Viagem sem Fim

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Viagem sem Fim

Escrito por: Lua Morgana

Aquela viagem chegou em um momento oportuno na vida de Mei. Ela não aguentava mais ouvir cobranças de seus familiares sobre casamento e filhos. Ela decidiu que sua vida seria somente para si, seu trabalho e suas viagens. Porém, sua família totalmente tradicional, era contra essa decisão e, sempre que podiam, perturbavam-na por causa dessa escolha.

Mei tomou essa decisão depois de ter passado
por um relacionamento abusivo, no qual seu namorado queria de todo jeito ter relações com ela, mesmo não esperando seu tempo. Em sua cabeça, ela só faria sexo depois de casada. E ele simplesmente não aceitava. Depois de tudo que ela lutou, depois de toda a tristeza que ela superou, decidiu que não passaria mais por isso. Então, mesmo que contra todos os seus sonhos de menina de casar e ser mãe, Mei perdeu a fé em toda essa história de contos de fadas e felizes para sempre, resolvendo que seria só ela e mais ninguém.

Depois de se formar no colegial, conseguiu fazer uma faculdade e uma pós-graduação, que renderam bons frutos. Ela conseguiu ingressar em uma empresa muito importante na cidade. Conquistou o cargo de vice-presidente por mérito, seu carisma e eloquência a colocaram em um pedestal, todos os funcionários da empresa gostavam dela, pois ela não precisava humilhar ninguém para demonstrar que tinha poder.

Quase sempre ela tinha que sair da cidade para divulgar a marca da sua empresa, ir a convenções, reuniões… ela era uma pessoa muito importante, como ela sempre sonhou em ser.

A próxima viagem marcada era para Londres, bem na época das datas comemorativas de final de ano – Graças a deus! – Pensou Mei. Pois nessa época eram piores as cobranças e perguntas acerca da sua pseudo família. Não pensou duas vezes para aceitar a oportunidade de sair daquele inferno de familiares, para uns era legal, maravilhoso. Para ela, essas festas não passavam de pura hipocrisia.

Ao pegar o avião, sentiu uma pequena pontada de alegria, mal esperava chegar a Londres! Ela adorava aquela cidade, aquele clima. Fez reserva num dos melhores hotéis da cidade, ela apreciava o conforto. O luxo era mera consequência, mas o conforto era primordial. A viagem de avião foi tranquila. O aeroporto estava cheio, mas as pessoas eram calmas, não corriam de um lado para o outro, do jeito que Mei gostava, tudo sereno. Pegou o Táxi, foi para o hotel, que era no coração da cidade, perto dos pontos turísticos e em um lugar bastante movimentado.

O hall do hotel era maravilhoso… era espaçoso, com pintura em tons de dourado, várias poltronas com estilo da Era Vitoriana espalhadas estrategicamente pelo local. Um lustre de cristais ficava ornamentando um teto com pé direito alto, todo pintado à mão, com figuras que pareciam anjos no céu. Estupidamente maravilhoso!

– Olá, senhora. Seja bem-vinda! Já possuí reserva?- Perguntou a recepcionista, com um largo sorriso perfeito no rosto.

– Bom dia, possuo sim. Meu nome é Mei Tatsuo. – Ela entregou alguns documentos para a recepcionista fazer o cadastro.

– O cadastro já está feito, seja bem-vinda ao Palace Hotel, espero que desfrute da estadia. Seu cartão magnético para abrir a porta – A recepcionista entregou-lhe – sua suíte é no 13º andar, número 135.

– Obrigada, querida, tenha um bom dia. – Mei retribuiu o sorriso, estava ansiosa para chegar ao seu quarto e tomar um belo chá.

Ao chegar em seu quarto deparou-se com um lugar extremamente aconchegante, era mais do que ela imaginara a viagem toda. A cama tinha um dossel com longos tecidos em seda. Em tons de roxo. Ela não se conteve e se jogou ali mesmo. Era tão macia, que Mei parecia ser engolida pelo colchão e cobertas. Essa era a recompensa por tanto trabalho duro, aquele lindo hotel, aquela linda cidade e magnifica vista. Bem longe de todos os questionamentos e lembranças doloridas.

A reunião estava marcada para o fim de semana, Mei resolveu que iria uns dias antes para apreciar a cidade – e fugir das festas. Era dia 23 de dezembro, faltava pouco para o natal. Ela o comemoraria em uma festa que fora convidada, por um novo sócio. Ele sabia que Mei estaria sozinha na cidade e não a deixaria passar as festas sozinha em um hotel. Ela aceitou, não poderia recusar um convite vindo de um sócio tão importante.

Lucius era um milionário de Londres, sempre que podia, se associava a empresas novas e prosperas, para aumentar ainda mais sua fortuna. Um homem de meia idade, que gostava de dar festas, casado com uma mulher linda, chamada Zara.

Chegado o dia da festa, Mei se aprontou, colocou o melhor vestido de sua mala. Um vestido de seda vermelho bem desenhado em seu corpo. Colocou junto com um colar de diamantes que ganhara de seu pai quando se formara. Ela adorava aquele colar. Chamou um táxi pelo Ipad do quarto… quanta tecnologia, era simplesmente incrível.

