Galamadriel Pt.18 – Vingança

Por Lillithy Orleander

 

Miguel

Lúcifer enfiou a mão cheia de garras, onde havia ficado o buraco da bala de calibre 12 que desfigurará seu rosto demoníaco. Ele olhou para Paul de soslaio, de modo vago, enquanto lançava – lhe um sorriso sarcástico.

-Humano, Paul? – perguntou ele com esgar na voz. – Para um dos demônios mais arrogantes do Inferno, você não terminou exatamente como queria, não é mesmo?

Ele passou a mão na face novamente e a pele se transmutava, ganhando as feições suaves e angelicais, a qual ele ainda mantinha na maior parte do tempo para agradar e não assustar aqueles que queria enganar ou manter ao seu lado. Enquanto ele olhava as mão sujas com seu sangue.

O zunido da arma feria o vento, feito um flash prateado cortando o céu, por fim silenciando de imediato, o tridente de Lúcifer que finalmente encontrava seu alvo.

Gabriel então gritou e sua dor parecia a dor de milhões de criaturas que sofriam ao mesmo tempo em uníssono. Uma poeira nefasta se ergueu fantasmagórica do chão, expandindo – se, derrubando paredes, estourando janelas de vidro e matando cada ser vivente que aparecesse em seu caminho independente da forma que possuía.

Miguel e Lúcifer se entreolharam abismados, enquanto um deles caia imediatamente ao solo, com as mãos arranhando a face como se tentasse arrancar a própria pele, experimentando do mesmo desespero e da mesma agonia.

 Ele sentia o peito arder, como se todo o fogo que houvesse no Inferno rompesse suas entranhas, seu coração agora parecia uma massa desforme do que muitos julgavam não existir á eras. Lúcifer arrancava os próprios cabelos de joelhos, como se lhe arrancassem algo.

-Lilith! – eles gritaram juntos.

Gabriel que estava de costas, só teve tempo para virar – se e segurar o corpo da rainha infernal, que agora voltava a possuir a face angelical que ele tanto amava, enquanto Lúcifer sentia o chão fugir abaixo de seus pés e a dor de quem lhe arrancava as asas.

Por um breve instante, que pareceu durar milênios, cada ser vivente, presente naquele local, parou para assistir a morte de Lilith, algo que nenhum deles jamais iria esquecer durante toda sua existência.

Gabriel descia com ela vagarosamente, deitada em seus braços, enquanto lágrimas de um vermelho escarlate cortavam lhe a face. Ele acariciou o cabelo ondulado, agora manchado de sangue, enquanto o tridente de Lúcifer se tingia de negro, pulsando no corpo de Lilith. Tocaram finalmente o chão e Gabriel arrancou – o de sua amada, deitando – a no chão.

Cada anjo em comando de Gabriel desceu ao solo, ajoelhando – se em respeito de seu senhor, deitando as armas ao solo e abaixando a cabeça em reverência a dor de Gabriel.

-Meu amor, não me deixe agora. Nós prometemos que seria para sempre, lembra? Eu não ligo se tiver que abdicar de tudo por você, me peça qualquer coisa mas não me deixe Lilith.

A armadura agora fria e sem brilho, estava manchada com as lágrimas de Gabriel e com o sangue de Lilith, que agora de olhos arregalados, estendeu a mão e acariciou o rosto de Gabriel, ela acalmou – se e sorriu com o olhar e recordou – se da primeira vez que o virá e de quanto tempo ela o havia amado.

– Eu sempre o amarei e cada parte do meu corpo sempre foi sua. – de mãos unidas, um laço rubro brilhou em torno dos pulsos como se fosse uma algema, unindo – os, cada vez mais intenso em seu brilho. – Enquanto um de nós viver, nosso amor jamais acabará, meu Senhor. Meu amor, meu Gabriel…

Gabriel tomou os lábios dela com cuidado e a beijou, como se ali sempre tivesse sido a sua morada, a dor explodia – lhe o peito, transformando a dor que sentia em lâminas afiadas que lhe cortavam a carne.

-Factum est consummatum. Eramus, sumus, erit aeternae*… – Lilith deu seu último suspiro, a mão que acariciava a face de Gabriel, caiu sem vida no chão.

 Lori corria em desespero, empurrando cada ser que estava em seu caminho, com os olhos embaçados em lágrimas, tentando chegar onde agora jazia o corpo de sua senhora.

Caronte apareceu ao lado de Gabriel imediatamente como se a todo instante estivesse ali.

