A Rainha do Gelo

Escrito por Saul Guterres

Dracula (11)

“Esse conto é uma versão do autor para a Lenda  A Carroceira de Santa Maria – RS.”

Essa história muitos acreditam outros não, mas o fato é que muitas mortes inexplicáveis ainda acontecem nas noites mais frias de Santa Maria…

Tudo começou no ano de 1911 época em que a viação férrea se fazia o melhor meio de transporte na cidade e por isso muitos trabalhadores de todas as áreas se reuniam onde hoje é antiga Gare da estação, fosse para expor mercadorias ou viajar. E nessa mesma região formou-se a Vila Belga que é a rua onde moravam as famílias dos que trabalhavam na construção das linhas ferroviárias e dava acesso a estação de trem. E que hoje é a rua onde eu resido.

 

Manoela era uma jovem que morava em uma pequena fazenda longe daquelas mediações, fora criada na lavoura, adorava andar de carroça e fazia isso melhor que seu pai. Desde pequena vinha com ele na estação para ajudá-lo a vender suas verduras e frutas por ali.  Ela não possuía muita beleza exterior, mas tinha uma alma muito boa, gostava de ajudar e não entendia muito porque a chamavam de a “feiosa das verduras”.

Seu pai muitas vezes a escondia para que outras garotas e garotos da sua idade parassem de importuná-la, embora ela não desse bola para aquilo, ele se sentia melhor quando ela não vinha com ele.

Como suas verduras eram as melhores vendidas por ali, logo eles ganharam fama e conseguiram montar uma barraquinha fixa na estação. Porém seu pai com mais idade, não estava conseguindo aguentar os invernos rigorosos daquela época.

Manoela que já estava com vinte anos, assumiu a profissão do pai e vinha sempre sozinha nas madrugadas frias, para que quando os primeiros clientes chegassem ela já estivesse sempre pronta para vender. E foi assim em uma madrugada fria que tudo mudou em sua vida.

Já com o corpo mais adulto, alguns homens começaram a notar suas belas curvas, embora ela em momento algum se insinuasse para eles. Em certo momento um chefe de setor da companhia de trem lhe ofereceu dinheiro, em troca de uma noite de prazer. Manoela sempre simpática colocou o homem em seu devido lugar, dizendo a ele que ela estava ali a trabalho e não para distração de velhos. A esse comentário, os outros homens que estavam próximos caíram em gargalhadas. O homem então que era conhecido como Bino, saiu sem dar respostas, mas com uma certeza em sua cabeça, Manoela pagaria pelo insulto.

Bino era conhecido por seu jeito arrogante e por estar sempre envolvido com prostitutas. Para ele, uma pobre coitada como Manoela não poderia recusá-lo. E em sua cabeça chegava a ter pensamentos absurdos sobre como ter a moça das verduras em sua cama.

E foi assim que ele descobriu o caminho que ela fazia durante toda a madrugada sobre a ponte e o rio que ligava sua fazenda com os trilhos que davam acesso a estrada até a estação.

Então ele chamou alguns capangas e se esconderam por entre as árvores, na forte neblina que se fazia presente nas noites de inverno. Ouviram o barulho da carroça se aproximando e dois deles pediram ajuda. Manoela inocentemente parou a carroça, seu cavalo começou a se agitar e quando ela desceu, os mesmos tentaram agarrar ela a força segurando-a por trás, nesse momento Bino apareceu e lhe desferiu uma bofetada.

Manoela que era acostumada a lidar com cavalos e outros animais bravos, se soltou deles facilmente, atirou um deles sobre a ponte e correu em direção a estrada. Bino que estava atrás pegou sua espingarda, e com um tiro acertou a perna de Manoela que caiu e rolou até o gelado rio. Com o barulho do tiro o cavalo dela assustado pulou sobre eles quebrando a carroça, e correu pela estrada atrás de sua dona.

Bino correu atrás para ver se encontrava ela nas margens do rio, porém a baixa iluminação no local e neblina sobre o rio dificultavam qualquer visão.

Bino e os capangas voltaram para a estrada, atiraram a carroça de Manoela no rio e encontram seu cavalo, mataram ele e deram o mesmo destino. Já era seis da manhã quando eles voltaram para a estação. As pessoas já estavam prontas para o embarque e muitos estranharam a ausência de Manoela na sua barraquinha, mas pensaram que ela estava apenas com alguma enfermidade ou estava cuidando do seu pai.

