In the depths of her soul (Pt.5): Na escuridão sedutora da caverna

Escrito por Natasha Morgan.

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Rachel acordou com o barulho insistente do telefone.

Ainda grogue, arrastou o braço para fora da cama e apanhou o telefone em cima do criado mudo, colocando o fone colorido na orelha.

– Alô. – sua voz saiu embolada.

– Senhorita Bones, é o xerife. – a voz do outro lado da linha parecia hesitante. – Sinto muito tirá-la da cama a essa hora.

Rachel espiou o relógio de coruja na parede do quarto.

– Xerife, são 5:15 da manhã. – ela quase gemeu.

– Como eu disse, sinto muito. O resultado da autopsia do dedo que encontrou foi concluída.

Rachel se levantou imediatamente, ouvindo com mais atenção.

– O que descobriram?

– O polegar pertence a Tobias Hawke, desaparecido há três meses.

– Três meses?

– E não é só isso. – a voz do detetive ficou tensa. – Tobias Hawke era um detento da penitenciaria Cross Velk. Havia conseguido fugir numa rebelião e foi dado como desaparecido. Nenhum rastro.

– Cross Velk? Essa penitenciária não fica há alguns quilômetros daqui?

– Faz divisa com as nossas montanhas. Um bom lugar para se prender delinquentes, não acha? Eu mesmo já mandei vários indivíduos para aqueles muros. No entanto, o senhor Hawke não fazia parte da nossa cidade. Segundo seus documentos, ele nasceu no Texas.

– Xerife, o senhor se importaria se eu desse uma olhada nesses documentos?

– De forma nenhuma. Contamos com sua ajuda para resolver esse caso.

– Eu agradeço a confiança, Xerife.

– E, mais uma vez, desculpe por tê-la acordado tão cedo.

– Não se preocupe com isso. – Rachel disse e desligou.

Aquela ligação só a deixou pensativa.

Mais uma morte distinta ocorrida dentro da floresta.

E nenhuma investigação sobre animal selvagem rondando as montanhas.

Aquilo estava bastante esquisito.

Rachel chutou as cobertas e se levantou.

Deu comida a Flook, tomou um café reforçado com chá verde, vestiu uma roupa confortável e foi dar uma volta na beira do rio para pensar.

O dia estava nublado novamente e a brisa fresca em seu rosto era um conforto a mais, permitindo a ela organizar seus pensamentos. A caminhada foi tranquila, a paisagem era extremamente agradável. Suas botas pesadas esmagavam o cascalho conforme andava e o som parecia familiar.

A água do rio estava calma, Rachel até avistou alguns barcos ao longe. Um bom dia para a pesca. Isso a lembrou de dar uma passada no mercado para comprar alguma coisa para fazer no almoço. Ficar almoçando no bar de Erin não era um hábito que queria manter. Afinal de contas, nada como uma comida feita por suas próprias mãos.

Ela estava quase chegando onde escapara da floresta no dia anterior quando avistou um grupo de homens descendo pela trilha. Pareciam sujos, cansados, e arrastavam alguma coisa grande com eles.

Um alce abatido.

Rachel se aproximou a passos largos.

Os homens se entreolharam quando a viram, mas continuaram arrastando a carcaça do animal.

– Bom dia, senhorita. – cumprimentou um deles com um aceno de cabeça.

– Um pouco cedo para a caça, não? – Rachel os cumprimentou.

– Quem nos dera. – comentou outro.

– Recebemos uma reclamação de algo fedendo nas proximidades das casinhas. O Xerife nos mandou dar uma olhada e o encontramos. – o homem apontou para o alce morto.

Rachel franziu o cenho.

– Estive nessa trilha ontem à tarde não senti nenhum cheiro.

– Foi abatido esta madrugada.

– O que o abateu? – Rachel olhou para o animal parcialmente comido.

– Você é a especialista no assunto, não?

Rachel encarou o homem com o cenho franzido.

– Talvez tenha sido devorado pela besta que se esconde nas montanhas. – disse um dos rapazes e Rachel o reconheceu.

– Cass, não é?

– Olá, senhorita Bones. – o garoto a cumprimentou. – Sinto muito pelo meu pai, ele anda nervoso.

– Talvez se esse animal selvagem não estivesse atrapalhando a temporada de caça, eu ficasse mais bem humorado. – o homem disse, torcendo os lábios.

– Estamos fazendo o que podemos. Em breve descobriremos o que está matando os animais e atacando pessoas.

– Sim, faça alguma coisa. Lawson é um preguiçoso que só se importa com suas borboletas estúpidas.

Cass riu do aborrecimento do pai e recebeu um olhar feio em troca.

Eles voltaram ao trabalho, arrastando a carcaça.

– Para onde vão levar isso? – Rachel perguntou.

– Para casa. – o homem mal humorado respondeu. – Vamos dividi-lo entre nós.

