Amor Eterno

 

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Escrito por Naiane Nara

 

Eles não estavam preparados para o que viveriam.

Eu, que estou aqui antes dos mundos virem a luz, antes de as coisas que foram criadas o serem, observava e aguardava com certa curiosidade para saber quando ele se renderia. Mil anos antes, enfrentamos uma guerra como aliados e depois da vitória conquistada ele estivera amargamente decepcionado com o seu quinhão. Achara que seus irmãos haviam lhe pregado uma peça para ficarem com os melhores domínios – Terra, Ar e Oceano – enquanto a ele, fora dado o Mundo dos Mortos, o Mundo Subterrâneo, todas as coisas que estavam no ventre de Gaia.

Eu estava lá para recebê-lo, afinal, se tratava de uma parte dos meus domínios. Atrás de mim, os Deuses e Seres que me serviam e que agora também lhe prestariam vassalagem.     Ele chegara como um derrotado, triste, cabisbaixo e me comoveu a maneira como um Rei de corpo inteiro como ele poderia se deixar abater dessa maneira.

Fiz uma reverência graciosa, como uma gentileza ao recém chegado, afinal não devo respeitos a ninguém e todos os Deuses me temem. Devo acrescentar que têm razão – de fato, devem me temer.

– Hades, caríssimo, seja bem vindo ao Ínferos.

Seus olhos verdes e límpidos se arregalaram de surpresa. Nesse momento suspirei, ele ainda era uma criança, precisava de cuidados e de alguém que o treinasse.

– Minha Senhora Hécate. Sou eu quem me curvo a sua presença.

Dito isto, devolveu-me a reverência. Ora, ao menos o garoto tinha bons modos.

Então, todas as almas, todos os Deuses subterrâneos, todos os Seres que aquele Mundo habitavam se curvaram a ele e sorriram de felicidade ao dizer, em um coro lindo e uníssono:

– Que seja eterno e próspero o Reinado do meu Senhor!

Ele endireitou a posição do corpo, aquela demonstração lhe tocara a alma sensível. A mágoa existente em seu olhar se dissipava aos poucos.

– A todos que os portões deste mundo adentrarem, garanto justiça.

Não pude deixar de sorrir. Naquele instante, mesmo se sentindo ludibriado pelos irmãos, se preocupava sinceramente com os que estavam em seus novos domínios. Decidi que tomaria aquele jovem Deus sob meus cuidados. Senti que ainda me traria muito orgulho.

E assim comecei o treinamento do novo Rei.

Viajamos por todo o Mundo Subterrâneo, para que ele conhecesse e soubesse que nem tudo era escuridão e dor, para que entendesse que a escuridão é apenas uma parte da luz e portanto, não precisa ser temida. Meu pupilo se mostrou veloz e inteligente além da compreensão, entendeu todas as lições que lhe passara e aprendera muito por conta própria. Nomeara seus Juízes e os generais de seu exército, reforçava sempre a prisão dos Titãs, vistoriava  Érebo, Tártaro, Campos Asfódelos, Styx, Aqueronte e as Ilhas Abençoadas com frequência, deixava com parcimônia tesouros próximos da superfície para que os humanos os encontrassem, cuidava com atenção das raízes de todas as plantas e governava com justiça, conforme havia prometido.

Como eu havia pensado desde o início, um Rei de corpo inteiro e agora está no melhor lugar que poderia estar. Eu poderia retomar minhas viagens entre os três mundos sem me preocupar com quem estava a governar em meu lugar o Mundo Subterrâneo.

Quando nos despedimos, ele não chorou. Meu pupilo era – e é – duro como aço, forte e exigente, culto e atento. Não choraria na frente de ninguém, nem mesmo diante da sua Mestra, mas seus olhos ficaram surpreendentemente brilhantes. Eu ainda tinha uma última lição a oferecer:

– Hades, de todo o meu coração fico feliz que sejas tu quem ascendeu ao trono. Como viste, a maioria não compreende a beleza e a sabedoria contidas nesse lugar.

Ele deu um sorriso quase imperceptível.

– Eu compreendo, Senhora.

Suspirei e toquei seu rosto com as duas mãos.

– Mas não espere que os demais compreendam, sejam Deuses ou mortais. Prepara-te para ser temido e não desejado. Quando enviares Thanatos e as Erínias, rapidamente se esquecerão dos tesouros que permites que encontrem, ou das raízes que permites que cresçam.

O rosto dele se congelou em uma expressão indecifrável, mas não parecia zangado.

– Eu sei o que custa o trono onde me sento. Não temo o isolamento.

Dessa vez meus olhos é que ficaram brilhantes.

