Javé – De guerreiro a Deus

 

 

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Escrito por Naiane Nara

O rapaz era uma divindade jovem, dos desertos do Sul. Com poucos súditos, recém saídos de um longo período de escravidão, chegaram as minhas terras, ao meu Reino, a bela Canaã.

Estávamos bem estabelecidos, um panteão forte e seguro sob meu comando e o de El, o Altíssimo. Meu filho Baal os trouxe e segundo as leis de hospitalidade, acomodamos o jovem Deus nômade. Nosso povo seguiu nosso exemplo e acolheu os poucos súditos que ele trouxe consigo.

Javé, como disse se chamar, se mostrou cuidadoso e político. Depois de olhar bem tudo que eu, como Senhora de tudo que é fértil, trouxe a Canaã, expressou seu desejo de fixar residência. Na Assembléia dos Deuses, discutimos o assunto. Ele jurou-nos lealdade, a El e a mim como seu Rei e Rainha, e a Baal como sucessor do Altíssimo.

Sob estas condições, na Assembléia dos Deuses, o aceitamos. E Javé passou a ser um de nós. Com o passar do tempo, tornou-se companheiro de meu filho e principal guerreiro de meu marido El, chegando mesmo ao posto de seu general adorado.

Charmoso, persistente e político, Javé conquistou seu lugar entre nós com confiança e façanhas de guerra. Muitos títulos lhe foram dados, entre eles, o que mais se apegou foi o de Senhor dos Exércitos. Seus súditos o adoravam com fervor, pois os livrara da escravidão, mas, como não podia deixar de ser, volveram seus olhos para nós, Deuses da terra que os recebera.

Foi então que a guerra começou. Argumentamos, conversamos. Na Assembléia dos Deuses, Javé se mostrou irredutível e teve a ousadia de nos ameaçar:

– Sois Deuses, sois todos filhos do Altíssimo. Porém, morrerão como qualquer homem.

Anat, a feroz Deusa do amor, fez uso de suas armas no Salão mesmo. Atacou Javé imediatamente e eu também me juntei a ela, como aquele rapaz poderia sonhar que ousava conosco?

Diante de nossa fúria, ele teve que recuar. Lembro até hoje de Seu olhar furioso para mim antes de se retirar do Salão Celestial, como a dizer: “você vai pagar”.

E pelos céus, pagaríamos todos.

El, meu esposo, estava cansado. Queria a paz que prometera a seus seguidores e que tornou-se impossível desde então.

Eu só recuaria diante do pedido de perdão humilde de Javé. Sou a Senhora de tudo que é fértil, não aceitaria ameaças de um jovem ousado como este.

Então recebemos uma série de presentes. Aceitei uma audiência com o confiante, mas ele se dirigiu o tempo todo a El, e quando menos esperamos, o Rei, o Altíssimo se entregou e jurou que não lutaria contra ele. Javé jurou de volta que seus seguidores agora tornavam-se os seus e os defenderia a qualquer custo.

El acariciou-nos antes de partir e deixar o trono vazio. Eu nunca o perdoei por isto. Baal ainda não estava preparado para reinar e Javé era uma ameaça constante, ambicioso demais.

Tendo voltado ao nosso convívio, a ambição de Javé não tinha limites. Fiz o que estava ao meu alcance para proteger a herança de meu filho. Quando todos os recursos falharam e a guerra consumia muitos dos seguidores de ambos os lados, chamei a impetuosa Anat a minha presença.

– Minha querida, vistes o que esta guerra nos tem causado. Venho pedir o seu favor. Que seu poder traga o guerreiro insaciável até mim. Poderei mantê-lo por perto e assim controlá-lo melhor.

Ela encarou-me com terror indizível no olhar:

– Minha grandiosa Aserah, tens a certeza do que desejas? Ele não se contentará com o que deres a ele. Sempre quererá mais. Vamos derrotá-lo sem isso.

Eu já estava impaciente, mas suspirei para não deixar transparecer meu cansaço e toquei-lhe os ombros macios.

– Confia em mim, graciosa Anat?

Ela permaneceu parada e unimos o nosso poder. Desde então, dormi com o inimigo e ele foi coroado Rei dos Céus, assumindo todos os títulos de El. Javé agora era o Altíssimo, o Todo Poderoso.

Isso o agradou sobremaneira e findou a guerra no meio físico, ficando rastros dela apenas por meios muito sutis.

Eu consegui minha trégua e fiz meu melhor para preparar Baal para reinar e derrotar o usurpador ambicioso.

Mas Javé também fez progressos. Derrotou Yamm, o Senhor das Águas Salgadas, nosso inimigo ancestral, e treinava com afinco superior pra derrotar Mot, a Senhora Morte.

Tarefas que cabiam ao herdeiro do trono e que meu filho já havia cumprido com louvor.