Diante da expressão enojada da garota, o homem sorriu.

– De onde veio não lhe ensinaram a comer carne de alce?

Ela balançou a cabeça, perturbada.

– E a cabeça dá um belo enfeite. – disparou outro homem, satisfeito.

– De qualquer forma, fique longe da floresta de noite, menina. – alertou o pai de Cass. – E tranque bem as portas de casa. O animal que abateu esse alce, seja o mesmo que matou aquelas pessoas ou outro selvagem, está se afastando dos limites da floresta. Chegou bem perto de nós.

Rachel assentiu.

– Tomarei cuidado. – disse e os viu se afastar, carregando o alce.

Cass ficou para trás, fitando-a com timidez.

– Eles vão mesmo comer isso? – Rachel perguntou.

– Não é tão ruim quanto parece.

– Você sabe que outro animal o devorou parcialmente, certo? Pode haver bactérias na carne.

– Diga isso ao meu pai. Aquele velho come tudo o que acha na floresta. Não é a toa que vive com dor de estômago.

Rachel riu.

Cass pigarreou.

– Bom, acho melhor ajuda-los com aquilo.

– Hum, Cass – Rachel o chamou antes dele ir. – Pode, por favor, me dizer onde posso achar o tal Lawson?

O garoto a fitou com o cenho franzido.

– Acho que ele está nas montanhas. A essa hora ele costuma ir observar as borboletas nas campinas.

– Nas montanhas, é? – Rachel não pareceu feliz.

– Lawson vive nas florestas. É obcecado pelas borboletas.

Rachel assentiu.

– Obrigada.

Cass hesitou.

– Ele é meio maluco. Então não se assuste.

– Vou me lembrar disso.

– Se quiser posso ir com você. Para não ir sozinha. Sabe, as montanhas são perigosas.

– Você é muito gentil, Cass. Mas não se preocupe. Estou acostumada a lidar com a natureza. Nos vemos mais tarde.

Rachel acenou e saiu andando.

 

Ela não sabia ao certo quanto tempo ficou parada olhando para a trilha antes que decidisse finalmente adentrar a floresta. Os eventos do dia anterior a deixaram bastante assustada e ela realmente havia prometido a Moon que não subiria aquelas montanhas de novo. No entanto, precisava mesmo falar com aquele biólogo. E não podia esperar.

Foi praguejando e torcendo para que nenhum animal selvagem cruzasse seu caminho que Rachel seguiu a trilha até o meio da floresta. E com muito custo atreveu-se a subir as montanhas novamente, olhando tudo ao seu redor com cautela.

Por sorte não encontrou nenhum cadáver de animais abatidos. Ou vestígios de violência nas árvores e terra. Estava tudo muito tranquilo e quieto. Topou com alguns coelhos selvagens e chegou a levar um susto com uma cascavel aborrecida. Mas conseguiu sair ilesa e chegar ao topo da montanha.

Não cometeu o mesmo erro de tentar se aproximar da trilha escondida que levava à cabana Harper. Ao invés disso seguiu para o outro lado, procurando alguma entrada de campina. Ao longe pôde ouvir o som da queda de água, talvez houvesse uma cachoeira ali por perto. Isso a animou. Pelo menos, se alguma coisa a perseguisse poderia despista-la pela água. Ela se lembrou do urso pardo e seu coração se apertou.

Continuou caminhando atenta até que avistou, ao longe a parca luz do sol iluminando uma campina. De repente se sentiu mais segura e animada, apressou o passo. O aroma de grama encheu seu nariz, deixando-a mais confortável.

A campina se revelou de uma beleza bucólica, cercada de árvores densas e dentes de leão. Rachel adentrou o prado e foi recebida por borboletas de diversas cores. A onda colorida se espalhou pelo ar com graciosidade. A garota observou uma delas pousar gentilmente em seu ombro.

– Ah, para onde foram minhas belezinhas? – ouviu-se uma voz se aproximando.

Um homem na flor da idade surgiu por um dos arbustos. Ele sorria com jovialidade, mas tão logo notou a garota em seu prado, assumiu uma expressão séria. Vestia-se com calça camuflada, camiseta bege e um colete de explorador. Seus óculos de fundo de garrafa tinha uma armação pesada e marrom. E os olhos por trás das lentes eram de um azul escuro deslumbrante. A barba cheia era escura como os cabelos engruvinhados.

– Quem é você? – ele logo inquiriu.

– Sinto muito, não quis assustá-lo. – Rachel se desculpou.

– Assustar-me? – o homem fez um esgar desdenhoso. – Ninguém me assusta, oras. O que faz em minha campina?

– Meu nome é Rachel Bones. – ela se apresentou. – Sou bióloga e estou ajudando nas investigações do ataque recente que tivemos.

– Ah, você é a pequena curiosa. – Lawson apertou a mão estendida num gesto educado. Mas a gentileza não chegou a seus olhos. – O que quer comigo? Pelo jeito não sou bom o suficiente para essa cidade visto que na primeira oportunidade me substituíram.