Ao chegar no hall do hotel, estava distraída consertando seu brinco que havia enroscado em seus cabelos, acabou dando um encontrão em um homem muito alto e forte, que parecia nem ter notado que tivera batido em alguém. Mei se desculpou e homem olhou para trás dando um sorriso forçado. Era bastante estranho, ela sentiu um calafrio.

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A festa de natal foi simplesmente incrível! Totalmente diferente de todas as festas que Mei já tinha ido. A casa era luxuosa, o banquete era farto e diversificado, tinha comida para todos os gostos e bebidas também. Os anfitriões eram espetaculares. Mei ficou super a vontade, até demais. Bebeu um pouco além do que deveria, mas manteve a postura, só ficou um pouco mais solta. Conversou, riu, conheceu novas pessoas, até flertou.

No final da festa, Mei pediu um táxi e foi para o hotel, certa de que no novo negócio daria muito certo. A noite fora ótima, ela pegou alguns telefones, e uma mulher em especial chamou sua atenção. O nome dela era Úrsula.

Úrsula demonstrou demasiada preocupação quando soube que Mei voltaria sozinha para aquele hotel, naquela data específica. Fez de tudo para que Mei ficasse mais na festa e até dormisse lá na casa do novo sócio, porém Mei sempre gostou de dormir sozinha e ter um tempo para pensar em tudo que aconteceu no dia, fazer anotações. Como elas acabaram de se conhecer, Úrsula não conseguiu convence-la do contrário. Ainda mais convencer a Mei, que era a teimosia em pessoa.

Ao chegar no hotel, Mei notou que estava tudo muito quieto. Ela saiu do táxi, pagou e notou que o taxista saiu bem apressado com o táxi, como se tivesse com pressa ou com medo, foi estranho. Todavia, ela estava animada demais para ligar para gente doida. Era natal, todos estavam em suas casas, com suas famílias – pensou.

O hall do hotel estava vazio, só a recepcionista estava lá. Mesmo assim, parecia que ela não estava, seus olhos estavam vazios, como se ela fosse uma máquina para responder apenas o perguntado, e mais nada. Mei desejou feliz natal e logo se retirou para pegar o elevador e ir direto para seu quarto.

Estava tudo assustadoramente quieto. Ninguém andando pelo hotel, só Mei. A sua ida para o quarto parecia que demorou uma eternidade, mas enfim ela chegou. Nenhum ruído, nenhum falatório, era tudo horrivelmente solitário. Nesse momento ela desejou estar em casa cercada pela comida quentinha de sua mãe e do falatório de sua família. Até que ouviu passos no corredor, como se fossem várias pessoas indo em uma direção.

Mei, curiosa, foi olhar pelo olho mágico do quarto… maldita hora que ela foi olhar! Vários homens, pareciam centenas deles, iam em uma direção com uma túnica preta. Sem nem olhar para os lados. Ela quase caiu para trás tamanho o susto. Ninguém a viu, sorte. Porém, ela não conseguia imaginar o que esses homens estariam fazendo ali, àquela hora e vestidos daquele jeito. Ela só conseguia pensar em uma coisa: PRECISO SAIR DAQUI IMEDIATAMENTE.

Tinha algo errado, muito errado. Aquele silêncio, o taxista fugindo, a recepcionista estranhamente quieta os homens de preto, algo ruim iria acontecer aquela noite.

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Ela pegou apenas sua maleta de mão, colocou os documentos, dinheiro e produtos de higiene pessoal. Só deu para pegar isso, ela queria fugir dali o mais rápido possível. Antes de abrir a porta do quarto, ela se certificou que não teria ninguém no corredor e não tinha.

Ela correu direto para o elevador, que estava parado naquele andar ainda… Mei entrou e apertou todos os botões possíveis e o elevador não se mexia e não fechava as portas. Ela ouvia passos apressados lá fora e seu coração parecia que ia explodir de tanto medo que ela estava sentindo. A única opção naquele momento seria descer as escadas, que ficavam no final do corredor, lado oposto de onde ela estava escutando os passos. Era sua única saída. Mei respirou fundo, tirou os saltos e correu apressadamente em direção as escadas. Mas algo corria atrás dela e era muito rápido, até que ela ouviu seu nome e parou.

– MEI! PARE POR FAVOR.

Ela parou instintivamente e olhou para traz:

– Mei, lembra de mim? Sou eu, a Úrsula.

Mei reconheceria aquele sorriso em qualquer lugar.

– Sim, claro que sim. Graças ao bom deus você está aqui! – Mei foi a direção dela e deu um abraço.

– Eu estou aqui para te ajudar, você está no lugar errado e na hora errada, pelo amor de deus, vamos embora daqui. O elevador de funcionários está funcionando. Precisamos ir embora daqui antes das 3:00hrs da manhã.

– Como assim? Você pode me dizer o que está havendo? – Mei estava assustada, de verdade.

– Não posso, agora não temos tempo. São 2:55. Temos 5 minutos para deixar o hotel! – Úrsula puxou Mei pelo braço e correu em direção do elevador.

