Morena

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Morena

Escrito por: Lua Morgana

A semana estava estranhamente fria aquele mês. Em pleno verão e fazia frio. Não era típico de uma capital brasileira conhecida pelo sol, mar, calor e gente feliz na praia. Janaína não era exatamente esse tipo de carioca que esperavam. Ela era uma morena bonita, daquelas que chamam atenção pelo sorriso e cabelos caracolados volumosos. Ela não seguia padrões de beleza e seu estilo era único: meio geek, meio roqueira, meio fofa. Misturava todas essas características em um estilo só e cá entre nós, era demais!

Aquela semana especificamente foi corrida para a jovem, estava prestes a conseguir seu primeiro emprego! Um emprego em uma loja de roupa que ela adorava. Não era um “senhor” emprego, mas dava para pagar suas despesas e ainda sobraria para comprar coisas novas e se divertir. Ela estava quase se formando no ensino médio e já pensava em fazer faculdade, talvez de moda, quem sabe… ainda precisaria fazer o pré-vestibular para ter alguma chance de bolsa, porque ela não tinha condições de pagar uma faculdade cara.

Naquele friozinho, ninguém sentia vontade de levantar cedo, só dava vontade de dormir. Janaína não era diferente… o despertador soou o alarme e ela logo levantou, era o dia de um teste no seu novo emprego, eles a testariam em um dia de trabalho, se ela se saísse bem, o emprego seria dela. Jana, como era chamada pelos amigos, logo cativou o gerente da loja, um homem de meia idade que parecia seu pai, ele não teve dúvidas e a contratou para ser vendedora. Ela era jovem, bonita, sorriso fantástico, carismática, tudo que uma vendedora poderia ter e mais um pouco.

Jana ia todos os dias trabalhar feliz, ela adorava lidar com o público alvo da loja – meninas adolescentes ou jovens adultas iguais a ela – e adorava principalmente saber que teria sua tão sonhada independência financeira.

Passadas umas semanas, Jana recebeu seu primeiro salário! Seu chefe havia avisado que depositou o dinheiro na conta da moça. Ela logo correu para o banco, pegou um pouco de dinheiro e resolveu que iria se divertir aquele dia. Suas novas amigas Suelen e Heloisa a chamaram para ir em uma festa na Lapa, bairro bohemio da cidade do Rio de Janeiro. Jana aceitou logo de cara, queria muito se divertir, era sua primeira noite com seu próprio dinheiro. Ligou para sua mãe avisando que iria a uma festa e sua mãe a alertou que aquele bairro era meio violento, para ela ter cuidado. – Relaxa, mãe! Não vai acontecer nada, estou super feliz hoje! Só quero me divertir. – A mãe ficou feliz pela menina e resolveu deixa-la sair despreocupada, apenas disse para ela se cuidar e prestar atenção nos outros ao seu redor.

Jana estava tão feliz que não prestou atenção, só queria se jogar na pista e dançar com suas amigas. Dançaram, riram, beberam um pouco. No meio daquela festa, tinha um homem – ou uns homens – de olho em Jana. Ela era uma morena diferente, chamava atenção naturalmente. Alguns se aproximaram, a abordaram, mas ela não estava afim de sair com ninguém ou “ficar”, só queria dançar com suas amigas. Mas um homem em especial, cujo nome era Renan, não aceitou o “não” da moça. A puxou pelo braço e a beijou a força; Jana fechou a mão com toda sua força e deu um soco forte no nariz do cara. A música parou, abriu uma roda ao redor de Jana e Renan, as amigas foram para perto de Jana e Renan botou a mão em seu nariz, que estava sangrando. Heloisa gritou e disse que ele havia agarrado Jana a força. Alguns caras vieram e botaram Renan para fora da festa, contra a vontade dele. Ele só dizia: – Você vai me pagar, sua vadia louca! – Mas as amigas não estavam nem aí, voltaram a dançar e Jana foi tratada feito heroína por ter dado um soco na cara de Renan. Foi uma noite maravilhosa, cheia de selfies e momentos engraçados.

A festa havia acabado, Heloisa e Suelen pegaram um ônibus perto da boate e foram para casa, elas moravam no mesmo bairro, ali perto. Jana teve que andar mais um pouco, para pegar o seu ônibus. As meninas queriam acompanha-la, não custava nada. Mas Jana estava em êxtase, disse que não precisava. A rua estava cheia, ninguém faria nada com ela, caso contrário levaria um soco no nariz igual Renan. Ledo engano.

Ao chegar numa esquina bem vazia, Renan apareceu em seu carro cheio de amigos dentro. Devia ter uns 4 ou 5, Jana não lembra. Começou seu pesadelo aí.

