Sirens…

Sirens

Por Lillithy Orleander

Era tarde da noite quando a vi chegar, a valise embaixo do braço, silenciosa como sempre.

Era noite sem lua, escura como o breu e somente as poucas lâmpadas da rua iluminavam seu portão. Tudo ali parecia parado no tempo, e o vento não encostava naquela esquina.

Não havia jamais uma folha de arvore ali, caída ou jogada, os animais passavam longe daquela casa e as mulheres que passavam o dia todo em casa se juntavam pontualmente as quatro da tarde, para vigiar e falar da solitária moça.

Meu hábito era noturno, pegava a xícara de café, sentava – me a porta e todas as quintas – feiras  a via voltar, com o vestido florido e os longos cabelos negros caírem como cachoeira em seu ombro.

Uma hora depois ela subia ao telhado, caminhava pé ante pé no galho grosso da arvore que ficava próxima a sua janela, era lindo ver e ouvir. Eu nem percebia mais que estava ali, observando, absorvendo o som e a beleza dela.

Eram noites que me matavam um pouco mais, a flauta soava doentia e ritmada, uma canção de morte eu diria. Um desejo meu, insano e desesperado para ver seus olhos e seu sorriso, já que sempre a via de costas ou de cabeça baixa.

O Sol nascia e lá se ia ela, pelo mesmo trajeto, de volta ao quarto, fechando as escuras cortinas, a vizinhança dormia, mas eu não. As noites de quinta eram sagradas.

– Cibele! – chamou alguém naquela manhã.

Ela saiu de hobby rosa e de óculos escuros, fumando um cigarro. Tinha um rosto pálido, as maçãs do rosto eram rosadas e tinha uma pequena cicatriz abaixo dos lábios, parecia uma frágil boneca de porcelana, eu que pegava o jornal o deixei cair, ela era linda.

Peguei o jornal desajeitado e um pouco encabulado. Outra Quinta – Feira, dessa vez eu escutaria Cibele, feliz por saber seu nome, minha musa agora tinha um nome.

Sentei – me ansioso quando a noite chegou, de papel e caneta em punho, eu lhe escreveria um poema apaixonado e deixaria em sua porta com rosas amarelas, por que a vermelhas já dominavam seu cercado.

Cibele tocou doce, suave e ao que parecia pra mim, menos aflita, o perfume de flores invadiu minhas narinas e me inebriou.

Escrevi sobre tudo e sobre nada, sobre o que eu queria, e como lhe admirava, páginas e páginas eu escrevia desenfreado, meus dedos doíam mas não se cansavam, meus olhos começaram a se fechar, era o sono a chegar, a letargia, mas dor…

Em meu peito ardia a dor aguda a principio, meus movimentos cessaram, a respiração ficou pesada, e os passos de veludo de repente se ouviram.

Os olhos de uma escuridão devastadora, os dentes a mostra, uma fileira perfeita e pontiaguda, mas eu nem sentia medo ou tinha vontade de correr.

Cibele caminhou até mim como uma felina, a Lua estava crescente no céu, pegou – me pelo pé e me arrastou, eu sentia o cascalho da entrada de minha porta arranhar – me as costas e em seguida o asfalto da rua. O cheiro de sangue na terra me deixava tonto e nauseado, as roseiras tinham esse odor também, como não percebi o odor de carne apodrecida?

Perdi minhas roupas, enquanto outras parecidas com Cibele surgiam ao nosso redor.

A primeira beijou – me os lábios e arrancou – me língua, meus olhos se encheram de lágrimas pela dor, mas eu não tinha nem forças para gritar, quanto mais fugir.

Meus olhos, minha pele, meus órgãos, meu coração…

Eu era dilacerado e obrigado a assistir de algum modo bizarro meu fim chegar…

Minha última lembrança ainda eram as folhas de papel caindo ao chão e um cachorro negro uivando embaixo de uma arvore. A arvore que ela sentava – se para tocar.

Cibele me levava a alma e devorava meu coração. Eu agora faço parte de minha musa.

Sou a alma nos olhos de Cibele, olhos esses que de tantos é cobiça e também destruição.

Cibele toca pra enfeitiçar e se durante a noite sua flauta escutar, fuja.Ou de nós será nova parte obscura…

FIM

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