Por sorte o elevador ainda estava funcionando e elas conseguiram chegar ao hall do hotel. Ao saírem do elevador as luzes se apagaram e começou uma estranha sinfonia, aterrorizante.

Eram 2:59 quando Mei olhou para o relógio central, elas tinham um minuto para cruzar a porta, ou sei lá o que aconteceria, Mei não queria esperar para ver.

Milagrosamente elas conseguiram sair do hotel, assim que botaram os pés para fora, uma enorme grade caiu em frente a porta, fechando-a completamente.

– Pelo amor de deus, Úrsula, não consigo acreditar! O que está havendo? O que eram aqueles homens? – Indagou Mei, curiosa e assustada.

– Mei… Vamos para minha casa, eu te explico e lá você estará segura. Tivemos sorte, muita sorte de conseguir sair de lá. Agora eles estão presos até as 6hrs da manhã. Não poderão vir atrás de você. Se eu não tivesse vindo e te avisado…

Elas foram para a casa de Úrsula, Mei estava em estado de choque. Parecia que algo muito maligno estava atrás dela naquela noite e naquele hotel, mas ela não fazia ideia.

– Agora você pode me explicar, por favor? Não consigo pensar em nada… – Mei se acomodou em uma poltrona macia, em frente a lareira, na sala espaçosa de Úrsula, que ficava no bairro residencial da cidade.

– Então… Bom… você precisa acreditar em tudo que vou dizer, pois eu nunca mentiria para você! – Úrsula olhou Mei nos olhos.

– Diga-me, por favor! Estou assustada demais! – Mei assentiu com a cabeça.

– Mei, nos conhecemos há muito tempo. E todas as vezes que te conheci, te perdi. Dessa vez consegui quebrar o ciclo e consegui te localizar a tempo. – Úrsula fez uma pausa.

Mei assentia, mesmo confusa.

– Sabe o motivo de você não se “encaixar” com ninguém? Sou eu. – Úrsula se aproximava de Mei, a medida que falava. – Eu te conheço de muitas vidas, Mei. Em cada vida, você é de uma nacionalidade diferente. Antigamente era quase impossível de localizar alguém. Hoje, com toda essa tecnologia, está muito mais fácil! Eu te achei a tempo de ninguém me separar de você de novo! – Ela olhava para Mei, buscando alguma centelha de memória que ela pudesse ter. Sem sucesso, continuou. – Esses caras que você viu, são seus assassinos há séculos. A cada 25 anos, eles precisam sacrificar 13 mulheres virgens.

Mei corou.

– E todas elas voltam a vida para serem sacrificadas daqui a 25 anos de novo. Elas são atraídas para algum lugar específico da Ordem por qualquer motivo, e sempre somem do mapa, sem deixar pistas. Elas são solitárias e muitas vezes ninguém dá falta. Mas você tem a mim! E eu tô há muitos séculos atrás de você, procurando por você… – Úrsula pegou as mãos de Mei. – Dessa vez ninguém conseguiu separar nós duas, meu amor. Eu consegui quebrar o ciclo! – Disse Úrsula com um enorme sorriso.

Mei sentiu uma imensa vontade de beijar Úrsula. O beijo foi intenso e romântico, como se elas ansiassem por aquilo durante anos, séculos. Todas as memórias de vidas passadas de Mei vieram à tona. Ela lembrou-se de Úrsula, de diversos jeitos. Lembrou-se dos diversos rostos que tivera, das diversas vezes que morria. Mas aquele beijo era único, ela era sua alma gêmea e enfim, poderiam ficar juntas.

Por algum motivo inexplicável a lareira da casa de Úrsula explodiu, colocando fogo no apartamento inteiro. E não sobrou nada das duas… apenas suas almas. As duas almas separadas durante tantos séculos se juntaram formando apenas uma. Úrsula ansiava por esse momento há muito tempo; Mei não sabia de nada até aquela estranha noite de natal, mas assim que os seus lábios tocaram os daquela mulher.

Agora aquelas duas almas estavam em paz; quebraram um ciclo de sofrimento e solidão, que durou séculos e mais séculos. Mei (sempre aos 25 anos, no dia 25 de dezembro) era sacrificada por uma Ordem. Essa Ordem sacrificava 13 mulheres, sempre as mesmas, que iam e vinham. Para ninguém sentir falta ou desconfiar. Eles queriam ter controle sobre o dinheiro e poder, para isso precisavam fazer sacrifícios para determinados seres. Porém, o acaso colocou Úrsula na vida de Mei, quebrando o ciclo; libertando aquelas mulheres.

Aquela noite teve um fim diferente… com uma mulher a menos, não poderiam colocar em prática o ritual, perdendo, assim, toda sua totalidade. As almas daquelas mulheres agora estavam livres para todo o sempre.

 

FIM

6 comentários em “Viagem sem Fim

  1. Chorei aqui, Morgana… quando a gente encontra a pessoa que amamos de outras vidas, realmente o sentimento é uma explosão. Acho que finalmente essas duas almas descansaram e não vão precisar voltar por um bom tempo, só aproveitando as flores do lado de lá ❤

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