Rainha Fantasma

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Rainha Fantasma

Escrito por: Lua Morgana

Era mais um dia daqueles, terríveis. O reino passava por uma fase tensa, pois estavam em conflito com o Reino do Sul. Feline, a mais nova rainha, casada com o rei Nuno, todas as noites clamava, rezava pôr um fim para essa guerra. Feline era conhecida por ser misericordiosa com os pobres de seu reino, raramente concordava com punições, só em casos extremos. Sempre que podia ia pessoalmente levar alimento para a vila, que nessa época de guerra os alimentos eram escassos, ainda mais que uma parte das plantações fora tomada pelos inimigos. Seu povo a venerava por tamanha bondade, qualquer rainha em seu lugar se esconderia no seu castelo e os pobres que morressem de fome.

A nobreza, por outro lado, questionava as atitudes da jovem rainha, pois achavam que tirar deles e dar para os pobres, era uma facada no pé; um dia faltar-lhes-iam os alimentos, inclusive para a rainha. Feline dava de ombros, inclusive seu rei lhe apoiava. Não existia reino sem seus súditos, sem seu povo.

As batalhas estavam cada vez mais duras, o Reino do Sul obteve ajuda dos Reinos Baixos, oferecendo-lhes parte da terra dos Reinos do Norte assim que fosse tomado – inclusive o de Feline. Rei Nuno já não sabia mais o que fazer, com quem contar. Os Reinos do Norte tinham poucos soldados e já foram enviados para o campo de batalha. Estavam vindo mais alguns para batalhar, se eles não vencessem o que se chamava de a última batalha, seria impossível tentar mais uma vez. Não tinham mais tantos soldados, mais a quem recorrer, os alimentos estavam escassos, os animais estavam morrendo… Era realmente uma época das trevas.

Nuno foi chamado para a última batalha, Feline ficou extremamente preocupada, não queria perder seu rei, aquele que aprendeu a amar e confiar. Ela queria que tudo voltasse a ser como era antes… tinham problemas sim, mas era um período sem guerras, o reino prosperava. Até que foram alvo de cobiça, devido ao último achado em suas terras: minas de ouro.

Na última visita do rei Kibbert, Nuno inocentemente mostrou-lhe as minas de ouro, recém encontradas pelos seus desbravadores. Kibbert, como sempre interesseiro e oportunista, tirou todo o tipo de informação de Nuno e levou para seus aliados. Juntos, resolveram tomar o território do rei Nuno para roubarem seu ouro e enriquecerem ainda mais.

Nuno ficara decepcionado, nunca esperou isso de alguém, principalmente de um rei que ele considerava seu amigo e aliado. Não mais. Nuno agora se preparava para a guerra, a batalha decisiva. Ele preferia a morte, a ver seu reino sendo invadido por aqueles que só queriam extrair as riquezas de seu território e sacrificar seu povo para isso.

Era a última noite de Feline e Nuno juntos. Se amaram como se nunca mais fossem se ver, apesar de toda a agonia das batalhas, seus corpos se chocavam como dois famintos por amor, com sede de prazer.

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Logo ao amanhecer, Nuno se despediu de Feline, com lágrimas nos olhos. Ele sabia que aquela batalha seria terrível e, que, provavelmente, ele não voltaria a vê-la. A rainha deu-lhe um beijo e desejou-lhe sorte, porém já sabia o que iria fazer. Não ia deixar seu amado rei padecer nos campos de batalha, não deixaria seu povo morrer nas mãos dos usurpadores.

Assim que Nuno saiu de seu quarto, Feline correu para seu baú. Tirou todas suas roupas de cima e encontrou um fundo falso. Com um truque, conseguiu tirar o fundo e apareceu um livro com capa de madeira. Nele estava escrito: A Rainha Fantasma. Ela não pensou duas vezes e pegou o livro. Abraçou-lhe como se fosse um velho amigo… e era. Legado de sua mãe, a feiticeira Cyx. Feline jogou as coisas que estavam em sua penteadeira no chão e deitou o livro ali. Acendeu uma vela, pois ainda estava escuro, apesar de ser o começo da manhã. Folheou, folheou e chegou na página que precisava.

Aquele livro, antes de mais nada, era sobre a deusa Morrigan. Conhecida como deusa da guerra, das batalhas. Feline ficou encantada com tudo o que leu sobre a deusa em poucos minutos, era exatamente disso que eles precisavam. Ela não podia esperar mais, precisava fazer aquele ritual naquele momento, eles precisavam de Morrigan!

Nas instruções do ritual, Feline precisaria de um cálice de prata pura e um punhal de prata pura. Nesse cálice, deveria conter o sangue de um rei ou rainha, um sangue nobre. Para assim, obter ajuda de Morrigan, A Rainha Fantasma. Ela não pensou duas vezes e pegou os instrumentos que estavam junto no fundo falso do baú – “obrigada, mãe! ” – Pensou Feline.