– Gabriel? – ele levantou  olhar para o irmão e sua face era algo indecifrável e frio, seus soldados agora deixavam o solo calados e de cabeça baixa, como fantoches com máscaras pétreas que se erguiam para o confronto de suas vidas.

Não havia sentimento em Gabriel, não havia expressão de dor, pelo menos, não mais.

– Traga – a de volta. – foi tudo o que ele disse, num sussurro de aço cortante. Ao seu lado, um buraco negro se abria e Calíope surgia banhada em sangue e lama. – Traga – a para nós, como fez com Michary.

A mão ossuda apoiada no ombro de Gabriel murmurava de modo inaudível, alguma canção de desespero.

– Eu não posso. – respondeu Caronte categórico. – Lilith era um arcanjo, voltaria sem lembranças e por ter caído, voltaria como ser Infernal.

– Traga – a de volta! – gritou ele, assustando a todos e tirando – os da letargia que parecia ter se abatido ali. – Não importa como.

Caronte tomou o corpo de Lilith e alçou voo, colocou o corpo em pé no ar e o incinerou, deixando as cinzas paradas no ar. Todos assistiam o que agora era a rainha de Lúcifer, poeira.

Gabriel alçou voo e juntou as cinzas, guardando – as em um lenço. Desceu ao solo, com as mãos manchadas de sangue nas faces e chorou copiosamente, fazendo com que o tempo começasse a mudar.

O céu tornou – se cinza, e depois chumbo. Uma tempestade estava á caminho, a face de Gabriel era puro ódio.

Lori e Calíope estavam ao lado dele e sofriam a mesma dor, demônios desesperavam – se e voltavam a sua formação inicial, enquanto as bestas mais poderosas se enfureciam cada vez mais, as ordas sem comando de Lilith, mostravam – se ferozes, ganhavam uma aparência monstruosa, deixando de lado a volúpia e a forma cheia de floreios e encantos,  dilacerando outros menores que estavam ao seu redor, a guerra começava somente em um dos lados, demônios lutando entre si.

Miguel aproveitou o descuido e ordenou o ataque, enquanto Gabriel voava em direção a Lúcifer que ainda estava absorto em seus pensamentos.

“Como eu pude? Como ela pôde? Então era isso o amor, morrer por ele? Ele nunca a deixou e agora tenho certeza disso.” – Lúcifer agora admitia para si o que relutou durante tanto tempo, por mais que não parecesse ela sempre fora sua favorita, e ele, assim como Gabriel, também teria morrido por ela.

Paul ainda olhava estarrecido, com a arma em riste, esperando o próximo passo.

Gabriel aterrissou diante de Lúcifer e o olhava com o ódio que criatura nenhuma jamais virá no arcanjo plácido.

– Agora você conseguiu sua guerra, seu verme. – e fincou o tridente ao lado do irmão no solo, onde uma rachadura se formou. – e agora você tem seu oponente.

– Irmão. – começou Lúcifer, piscando e tentando recobrar a própria sanidade.

– Eu não sou seu irmão, sou seu oponente. – disse Gabriel entredentes e apontando a espada para o outro. – Pra mim você não passa de um monstro que precisa ser detido. Não espere minha clemência, nem minha piedade.

Lúcifer entendia aquilo e parte dele dizia que ele merecia, ele ergueu – se e tomou posse de sua arma.

– Gabriel, você não está pensando direito. – disse Miguel que agora colocava a mão no ombro do irmão, que de imediato se esquivou.

– Cuide de suas ordas e me deixe em paz Miguel. Tenho contas á acertar com este ser.

– Ele ainda é nosso irmão, por pior que ele seja.

– Ele é um monstro! – disse Gabriel, com a frieza na voz. – E a morte é pouco para os crimes que cansei de vê – lo cometer. Você acha que não fui piedoso com ele ou com qualquer um de vocês? Eu, consertei cada erro de vocês, eu os amei acima de mim, eu estive do lado de cada um, passando a mão na cabeça e pesando as balanças do tempo para apaziguar essa família problemática que somos, estou farto de tudo isso. Agora eu mesmo farei o que já deveria ter sido feito. Assuma sua posição, desgraçado.

– Não faça isso, Gabriel.

– Cale – se Miguel! – gritou ele, deixando Miguel boquiaberto com sua atitude. – Cuide de suas ordas, que de Lúcifer cuido eu.

Caronte a tudo observava calado e a seu lado Edmund esperava, segurando sua foice preocupado, naquele momento a pergunta de ambos era a de muitos.

E se eles se matassem a profecia de Hiavenithy se cumpriria? Quem sobraria?