– E ai, morena… Lembra de mim? aquele cara da balada que tu deu um soco… Lembra? – Disse Renan saindo do carro, com um curativo no nariz. Junto dele saíram os amigos e fizeram uma roda em volta de Jana.

– Me esquece cara, você que começou, me agarrou a força. – Disse Jana enquanto tentava atravessar a barreira de homens.

– Tá pensando que eu vou deixar você embora de boa depois do que tu fez comigo, garota? – Renan mudou o tom de voz, estava muito irritado.

– Não só está pensando, como vai. Me deixa em paz ou eu grito! – Jana tentou gritar, mas um dos caras pulou por trás da moça e agarrou. Tentou sufoca-la.

– Fica quietinha, garota, é melhor para você cooperar. – Disse o cara que estava segurando Jana.

– Bota ela no carro logo, quero brincar com esse corpinho lindo dela! – Um outro cara se aproximou de Jana e apertou um de seus seios. Uma lágrima caiu do olho da moça, ela sabia o que estava prestes a acontecer e apenas orou, ela desejou com todas as forças do universo que suas amigas estivessem ali para ajudá-la.

Um outro cara se aproximou e alisou suas partes intimas… Jana sentia tanto nojo daqueles homens. E a cada minuto que passava, eles ficavam alisando com mais intensidade seu corpo, botando a mão dentro de sua roupa. Ela estava desesperada e não conseguia gritar, apenas orava com muita fé.

Os caras estavam excitados demais e não terminariam o ato ali no meio da rua. Resolveram que iriam levar a menina para o apartamento de Renan. Começaram a arrastar Jana para o carro… até que… BUUUM! Ouviram um barulho de algo batendo na lixeira.

Era Heloisa com um pedaço de madeira gigante e mais quatro garotas com ela, além de Suelen. Todas armadas com um pedaço de madeira ou ferro.

– SOLTA ELA! SEUS BABACAS, OU VOCÊS VÃO APANHAR! E MUITO! – Disse Suelen, uma mulher negra, alta e forte. Ela era atleta, jogava no time de basquete do Flamengo.

O cara que estava segurando Jana pelos cabelos e tapando sua boca, soltou a moça rapidinho, era um covarde. Soltou a garota e correu. Mas Renan não ia deixar tudo tão fácil assim para aquelas garotas ridículas da favela.

– Tá maluca, garota? Vocês são tudo puta! Merecem ser tratadas assim! – Esbravejou Renan com ódio.

Surgiram mais meia dúzia de garotas do beco, foram chamadas via whatsapp.

– Quem é puta? – Disse Graciela, uma menina bem musculosa para a idade, ela era lutadora de MMA.

Os caras entraram no carro de Renan, gritando que havia “sujado a parada”. Renan não queria abaixar a cabeça para um “bando de mulher babaca”. Isso não ia ficar assim.

As mulheres que estavam armadas com pedaços de madeira avançaram para cima de Renan, que recuou e entrou no carro. Mas não conseguia dar a partida, tamanho o nervosismo.

As meninas se aproximaram, uma delas deu um pedaço de madeira para Jana, que gritou:

– Ninguém vai nos calar mais! – E partiu para cima de Renan, bem, do carro de Renan.

TODAS elas. Quebraram cada pedaço do carro, Renan só sabia gritar lá de dentro, todo encolhido na sua insignificância.

As meninas abraçaram Jana depois do ocorrido, enquanto Renan e seus amigos saíram do carro e foram correndo para a casa, ou sei lá onde. Aqueles nojentos não conseguiram fazer o que queriam com a moça, suas amigas de dentro do ônibus perceberam que Renan estava na esquina e desceram, ligaram para as amigas que moravam ali perto e logo juntaram o “bonde”.

Naquele dia uma menina-mulher escapou de ser violentada, por pura sorte, pela sorte de ter amigas protetoras e que viram os caras antes de acontecer o pior a sua amiga. O que não é a realidade das milhares de mulheres e meninas que são violentadas todos os dias no Brasil e no mundo.

Apesar de tudo isso, Jana não se calou. Jana não se encolheu, Jana não aceitou! Jana teve voz, Jana lutou. Jana acima de tudo é uma mulher e merece ser respeitada.

NÃO É NÃO!

Fim

5 comentários em “Morena

  1. Você se definitivamente se superou. Ficou lindo, profundo, perfeito, fantástico!
    Quantas mulheres não tem a mesma voz de Jana? E quantas ainda irão passar por isso?
    Acompanhar seu crescimento como escritora não é sorte e nem merecimento, é um prazer.
    Parabéns Morgana!!!
    Mais do que perfeito, maravilhoso

    Curtido por 1 pessoa

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