Ladrão de Alma – Final

Por Lillithy Orleander

Soph

Foi doloroso ver Elen ser carregada e mais doloroso foi ver que eu não podia contar nem o que estava acontecendo, era como estar amordaçada…

Naquela mesma noite, eu recebi a noticia, com um falso sentimentalismo, de Dr. Fisher.

Chovia muito e papai corria demais, o carro capotou, ele e Elen morreram na hora. Henri olhava da porta, enquanto eu me desesperava e gritava esmurrando Dr. Fisher, que com um aceno de cabeça mandou que enfermeiras me sedassem.

Minha mente ficou enevoada e a letargia tomou conta de meu corpo, derrubando – me no chão sem forças pra se levantar, enquanto meus olhos vidrados na máscara fria de meu médico me observava expelir uma espuma esbranquiçada da boca.

-Por que? – eu implorava saber, enquanto o gosto amargo deixa minha boca seca.

-Eles foram mortos. – disse Henri sentado em um canto enquanto olhava a luz do Sol nascer.

Era estranho esperar pela luz, havia poças e mais poças de água, e onde quer que eu olhasse eu via uma planície em tons variados de roxo, do mais claro ao mais escuro, era lindo e ao mesmo tempo sombrio. Senti medo de imediato.

-Onde estou? – eu vestia um vestido branco, liso como uma túnica antiga, cinturado por um fio dourado. Estava descalço e mesmo com o chão molhado, meus pés não sentiam o frio.

-Em casa… – foi tudo o que ele me disse, antes que eu sentisse uma dor excruciante atacar – me o peito.

-Vamos, não podemos deixa – lá ir agora, eu dei duro demais pra deixar essa fedelha morrer. Outra injeção de adrenalina. – era Dr. Fisher que me fazia uma massagem cardíaca.

Eu via a cena a minha frente como se assistisse um filme, senti – me ser puxada de volta ao corpo, mas não tinha forças pra falar ou ter qualquer outra reação, meu olhar não tinha foco e as lágrimas escorriam em minha face, eu me sentia vazia… Sozinha.

O velório foi algo triste, havia um juiz com uma pasta negra nas mãos e o reverendo de Elen, recitando algumas palavras para os membros da igreja que ela servia, eu se quer conhecia qualquer rosto ali presente.

Vestida numa calça jeans maior que meu tamanho e uma blusa de gola alta preta, eu fiquei ali estática, enquanto as pessoas vinham me desejar os sentimentos, a maioria não sabia nem meu nome e algumas fingiam chorar.

Aquilo era deprimente parecia meu inferno pessoal. Órfã.

– Bom eu ainda possuo a documentação que o pai dela assinou me dando plenos poderes sobre ela em minha clínica, então se for o caso, até aparecer algum parente e cuidarei dela, claro se o senhor concordar.

Eu ouvia a conversa estarrecida, só percebi nesse instante que agora eu estava só e que não tinha para onde correr, aquele monstro continuaria suas experiências e suas perguntas doentias.

Ele apertou a mão do homem com a pasta e este apenas acenou com a cabeça em minha direção.

-Do que vocês falavam? – perguntei fingindo não ter escutado parte da conversa.

-A partir de hoje você irá morar comigo, na clinica. Alfred é um oficial de justiça e me disse que você não tem nenhum parente próximo e que será necessário procurar algum que possa ficar com você. Devido ao seu estado há algum tempo seu pai deixou papéis em meu poder com o intuito de cuidar de você, como um tutor no período em que você esteve internada. Portanto encontrarmos alguém, você ficará comigo.

O pânico tomou conta de mim e fiz menção de fugir, mas ele foi mais rápido e me segurou pelo braço.

A lente do óculos me mostravam o meu rosto apavorado, ele enfiou a mão no bolso dentro da blusa e sorriu. A ponta da agulha reluzia a beira do túmulo e com muita destreza ele aplicou o conteúdo da injeção em mim.

-É para o nosso bem , minha querida.

Senti meu corpo perder as forças e o choro preso em minha garganta se libertar em forma de grito, todos olharam pra mim, enquanto ele fingia me abraçar e consolar.

-Ela só está um pouco nervosa. – disse ele, enquanto meus olhos fechavam.

 

Acordei com a sensação de leveza, alguém cantava uma canção de ninar suave, enquanto pássaros chilreavam ao redor de minha cama.

Em meio á um jardim em flores miúdas estava minha cama, envolta por uma cortina transparente que me deixava ver as belezas ao meu redor.

Coloquei a mão em meus lábios procurando conter a surpresa e o espanto, era tudo lindo demais, perfeito demais.

-Gostou? – me perguntou Henri saindo de trás de um arbusto

-É lindo. respondi afastando a cortina. Senti meus pés pesados e me desequilibrei, e fui acudida por Henri que veio me socorrer.

-Está, tudo ótimo.

– Então fica aqui comigo, pra sempre.

Henri se aproximou de mim e me abraçou, um abraço suave e que me fez se sentir única. Protegida, segura…

Ele acariciava minhas costas, enquanto parecia que cada som que ali estava se calou, mas não importava, os braços de Henri me aqueciam, e os meus o queriam com urgência.

O peso em meu pé me incomodava, mas aquele abraço, me cobria por inteira, me inebriava, me deixando tonta.

Henri abriu as cortinas que envolviam minha cama e me deitou delicadamente sobre ela. Eu não havia notado, nas rosas brancas e nem nas orquídeas, não notei os fios dourados pendurados ao redor da cama, presos nas cortinas, eu vestia o que parecia ser uma camisola de renda branca, enquanto Henri vestia as mesma roupas escuras das outras vezes.

