Ladrão de Alma (Pt.2)

Por Lillithy Orleander

Young insane woman with straitjacket looking at camera close-up portrait

A franja negra sobre os olhos verdes reluzia sobre a Lua Cheia que começava a despontar em minha janela, jogando seus raios sobre nós. A cabeça semi – raspada do lado e a pele alva, totalmente translucida lhe dava um ar apático, cansado.

Ele apoiava uma das mãos sobre a perna sentado no banco que havia embaixo da janela, enquanto olhava para o lado de fora. Sentei – me na cama em posição de lótus e respirei fundo, meus medos pareciam ter ganhado a primeira forma vívida dessa experiência bizarra que eu vivia.

Era nítido, não eram mais os vultos, e isso me deixou extasiada e apavorada ao mesmo tempo, então eu não estava louca, pelo menos não ainda.

– Não precisa ter medo, não irei te ferir. – disse ele sem mover um músculo se quer do corpo para observar minha reação. – estou aqui por que sou um curioso do plano oposto, e você uma viajante que passeia demais pelos lados de lá.

Eu me mantinha calada, tentando absorver a voz grave e gostosa de ouvir como se um locutor de rádio, estivesse ali naquele momento.

-Soph, não é? – pela primeira vez o olhei perplexa, ele sabia até mesmo meu nome.

-Sim. – respondi lacônica.

-Você deveria tomar cuidado. Aqui, nada é como na sua realidade.

-Como assim? Estou em um universo paralelo ao meu? Do tipo com um outro eu vivo, com outra vida?

Ele não olhou em meus olhos em nenhum momento, a penumbra agora se fazia grande no canto onde ele se encontrava, mas eu iria ficar firme, precisava de respostas. Algo em mim me pedia calma, então decidi confiar na minha intuição, afinal ele não iria me matar, pelo menos eu esperava que não.

-Sou Henri, as suas ordens Mi Lady. – disse ele me arrancando dos devaneios.

-Como?

-Henri, e creio que estamos ligados de alguma forma, afinal você é a primeira pessoa viva que me intriga e converso, em anos.

-Então muitas pessoas passam por esse plano?

-Não tantas, pelo menos as comuns ficam horas. Mas como você, que passam dias, são poucas.

-Passam dias? – perguntei nervosa.

-Você, não… – ele parou a frase no mesmo instante largando a posição que estava para me olhar de perto.

-Você não sabe que vem aqui, e também não tem consciência, pelo que vejo. Isso explica muita coisa.

-Consciência?

-Sim, consciência. Alguns chamam esse lugar de segundo plano, o limbo, pra vocês é plano astral ou outra dimensão, deve ser isso estou morto á tempo demais pra acompanhar as tendências. – ele deu de ombros.

Eu estava tão cansada que acabei caindo na cama, pela primeira vez aquilo parecia sugar minhas forças de modo instantâneo. Henri aproximou – se e agachou – se, olhando – me nos olhos com curiosidade, no mesmo instante senti uma forte atração por ele, como se eu o conhecesse á séculos, senti uma necessidade crescente de lhe tocar o rosto e ver, segundos depois, que a face era quente e não fria como sempre imaginei ser, Henri me olhava sem expressar qualquer reação.

-Ninguém nunca me tocou assim.- ele afastou uma mecha de meu cabelo, enquanto fechava os olhos e deitava sua cabeça na palma de minha mão, eu não sei quanto tempo ficamos ali, parados, até que adormeci…

Acordei, em meu quarto, dois dias depois com soro intravenoso em minhas veias, alimentando – me, haviam se passado dois dias, Elen acariciava meus cabelos, com um livro no colo, contando – me uma história infantil, com lágrimas presas nos olhos, como quem se despede.

-Oi? – disse forçando um sorriso.

-Soph! Soph! – ela gritava me abraçando alegre. – Adam! Venha, Soph acordou.

Eu escutava ao longe os passos afobados pela escada, meu pai parecia anos mais velho, quando adentrou meu quarto, que agora estava cheio de parafernalhas médicas.

Atrás dele vinha Dr. Fisher e dois enfermeiros, foi ali que entendi que meu inferno pessoal se iniciará.

Eles saíram do quarto e eu pude ouvir nitidamente a conversa, eu precisava tomar uma decisão urgente, ou eu fingia não ter visto nada, ou seria internada em uma clinica psiquiátrica para exames neurais mais detalhados, especializada em distúrbios do sono.

O problema, eu tinha certeza disso, era que eu não poderia esconder por muito tempo, e percebi isso quando vi Henri de braços cruzados atrás da porta. Não era sonho.

Fisher voltou á meu quarto e sentou – se em minha cama, enquanto me examinava me fazia perguntas estranhas que eu não sabia o que queria dizer, respondi não para algumas e ficava calada para outras. Ele me perguntou sobre os sonhos e sobre as alucinações, mas eu me negava a falar, ele me internaria.