– Não estou aqui para roubar seu emprego, senhor Lawson.

– É o que todas dizem.

Rachel suspirou, dando-se conta de que seria uma conversa difícil.

– Então, o que posso fazer por você, pequena ladra de empregos? – o homem perguntou, tentando soar educado e engraçado.

– Gostaria de falar um pouco sobre os animais.

– Mas é claro. – ele sorriu, um tanto presunçoso. – Quer saber se eu faço alguma ideia de que tipo de animal matou aqueles jovens.

– Na verdade, não. Acho que suas suposições são as mesmas que as minhas, sem poder afirmar com certeza…

– Minha suposição é a mesma que disse ao xerife toda vez que algo morre nessas florestas. – Lawson a interrompeu. – Pessoas são estúpidas, bebem, entram na floresta desrespeitando os animais que aqui vivem e, vez ou outra, acabam invadindo e xeretando o território de algum grande predador. E então são caçados. Eu mesmo já cansei de espalhar placas e avisos para não entrarem na floresta depois do entardecer.

– Senhor Lawson, ninguém entrou na floresta. O animal estava dentro da cidade. – Rachel disse, sensata.

– Provavelmente porque algo o atraiu.

– E que tipo de animal o senhor tem em mente?

– Um puma talvez. Esta floresta está repleta deles. E Deus sabe o quanto esses adolescentes idiotas amam assustá-los!

Rachel franziu o cenho.

Lawson sorriu.

– Estou nessa floresta há mais tempo que você. Já vi coisas que as pessoas duvidam. Pergunte ao xerife.

– Sim, sim. Eu li o relatório que fez quando os adolescentes foram atacados na cabana Harper.

– Não acreditou em uma palavra. – ele supôs.

– Meio difícil acreditar que jovens festeiros tivessem vindo à floresta somente para procurar um puma e o enfurecer.

– Como eu disse, estou nessa floresta há mais tempo que você. Conheço a mente aventureira e irresponsável dos jovens.

– Então o senhor acredita que o grupo de jovens que morreram atraiu um animal selvagem para os limites da cidade e depois foram atacados por eles?

– Você não? Parece-me o óbvio.

– De certa forma, sim. Isso não é impossível. No entanto, as evidências são contraditórias a essa teoria.

– Senhorita Bones, a única evidência plausível está na natureza.

– E é por isso que estou aqui. Você vive nessas florestas, como mesmo me disse conhece a floresta melhor do que qualquer um. Vive observando os animais. Notou algo de diferente em seu comportamento? Alguma alteração importante?

– Não há nada de errado com os animais. Um ou outro rondando fora de seus limites, mas nada com que devemos nos preocupar. Eu estou sempre de olho. E faço muito bem meu trabalho. Ontem avistei um urso próximo à cabana, ele estava fora de seus limites, mas até onde sei isso não é nenhum crime. São curiosos natos e estavam apenas fuxicando o lugar em busca de frutas.

Rachel sorriu.

– Tive o desprazer de me encontrar com seu amigo urso.

– Que bom que saiu ilesa, então. Ursos pardos costumam fazer grandes estragos.

– O que fez com ele?

– Levei-o de volta para a área dele. Não é bom deixar animais selvagens rondarem perto das trilhas. – Lawson a fitou. – Não está achando que foi o urso quem matou aqueles jovens, está?

– Talvez. Ursos têm capacidade e força suficiente para retalhar um corpo como aqueles jovens foram retalhados.

– Um puma também, o que, aliás, seria o mais provável. Felinos são mais facilmente atraídos para cidades. São ágeis para passarem despercebidos e adentrarem lugares fechados.

– Ursos também, se estiverem atrás de comida. Um puma não seria capaz de fazer os estragos que foi feito. Por mais pesado, forte e perigoso que seja. E, se fosse um puma, senhor Lawson, não acha que as testemunhas saberiam dizer?

– E o que acha que foi? Um cachorro mutante? Porque é exatamente o que as testemunhas estão dizendo.

– Pessoas se confundem.

– Oh, sim, eu sei. Que bom que sou alguém evoluído então, certo? Hoje de madrugada um alce foi abatido, na trilha próxima ao rio. Vai me dizer que seu urso desceu até lá e o matou?

Rachel sentiu um arrepio.

– Pode ser possível.

– Ursos não descem a montanha até o rio. – Lawson foi enfático, estava cada vez mais aborrecido. – Tem gigantes cachoeiras aqui em cima para caçarem seus peixes e se alimentarem. Agora, a menos que me diga que alguém roubou um filhote e o escondeu na cidade, não me venha dizer que um urso pardo se meteu a besta até lá embaixo.

Rachel o fitou de forma inexpressiva.

– O senhor defende suas ideias de forma bastante eufórica, não é?