Eles ouviam as conversas e fingiam de nada saber. Esperaram até o sol sair por completo lá pelas dez horas da manhã e voltaram ao local do rio. Não encontram nada, parecia que não havia acontecido tudo aquilo por ali. Deram mais voltas pelas margens do rio e não acharam nada. Certos de que Manoela havia morrido no fundo do rio, encerraram aquele assunto e voltaram a suas tarefas.

No dia seguinte o pai de Manoela desesperado perguntava a todos na estação sobre o paradeiro de sua filha. Ninguém havia visto ela. Inconsolável ele foi até a polícia. O major com pena daquele pobre homem fez buscas por toda a região, mas não encontram nada nem ninguém que houvesse visto ela durante o dia anterior. Como ela era uma moça pobre, algumas pessoas começaram a insinuar que Manoela havia fugido com um algum nobre, seu pai certo de que a filha jamais o abandonaria, saiu para sua casa sem dar ouvidos a aquela gente. As semanas foram passando e Manoela não voltava, triste e sozinho seu pai faleceu.

O inverno estava cada vez mais rigoroso naquela região e as autoridades alertavam para a noite mais fria do ano naquele dia. O famoso trem da uma da madrugada que fazia a viagem até a capital estava passando pelos trilhos perto do rio onde Manoela havia caído. O maquinista estava atento a neblina forte que se concentrava ali, quando ouviu gritos vindo de alguns dos vagões. Ele correu até lá, e para sua surpresa, muitos disseram que haviam visto sobre o rio uma mulher em uma carroça que parecia um fantasma. Ele olhou pelas janelas e nada viu. Acalmou os passageiros e seguiu viajem.

No outro dia, a notícia se espalhou rápido.

Havia uma mulher em uma carroça que estava sobre o rio. Bino ouviu aquilo e um nó deu em sua garganta. Seria Manoela após tantos dias? Na madrugada seguinte ele e os mesmos capangas daquela noite foram até o local para ver se encontravam alguma coisa. Quando chegaram lá uma densa névoa escondia totalmente o lago, deram mais uma volta quando ouviram o apito do trem se aproximando, e de repente um som de carroça se fazia presente.

Assustados eles foram para o outro lado da linha, o trem se aproximou e gritos começaram a se ouvir, tanto de dentro do trem quando do lado de fora. Manoela estava ali. Sua pele estava mais pálida que o normal, seu cavalo estava negro, e a carroça parecia ser totalmente de gelo. Bino e os capangas tentaram correr, mas Manoela alcançou eles sem muito esforço. Apenas com um toque ela congelou totalmente seus corpos, fazendo os cair feito pedra no chão. Apenas um capanga conseguiu escapar. De dentro do trem as pessoas assistiam a cena em pânico. Quem era aquela mulher? Ninguém sabia.

A polícia foi chamada, e quando chegaram lá só encontram os corpos de Bino e seus comparsa totalmente congelados. Fizeram mais algumas buscas e acharam o outro homem em estado de choque caído sobre a grama. O levaram para delegacia, e ele após estar mais lúcido contou tudo aos policiais desde de como cercaram Manoela até o momento que ela terrivelmente surgiu do rio em sua carroça.

O mistério do desaparecimento de Manoela foi solucionado, as pessoas agora sabiam que ela estava atrás de vingança e evitavam cruzar o rio e a apelidaram de a rainha do gelo, pois muitos afirmaram ter visto ela como uma coroa de gelo em sua cabeça. Muitos maquinistas evitavam a escala a noite pois sabiam que a rainha do gelo poderia parar o trem a qualquer momento. As viagens durante as madrugadas de inverno também diminuíram. Ninguém queria ouvir o som da carroça.

Os anos foram passando, a cidade foi crescendo absurdamente. E com o aumento da área urbana, logo aquele rio e as margens da ponte foram sendo habituadas por casas. A história da rainha do gelo foi ficando mais conhecida a cada inverno, pois sempre na noite mais fria do ano as pessoas que moravam perto onde hoje é a Gare e a Vila Belga, escutavam a carroça passar, e houve muitos casos de pessoas encontradas congeladas de forma inexplicável desde aquele tempo até hoje.

Mas ninguém sabe ao certo o que se passa. O que se sabe é que sempre durante o inverno, na noite mais fria do ano todo mundo evita sair de madrugada, pois se escutar a carroça e olhar para ela, a rainha do gelo congela seu corpo e o deixa caído para uma morte terrível.

 

Fim…

 

 

4 comentários em “A Rainha do Gelo

  1. No mínimo ela está sempre se vingando de gente fdp como Bino e os fdps que o acompanharam. Adorei essa versão da Rainha do Gelo – e, não podendo perder a piada: Let It Goooooooo! Let it Go!!!!!!! heheehhe! 😀

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