Tive um ataque de pânico e comecei a gritar, empurrei aquele doutor Frankstein de perto de mim e arranquei as agulhas de meus braços, eu queria fugir daquele lugar, eu precisava, minha vida dependia disso.

Os enfermeiros eram treinados pra isso, e Fisher com a ajuda deles conseguiu me controlar na base da força, um deles me segurou enquanto o outro me sedava, Elen chorava nos braços de meu pai, enquanto Fisher ajeitava os óculos e dizia á meu pai que era a norma, eu perdia as forças e parava de me debater.

Henri que até então só assistia a tudo, passou por eles e me pediu que ficasse quieta, meus olhos pesaram, meu coração começava a desacelerar e por fim parar de bater, era isso eu morreria ali, com 16 anos, de um modo insignificante.

Acordei leve como uma pluma, boiava sobre a aguá morna, e olhava o relógio antigo que se formava sob teto de vidro, deixando passar a luz pálida e calorosa do Sol.

Fiquei ali sorvendo cada particularidade do lugar.

-Espero que esteja melhor Soph.

Um senhor encurvado, com profundos olhos castanhos, vestindo uma camisa branca amarrotada e calça social preta, me olhava sentado embaixo de uma árvore frondosa a qual eu não havia notado.

Ele me ajudou a sair do que parecia ser uma banheira ovalada, rasa, como as que existiam na Roma antiga. Pegou – me pela mão e me levou para caminhar, as alamedas verdejantes, eram ladeadas por flores de perfume inigualável, ruínas de templos antigos apareciam vez por outra, mas o silêncio se mantinha entre eu e meu anfitrião.

Ficamos assim  por horas, e o céu em seus tons liláceos pareciam não mudar se quer o tom.

Eu me sentia voltando ao lar, arvores frutíferas  e crianças apareciam agora em campo aberto, muros de mármore quebrados recebiam sobre si uma leve camada de um musgo verdinho e cheiroso que me remetia a infância, nem mesmo a brisa que soprava alternava a temperatura, ninguém parecia se cansar ou sofrer ali.

Moças com roupas esvoaçantes e jovens , com diademas feito com flores silvestres pareciam dançar no ar.

O sorriso franco, o olhar meigo, eram verdadeiras ninfas.

Eu estava encantada, não queria mais partir, meu anfitrião me sorria, sentado no que parecia ser a raiz da árvore mais antiga do lugar, ele estendeu a mão e apontou para um balanço ao seu lado, nada ali me causava mais estranheza ou desconfiança, eu ficaria ali se pudesse, afinal meu pai tinha Elen, eu era um problema, e a única coisa que eu não queria ver quando retornasse era o rosto do Dr. Fisher, aquele olhar começava a me causar arrepios todas vez que eu me lembrava dele e eu nem sabia o motivo.

-Você deveria tomar mais cuidado quando vem parar aqui. – Henri estava sentado no muro, mas era ignorado por todos ali como se não pudessem vê – lo, ele sorriu e piscou para mim, aquilo me fez perceber que algo estava errado.

-Por que eles não o vêem? – perguntei á ele, e só então notei que o senhor á meu lado, continuava inerte, sorrindo, transformando – se em estatua, assim como os demais e virando poeira.

-Eles sabem sobre você. – foi tudo o que Henri disse.

Caminhou até mim e empurrou – me no balanço, seu cabelo passou do negro para o loiro, e suas roupas passaram do tom escuro para os pastéis.

– Eles não me viam por que não preciso ser seduzido, conheço cada face ruim ou boa neste lugar, e da mesma forma que são capazes de mudar. – ele então veio para minha frente e parou diante o parou o balanço. – Eu também sou.

Seu rosto ficou próximo ao meu e um formigamento subiu por meu corpo, como se milhões de formigas andassem sobre mim, não resisti e o beijei, um beijo longo, correspondido e quente, meu corpo estava em brasa.

Ele segurava meu rosto em suas mãos e logo em seguida vi o seu eu verdadeiro voltar, ele me levantou do balanço e sentou – se na relva, agora fria, o beijo teve fim.

-Você está sendo seduzida, não pode ficar mais aqui.

-Seduzida? – ele disserá aquilo em um tom preocupado

-Existem seres nesse nosso plano que usufruem de forma vil de algumas aptidões que recebemos ou descobrimos, não sei ao certo. Eles são fortes e usam outras almas pra se manterem fortes, isso implica em usar médiuns desavisados como você que passeiam por aqui por um longo período de maneira desordenada, e não controlam isso. Existem regras aqui, e estes mesmos seres usurpam corpos, sugando sua essência e te impossibilitando de voltar. São chamados Ladrões de Alma, e como podemos ver, eles adoram presas desavisadas como você. – ele respirou fundo, como se aspirasse meu perfume, saboreando – o. – Seduzíveis…

-Mas qual o propósito de tudo isso? – perguntei nervosa

-Prender o maior número de almas e escraviza – lás. Sua alma não retorna para o plano físico, mas seu corpo também não morre, fica preso eternamente na letargia, corpo e mente definhando, enquanto sua alma pertence á eles, seja por um desejo, por servidão ou por loucura, no fim quando já estão saciados, e você volta pra lá, você fica perdido, não existe mais nada, seu corpo é uma casca podre e velha e infelizmente sua alma não pode seguir adiante, fica aqui, presa, sugando os restos dos outros ou torna – se o que seu povo chama de assombração.