– Não gosto de teorias absurdas. E esse pessoal da cidade adora conspirar.

– Compreendo.

– Não compreende, não. O ser humano teme o que não conhece. Quando começam com essas teorias acabam gerando o pânico. E quando o pânico se espalha, nada de bom advém disso.

– Eu já vi uma população ser devastada por medo, senhor Lawson. Entendo o que quer dizer.

– Então, por favor, faça seu trabalho e não dê vez para que conspirações sejam feitas. Não há nada de estranho com essas mortes. Nada de mistério. Um animal selvagem e faminto os seguiu até a cidade. Isso acontece em vários lugares.

– E quanto as outras mortes?

– Que outras mortes? Todas foram solucionadas sem mistério.

– Foram arquivadas. – Rachel o corrigiu.

– Sabe por que as pessoas não gostam de mim, senhorita Bones?

Rachel o fitou, indiferente.

– Porque eu não dou a elas conspirações para investigar. – Lawson respondeu. – O que atacou aqueles adolescentes na cabana Harper foi um Puma faminto. E o que matou aqueles jovens delinquentes na floresta foi o mesmo animal. Não há mistério aqui. Nada de sobrenatural. Apenas um animal com instintos selvagens naturais.

– Se você estiver certo afinal, lhe pago uma bebida. Mas por enquanto, continuarei investigando do meu jeito. E se eu estiver certa e o comportamento desses animais estiver diferente do normal, terá sorte de seu diploma não ser caçado.

– Está me ameaçando? – Lawson estreitou os olhos.

– Não. Estou apenas expondo a realidade a seus olhos. Não sei que tipo de sujeira está encobrindo, senhor Lawson, ou se o senhor é apenas um esnobe presunçoso. Mas pessoas estão morrendo por sua negligência.

– Pessoas morrem todos os dias, em todos os cantos do mundo pelas patas de um animal selvagem. E você vem querer disseminar conspirações ridículas? Me poupe, garota.

– Meu faro investigativo é mais eficiente do que essa sua vida sedentária. Agradeço a conversa. Passar bem. – Rachel se afastou a passos largos.

– Sugiro que tome cuidado então. Seu cachorro mutante pode estar a espreita na floresta! – Lawson gritou por sobre o ombro e sua risada de escárnio alcançou a jovem ao longe.

 

 

 

 

Rachel batia os pés, furiosa, enquanto marchava pela floresta.

Mas que filho da mãe arrogante!

Quem aquele cara pensava que era?

Não era a toa que as pessoas não gostavam dele. Agora entendia por que o xerife estava satisfeito com ela. As palavras daquele homem só a fizeram querer investigar mais e mais aqueles casos arquivados. Alguma coisa estava acontecendo, algo estava sendo encoberto. E ela descobriria o que era.

E aquele cretino do Lawson seria desmascarado!

Algo se moveu na floresta, fazendo-a estancar onde estava.

Rachel varreu os olhos pelo lugar, cautelosamente.

Um sentimento de pânico ameaçou irromper de seu peito, tinha a estranha sensação de que estava sendo observada. Por um momento pensou em correr de volta para a campina. Será que Lawson seria um imbecil até na hora de socorrê-la? Ela não duvidava. Mas a aventureira destemida dentro dela falou mais alto e Rachel decidiu seguir a trilha e enfrentar o que quer que fosse.

Rezou mentalmente para que não fosse mais um urso. Ou um Puma.

Ela prosseguiu, apertando os passos até a trilha por onde viera.

As árvores a cercavam, imponentes e as folhas se balançavam com o vento num farfalhar agradável. Rachel apoiou-se nos troncos grossos para se equilibrar no caminho cheio de galhos partidos. Seus olhos atentos vagavam incansavelmente pelas redondezas, procurando por algo estranho.

Ao ouvir um esgar, virou-se para trás assustada. Mas não viu nada além de uma floresta silenciosa.

Recuperando a respiração, voltou-se para frente e hesitou.

Havia algo entre as árvores logo à frente. Uma sombra espreitando por entre as folhas e galhos. Rachel estreitou os olhos, tentando enxergar e, quando fez menção de avançar, a sombra se mexeu, sumindo pela floresta.

Aquilo era um homem nu?

Rachel desatinou a correr atrás do vulto, passando pelo meio das árvores e sentindo os galhos arranharem seu rosto, pescoço e mãos. A floresta passava por ela como um borro à medida que corria, sem se importar onde aquela sombra a estava levando. De repente seu pé enroscou num galho e ela caiu de joelhos no chão, sujando a calça de terra.

O estranho vulto parou com o grito dela e voltou o rosto naquela direção.

Rachel arregalou os olhos quando se viu diante daquele rosto.

Não importava se estava longe ou parcialmente coberto por sujeira. Ela o reconheceria em qualquer lugar.

– Dominic – Rachel sussurrou.

O vulto desapareceu entre as árvores.

