Memórias de uma Vida

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Memórias de uma Vida

Escrito por: Lua Morgana

Aquele dia todo estava muito tenso. Havia acabado de me casar com o cara mais gentil da face da Terra e precisávamos de um lugar para construir nossa família. Fora uma cerimônia simples, só para nossos familiares e amigos mais íntimos, não queríamos festa. Era só para oficializar nossa união. Quando a vovó morreu, me deixou sua casa de herança. Eu era sua única neta, éramos muito amigas. Faziam dois anos desde o seu falecimento e não tive coragem de ir até a casa, tinham muitas memórias lá, não estava totalmente pronta ainda. Mas precisávamos mesmo de um lugar para morar e a casa era grande, bonita e bem localizada.

Tive que esconder minhas emoções e fingir estar “ok” para ir até a casa de minha falecida avó querida. Assim que entramos na pequena rua, senti o cheiro de café que a vovó fazia durante as tardes quando brincávamos no bosque, que ficava bem no fundo do quintal… senti uma pontada de tristeza e alegria misturados, era como se vovó estivesse ali me esperando sorrindo, junto às suas flores preferidas. Incrivelmente estava tudo igual, nenhuma flor murchou. Mamãe havia contratado uma vizinha para ir até a casa 2x por semana para olhar, molhar as plantas, fazer uma limpeza básica… nem a mamãe estava preparada para ir até lá ainda, tamanha a falta que a vovó Luzia fazia para nós. Porém, não tínhamos mais como fugir daquilo, precisávamos de verdade daquele imóvel, pagar aluguel estava fora de cogitação e eu sabia que a vovó ficaria muito feliz comigo morando lá e construindo minha família. Por fim, engoli o choro e adentrei. Meu marido, Edu, segurava minha mão, sabia que aquilo era demais para mim, mas felizmente não senti tristeza. Apenas um sentimento bom, de estar num lugar só meu, protegido e com o cheiro gostoso de lar-doce-lar.

Tiramos todos os lençóis brancos e encardidos que cobriam os móveis… saiu tanta poeira que tive uma crise de espirro. Edu riu bastante da minha cara, ele estava muito feliz. E isso me fazia bem. Os móveis, aos poucos, foram se revelando. Eram bem rústicos e bonitos, daqueles que pareciam cenário de novela. Vovó adorava, e eu também. Não queria mudar nada ali por enquanto, os móveis eram bons e nós não tínhamos dinheiro no momento. Só colocamos uma televisão moderna, o videogame do Edu e um aparelho de som na sala. Na cozinha, antes de falecer, a vó Luzia tinha mandado reformar, ou seja, tudo novinho. E como a vizinha Magda sempre limpava, não tinha nada de errado com os eletrodomésticos e armários novos. Só que estavam vazios, precisávamos comprar mantimentos.

Fomos ao mercadinho ali perto e compramos muitas guloseimas. Afinal, era nosso primeiro fim de semana juntos, de fato. Chegamos em casa e senti aquele delicioso cheiro de café de novo, e por um momento, pensei que fosse encontrar vovó ali na cozinha… afastei a tristeza de novo e me concentrei apenas no futuro! Nós estávamos felizes, afinal, nada poderia tirar nosso sorriso do rosto, e eu não queria mais lembrar de minha doce avó com tristeza e sim com alegria, como ela sempre me dizia quando alguém próximo falecia.

Tinham três quartos na casa: o de visitas, o da vó Luzia e o meu. Ela preparou um quarto só para mim quando soube que eu havia nascido, desde então, sempre reformava de acordo com meu crescimento. Trocamos somente a cama, por uma de casal. Estava tudo perfeito! A noite chegou e o Edu caiu na cama, nem me chamou. Quando fui ver, ele tinha apagado. Estava arrumando a cozinha e ele dormiu feito anjo. Fui até o quarto, apaguei as luzes e fechei a janela. Era tudo o que queria! Minha casa com meu amado. Estava tudo perfeito!

Resolvi sentar na poltroninha na sala para terminar um livro, estava um ventinho tão gostoso vindo da porta dupla que ia para a varanda… quase adormeci. Mas por um lapso de memória, senti que deveria ir até o quarto de minha avó. Foi um impulso tão grande, que pulei da poltroninha e quando dei por mim, já estava no corredor.