Orações e pedidos nos obrigaram a olhar para a terra e vimos nossos seguidores pedindo ajuda militar. Javé sempre os deixava quando em seu zelo eles adoravam mais a mim e a Baal do que ele.

Eu de boa vontade os ajudei e Javé lutou diretamente contra mim para que nosso povo fosse derrotado. Divididos, ganhamos e perdemos.  Uma das grandes nações sob nosso comando foi dividida em duas, Israel e Judá.  Israel, composta por dez tribos, foi enviada ao exílio e a escravidão. Judá permaneceu, mas desesperada pelo medo voltaram-se para Javé.

Meus altares ficaram vazios e foram destruídos pelos sacerdotes dele. Seus guerreiros e magos lutavam sempre que podiam contra os seguidores de meu filho.

A guerra estourou novamente e não houve aliança que pudesse adiar isso. A ambição final de Javé finalmente foi exposta: queria se tornar o único Deus de todas aquelas paragens.

Nesse momento tive certeza de que ele enlouquecera e odiei El por ter desistido tão facilmente. Javé inspirava sobremaneira seu protegido, o novo rei de Judá, Josias, a prosseguir com a reforma religiosa.

Nossos templos foram abandonados e destruídos. Com medo do cativeiro, uma nova geração foi criada para nos ver apenas como ídolos, imagens de metal e pedra.

Baal e Javé se enfrentaram mais uma vez e meu filho saiu muito ferido desse embate. Foi então que me descontrolei completamente.

Fiz surgir tamanha seca e tamanha peste como aqueles ingratos nunca viram antes, enquanto caminhava furiosa para o Salão Celestial.

– Javé!- Gritei estrondosamente – Hóspede ingrato que agora habita meu salão, apareças!

Desembainhei minha espada, louca de fúria. Criei uma tempestade sem perceber, as orações e pedido de livramento subiam até mim, mas agora era tarde.

– Se queres ser o único, venha e jamais se esquecerá da ocasião em que assim se tornaste!

Só então ele apareceu, trajando sua armadura completa. Pobre criança. Mesmo se eu estivesse desarmada ainda assim o venceria.

– Vieste enfrentar o Rei apenas com sua espada, Aserah? Não tens medo?

Cuspi em sua face.

– O Rei é que tem medo, pois não me olha nos olhos!

Ele rugiu, para fazer jus a um de seus títulos, Leão de Judá, e eu investi, sem me importar com essa demonstração infantil. A bainha de minha espada encontrou sua nuca e tirei-lhe o elmo. Golpeei com a espada em minha mão direita em todas as fissuras da armadura enquanto minha mão esquerda dava socos, quebrando aquele lindo nariz impertinente. Quando ele tentou atacar, dei-lhe uma cabeçada para ensiná-lo a respeitar os mais velhos. O punho da minha longa espada e minhas unhas imersas no vermelho real de seu sangue o deixaram nu e intensamente ferido, roxo, sangrando e coberto de hematomas.

– Eu o coroei. E Aserah não volta atrás. Queres ser o único. Então será. Me afastarei de ti e do povo que me foi ingrato. Todos os Deuses me seguirão.

Javé tentou balbuciar algo, mas o punho de minha espada indo de encontro a sua boca o fez engasgar com seu próprio sangue.

– Tu prometeste algo que não poderia. Que se olhassem só para ti, seriam livres do cativeiro. Nesse momento os babilônios estão invadindo. E tu não poderás defender ninguém. Não podes defender a ti mesmo nesse momento!

Assoviei para convocar a Assembléia dos Deuses, para que vissem onde a ambição levara aquele jovem Deus. Todos o encaramos sem dizer nada, enquanto desaparecíamos para sempre dali.

Javé acabava de se tornar o Deus único, como queria.

Soube que a solidão o ensinou sobremaneira e se tornou muito sábio desde então. Mas enquanto insistir em negar-nos, não haverá entre nós novo espaço para ele.

Pode ter atingido o auge do conhecimento do que passou e do que virá.

Mas continuará sozinho naquele Salão.

Quem o diz é sua esposa, Aserah, Rainha dos Céus e Senhora de tudo o que é fértil.

Fim…

Será?

 

5 comentários em “Javé – De guerreiro a Deus

  1. Naiane! Por ser um antigo estudante da Bíblia, devo confessar que adorei a sua visão e forma de contar os acontecimentos. Aliás, adorei a combinação dos deuses, personalidades e trama! Surpreso, apaixonado… parabéns!

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  2. O outro lado da moeda, heheh!
    O lado que o macho alpha não quer reconhecer… Bem, está lá, sozinho, sem poder dar conta de tudo. E o pior, seu seguidores tão cegos quanto ele.
    Que pena.
    Parabéns, Naiane!

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