Rachel se levantou as pressas, chutando o galho que prendera seu pé e saiu correndo atrás da sombra.

– Dominic! – ela gritou e o eco de sua voz reverberou por toda a floresta.

Mas ninguém respondeu a não ser o farfalhar das folhas dançando com o vento.

Rachel continuou no encalço do vulto, seguindo cada vez mais fundo na floresta. Seu coração martelava no peito diante de tal esperança, a respiração ofegante quase a fazendo parar. Mas ela ignorou tudo, concentrando-se em chegar até a sombra daquele homem.

O rastro se perdeu no meio do caminho, deixando para trás nada além do aroma inconfundível de grama.

Rachel freou derrapando na terra. Confusa, olhou para os lados. Não havia nada. Nenhuma sombra, nenhuma pegada, nenhum barulho. De longe podia ver a cabana Harper encoberta por folhas e árvores. Será que ele havia corrido para lá? Duvidava muito. O vulto desapareceu diante de seus olhos. Simplesmente evaporara.

Ela se apoiou na montanha rochosa ao seu lado, respirando com dificuldade. Seus olhos vagaram para cima. A montanha era enorme, feita de rocha maciça e se estendia numa parede sólida metros acima.

Rachel franziu o cenho, afastando-se um pouco para poder enxergar melhor.

Uma caverna.

Alguns metros acima, no centro da montanha havia uma abertura larga. Só podia ser uma caverna. Será que o vulto se escondeu ali dentro? Mas como…

Rachel tocou a rocha sólida com a ponta dos dedos, sentindo sua aspereza e vendo as brechas que tinha em sua extensão. Ela encaixou os dedos numa das fendas e impulsionou o corpo para cima, encaixando o pé numa outra fenda e empurrando o corpo para cima. Encaixou a mão na fenda seguinte, imitando o movimento com o pé e impulsionando o corpo mais uma vez. Já fizera isso antes. Inúmeras vezes. Para uma aventureira como ela, escalar era uma atividade fácil.

Não pôde evitar que a rocha lhe arranhasse os braços e os joelhos, mas sequer se importou por não estar usando os equipamentos necessários. Em poucos minutos chegou à superfície da caverna. Agarrou o chão firme com as duas mãos e forçou o corpo a subir.

Sua respiração ofegante ecoou no silêncio escuro.

Rachel estreitou os olhos, tentando enxergar alguma coisa lá dentro. Mas não via um palmo a frente do nariz. A única luz que entrava era a que vinha da entrada da caverna e era quase inexistente.

Ela avançou na tentativa de descobrir o que havia ali dentro, ouvindo apenas o som de seus passos cautelosos sendo absorvidos pelo silêncio sombrio. Maldita hora em que não pensou em levar um isqueiro ou algo do tipo.

Só esperava que morcegos não viessem recebê-la como nos filmes de terror.

Alguma coisa se moveu no breu e ela hesitou. Uma luz dourada surgiu na imensidão de ébano que cercava a caverna, dançando com certa elegância no ar. Rachel estreitou os olhos, tentando enxergar melhor, mas sem se atrever a sair do lugar.

De repente o dourado desapareceu, dando forma a uma carranca.

O homem sério surgiu à sua frente num piscar de olhos, fazendo-a se assustar.

Rachel deu um grito a plenos pulmões que reverberou pela caverna e feriu seus ouvidos, e deu vários passos apressados para trás na tentativa de escapar. Seus pés chegaram ao limite de penhasco e ela escorregou. Só teve tempo de prender a respiração antes que seu corpo se perdesse no vazio.

Uma mão forte agarrou seu pulso, impedindo-a de cair lá embaixo.

Rachel choramingou de medo, olhando para o estranho que a mantinha suspensa no ar. Seus olhos eram claros e bastante expressivos, o rosto belo emoldurado pela barba castanho claro. Aquela imensidão penetrante lhe lembrou o olhar de Moon.

O estranho a puxou para cima, para a segurança plana da caverna.

– O que está fazendo aqui? – a voz dele era rouca e nada gentil.

Rachel recuou, tomando o cuidado de não se aproximar do penhasco novamente. Ela respirou fundo, recuperando o ritmo normal das batidas de seu coração. Seus olhos não ousavam deixar os dele.

O estranho cruzou os braços numa expressão tranquila, esperando-a responder sua pergunta. Parecia imperturbável com o que acontecera. Como se ver moças caindo de penhascos fosse uma coisa normal para ele.

– Eu pensei ter visto alguém… – Rachel disse, com dificuldade. – Achei que, talvez, ele pudesse ter entrado aqui.

– Ninguém vem a essa caverna.

– Bem, você está aqui.

– Eu quis dizer nenhum forasteiro. – ele se corrigiu prontamente.

– O que faz aqui? Está se escondendo?

O homem repuxou os lábios num sorriso sem qualquer traço de humor.

– É uma investigação? A intrusa aqui é você.