O quarto ficava no fundo do corredor, senti um frio na espinha quando encostei na maçaneta. Quase perdi a coragem de entrar, mas ouvi bem lá no fundo do meu ser que deveria abrir a porta e olhar além. Enfim, tive coragem e abri a porta. A luminária ao lado da cama estava acesa, tomei um baita susto quando vi. O quarto era exatamente do mesmo jeito que me recordava, tudo no mesmo lugar. Tudo arrumado e com o cheiro de rosas… tinha um vaso de rosas vermelhas bem na mesinha de chá da vó Luzia, estavam lindas! Não havia me recordado sobre Magda ter colocado as rosas lá. Nem pensei muito nisso, afinal, faziam anos que não entrava naquele quarto.

Fui olhando cada detalhe e tendo uma lembrança boa de minha amada vó. Senti um ventinho passando ao meu lado, e por um momento parecia que me dizia algo. Senti que deveria abrir a primeira gaveta da penteadeira. Abri. Tinham algumas joias e uma chave. Peguei a chave como se soubesse o que fazer… me dirigi até a última gaveta e destranquei. Ao abrir a gaveta, revelou uma caixa de madeira, bem antiga. Peguei a caixa, tirei da gaveta. Logo embaixo da caixa, tinha uma carta endereçada a mim. Senti um tremor, quase deixo a caixa cair no chão.

Sentei na cama e chorei baixinho, não queria acordar o Edu e fazê-lo pensar que estava triste; eu não estava. Peguei a carta e olhei a caligrafia antes de abrir. Era de vovó Luzia, reconheceria aquela letra bem desenhada em qualquer lugar. Abracei a carta com tanto amor, com tanta saudade, que parecia estar abraçando uma pessoa, minha avó. Fechei os olhos e abri a carta, comecei a ler, imaginando minha vó falando diretamente para mim:

“Olá minha querida netinha,

Escrevi essa carta enquanto minhas lágrimas escorriam, não sou mais tão jovem, e temo que parta antes de vê-la crescer. Eu te amo tanto, minha pequena! Sua mãe sempre soube que você era especial, logo nos seus primeiros cinco anos ela já notou que você era como nós. Quando você fez 15, ela notou que você estava interessada pela magia. Mas como sempre éramos perseguidas pelo nosso dom, ela te amedrontou, disse que você não deveria mexer com isso; que era do mal. Não é! Sua mãe sempre foi muito medrosa, não a culpo. Vivemos em um mundo onde somos perseguidas pela nossa fé, pelo nosso dom. Ah, minha querida, não a culpe! Fátima sempre foi assim, eu a amo. Tentei passar meus ensinamentos para ela, mas ela se recusava a aprender, dizia que não deveria mais tocar nesse assunto, era coisa de gente velha e doida. No fundo, ela sempre soube que era como eu, mas recusava-se a acreditar! Mas, como sou teimosa, sempre soube que você teria interesse. Sua mãe me proibiu de falar esse assunto com você! Mas como proibir uma morta, não é mesmo? No momento que você estiver lendo essa carta, já terei partido. Espero que você faça bom uso de seu dom! Na minha antiga caixa de madeira, tem meus diários e meu grimório! Leia-os, estude-os, liberte-se!

Com amor,

Vovó Luzia. ”

Fiquei por um momento paralisada, lembrava perfeitamente quando havia comprado meu primeiro tarô e minha mãe mandou-me jogar fora, que aquilo era ruim. Eu no auge da minha rebeldia, não joguei e o tinha guardado até hoje, sem minha mãe saber. Enquanto as lágrimas escorriam sobre meu rosto, dei uma longa gargalhada! Vovó era muito traquinas! Sempre foi…

Enxuguei meu rosto com as costas da mão e abri a caixa, encorajada por uma energia inspiradora. Tinham dois caderninhos, que pareciam diários, vários papéis antigos, um livro de capa dura, devia ser esse o tal de grimório. Embaixo de tudo isso tinham uns cristais, ervas envelhecidas e um jogo de tarô, envolto em um lenço verde camurça. Aquilo me cheirava a magia! Lembrou-me dos meus 15 anos… uma aura tão boa se instalou no quarto, enquanto eu folheava as páginas dos caderninhos e sorria, feliz! Sentia minha avó ali do meu lado lendo comigo.