Aquilo me causou falta de ar e senti como se tentassem me sufocar, estar ali significava que eu poderia morrer ou melhor, não – morrer, mas me tornar uma escrava de algum ser vil que eu jamais havia visto. Está cada vez melhor, só me apareciam problemas, e eles só aumentavam de proporção dos dois lados.

Agora eu precisava aprender a controlar isso, afinal não havia um modo de parar, se houvesse meu pai teria tentado e também não havia um modo de me defender.

Henri me estendeu a mão e me ajudou a levantar, em silêncio e então eu senti que voltaria pra casa, pro meu quarto e talvez pra toda aquela coisa de soros e sonda da última vez,para minha surpresa, não foi o que encontrei.

Eu havia dormido por mais tempo do que o normal. Um mês havia se passado e devido aos espasmos violentos durante o sono na primeira semana, com medo que eu me machucasse ou algo pior acontecesse, meu pai e Elen permitiram que Dr. Fisher me levasse para o hospital psiquiátrico. Por que?

Ele queria analisar  meu quadro de perto e não poderia se ausentar de sua clínica e dos demais pacientes, pelo menos essa foi a desculpa que ele fez meu pai acreditar.

O quarto era frio e cinza, descascaando tinta onde meus olhos podiam ver. Cheirava á mofo e a algum cigarro barato que alguém fumará ali perto.

No teto havia uma enorme rachadura que cortava – o de um lado a outro do comodo, as janelas deixavam passar somente uma luz artificial e eram incansáveis.

Não havia se quer um sinal de que o lado de fora existia, o soro  pingava ritmado enquanto o aparelho ao lado marcava por bips, as batidas de meu coração que agora se aceleravam.

Tentei me levantar, mas só então percebi que estava presa. Grossas fivelas de couro, que cheiravam á animal morto, prendiam minhas mãos e provavelmente também meus pés e cintura. eu tentei gritar, mas minha voz parecia ter sumido.

Uma porta de ferro rangeu atrás de minha cabeça e pude ver Fisher e uma enfermeira ruiva com feições duras, como as que acompanhavam Hitler, circundar minha cama e começar a averiguar os aparelhos.

-Oras viva, vejo que finalmente acordou srta. Carter. Como estamos hoje? – ele olhava a prancheta com ar de desanimo, enquanto a enfermeira aferia minha pressão e olhava os níveis do soro.

-Anne, tire estas fivelas de nossa paciente, isso é no mínimo…Deselegante.

Algo em mim me deixou em estado de alerta com tudo a minha volta, Anne fazia tudo calada, de um modo mecânico, apenas balançava a cabeça para responder se SIM ou NÃO.

-Soph, á exatamente um mês você dormiu e depois de uma semana em casa, com espasmos violentos  e nesse estado letárgico, convenci seu pai a me deixar trazê – lá para cá. Seu coração deu sinais de exaltação e seu sistema neural nos deu sinais de atividade continua, como se estivesse acordado e executando funções normais, eu não podia deixa – lá acordar e tive que apelar para um método não muito honesto, nas últimas duas semanas, as funções aumentaram e eu precisava de mais tempo para estudar o que ocorria então entrei doses cavalares de ópio, no momento acredito que você não consiga falar ou se locomover. Seus pais vem hoje e precisam ver que está bem.

Um mês havia se passado e aquele louco me mantinha ali como cobaia, sabendo que eu podia voltar á qualquer momento, mas preferiu me dopar…

As lágrimas me arderam nos olhos, eu já sabia que não sairia mais daquele lugar, dali em diante, eu contei no começo como foi. Elen dopada, eu sem poder falar e contar a verdade a meu pai, o reverendo indo me visitar fazendo verdadeiros shows de exorcismo diante de todos, a “paciente de luxo”, Henri…

 

CONTINUA…

Um comentário em “Ladrão de Alma (Pt.2)

  1. OH, INTENSO EIN!
    Deu uns arrepios aqui: esse cara tá fazendo ela de cobaia de exatamente o que?

    Lillithy, caramba, vc tá super poética nesses novos contos, to adorando esse jeito de escrever hehehe ❤ Parabéns!

    E que veja a próxima parte…. quem é Henri e será que ela vai ser seduzida ou levada pro outro lado de vez?

    Curtido por 1 pessoa

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