– Sinto muito, não sabia que a caverna era sua. – Rachel respondeu com rispidez.

– Eu acabo de salvar sua vida.

– Bem, obrigada.

Eles se fitaram por algum tempo, impassíveis.

– O que quer que esteja procurando, não entrou aqui. – o estranho disse, finalmente. – Faça um favor a si mesmo e reserve suas aventuras longe dessas montanhas. Não tenho tempo de lidar com garotas inconsequentes ou estúpidas a ponto de escalar uma montanha perigosa e adentrar uma caverna que poderia ser o covil de algum animal selvagem.

– Mas o que há com as pessoas dessa cidade? – ela jogou as mãos para cima, aborrecida. – São tão rudes e arrogantes!

– Mude-se e isso não será mais um problema.

Desta vez quem cruzou os braços foi Rachel.

– De qualquer forma, não deveria estar aqui. – o estranho continuou. – Não dizem que há um animal selvagem solto por aí? Até onde sei este poderia facilmente ser sua toca.

– Duvido muito. Qualquer animal selvagem não teria humor ou paciência para dividir o covil com você.

– É mesmo? E o que mais acha que sabe? – o estranho se aproximou, fazendo a garota recuar. – Cuidado. Não queremos que escorregue novamente.

– Fique longe de mim! – ela sibilou.

– Não tenho intensão nenhuma de me aproximar de você.

Rachel não acreditou nem um pouco na afirmativa. Recuou mais um passo e olhou para baixo, pensando em como desceria aquela montanha sem um equipamento.

– Eu posso ajudá-la, se quiser. – o estranho disse, com um toque de humor na voz.

– Não precisa. – Rachel se sentou na beira do penhasco – Estou acostumada a situações como essas.

Ela se apoiou no chão áspero, pondo um dos pés para fora e enganchando-o numa das fendas da rocha.

– Espero não vê-la por aqui novamente, Rachel Bones.

– Como sabe meu nome? – ela hesitou, pendurada na rocha sólida.

– A nova bióloga não é mais novidade nessa cidade. – o estranho se aproximou. – Essas montanhas não foram feitas para pessoas escalarem. Desça devagar, alternando os pés por entre as fendas.

– Eu sei escalar uma montanha. – Rachel apertou os lábios numa expressão aborrecida e iniciou sua descida.

Quando chegou lá embaixo, seguiu a trilha sem lançar um olhar sequer para cima.

Que tipo de idiota vivia numa caverna no alto da montanha?

Ela não queria saber.

Na verdade, tudo o que lhe importava naquele momento era chegar em casa, apanhar uma pasta de documento antigo e ir direto à delegacia. Precisava falar urgentemente com o xerife.

 

Rachel não se preocupou em trocar de roupa ou pentear os cabelos desgrenhados. Entrou em casa apenas para apanhar algo importante e logo estava dentro do Audi a caminho da cidade. Estacionou na fileira de vagas disponíveis próximo à delegacia e saiu às pressas para a calçada.

O sino da Igreja soou umas duas vezes e a multidão se dissipou, saindo da construção rosada. Conforme atravessava a rua, Rachel pôde ver Charlotte no meio de um grupo de pessoas muito bem vestidas. Os olhos da senhora se encheram de esperança e um sorriso se formou nos lábios convidando-a se aproximar.

Rachel acenou uma vez, apressada, e correu para dentro da delegacia.

O Xerife estava ocupado, lindando com outra visita.

Rachel reconheceu Moon na salinha pequena e, como se sentisse sua presença, a mulher olhou para ela. Mais uma vez teve de lidar com aquele olhar penetrante e cheio de mistérios.

O xerife voltou os olhos para a garota e seus lábios se abriram num sorriso.

– Ah, senhorita Bones! – ele a convidou a entrar. – Estávamos a sua espera.

Rachel lançou um olhar interrogativo à Moon. Mas a mulher se limitou a encará-la, observando suas roupas sujas e o cabelo desgrenhado.

– A senhorita Red Velvet estava dizendo que quase foi atacada por um urso quando visitava a cabana Harper. – Garrett começou a dizer. – Sinto muito por isso.

Rachel voltou sua atenção para o xerife.

– Um incidente infeliz.

– Espero que tome mais cuidado. Estas montanhas estão a cada dia mais perigosas. Um de nossos promotores sugeriu construir uma barreira nos limites da cidade. As pessoas estão assustadas.

– Não será necessário, xerife. Em breve teremos esse mistério solucionado. Mas não foi por isso que vim até aqui.

Garrett mostrou surpresa.

– Gostaria que o senhor me ajudasse num assunto. – Rachel se interrompeu e olhou para Moon.

Ela entendeu perfeitamente a deixa.

– Eu já vou indo, xerife. – disse. – Obrigada por sua atenção.

Quando a porta se fechou, Rachel se sentiu a vontade para falar. Sentou na cadeira onde Moon havia estado e estendeu a pasta sobre a mesa.

