Titanic – O Conto dos Irmãos Gêmeos

thanatos_e_hypnos

Por Lillithy Orleander

*Desafio Deuses Mitológicos

 

“Era de se esperar que alguém mais contasse a história de tão vistoso navio, que agora singraria os mares com tal maestria que nem mesmo um Deus afundaria tamanha obra de arte.

Eram casais apaixonados, famílias inteiras com crianças lindas exalando alegria, pessoas que tentariam um novo recomeço, ricos tirando férias e outros querendo sentir o gostinho de novidade que viajar no RMS Titanic lhes traria.

Gêmeos. Era o que eram.

Um tinha os cabelos brancos, quase prateados e isso não lhe parecia favorável, visto que suas feições eram joviais.

O outro possuía cabelo dourados como o nascer do Sol e andava sempre de cabeça baixa como quem fizesse uma oração, as vezes eu tenho a sensação de que sempre estão de olhos fechados…”

O  rapaz tocava a harpa com suavidade, coberto por um manto azul escuro, tão forte que parecia negro,  pontilhado de pequenas estrelas, enquanto sentado a beira de uma cama parecia velar pelo sono da alguém.

 

 

 

10 de Abril de 1912

– Oras vivas, os misteriosos irmãos Sóter decidiram visitar o meu navio, sejam bem vindos. – disse Edward Smith aos distintos rapazes que adentravam o navio, na primeira classe.

Ele os abraçou efusivamente e lhes apertou a mão como se fossem velhos amigos, mas a verdade é que nem mesmo Smith se lembrava de onde conhecia os dois rapazes, o que para ele no momento pareceu engraçado, teria sido em uma de suas bebedeiras?

As pessoas gritavam vivas e se despediam das que agora estavam a bordo da embarcação. Os gêmeos lado a lado apenas observavam  com  as faces passivas, cada rosto que ali se encontrava.

Os dias se passavam e nas classes tanto nas superiores quanto nas inferiores, nada mais se falava além de festas e comemorações. A tripulação contava com mais 2000 pessoas e alguns tripulantes que faziam tour de conhecimento do navio, ficavam espantados de saber sobre tal número, mas logo passavam graças a toda  segurança que o navio mostrava ter.

Como dizia Smith:” Ele era inafundável.”

-Será mesmo Sr. Smith? – perguntou o rapaz de cabelos prateados.

-Mas claro, ele foi desenvolvido pelos melhores engenheiros e fabricado sobre mãos bem competentes, o Titanic é perfeito. Segundo da classe Olympic a ser criado e, diga – se de passagem, um Olympic não afunda. – disse Smith ao rapaz de modo cortês. – Nos vemos no jantar jovem Sr. Sóter? – perguntou ele.

– Será um prazer Sr. Smith.

– A propósito, onde está seu irmão? – perguntou o capitão franzindo o cenho.

– Hypno estava indisposto está manhã, deve ter ido descansar, mas passarei  o convite pra ele, se o senhor não se importar claro.

– De modo algum.

Apertaram – se as mãos e seguiram em direções opostas.

Tânato tinha os olhos escuros, negros como o breu. Estava olhando distante no mar e contando mentalmente cada alma que iria levar naquela noite.

A voz de Smith ainda soava  em sua mente…

“Ele é inafundavel.”

O capitão morreria com o navio, e tantas outras pessoas, e tanta tragédia e tanta tristeza…

No fundo Tânato conhecia aquela história e sabia o quanto esta seria lembrada na posteridade.

-Hora de acordar, caro irmão… – disse ele mais para si do que para alguém.

O pôr de Sol, estava forte e alaranjado, o frio já invadia as cabines, fazendo com que as damas da alta sociedade buscassem seu melhor e mais elegante xale ou sua pashmina cara pra fazer inveja as  outras e ter o orgulho de dizer que era a última moda em Paris.

Era noite fria e no convés só estavam os trabalhadores do navio, o sinal de alerta sobre icebergs havia sido dado, mas Smith não pediu que diminuíssem a velocidade, afinal ele cumpriria o tempo de viagem estipulado e nada o faria cometer um atraso.