– Eu sei. Não temes a nada. É meu pupilo.  – Minha garganta estava apertada, mas uma Mestra não chora ante o seu aprendiz. Pigarreei para continuar – Isso lhe reserva a maior das bênçãos, somente os muito corajosos chegarão até ti. Receba-os, ensine-os como eu lhe ensinei.

Abracei o jovem Deus. Não tão jovem, agora.

– Serei seu orgulho, Senhora. Na única vez por ano em que subirei ao Olimpo, seu nome uma vez mais será honrado. Não lhe desapontarei.

Nos afastamos e gargalhei para disfarçar a emoção:

– Ora vamos. Não ficaremos sem nos ver para sempre. Eu sou a Tríplice, que viaja e governa os 3 mundos. Me receberás muitas vezes ainda.

Ele reverenciou-me e subi para a luz do dia.

Passaram-se os séculos e a aurora do primeiro milênio chegou. Os Mundos em harmonia , como sempre desejei: Terra, Ar, Oceano e Submundo.  Apenas algo me preocupava.

Hades, que não se animava a encontrar uma consorte.

O equilíbrio começava a falhar, e a rachadura já alcançava a luz. Ele ouvira meu conselho muito mais do que eu podia esperar: se isolara e fizera do Submundo seu jardim, precioso e único. Mas jamais se arriscaria lá fora. Se acostumara a ser evitado por todos, até mesmo pelos Deuses. Na única vez ao ano em que subia ao Olimpo, não ia feliz, mas extremamente contrariado.

Eu entendi perfeitamente seu raciocínio: sabia que podia escolher qualquer Divindade, tamanha a beleza que de que é dotado, seu grande poder e seus maravilhosos dotes intelectuais. Podia ser rejeitado em um primeiro momento por governar o local que governava, mas terminaria sendo aceito. Eu sabia e ele também.

Mas compreendi então seu maior temor: trazer como companheira uma Divindade que não compreendesse os mistérios e a beleza de Seu Mundo. Isso ele não suportaria.

Então Hades deixou de comparecer as reuniões do Olimpo.

Pensei em visitá-lo o mais rápido possível, estava seriamente preocupada. Ele vira a rachadura no equilíbrio e ainda assim insistia nessa loucura!

Porém antes precisei ir ao Olimpo, uma nova Deusa havia nascido. Deméter, a Senhora da fertilidade da terra e dos verdes pastos havia tido uma filha. Claro que eu não poderia ficar para os festejos, mas ao menos iria parabenizar a Deusa dos grãos.

Quando cheguei, notei a Rainha dos Céus com uma expressão distante e triste. Estava estonteantemente linda, como sempre. Seus cabelos entre o dourado e mel ofuscavam mesmo a sua graciosa coroa. Fui cumprimentá-la imediatamente.

– Hera! – chamei, e só então ela me viu chegar. Me abraçou forte, como a uma mãe.

– Venha – Respondeu ela, limpando uma lágrima teimosa que insistira em cair. – Venha conhecer a filha de meu esposo.

Abstive-me de quaisquer comentários e a acompanhei. Démeter recebia visitas em seus aposentos. Sabiamente Zeus se ausentara dali.

– Ela não é linda? – disse Hera.

Eu abri os lábios para responder e ela me interrompeu:

– Não caríssima. Sem ressentimentos por hoje.

Démeter e seus louros cachos, junto a seus radiantes olhos azuis, repetiram a pergunta da Rainha.

– Minha filha não é linda, Senhora Hécate?

Quando encarei o bebê divino, sorri, como que liberta de minhas preocupações de repente.

– Sim, ela é extremamente linda, caríssima. E que maravilhoso poder é esse de nos fazer esquecer das raivas, preocupações e mágoas?

Deméter ergueu a fronte orgulhosa:

– Ela é a Deusa das primeiras flores, dos novos inícios. Não é maravilhoso?

Peguei a criança de maravilhosos cabelos cor de fogo. Notei que seus olhos tinham a estonteante cor violeta e soube que em meus braços carregava a futura Rainha do Submundo.

Não fui visitar Hades. Me ausentei de todo do Mundo Inferior, para ver por quanto tempo ele lutaria. Fiquei realmente curiosa. A filha de Démeter crescia de forma esplendorosa e era ligada de forma especial a mãe. Ia visitá-la as vezes e esse apego das duas me trouxe o pressentimento de sofrimento no futuro.

Como havia deixado de visitar o Olimpo, Hades ainda não a conhecera. Eu via a estrela brilhando invisível nas testas de ambos. Almas gêmeas. Não me preocuparia, o Destino, a quem nem mesmo Zeus contraria, acharia um jeito.

