O Navio da Morte no Mar do Sul

Por Lillithy Orleander

 

Ourang-Medan-2

-No compartimento 4 ninguém entra, ouviu bem? Ninguém entra. – disse o homem com várias medalhas no peito ao Capitão Mors.

O resto da carga havia sido carregada, e a tripulação hoje parecia mais eufórica do que de costume, já eu me sentia apreensivo. Um mau presságio me rondava desde que amanhecerá o dia, sussurrando em meus ouvidos: Você não voltará dessa viagem!

Inalei o ar naquela manhã como se fosse a última vez. Tinha cheiro de tabaco, maresia e terra molhada.

O porto era simples, praticamente desativado, o homem que acabará de falar á meu Capitão pedirá sigilo sobre tal transporte, então mantivemos os registros em branco, sem vestígios de nossa existência, já havíamos feito isso tantas vezes que nenhum de nós se opôs.

Nossa provisões eram precárias e teríamos que nos contentar com carne salgada, peixe, água e rum, nada de mordomias, mas seria, poucos dias de viagem e não faria diferença, estar no Ourang ou não.

Sam ganiu ao meu lado e eu lhe sorri, passando a mão entre suas orelhas, Sam era um Pastor Alemão que parecia á tudo sentir, e naquele momento ele sentia minha inquietação.

-Yohann? – era Gilbert. Um mulato  de dentes muito brancos que se juntará a nós no porto de Gilbratar.

Perderá tudo no mar, filhos, esposa e a mãe, e disse que naquele instante teve sorte por ter enganado a morte, mas nunca nos contou por que, só parava por horas e admirava o oceano vasto com tristeza.

-Estamos prontos. – disse ele sorrindo e soltando as amarras, já virando – se para gritar pelo Capitão, que agora se despedia do distinto homem.

A máscara de agonia e pânico tomava a face de ambos, havia algo errado, Philiph parecia preocupado, acendeu o charuto e olhou pensativo para o navio, aproximou – se do Ourang e lhe deu um tapinha no casco de leve.

-Nervoso Yohann? – me perguntou ele fugindo dos próprios devaneios.

Philiph Mors tinha olhos claros e uma barba espessa que começará a esbranquiçar e estava sempre por fazer. As rugas formavam linhas bem definidas ao redor dos olhos e ainda sim, de um modo estranho, em nada ele aparentava ter os 65 anos que lhe caiam sobre os ombros.

As mãos cheias de calos foram observadas e deixadas cair ao lado do corpo, como alguém que carregava um pesado fardo. Mors sempre seria o jovem aventureiro que conheci quando tinha 30 anos.

-Não, meu Capitão, é só um mal estar passageiro. Coisas da idade. – respondi.

-E desde quando velhos lobos dos mares como nós tem mal estar, Yohann? – me perguntou voltando a sorrir, mas os olhos ainda mantinham a expressão vazia. Soltou uma baforada de fumaça no ar e começou a subir a rampa.

Sam latiu e correu ao encalço de Phil, fazendo festa para o capitão, coloquei minhas mãos, que estavam frias, no bolso e segui Philiph.

As noites caiam rápido e nem frio parecíamos sentir, alguns de nós repousavam, enquanto outros, assim como eu, caminhávamos no convés apreciando a luz do luar, que estava estranhamente sombria e ao mesmo tempo bela, estávamos hipnotizados.

O mar estava calmo e singrávamos o oceano sem feri – lo, transformando nossa passagem em suaves marolas.

Cap. Mors, Philiph, ainda traçava a rota ao lado do navegador, enquanto Will tomava meu lugar na cabine passando as coordenadas e o clima para navios próximos, o que hoje parecia estar impossível, já que mesmo sem tormenta, não havia sinal nos rádios.

-Morrigan? – me chamou Will.

-Sim? – o que será que ele havia quebrado dessa vez.

Will era órfão e depois de passar muita fome na rua nos encontrou em um bar e pediu abrigo em troca de serviço. Ele ainda era um menino, 17 anos, aprendia rápido mas sempre quebrava algo.

Adentrei a cabine e não vi nada de errado.

-Me diga Will, o que está acontecendo? – Will estava com os olhos arregalados.

-Olha. – e apontou para o rádio. – Não tem sinal de nenhum navio nas redondezas.

-Ah Willian, isso acontece as vezes.

-Eu sei Morrigan, mas dessa vez é diferente. Tinham dois cargueiros á noroeste num ângulo de 90° á exatos cinco minutos e do nada eles sumiram sem deixar rastros, eles responderam a última mensagem para receber as informações do clima e repassar as de si próprios e sumiram.