Com o punhal fez um corte em sua mão, deixou o sangue escorrer até o cálice… com uma boa quantidade de sangue, misturou com o punhal e proferiu o encanto:

“Morrigan, antiga deusa da guerra

Aquela que possui três nomes

A que se transforma em corvo

Minhas preces precisam ser ouvidas.

Eu vejo o corvo voar

Procurando por uma guerra

Minhas batalhas terão fim

Morrigan intercederá por mim. ”

 

Ao terminar de proferir a última prece, o sangue começou a borbulhar no cálice… Corvos invadiram o quarto de Feline. Todos juntos, em sincronia, formaram um círculo no teto. Voavam livremente, por alguns minutos, até descerem em direção ao cálice, assumindo a forma da Deusa.

Feline chorava e segurava a mão firme de Morrigan, que estava parada ali, deslumbrante. Os longos cabelos negros da deusa caiam-lhe perfeitamente até a cintura, parecendo uma espécie de capa. Seu corpo era esculpido em músculos, totalmente perfeito. Sua pele translúcida… Feline não podia acreditar, era mágico! Morrigan, a Rainha Fantasma ouviu suas preces, veio até ela! Ela logo se apressou para dizer, antes que a deusa sumisse:

– Minha amada deusa! Sei o quão és ocupada, sou apenas uma mortal, uma jovem rainha que clama por justiça! Meu povo está morrendo de fome, meus soldados estão sendo massacrados em campo de batalha, precisamos da sua ajuda! Da sua sabedoria! – Disse Feline segura, olhando nos olhos da deusa, que eram de um negro profundo, tal qual a noite mais escura.

– Querida Feline, não temas. Estou aqui para lhe ajudar. Sua prece é tão antiga, lembrou-me os velhos tempos, onde os deuses eram mais importantes… digamos assim. – Gesticulava a deusa, andando de um lado para o outro no quarto da rainha. –  onde há guerras, lá estou. Principalmente quando envolve amor. Seu amor por Nuno me fez vir até aqui. Amor e Guerra! Tudo o que mais adoro na vida! – Disse a deusa, animada.

Feline ficava encantada com cada palavra da deusa, tão diferente do que ela imaginava.

– Partirei, jovem Feline. Mais uma vez, não temas. Eu sou invencível, sem modéstia. Teu reino terá paz. Adeus!

A deusa transformou-se em um enorme corvo e atravessou a parede do quarto de Feline. A Rainha Fantasma, fez jus ao seu nome.

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No campo de batalha, o exército de Nuno estava morrendo. Sobravam-lhes apenas alguns arqueiros… Nuno estava preparado para a morte. Até que sentiu um corvo pousando em seu ombro. E dando uma enorme grasnada.

Nuno sentiu-se revigorado, era como se tivesse super força. Sua espada, antes pequena e dourada, transformou-se em uma espada de prata pura e cravejada de cristais. Gigantesca, que se não fosse sua força sobre-humana, jamais conseguiria segura-la.

Derrotou cada soldado inimigo com uma brandida da espada. A cada golpe, o sangue inimigo jorrava, cabeças voavam. A espada cortava facilmente a carne dos inimigos, inclusive seus ossos. Nuno deliciava-se com aquela batalha. Um homem só, com um corvo sobrevoando-o, derrotando um exército inteiro. A cada homem inimigo morto, o corvo grasnava cada vez mais alto, algo parecido com uma risada… a deusa estava em êxtase.

Não sobrou nenhum inimigo para contar história. Nuno, o invencível, obteve esse nome depois daquela épica batalha. A deusa não apareceu para ele. Mas Feline sabia! Sabia que Morrigan salvou seu reino, salvou seu povo! Principalmente, salvou seu grande amor, que agora era o herói de todos os reinos, inclusive dos Reinos do Sul.

Aquela batalha realmente fora a última de sua vida. Após todo aquele combate, os reinos que agora estavam sob o comando do Rei Nuno, o invencível, prosperavam. Feline agradecia, a cada passo novo dado, cada batalha conquistada, cada obstáculo vencido, à deusa Morrigan.

Morrigan agora tinha um dia especial do Seu Nome durante o reinado de Feline. As grandes mulheres do reino faziam oferendas à deusa. A Rainha Fantasma grasnava feito um corvo, e as mulheres dançavam, festejavam! À deusa Morrigan tudo deviam: a fertilidade, o amor, as batalhas vencidas com louvor. Para a deusa Morrigan a morte era um novo começo. E aquelas mulheres, nem mesmo a morte temiam mais.

À Morrigan, a Rainha Fantasma.

 

Fim

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