– Gostaria que o senhor reabrisse esse caso.

Garrett se sentou em sua poltrona puída e colocou os óculos, apanhando o documento para examiná-lo. Ele franziu o cenho enquanto lia e chegou a morder o canto da boca.

– Mas senhorita Bones, esse caso está arquivado há anos. Sequer pertence a esse município.

– Eu sei. Mas eu o vi.

– Você o viu? – o cenho do xerife se franziu. – Onde?

– Nas montanhas.

– Está me dizendo que viu Dominic Kemp na floresta? Tem certeza de que era ele?

– Eu tenho certeza, xerife! Acha que não o reconheceria alguém com quem convivi por tantos anos? Era ele, eu sei que era!

– E vocês conversaram?

– Não. Quando me viu, ele saiu correndo e desapareceu. Por isso vim aqui. O senhor precisa reabrir esse caso e investigar. Ele ainda está na floresta, perdido e sozinho. Talvez sem memória.

O xerife retirou os óculos, encarando a garota com sensatez.

– Senhorita Bones, o laudo diz que Dominic Kemp desapareceu no Grand Canyon há nove anos.

– Isso não é um laudo! Ele não está morto. Eu sei que não está. – os olhos dela se encheram de uma certeza furiosa.

– Eu sinto muito. – Garrett parecia sincero. – Você disse que veio do Arizona… Suponho que tenha vindo para cá para se libertar dessa perda.

– Eu viajei por diversos lugares tentando me livrar dessa perda, buscando alguma resposta para o desaparecimento dele. Mas não encontrei nada. Tampouco me livrei desse sentimento. Já tinha até me dado por vencida. Mas eu o vi, xerife. Vi com meus próprios olhos e ele estava vivo e saudável.

– Então por que não foi ao seu encontro? Por que não conversou com você?

– Eu não sei. Há algo errado com ele. Talvez não se lembre de nada.

– Essa história se torna cada vez mais estranha, senhorita Bones. Sinto muito, não posso ajuda-la. Não faz o menor sentido o que está me contando.

– Eu sei que não faz sentido, xerife. Acredite, eu mesma não assimilei tudo isso ainda. Só o que estou pedindo é que faça algumas buscas.

Garrett a fitou com atenção, refletindo sobre o assunto.

– Sabe que seu inconsciente e vontade de encontra-lo podem estar interferindo em seu juízo, certo?

– Tive aulas de psicologia, xerife. Eu sei o que eu vi.

Ele assentiu.

– Vou mandar meu pessoal dar uma olhada, para desencargo de consciência.

Rachel suspirou e a gratidão sincera toldou seu olhar.

– Ah, xerife. – ela pareceu se lembrar de algo. – Por falar em dar uma olhada em pessoas estranhas na floresta, eu gostaria de mencionar uma coisa.

Garrett voltou seus olhos para ela.

– Tem um estranho forasteiro vivendo em uma das cavernas no alto das montanhas.

– Caverna? – o xerife parecia surpreso

– Eu a descobri por acaso, hoje e resolvi dar uma olhada. E o encontrei lá dentro.

– Um homem adulto vivendo nas cavernas acima da montanha?

– Eu sei que não faz nenhum sentido. Mas ele estava lá, escondido no escuro e quando me viu fez questão de deixar claro que eu não era bem vinda. Chegou a me ameaçar.

– As escaladas foram proibidas há três anos quando aventureiros começaram a se acidentar na queda. – xerife repreendeu.

– Eu estou acostumada a escaladas mais difíceis. E estava explorando o lugar.

O xerife estreitou os olhos com desconfiança.

– Acha que vai encontrar alguma pista dentro de cavernas?

– Talvez. Animais agressivos se escondem em cavernas.

– Diga isso ao homem que encontrou. – Garrett riu.

Rachel não demonstrou qualquer humor.

O xerife ficou sério novamente.

– Está bem. Mandarei os homens darem uma olhada nas cavernas também.

– Obrigada, xerife.

Garrett assentiu, dando-lhe as costas e fuçando num armário de arquivos. Retirou uma pasta verde de uma das gavetas e a depositou em cima da mesa.

– O documento que me pediu.

Rachel apanhou a pasta, examinando seu interior rapidamente.

– Ah, sim. Obrigada mais uma vez, xerife.

– A Detetive Dawson também iniciou suas investigações sobre o detento desaparecido. Não há qualquer sinal do corpo ou ossos.

– Se foi um animal selvagem que o atacou, duvido muito que encontre algo, xerife.

Ele torceu o nariz numa clara expressão de desagrado.

– Não se preocupe. Em pouco tempo resolveremos esse mistério. E então poderei ligar para meu amigo especialista em captura e livraremos essa floresta desse infortúnio.