 *-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*

Dyell sentiu a dor daquele que tanto lhe deu amor, mas também sentiu seu ódio e não iria interferir na vontade do tio. Ela viu quando o corpo de Lilith pegou fogo, deixando no ar uma nuvem com odor de ervas aromáticas, como as piras antigas que tantas vezes ela havia presenciado.

Ao seu lado pousava Qüerinemer, que vestida em uma armadura azul celeste, tirava o elmo de sua cabeça, deixando cair por sobre os ombros a cabeleira azul royal, de espada em punho, ela dava ordem aos últimos anjos que á acompanhavam até ali, dispensando – os para que tomassem seus lugares.

– Precisamos nos realocar, os demônios logo perceberam quem de fato são seus inimigos e se não estivermos prontos, teremos baixas gravíssimas.

Qüerinemer respondia agora como general dos arqueiros e espadachins pertencentes a Miguel. De longe foi possível avistar Sonya caminhando com armas de modelos variados de espadas á adagas, de escopetas á calibres 12.

– Sua amiga esteve na casa de Miguel e talvez ela nunca mais seja a mesma, mas será uma boa combatente e sempre terá o céu por aliado. – disse ela para Dyell. – Me escute, a hora é essa, não teremos outra oportunidade e não temos muito tempo. Eu espero realmente que você fique bem. Seu pai te ama e morreria se acontecesse alguma coisa á você, portanto proteja – se.

– Obrigado. – disse Dyell e engatilhou as armas que carregava consigo. Sonya chegou perto o suficiente e deu uma longa risada.

– Primeiro seu tio aparece em casa e manda me matar para que você possa ter uma amiga pela eternidade. Depois vou dar um rolê com seu pai, cara bacana, mas quase me mata e agora estou no meio de uma guerra. Se eu soubesse que ia me meter nessa encrenca por ter te conhecido, garota. – Dyell olhou apreensiva para Sonya com temor do que a outra poderia dizer. – Eu teria feito tudo de novo, vamos chutar a bunda de uns demônios e voltar pra casa a tempo de um chocolate quente.

– Pelo andar da carruagem, uma garrafa de vodka será mais bem vinda.

As duas engatilharam as armas e sorriam em cumplicidade, Edmund que avistou Sonya pediu permissão á Caronte e foi falar com ela.

– Oras se não é o cara que me matou. – disse Sonya piscando para Edmund.

– Você ficou bem armada, parece que levou dias treinando lá em cima. – ele disse sem jeito.

– Dias não, mas ele pegam pesado e usam alguns artifícios para que possamos aprender mais rápido algumas coisas. – Sonya não quis dizer, mas como provará do fogo infernal, também havia ganhado um presente celestial.

Eles se olharam por alguns instantes e Edmund abaixou a cabeça com um meio sorriso nos lábios.

– Isso pode ser uma despedida, você sabe não? – disse ele

– Dane – se você ainda me deve por ter me perseguido e acho bom você encontrar um bom jeito de me compensar garoto. – disse Sonya sorrindo de volta com os olhos brilhando.

Edmund aproximou – se mais e a puxou pela cintura, dando – lhe um beijo demorado, enquanto Sonya lhe acariciava a nuca. O tempo parecia ter parado para os dois.

Sonya sentia – se completa, depois de ter passado uma vida procurando aquele tremor intenso em vários caras, ali estava o que queria, vivo em um Ceifeiro.

Dyell que observava a cena sem jeito, pigarreou.

– Acho que está na hora. – disse Sonya sorrindo e afastando os lábios de Edmund, que agora encostava a sua fronte na dela.

– Volta viva de lá e eu prometo achar um modo de compensar.

– Vou contar com isso. – Sonya colocou a mão no rosto de Edmund e o olhou uma vez mais, se despedindo.

– Hora de ver como seu povo brinca, amiga. – e saíram as duas sem olhar pra trás.

Miguel ordenou o primeiro levante e seu anjos se mostraram velozes e eficazes, esmagavam cabeças e arrancavam chifres,como máquinas de matar sem interrupções, Qüerinemer já gritava para os arqueiros para que se preparassem, as flechas foram miradas e soltas no ar, caindo entre demônios e os ferindo queimando – lhes a carne pútrida enquanto os anjos que estavam embaixo daquela chuva envenenada pareciam dançar passos  marcados de balé, com graça e leveza, desviando e partindo para o próximo inimigo.

– Miguel. – chamou a voz que doeu aos ouvidos de Miguel e o fez arfar. O mundo parecia ter desmoronado ao seu redor naquele instante.

– Megara. – disse ele sem virar – se para trás.

