A Garota com a Alma do Diabo – Pt. 1 – Neve em Moscow

fridda 3

Por Natasha Morgan

Prólogo

Quando o Diabo a convida para um drink não se pode declinar.

Especialmente quando ele tem proposta tão saborosa.

O líquido escarlate escorre pela taça de estanho como se fosse sangue e os olhos da leoa se dilatam.

O sabor é de um doce que desperta fascínio e desce delgado pela garganta.

Os lábios de veludo da leoa se curvam de lado num, sorriso travesso.

E ela diz um delicioso sim à proposta pecaminosa e isenta de pudor.

Num suspiro de deleite sua alma se mescla em cores libidinosas.

O carmim se infiltra em seu coração como uma roseira selvagem.

Quando a leoa deposita o cálice novamente em cima da mesa forrada em pele de homens,

Ela já não é mais apenas uma garota má.

Ela é agora uma leoa banhada em sangue.

A garota portadora da alma do Diabo.

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Bestemor Fridda dirigia seu Pagani negro, lutando contra a tempestade de neve que caía em solo russo. O telegrama de um de seus mais confiáveis contatos a obrigou a sair às pressas de Nova York e encarar um voo maçante até chegar ao aeroporto onde o carro a aguardava, saudoso.

Em geral, não tinha muitos motivos de ir à Rússia. Sequer simpatizava muito com o povo de lá, embora respeitasse a forja da qual eram feitas as mulheres russas. A verdade é que a Rússia era uma grande rival nos negócios.

No entanto, aquele telegrama a deixou por demais perturbada. Precisava se encontrar com Ludwing. Só ele seria capaz de lhe dar as respostas a que tanto ansiava. Aquele velhote esnobe lhe dava nos nervos! Onde já se viu, arrastá-la para aquele país no meio de uma tempestade de neve!

Fridda lamentou não poder ficar ao lado de sua amada Cherry e da pequena Willa naquele momento tão importante de libertação. Era a primeira vez que abandonava a família em prioridade a outro assunto. A Família vinha sempre em primeiro lugar…

E, afinal não era exatamente pela Família que ela dirigia por uma estrada tão erma no meio de uma tempestade?

Pelos Antigos Deuses de Asgard, aquele telegrama… Aquelas simples três linhas de letras miúdas foram capazes de abalar seu mundo.

Algo a atingiu, surgindo de algum lugar no meio da tempestade num clarão de luz que a cegou. Fridda deu uma guinada brusca no volante macio, jogando a direção para sua esquerda. O carro perdeu o controle e capotou duas vezes, deslizando pela neve acumulada na estrada. O atrito estourou as janelas e o para brisa, e a lataria elegante e lustrosa se retorceu num ângulo monstruoso.

O barulho estrondoso da lataria do carro arranhando a estrada morreu, dando lugar ao silêncio assombroso quando o Pagani todo retorcido finalmente parou de deslizar pela neve.

Bestemor Fridda soltou a respiração num ofego. A dor lancinante lhe devorando as entranhas. O airbag estufado a sufocava e ela teve de afastá-lo com as mãos para poder enxergar o que acontecia na parte de baixo do seu corpo. Seus olhos fitaram o ventre e ela viu sua blusa de camurça se tingir de vermelho.

Um pedaço da lataria retorcida do carro a havia atingido um pouco acima do quadril.

Com um gemido rouco, a Bestemor puxou o pedaço de metal. O sangue fluiu, vívido e empapou ainda mais suas vestes.

Fridda soltou o cinto e se arrastou pela janela do carro. O vidro espalhado na estrada penetrou a pele de suas mãos, pulsos, antebraços e cotovelos, mas ela conseguiu se içar para fora, cravando as unhas no asfalto encoberto de pluma branca.

A neve ainda caía lá fora, congelando os ossos de quem ousasse enfrenta-la.

Fridda ofegou, estirada na estrada, sentindo seu corpo afundar em dor e frio. Sua testa estava ferida, as mãos, os braços e ventre também e havia pelo menos duas costelas fraturadas.

Ela ergueu os olhos para a estrada que se estendia, silenciosa, a sua frente. Ali estava, há apenas alguns metros dela. O ranger Rover que colidira com seu carro.

O maldito estava intacto, sem sequer um arranhão na lataria brilhante. Preso ao para-choque, a exuberante grade de metal exibindo ferros retorcidos dava a Fridda a ideia de que aquele carro fora projetado para derrubar outros.

A porta lateral se abriu com um suave ranger e alguém saltou na estrada coberta de neve.

Fridda tentou enxergar o vulto, mas sua visão estava turva devido ao acidente. Tudo o que conseguiu ver foi a lâmina opaca de uma Khopesh. E o som ameaçador dela riscando o chão.

Uma voz levemente familiar disse algo num idioma estranho e a assombração surgiu diante dos olhos assombrados da velha.

Fridda abriu a boca para emitir um grito de puro espanto e a assombração sorriu num repuxar selvagem de lábios.

A velha recuou tanto quanto seu corpo permitiu, arrastando-se pela estrada gelada, fugindo daquela aparição e da lâmina amaldiçoada. Sob a tempestade de neve, a assombração a encarava com os olhos vidrados.

Fridda rolou em direção ao carro tombado e enfiou a mão pela janela estilhaçada, alcançando a bolsa que ainda estava lá. Fuçou as tranqueiras que guardava há tanto tempo até apanhar o celular antigo. A tela estava trincada, mas ele funcionou quando apertou um botão qualquer. Ainda bem que se recusou a abraçar a tecnologia moderna ou estaria enrascada.

Pôde ouvir os passos suaves da assombração se aproximando, ela vinha roubar sua alma… Vingar sua morte dolorosa.

Fridda discou o número apressada, ligou para a única que poderia socorrê-la num tormento desses. A única capaz de encontra-la seja para onde quer que a assombração à levasse.

– A Vadia me emboscou… – foi tudo o que Fridda conseguiu dizer antes que fosse puxada bruscamente afastada da carcaça de seu carro.

Algo enlaçou seu tornozelo, cravando dentes de metais em sua carne, e ela foi puxada com força para trás, obrigada a encarar aquele rosto impiedoso.

Sua alma estava condenada agora… Assim como sua humanidade.

O passado voltava para atormentá-la. O passado voltava para cobrar aquela dívida de sangue. E o que aquela mulher faria com ela nem mesmo o mais perverso dos demônios se deleitaria em assistir…

 

CONTINUA…

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