O salão de jantar estava muito iluminado e entre risos e borbulhas de champanhe os ricos riam e sopravam fumaça de charuto cubano no ar.

Nas classes mais baixas a música alegre e o passo ritmado, unido ao suor do povo feliz tomava todos os cantos do navio.

Ele deixou seu quarto com o pescoço envolvido por um lenço escuro, enquanto o outro se apoiava com elegância e charme na falsa bengala. Enquanto o rapaz de cabelos dourados andava, as cabines pelas quais passavam se calavam, e uma névoa translúcida subia do chão como se fosse poeira por ele pisada.

Tânato tinha um olhar calmo, mas as feições pareciam entalhadas em mármore, uma das mãos enfiada no bolso, enquanto ele assovia Danse Macabre de Camille Saint-Saëns, no ar gélido da noite, lembrando – se do poema de Henri Cazalis.

As portas do salão se abriram, e mordomos se ofereceram para guardar os casacos.

-Hypnos, sorria… – disse Tânato. – É tudo uma questão de tempo.

-Ironias a parte, caro irmão, nós somos o tempo neste momento…

Smith aproximou – se dos irmãos e os cumprimentou efusivamente, estava vermelho  e um pouco mais alegre do que o normal, mas isso se devia ao cheiro do Bordeaux que dele exalava e a taça entre seus dedos, que o entregavam completamente.

Os violinistas tocavam valsas, e as moçoilas balançavam de modo suave e sutil a ponto dos vestidos rodopiarem ao redor de suas pernas com a leveza de uma marola oceânica.

Hipnos andava com o tédio estampado na face e logo ganhou a porta de saída, deixando Tânatos para trás, que ria de um modo peculiar, observando o irmão sair as pressas do salão. Era chegado a hora…

Hipnos andou de um lado á outro do convés e desceu cada canto do navio, alguns que dormiam, dormiriam profundamente agora.

Aqueles que nada sentiam, seriam os gritos em poucos minutos.

O sino tocou ao longe de modo desesperador ao passo que o até mesmo o capitão voltou de seus devaneios entre convidados.

O navio havia colidido com um iceberg e o desespero da maioria das pessoas as fazia correr em direção ao botes.

O caos estava instaurado e a prioridade eram as primeiras classes, os portões de acessos eram fechados para que as classes menos favorecidas não passassem, a água invadia os compartimentos com grande velocidade, gélida, cortante…

Tânatos e Hipnos assistiam tudo calados, de braços estendidos ao lado do corpo, pensando nas misérias humanas, no egoísmo alheio, na tristeza e em tantos que já principiavam a desistir ali mesmo…

Smith estarrecido com o que lhe acontecia, pensou em sua desgraça, e passou adiante para a cabine que lhe pertencia, expulsou os comandantes e marinheiros que ainda tentavam de algum jeito manter o navio sem afundar até que chegasse socorro. Ele afundaria com seu navio, afinal ele era o capitão.

Danse macabre¹ soava triste trazendo a melodia da morte, enquanto a correria, as brigas e o frio, pediam o sangue de tantos inocentes e de tantos pecadores.

Eles agora sumiam no ar. Hipnos de semblante pesado e tristonho por todos que ali ainda dormiam, ao cantar do balsamo do sono profundo e Tânatos, com as feições lívidas, mas com a expressão decidida, era a hora de tantos e o renascimento de muitos…

O navio afundava, engolindo tudo a sua volta e puxando os corpos próximos que ainda se debatiam para sobreviver.

A noite fria logo emudeceu os gritos, corpos congelados, boiavam em tons azulados com os coletes salva – vidas, os botes se afastavam, e em muitos deles havia o lamento mudo daqueles que haviam deixado os seus para trás.

O frio banhava a noite enquanto congelava corações e lágrimas…

Hipnos e Tânatos, os gêmeos…

O sono e a morte…

 

 

 

 

¹ http://www.youtube.com/watch?v=YyknBTm_YyM

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