As mãos o enlaçaram pelas costas, e ele fechou os olhos exalando o perfume dela como se a muito tempo esperasse por isso. Ele ainda lembrava – se da textura da pele, do sabor dos lábios e da doçura na voz. Ficaram ali estáticos, enquanto parecia que o arcanjo baixava a guarda.

Megara puxou um lâmina banhada em prata e enquanto balançava – se sutilmente á Miguel, ergueu a mão para feri – lo.

– Você nunca será Megara. – Miguel girou rapidamente sobre si e desviou do ataque, tendo a maçã o rosto riscado pela lâmina, ele puxou sua espada, enquanto a criatura tentava por todos os meios feri – lo, com os dentes á mostra e os olhos injetados num tom carmim.

Miguel olhou melhor e percebeu que havia de fato uma alma ali, desvencilhou – se com firmeza e exatidão, quando finalmente segurou o ser pela cintura e enfiou – lhe a espada no ventre.

Os olhos de Megara se arregalaram mais ainda, enquanto Miguel virava a face para o lado, com os olhos ardendo, ele teria que vê – lá morrer de novo, e dessa vez por suas mãos.

– Miguel. – a voz soou como um sussurro.

Ele olhou e naquele instante seu peito ardeu em chamas, o sorriso doce, fazia – o sentir o gosto amargo que subia até seus lábios.

– Nossa menina, Miguel.

– Ela é linda, como você.Tem sua fibra. – disse ele rouco.

– Obrigado. – disse ela com os olhos brilhando e a voz falhando, enquanto o que parecia ser um sangue negro e espesso saia de sua boca. – por me libertar.

– Megara, eu…

– Eu o amo.

O corpo transformou – se em pó e Miguel ficou ali a olhar para as pontas dos dedos, como se tentasse agarrar uma última centelha do ser que acabará de matar. Ele arfou, em algum lugar dentro do monstro que Lúcifer criará, havia um pedaço de Megara, da sua Megara.

O tempo então parou, todos pararam, da forma como estavam…

“E pelas mãos de um anjo, um demônio morrerá e assim um nova era irá se iniciar…”

A voz estrondosa gritava ao sabor do vento, enquanto partículas de poeira subiam do chão, Caronte que era o único que não havia ficado parado no tempo clamou.

– Meu pai, é necessário que meus irmãos deixem de existir? Será necessário que toda uma raça se perca para que as escrituras do livro se cumpram?

Um senhor que aparentava ter não mais que 50 anos, apareceu do meio de uma luz azulada ao lado de Caronte e o chamou para caminhar.

– Caronte, lembra – se quando me perguntou, por que era como era? Diferente?

– Sim e você me disse que eu era especial e que haviam propósitos para mim junto a Gabriel.

– Gabriel, tem o domínio sobre os mundos, cada mundo criado por mim, é Gabriel que guarda as portas e somente ele pode passar por muitos deles.

Miguel seu irmão mais velho, tem por domínio o mundo dos homens, oras um cabeça dura que á tudo resolve com braço forte e em algumas vezes diplomacia, merecia um mundo como esse. Um mundo competitivo, de homens fortes e também cheios de defeitos. E assim  Lúcifer o é. São dois teimosos que precisam aprender a dividir.

A Rafael foi dado o dom de curar esse mundo, de acudir os outros dois, mas em meu filho cresceu a inveja e a amargura, por desejar minha criatura e por ela ser repudiado. Foi controlado e humilhado e olha como está hoje.

Nesse momento os dois passavam pelas bestas que guardavam o corpo de Rafael que estava cheio de feridas e mais parecia etsar morto.

– Mas ele é forte e determinado e por ele estamos aqui nesse momento, para que você Caronte, entenda quem de fato é.

– Só sobrarei eu, é isso que tem a me dizer? – perguntou Caronte olhando incrédulo para o pai, cujos os olhos mudavam constantemente de cor.

– Pela profecia sim, mas você guarda os portões da morte, então a escolha é sua. Deixar tudo vir ao fim e criar você algo novo, ou rasgar os véus e mandar todos para seus devidos lugares, quando acabar tudo isso. Mas lembre – se Gabriel ficará muito bravo por ter que limpar a bagunça novamente. – riu o senhor coçando a barba e divertindo – se como criança arteira. – A escolha é sua. – ele cruzou os braços nas costas enquanto sua imagem esmaecia – se na claridade do dia…

CONTINUA…

*Factum est consummatum. Eramus, sumus, erit aeternae…

Está feito. Erámos, somos, seremos eternos…

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