Um chiado persistia continuamente como se algo tentasse contato pelo rádio…

-SS Ourang na escuta.- tomei o aparelho da mão de Will a tempo de ouvir o sussurro que me fez tremer.

-Estou aqui… – eram muitas vozes aos mesmo tempo, tentei desesperadamente encontrar outras frequências, mas a voz persistia, o que fez com que eu jogasse o aparelho longe e me afastasse.

Mandei Willian chamar Mors e desci até onde outros tripulantes dormiam, e notei que a porta do depósito número quatro estava entreaberta, uma névoa gélida saiu e pareceu passar por mim em direção aos dormitórios.

O medo fervilhava em mim, mas a vontade de saber que os outros estavam bem e que aquilo era somente efeito do rum que eu havia bebido horas antes era maior.

As luzes do depósito se apagaram exceto a do compartimento quatro, o arrepio me subiu a espinha e minhas pernas pararam de me responder.

Aquele frio parecia queimar meus ossos e nas paredes, agora, era possível sentir uma fina camada de gelo se formar, a névoa se tornará espessa  e parecia estar na altura de meus pés.

Quando entrei nos quartos tudo estava calmo, e meus companheiros pareciam dormir,mas o ar estava pesado, comecei a passar de cama em cama e me deparei com o mesmo quadro, em nenhum deles havia pulsação.

Estavam morto, cada um deles, mortos. Eu me encostei em uma das paredes e senti me faltar o ar, foi quando eu a vi.

A sombra escura e disforme parou diante de meus olhos e então pude ver os seus. Vermelhos como o sangue e diabólicos á  me analisarem, ela então abandonou – me e seguiu pelo corredor como se procurasse algo, lenta e suavemente…

-Estou aqui. – a voz soou gélida aos meus ouvidos, como o metal, era a voz do rádio, ecoando por todo corredor, eu caia sentado ao lado da porta aberta, paralisado e sem reação alguma.

Os gritos ganharam força e me despertaram da letargia, os latidos de Sam me fizeram correr. Subi as escadas pulando degraus, mas havia alguma coisa que não queria me deixar prosseguir, eu resisti e venci cada parte daquela força que me puxava pra baixo.

Encontrei companheiros meus, olhando para o alto, amedrontados e com a expressão de agonia, pânico e desespero estampados em suas faces, sua pele pálida, estava petrificada. Aquilo os cercava e roubava – lhes o ar, ganhava formas horrendas e inimagináveis que nem em meus piores pesadelos eu havia visto.

-Yohann! – gritou Willian. – vamos morrer!

A sombra escura jogou – se sobre Will, e era como ver uma serpente enorme subir do mar e engoli – lo. Will só teve tempo de colocar a mão acima do rosto, como quem tenta se defender, para logo em seguida estar como os demais. Morto.

Philiph Mors, o capitão do Ourang estava diante de meus olhos no que parecia ser uma representação macabra de enforcamento. Em um dos mastros podia – se ver a sombra escura tornar – se uma corda e enrolar – se no pescoço de Phil, eu corria e gritava, desviando dos corpos que caiam e das expressões repetidas, mas ele parecia hipnotizado e deixou – se morrer.

Os olhos estavam esbugalhados, como se fossem cair aos meus pés, como pequenas bolas,  sangue parecia escorrer em seu rosto e agora ele se dava conta do que acontecia, seu corpo esperneava no ar e suas mãos tentavam arrancar do pescoço aquela coisa.

Phil parou de se mexer e suas mãos caíram ao lado do corpo, o que o segurava soltou – o, o corpo dele agora era um peso morto, jogado aos meus pés, lívido e limpo como se nenhuma gota de seu sangue houvesse caído no solo, a única coisa que ali jazia, era o medo espelhado na face do Cap. Mors…

Nós precisávamos de ajuda, fui até a cabine do rádio e no caminho encontrei Sam, morto ao lado de Gilbert, aquele que enganará a morte, tranquei a porta e tentei encontrar uma frequência para iniciar o SOS e encontrar alguém que pudesse  nos socorrer.

-Estou aqui. – a voz agora era grave e parecia irritada com minha tentativa, mas eu não podia desistir, era minha única chance.

-SS Ourang Medan, alguém na escuta? A tripulação está morta, inclusive o capitão. Alguém na escuta? – minha voz soou sufocada, como se algo ou alguém tentasse me estrangular.

-SV Santa Cecília na escuta, nos informe as coordenadas.- respondeu a voz do outro lado.