Um dia aconteceu. Core, o nome que Deméter escolhera por indicar a pureza de sua filha, pisou pela primeira vez na terra. Imediatamente o Submundo foi sacudido e seu Rei sentira uma parte de si se aquecendo ao Sol lá fora.

Ele tentou ignorar e fingir que estava tudo normal, mas é claro que não conseguiu. Então subiu até onde a escuridão beija a luz, o limite da superfície com o Mundo Inferior e sentiu a energia dela o chamando. Onde os graciosos pés da menina pisavam, as mãos de Hades acompanhavam do lado inferior da terra, ainda estranhando esse desejo intenso de tê-la ao seu lado, justo ele, que nunca havia precisado de ninguém.

Usando seu poderoso Elmo e a invisibilidade por ele proporcionada, o Rei pôde acompanhar a rotina da jovem na superfície e como ela doava seu poder a terra, sendo cultuada pelo humanos juntamente com a sua mãe.

O olhar de Hades encheu-se de mágoa infinita. Desci dos céus e parei ao seu lado enquanto ele a observava. Esperei para ouvir o que tinha a dizer.

– Ela é apenas uma menina.

– É sua amada. – Toquei em um de seus ombros. – Acho que deverias pedir sua mão.

Ele suspirou.

– Ela murcharia em meu Mundo. Nasceu para esse Sol, essas flores, para o nascimento e não a morte. Tu sabes melhor que eu que Deméter é tão ligada a ela que não permitirá nunca que se case.

Eu não podia negar isto.

– Por que ela murcharia? Acaso a tratarias mal?

Hades arfou de indignação:

– Nunca!

– Eu sei disso, caríssimo. Mas ela não pode saber enquanto não se der a conhecer. Encontre uma maneira de passarem algum tempo juntos, discretamente. Deméter não negará o pedido da própria filha.

Ele sorriu pela primeira vez em séculos.

– Tens razão. O farei.

Deixei-o só para arquitetar seu plano e devo dizer que ele foi muito original. Dias depois, todos os mundos ouviram o grito estrondoso da jovem filha de Démeter e em seguida um silêncio pesado, esmagador. O Sol não aquecia e a terra não produzia mais. Deméter procurou-me, completamente desfigurada e desesperada.

– Levaram minha filha, Senhora! Quem seria capaz dessa crueldade, tu sabes?

– Caríssima, eu não posso ajudar.

Ela estava transtornada, mas não cedi.

– Nada vai crescer, nada vai vingar! Enquanto minha filha não voltar aos meus braços, nada crescerá…

Apoiei-a nos braços e Deméter chorou convulsivamente.

– Triste Deusa, procures Hélio, o Sol. Ele tudo vê. Irá te dizer o que houve. Talvez não tenha sido para o mal. Talvez algo bom saia disso tudo.

O rosto dela se retorceu em um esgar que dificilmente seria chamado de sorriso:

– Nunca!

Temi por Hades e por Core. Assim que Deméter me deixou, corri imediatamente ao Mundo Inferior. Lá a situação não estava melhor.

Encontrei Hades no Salão principal do Castelo a meditar. Seu semblante, contudo, parecia triste.

– Já soube do que está a acontecer lá em cima. – Disse ele inesperadamente.

– Sim, já soube.

Ele suspirou e abriu os olhos tristes.

– Ela me odeia, sabes? É jovem demais para entender.

– Eu não esperava que desistisses tão rápido. Esperava que ao menos lutasse.

Os olhos do Rei se estreitaram.

– Ela se recusa a comer, caríssima. Devolverei Core aos braços de sua mãe. Não vou impor-lhe minha presença, pobre criança.

Eu estava espantada demais. Como aquela jovem poderia ser tão imatura a ponto de não reconhecer sua alma gêmea?

-Deixe-me conversar com ela.

Ouvimos a bulha de alguém que corre.

Ele olhou-me friamente e respondeu:

– Não mudará minha decisão.

Core adentrou o salão correndo e se atirou ao Rei tentando bater-lhe com socos frágeis no peito, mas ele nem se abalou, sinal de que não era a primeira reação violenta dela.

Eu estava ainda mais espantada. Que mais pode acontecer antes que o dia termine? Ela se cansou enfim e começou a chorar convulsivamente, descansando a cabeça nos ombros de seu captor.

– Muitas almas estão descendo… E elas não me chamam mais pelo meu nome, e sim Perséfone. Dizem que é como me chamam na superfície agora.

“Aquela que destrói a luz”. Claro, para os humanos, ela estava a significar morte por inanição e por frio intenso.

