

FIM…

* The Darling Buds – Venice

 

3 comentários em “Venice…

  1. O que Eu vejo aqui é uma Grande emajinação . de um alguem que transporta sua mente Para a Fantasia, e a vive , de tal forma, como fosse um Sonho real ,uma mente Alucinada , pela Realidade que viu e -se formou no seu ser. Como _se Tive- se transportado para a outra Dimensão . Da Vida. È este o Diagnostico . E uma história fascinante , que daria para fazer um livro. Comentou, dr, Rogoff.

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  2. Não sei o que ela fez em vida, mas deve ter feito umas coisas cabulosas pra ter ido parar nesse lugar horrível :s Mas vindo da Lillithy, é claro que deixa a gente apreensivo srrs nem acredito que no final ela saiu de lá :v
    Curiosa pra saber quem era :V

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