Eu não conseguia falar e tentei enviar a mensagem por código Morse, mas as palavras até para mim pareciam indistintas, minha visão estava turva e o frio subia a minha espinha, a sala começara a ficar gélida e as paredes estavam formando camadas de gelo.

-SS Ourang Medan na escuta? Aqui SV Santa Cecília, nos passe as coordenadas.

-Eu… Estou… Morto…

Eu sabia – me morto e me vi deitado sobre o rádio, éramos almas agora, almas presas no estreito de Malacca. Amaldiçoadas, foi o que o sussurro preso nas paredes do navio disse.

A forma escura ganhou um corpo de pele lisa e ensanguentada, girava a cabeça como se tentasse coloca – lá no lugar, meus companheiros tinham as faces rasgadas, faltavam braços, pernas e olhos, de Gilbert restará apenas um lado da face, como se óleo fervente tivesse cozinhado á outra metade.

A criatura agora tinha olhos amarelos e tufos de cabelo saiam de sua cabeça, que era adornada por muitos chifres, os pés virados para trás, os dentes pontiagudos estavam podres e a língua cumprida os lambia, deleitando – se com os gemidos de dor que muitos de nós deixava escapar.

-Suas almas foram vendidas e agora elas vão vagar, a minha mercê, sobre minhas torturas para trazer outros até mim.

Ele gargalhou e eu senti a dor me partir ao meio, eu sabia que não voltaria com vida…

*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*

-SV Santa Cecília encontramos o Ourang Medan, e estamos passando as coordenadas adiante. Aparentemente não há tripulação no navio.

-Capitão o que faremos?- perguntou o navegador.

-Vamos descer e procurar por feridos. – disse o homem olhando para o navio com as duas mãos para trás.

O capitão escolheu seus melhores homens e aportou no navio, mal desceram e tiveram vontade de voltar para trás.

Havia corpos espalhados por todo o convés com feições apavoradas e olhares assustados, estavam congelados.

-Mas que frio é esse? Parece que estamos no meio do Inverno. – disse um dos marinheiros que já estava mais adiante no navio.

Eles continuaram adentrando o navio e encontraram mais corpos, no meio das escadas, próximos ao depósito, e outros deitados como se dormissem. Tentaram balançar – los para ver se alguém se mexia, mas parecia estar colados ao casco do navio.

-Esse lugar cheira a morte, vamos sair daqui. Seja lá o que for ninguém sobreviveu. – disse o marinheiro que estava próximo a porta.

E foi o que fizeram.

Na cabine, que encontraram trancada e tiveram que arrombar, encontraram um homem morto, ainda com a mão sobre o rádio.

-Capitão, não há sobrevivente no navio, até mesmo o cachorro que encontramos está morto.

-Vamos rebocar o navio e deixar que as famílias enterrerem seus mortos. E quanto a carga?

-Um dos compartimentos foi impossível abrir, o número quatro, senhor, parece lacrado, mas o resto é somente suprimento.

As amarras foram lançadas e o SV Santa Cecília iniciou o seu resgate, mas teve sua ação impedida por alguma coisa que parecia prender as hélices.

-Capitão! Capitão! Venha depressa. – disse o imediato e qual não foi seu espanto ao sair e ouvir o gritos e pedidos de socorro que partiam do Ourang.

A tripulação fantasmagórica corria de um lado á outro sendo dilacerada enquanto em um dos mastros o capitão se jogava e se debatia. Todos pararam para olhar assombrados tal visão e com ela veio o frio tenebroso e em seguida a explosão que erguia o navio e o fazia ser tragado pelo mar, agora revolto.

-Soltem as amarras! – gritou o capitão. – Rápido seu bando de lesmas, ou seremos nós, tragados juntos á essa maldição. Virar a estibordo, com toda força!

Na popa do navio, a sombra escura preparava – se para ir em direção ao Santa Cecília, parou ao lado do capitão e colou – se ao seu ouvido.

-Estou aqui…

O capitão ainda olhou para os lados mas nada avistou…

FIM.

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*N.A: O Ourang Medan nunca foi encontrado e não possui registros de que realmente provem essa viagem , existe a hipótese de que ele carregava de fato algo muito perigoso no compartimento número quatro e que viajava clandestino para Sumatra.

O navio denominado de SV Santa Cecilia, veio a mudar de nome anos depois e passou a se chamar Silver Star, a dona desse navio, Miss Grace nunca deu mais explicações sobre esse evento e também não permitiu que sua tripulação fosse encontrada para contar o que acontecerá naquela noite.

 

4 comentários em “O Navio da Morte no Mar do Sul

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