Os olhos dele penetravam – me a alma e me faziam enrubescer, ele engatinhou sobre mim, enquanto beijava minha pele suavemente, sua mão entrelaçou – se a minha de modo sutil e seus lábios alcançaram os meus.

“Não podemos deixa – lá partir…” – era a voz de Fisher em minha cabeça me despertando do beijo de Henri.

-Algum problema? – perguntou – me ele com os olhos cristalinos

-Não. – respondi sorrindo, eu estava segura, não precisava voltar pra lá. Eu era uma cobaia e não tinha ninguém no mundo por mim.

Os lábios de Henri tocaram meu pescoço e aquilo me causou arrepios prazerosos, meu corpo respondia ao seu e o deixava encaixar – se ao dele sem medo do que poderia acontecer.

-Fique. Aqui. Comigo. Pela. Eternidade. Soph. – a voz dele era uma súplica, uma ordem que estranhei, mas que se dane, eu podia ficar não podia? Henri me protegeria?

“Não dê seu corpo á ele…” – era a voz de Elen, longe. Uma lembrança, o peso em meu pé dessa vez foi mais forte a ponto de eu deixar escapar um gritinho de dor.

O corpo de Henri pesou de forma sutil, enquanto ele se esgueirava para o bolso da calça, tirou de lá um anel, na cor do bronze parecia ser de fogo ardente, com pequenos elos entalhados em ouro e prata.

-Soph… – ele sussurrou, me estendendo a mão, o anel brilhava de um jeito estranho, mas achei que fosse só minha imaginação, nunca virá algo tão belo.

-Eu fico. – estendi a mão e ele sorriu malicioso, colocando a anel em meu dedo indicador, a prncípio nada senti, mas em seguida a dor de meu pé aumentou e o levantei para ver o que era, uma tornozeleira feita da mesma forma que o anel, ficava negra e queimava minha pele, me impossibilitando de mexe – lá como se houvessem me prendido no lugar.

-Henri? – ele se despia como um felino caçando, seu sorriso era macabro, e seu desejo se estampava no mesmo.

-Soph, minha adorada, Soph…

Ele caminhou nu até minha cama, eu deitei – me tentando não toca – lo, eu não sentia mais nada, nem uma parte do meu corpo tentava fugir, pelo contrário, meu corpo o desejava, se abria para recebe – lo, convidando – o.

Henri rasgou – me a roupa e eu senti seu corpo quente sobre o meu.

Por mais animalesco que parecesse sua fisionomia, ele foi gentil, suas mãos firmes tocaram – me o seio enquanto, suas pernas e seu membro pediam licença sobre meu corpo.

O encaixe perfeito, eu sentia – me viva, ali, á mercê de um homem que talvez não fosse real e que só agora eu entendia,  me manteria presa ali.

Meu corpo arqueava em êxtase, e seus lábios procuravam os meus com voracidade, o dia parecia não passar e nem mesmo os dias, um prazer louco e ilimitado tomava conta de cada instante ali, eu pertencia a Henri…

As flores jamais morriam e se quer secavam, os anos vinham á mim preguiçosos, não havia mais a dor, não havia como fugir, eu lhe dei minha alma e meu corpo…

separador (1)

-Dr. ela entrou em coma. – disse a enfermeira suada.

Fisher olhou para o canto da sala onde aparentemente não havia ninguém e arremessou a mesinha de aparelhos.

-SAIAM! – gritou ele. – as enfermeiras entreolharam – se e sairam

-Mais uma vez eles foram mais espertos do que você. – disse a moça de vestido vermelho e cigarrilha negra nos lábios.

Tinha face cortada de um dos lados, onde era possível se ver a arcada dentária e seu sorriso era horrendo e continha vermes caindo.

O cabelo desgrenhado, era ruivo e as unhas roídas estavam mal cuidadas. Fisher, sentou – se no chão ao lado dela e passou as mãos nos cabelos, em desespero.

-O que faço agora? – perguntou ele com lágrimas nos olhos.

-Quantas médiuns você perdeu para os Ladrões de Alma, Fisher?

-Essa é a quinta. – respondeu ele.

-É, parece que eles são mais espertos do que você, sabe quando você vai libertar sua mulher, enviando essas idiotas pra lá? Nunca. Elas são escravas e vivem melhor lá do que ao lado de psicopatas como você. Você pode matar as familias, deixa – lás sozinhas no mundo, assim como fez com sua esposa, elas sempre vão preferir as correntes da felicidade á voltar pra você. Você é um monstro, Fisher. O verdadeiro ladrão é você. – ela gargalhou e sumiu.

Fisher gritava e seu grito ecoou no corredor cinza, onde quatro quartos com aparelhagens em uníssono, mantinham corpos de quatro mulheres vivas, definhando a carne e envelhecendo, que agora bailavam em um plano de onde jamais voltariam.

Os Ladrões de Alma seguiam seu rumo procurando vítimas que não mais voltariam para seu lar, manipulando – as, sem jamais deixa – lás voltar, sem jamais cansarem de se alimentar de suas puras energias.

Almas perdidas no limbo, sem direito á ir e vir até se esquecer quem eram na realidade, as mesmas almas que um dia virariam criaturas horrendas e sem passado…

“Henri ainda me visita, esperando a oportunidade correta de me levar junto. E sabe aquela voz que te seduz do além, chamando seu nome? Prepare – se por que um dia você também pertencerá á ela…”

FIM… (talvez)

 

 

 

3 comentários em “Ladrão de Alma – Final

  1. PERA
    PARA
    PERA

    Não acredito que ela ficou presa!!!!!
    *carinha de raiva*

    Mas olha, me surpreendeu maravilhosamente!
    Quem era o ser com o doutor?? Uma entidade que estava só tirando uma onda, né?

    Isso merece continuação!!!
    Adorei!

    Curtido por 1 pessoa

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