Hades estava surpreso, mas passava as mãos em seus cabelos delicadamente, para que ela não percebesse. Sua voz saiu bastante tranquila:

– Minha querida, como conversas com as almas? Como encontraste o caminho?

– Ora, é fácil… – Respondeu ela, ainda soluçando. – Já andei muito por aí. Teu Mundo é um intrincado quebra cabeça – Ela ergueu a fronte, orgulhosa – mas posso decifrar. Ando por todo o lugar quando não estás.

Hades pegou o rosto da agora Perséfone com infinito cuidado e o trouxe para junto de si.

– Querida, já que não te sentes bem aqui, decidi devolver-te para tua mãe. Hécate veio me dizer como ela está triste e sente muitas saudades tuas. Que achas? Ficarás feliz?

Sua expressão era ansiosa. Todo o destino do Rei do Mundo Inferior nas mãos de uma jovem que ainda não vira seu primeiro século. Não pude deixar de sorrir.

O semblante dela ensombreceu um pouco.

– Minha mãe…

– Já mandei chamar Hermes para te levar de volta. – A voz dele saiu gelada, como já preparada para um rejeição, enquanto se afastava e virava as costas a sua adorada.

Perséfone olhou-me alarmada. Me ajude, seus olhos pediam. Então compreendi. Ela já entendera o que ele significava para ela, apenas tinha medo da escuridão, como Hades tivera um dia. Mas o amor era claro e perceptível em seu olhar.

Isso me enterneceu, mas eu não podia ajudar. Ela teria que lutar pelo seu amor, como ele estava a lutar pelo dela. Ela teria que enfrentar a todos, como ele enfrentara. Meu antigo pupilo não merecia menos.

Hades estava de costas para ela, fitando o horizonte. Um vento gelado permeava o Salão, vindo das janelas do Castelo, que estavam abertas. Incrível como o tempo muda de acordo com o humor do seu Rei.

Perséfone chorava silenciosamente, as lágrimas descendo em borbotões. Continuava a me olhar de forma suplicante; enfim fiz uma negativa com a cabeça. O corpo dela se estremeceu e olhou para baixo, os olhos muito abertos, para que caso se virasse, Hades não percebesse seu rosto molhado.

Crianças.

– Peça perdão pela demora, Soberano, mas quando vim obedecer suas ordens, o Pai havia me chamado também.

Era a voz alegre de Hermes e o barulho suave das asas de suas sandálias batendo leve e rapidamente.

– Vim buscá-la, irmã. O grande Soberano do Mundo Inferior chamou-me para levá-la de volta para casa, e tua Mãe foi até o Pai e implorou para que regresses ou nada nascerá nos campos.

Apenas o silêncio desconfortante respondeu. Hermes não ligou e continuou, bastante alegre:

– É certo que não comestes nada enquanto estava aqui, não? – Ao ouvir isso, a jovem levantou a cabeça com espanto, os cabelos se espalhando pelo rosto, profusamente. – Então podemos ir sem mais delongas. Agradeço, tio, por permitir que ela retorne. A terra está um local desolador e a família está em polvorosa no Olimpo.

Hades fez um gesto com a mão direita, como a dizer que não fazia diferença, mas qualquer um podia perceber seu coração despedaçado.

– Pegue a minha mão, irmã. Como devo chamar-te agora?

– Não é Perséfone como me chamam? Que seja. – Respondeu com azedume.

Hermes arqueou as  sombrancelhas, em dúvida, mas deu a mão a irmã e num instante se foram. Hades deixou cair os ombros e suspirou longamente.

– Enfim, está terminado.

– Eu não teria tanta certeza, caríssimo.

Ele encarou-me bastante sério.

– Tendes a absoluta certeza de que ela não comeu nada?

Seu rosto se moldou em uma expressão de dúvida, por não entender minha pergunta. Pude ver que tinha certeza de que estava certo. Homens…

– Senhor, uma alma solicita uma audiência. – A voz retumbante de um dos seus generais.

– Agora não. – Respondeu ele, com azedume, da mesma maneira que Perséfone a alguns instantes.

Segurei o riso.

– Deverias recebê-la, caríssimo. Traz novas alegres para ti.

Ele estreitou os olhos e mandou que a alma entrasse. Ela trazia uma romã parcialmente comida nas mãos. Hades deu um salto.

– Quem ousou comer isso? – Ele sabia, mas queria ouvir para ter certeza.

– Foi a Rainha, meu Senhor. Ela comeu enquanto cuidava do jardim, a poucos instantes.

O Rei não cabia em si de felicidade.

