Me deixe ficar

sean2 

“Me deixe ficar…”

Sussurrou o vento na calada da noite, enquanto ela soprava o vapor de seus lábios no vidro quente das janelas do quarto.

O cabelo um emaranhado de pequenos cachos pendurados, ainda molhados escorriam por sua nuca e pescoço.

A camisa de algodão branca cobria seu corpo e deixava as pernas esguias à mostra, a sombra do quarto era projetada pelo pequeno abajur giratório, cheio de desenhos de pequenas estrelas vazadas e uma luz azul.

As memórias vinham – lhe fervilhando o sangue e seu desejo lhe confundia a mente, contando os minutos para o fim da espera…

O sorriso na manhã seguinte e o convite haviam lhe pego de surpresa, o almoço simples e a música suave a envolviam de um modo mágico.

Ele chegou silencioso, misterioso, sossegado. Poucos sorrisos e menos amigos possíveis, mas não havia se quer alguém que nele não houvesse reparado.

O apartamento simples lhe remeteu á infância e o aconchego de um abraço, ele muito reservado dirigiu – se a cozinha e puxou o banco que estava próximo á bancada, deixando a pasta do escritório de lado.

A máscara caiu, ele sorriu e foi o sorriso mais doce que ela já virá dele até então, a conversa seguiu animada e ela nem se lembrou a que horas deveria partir ou se lá fora havia começado a chover.

A tempestade tornou – se imensa, raios cortavam o céu e clareavam a sala agora iluminada por velas.

Taças de vinho repousavam na pequena mesa da sala, enquanto ela parecia dormir no ombro dele, ele a tomou nos braços, levou – a para seu quarto e deitou na cama.

As horas passavam  e ela só acordou quando o som do trovão a despertou como um aviso, a roupa suada colada ao corpo, no quarto abafado, no edredom amarrotado, a luz ainda não havia voltado.

Ele olhava janela, a tempestade torrencial escorrer pela vidraça como se fosse uma cachoeira. Ela se aproximou e ali ficaram os dois calados, como dois estranhos tão conhecidos, ninguém ousaria cortar o silêncio se as mãos dele, não tocassem sua cintura e a trouxessem para perto.

O silêncio se manteria intacto se ele não puxasse seu queixo e em sua boca depositasse um beijo longo.

Não houve resistência, não haviam gritos ou repulsas.

Ele a pegou no colo e sentou – a na bancada que separava a cozinha da sala e subiu – lhe a saia, enquanto as mãos delas, buscavam desatar o nó da gravata e os botões que a impediam de tocar o peito nu.

Os trovões ribombavam, mas um celular tocava uma música para a noite dos amantes.

O emaranhado de tecidos jogados em um canto, perfume almíscar se espalhava no ar sob a luz tremulizante das velas,enquanto os corpos nus encontravam seu encaixe perfeito, entre promessas não ditas, olhares de cumplicidade e sussurros prazerosos.

A carne quente e convidativa, o suor e calor ardiam na intensa paixão…

O dia deu seus primeiros sinais de vida, ela se levantou antes mesmo que ele acordasse, pegou suas roupas e um bilhete deixou na mesma bancada onde ele havia segurado de maneira tão firme sua coxa, ávido de desejo, isso a fez ruborizar.

“Te vejo mais tarde.”

No escritório ele não apareceu e o celular não atendeu, pedirá demissão por telefone, voltaria pra cidade natal, que aliás ninguém sabia qual era, não havia maiores dados em sua ficha.

Ela saiu do serviço e correu em direção ao apartamento. Tudo estava vazio, ele partira sem deixar endereço.

A chuva voltou á cair e lágrimas lhe banharam a face…

Com o corpo encharcado e o cabelo desfeito em cachos que tão severamente prendia todas as manhãs ela avistou o buquê de rosas em sua porta. Brancas, alvas como a neve que não mais caia.

“Eu tive que partir, mas sempre que permitir…

Me deixe ficar.”

Ela segurou o bilhete contra o peito, tomou as rosas nos braços e adentrou seu lar vazio e entristecido, sem se quer notar o rapaz garboso que de longe em tristeza também se desfazia no ar.

Nas noites de Lua alta ele para ela voltava, e nas terras além-mar á tantas outras encantava, ninguém nunca soube quem ou que ele era, mas as rosas… Ah as rosas, essas sempre ficavam para trás como aviso de seu retorno…

Para  alguém especial…

*Adaptação da lenda O Boto

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