Ouvi uma batida fraca na porta, dei um pulo da cama onde estava lendo. Quem poderia ser àquela hora? Guardei tudo bem rápido de volta na caixa e corri para a porta da sala. Olhei pelo olho mágico e era minha mãe, com uma cara abatida.

– Oi mãe, o que houve?- Indaguei, preocupada. – Entra.

Ela me abraçou muito forte. Fiquei assustada.

– Acordei com um sonho muito estranho, sonhei com a sua vó, ela me mandou vir aqui. Ela estava feliz, mas eu fiquei preocupada. – Disse mamãe, enxugando as lágrimas com o casaco.

– Ah mãe! Está tudo bem, não se preocupe…

– Não, Vanessa! Eu sei que você sabe o que somos. – Disse ela baixinho, como se alguém pudesse escutar. – Sua avó me contou rindo e disse que eu deveria vir aqui.

– Mãe! Foi só um sonho! – Sorri

– Mostre-me a carta! – Ordenou mamãe, me assustei quando ela falou da carta, ninguém sabia, só vovó e eu.

Tirei a carta do bolso e entreguei. Ela sentou-se na poltroninha e leu tudo com calma, e ia sorrindo a cada parte da carta… com a mesma sensação que eu, que vovó estivesse lendo a carta para ela.

– Sua vó sempre foi muito rebelde, sabia? – sorriu

Fazia tempos que não via minha mãe sorrir daquele jeito, sem parecer triste, era de verdade.

Ela ficou tão contente olhando a carta, que acabou descobrindo que atrás tinha mais um texto, que eu nem tinha percebido.

“Pensaram que havia dito tudo? Não, não. Eu sei que nesse momento você estará junto de Fátima lendo essa carta, vou dar um jeitinho dela ir para nossa casa! Desejo que vocês façam algo juntas, pelo menos uma vez! Quero me sentir perto de vocês mesmo aqui tão longe… tenho certeza que sentirem falta das minhas corujinhas… peguem meu grimório e abram na página 127, espero vocês! ”

Nós ficamos sem ação, sem saber o que fazer. O que vovó queria dizer? Corremos para o segundo andar, feito duas crianças, atrás do grimório. Sentamos na cama e abrimos na página 127: Ritual de iniciação. Era para fazer na Lua cheia, e estávamos nessa fase. Um vento percorreu o quarto inteiro, eu e mamãe nos entreolhamos feito duas crianças traquinas, feito a vovó.

– Não há mais como negar, Van. Sinto isso sufocado dentro de mim há muitos anos e provavelmente mamãe sabia. – Disse minha mãe, emocionada.

– Mãe! Você quer mesmo fazer? – Eu estava com um olhar de cachorro pidão.

– Vamos juntas! – Mamãe pegou minha mão e me levou.

Era simples. Num campo, sob a luz da lua e rodeada de velas, deveríamos entoar o encanto e nos iniciar na magia. Estava frio, eu estava tremendo e nervosa, mamãe estava segura. Parecia que era o que ela mais desejava no momento. Olhei para ela e senti segurança. Cantamos juntas, nos consagramos juntas, oferecemos nossa fé juntas! Nós tornamos bruxas, de fato, juntas! Demos as mãos para cantar a canção final do rito de iniciação e sentimos algo pegando em nossas mãos, era quente, familiar…

Nos entreolhamos, assustadas, quase tive um surto, mas vovó olhou para mim e sorriu, disse bem baixinho: – Continuem! – Ela estava mais jovem.

Mamãe estava tão segura do que estava fazendo, que continuou, quase não pestanejou. Vovó se juntou a nós na nossa cantoria à deusa. Uma energia de amor e paz nos rodeou. As lágrimas não poderiam mais ser contidas, estava tudo lindo! Dançamos, cantamos, sorrimos…. No final, vovó voltou para a luz de onde veio, com sensação de dever cumprido. Mamãe e eu deitamos na grama com uma sensação maravilhosa. Aquele momento jamais seria esquecido. Éramos bruxas, não poderíamos mais negar nosso dom. Não poderíamos mais negar nossa essência! Nós existimos! Éramos, enfim, livres para ser o que sempre fomos.

 

Fim ou Recomeço?

 

P.S: Conto baseado em um sonho que tive. ❤

4 comentários em “Memórias de uma Vida

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