– Levem essa alma aos Campos Elísios imediatamente.

– E tu? – perguntei com malícia.

Ele estufou o peito e sorriu, como o Sol rompendo as nuvens:

– Eu vou ao Olimpo, é claro.

Ele pegou a romã e assoviou, chamando seus cavalos e arrumando a carruagem. Estendeu-me as mãos poderosas:

– Vamos, Senhora?

Aceitei a mão que me estendia, mas ainda não me permiti sorrir, para não encorajá-lo. Ainda faltava a prova dela para ele, afinal.

Chegamos rapidamente, e Hades apresentou seus argumentos com graça e eloquência, porém, todos tinha presenciado a dor de Démeter e penalizados, votaram a favor dela.

– Creio que todos conhecem a Lei da Morada, mais antiga que nós, a qual não podemos revogar. – Hades havia jogado a última cartada.

E apresentou a romã. O Olimpo inteiro ficou sem respirar. Zeus sorrira indulgente. Deméter era a expressão do espanto propriamente dito.

– Filha minha, ele te obrigou a comer? Foi isso? Diz-me! – A Deusa dos grãos disse isso e apalpou a filha, a procura de hematomas.

Perséfone, que até então ficara calada, se esquivou da mãe energicamente, tocando-a pelos ombros:

– Não Mãe. O Rei a nada me obrigou. Comi por que me senti em casa.

Oh sim, era isso. Ela finalmente diria. Era merecedora dele, afinal.

Sorrindo lindamente, ela completou:

– E por que estava deliciosa, é claro!

Alguns risos contidos percorreram a audiência. Ela continuou:

– Fui muito bem tratada no Submundo. Minha estadia não foi melhor por minha culpa, pelo medo da escuridão. Tinha medo do que a escuridão despertaria em mim, tive medo por ouvi-la e senti-la tão claramente como o Sol e as primeiras flores. Mas vós sabeis, as trevas são uma parte da luz. E ambas são partes de mim. Não sei se um dia deixarei de ter medo, mas o amor me encheu de coragem. Estudarei e compreenderei meu poder, sei que meu Rei estará comigo, e basta.

Ela respirou fundo, com um movimento das mãos transformando a sua túnica rosa em uma linda túnica negra e transmutando sua coroa de flores em uma coroa de pérolas escuras como o breu, dignas de uma Rainha.

– Não fui uma boa filha, nem uma boa noiva, mas serei uma boa esposa. Então, meu primeiro decreto é que passarei metade do ano com minha mãe para expiar minha falta, e a outra metade com meu marido em nosso Mundo. Tenho muito o que fazer para descobrir quem sou.

Zeus pegou um de seus raios e sua voz estrondosa percorreu o Olimpo:

– Que assim seja, filha minha, Rainha do Mundo Inferior.

Démeter se agarrou a filha, já refeita do susto, mas de certa forma inconsolável:

– Se te faz feliz, filha minha. Mas me doerá a sua ausência. Os campos só brotarão quando estiveres comigo.

As duas se abraçaram. Perséfone com a sua maviosa voz respondera a mãe ainda sorrindo:

– Os humanos terão de aprender que a fartura não é eterna, que devem se preparar e ser moderados. Aprenderão a respeitar os ciclos, vida e morte, doença e saúde, seca e fartura, verão e inverno. Que assim seja, minha Mãe. Mas por agora, devolva teus dons ao Mundo.

Ambas sorriram e Deméter se dirigiu a terra, que brotou em fertilidade outra vez.

Hades, o mais surpreso de todos, com uma expressão de incredulidade extrema se aproximou de sua Rainha.

– Então, aceita-me?

Ela sorrira deslumbrantemente:

– O aceitei sempre, meu Senhor. Não aceitava a mim mesma. Mas me ajudarás, não?

Ele me olhou e lembrou-se do que eu havia dito a tanto tempo, para ensinar como ele havia sido ensinado.

– Sempre a ajudarei, Core.

– Não me chame assim – tornou ela com um gracioso muxoxo nos lábios. – Meu nome é Perséfone.

– Então venha comigo, Perséfone, vamos para casa.

O Olimpo inteiro aplaudiu e parabenizou os recém casados, que retornaram ao seu Mundo. O equilíbrio foi restaurado e a felicidade os alcançou veloz, como as asas de um beija flor. Perséfone alcançou a plenitude e se tornou muito poderosa. Uma consorte digna do grande Hades.

Eram, e são completamente felizes. Não ouse dizer o contrário, ou receberás uma visita da Rainha…

 

Fim

Será?

*****

3 comentários em “Amor Eterno

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