– Especialista? – o xerife riu. – Quando descobrirmos o que está atacando as pessoas os próprios cidadãos vão querer caçá-lo. Estou tendo que segurar os caçadores da cidade, senhorita Bones. E não está sendo fácil.

– Vamos dar um jeito. – prometeu Rachel e saiu da sala do xerife.

Moon a esperava do lado de fora e não parecia nada contente. Teria ela escutado algo lá dentro? Ou deduzira que fora explorar a floresta pelo seu estado lastimável? Rachel passou por ela sem dizer nada, atravessando a soleira da porta da delegacia.

Moon a seguiu, claro.

– Achei que fosse uma boa ideia não explorar mais a floresta sozinha. Especialmente as montanhas. Você prometeu.

– É. Mas tive que quebrar a promessa. – Rachel disse, apática.

Moon a ultrapassou, barrando seu caminho. Seus olhos encararam a garota com seriedade.

– Rachel, é estupidez voltar à floresta. Ainda mais sozinha.

– Estupidez é o cacete! – ela explodiu e sua voz alterada chamou a atenção das pessoas na rua. – Não vou deixar de fazer trilha, aproveitar a natureza ou investigar aquelas montanhas só porque tive a infelicidade de topar com um urso pardo!

Moon apertou os lábios para não rir da explosão da outra.

Cruzou os braços, encarando-a com presunção.

– E como se saiu dessa vez? Nenhum incidente? – seus olhos se demoraram na roupa suja e cabelo desgrenhado.

– Nada com que eu não pudesse lidar.

Rachel continuou marchando pela rua, deixando Moon para trás.

As pessoas que antes estavam na porta da igreja acabaram por se espalhar pela rua e Charlotte estava entre elas. Tão logo viu Rachel caminhando naquela direção, se lançou até a garota com um sorriso animado.

Moon fitou a velha do outro lado da rua e não pôde deixar de emitir um grunhido.

Como se o som fosse levado até ela pelo vento, Charlotte se interrompeu no meio do caminho. Sua expressão se fechou e ela olhou feio para a mulher, fazendo o sinal da cruz. Correu em direção à outra jovem, pegando-a pelo braço com carinho.

-Querida Rachel. – disse, toda animada. – Você veio ver a Igreja da cidade?

– Olá, Charlotte. – Rachel a cumprimentou sem o mesmo entusiasmo. – Vim falar com o xerife.

– Ah, sim? – os olhos da mulher se iluminaram. – Tem novidades sobre o caso? Ouvi dizer que está investigando a floresta. Embora eu deva alertá-la, é claro, para ficar longe daquelas montanhas. É um lugar deveras perigoso.

– Não há nada de perigoso nas montanhas, apenas animais selvagens.

– Minha querida, não seja tão tolinha. – Charlotte soltou um risinho. – Eu prometi cuidar de você, então perdoarei sua ignorância.  Mas vamos nos ater à igreja. Você precisa conhecer nossa congregação.

– Eu adoraria. Mas agora estou realmente sem tempo.

Rachel foi entrando no carro.

– Devemos sempre tirar um tempo para adorar o Senhor.

– Então o adore por mim, sim?

Charlotte fechou a cara, aborrecida com a resposta cínica da garota.

– Eu a observei brigando com aquela mulher. Espero que tenha se afastado dela.

Rachel respirou fundo, tentando não perder a paciência.

– Entendo seu aborrecimento, minha querida. Não é fácil resistir às tentações que satã coloca diante de nosso alcance. Mas não se renda. Seja forte.

– Senhora Blanc, eu não acredito em Satã. Tampouco em Deus. Eu acredito no grande poder dos Dinossauros. – Rachel lhe abriu um sorriso estonteante e pisou no acelerador, deixando a senhora boquiaberta parada na calçada.

 

Ragnar estava sentado em sua escrivaninha de carvalho branco, examinando alguns documentos importantes. Relatórios de desaparecimento, morte e suicídio de algumas pessoas nas redondezas, algumas cartas de amigos distantes e relatos de crimes cometidos por desgarrados de seu clã.

No ambiente frio e pouco iluminado, somente seus instintos selvagens lhe proporcionavam conforto. Mas tinha vantagem viver naquelas cavernas. Era seguro. Longe dos olhos humanos, de difícil acesso e representava uma prisão de segurança máxima àqueles que infligiam às leis do clã.

Seus olhos perpassaram a parede rochosa de gruta. Podia ouvir, ao longe, os resmungos e ameaças daqueles que mantinha sob as grades nos cárceres da caverna. Vex deveria estar atormentando-os, como bem gostava de fazer. E Snow, de certo, estaria vigiando a abertura dos fundos do covil.

Aquela não era uma caverna comum. Havia uma entrada e uma saída, caso precisassem fugir dos caçadores. Uma estratégia que seu irmão criou para proteger o clã. Seu posto no alto das montanhas fazia parte da estratégia. Enquanto a Alpha vivia no casarão com alguns membros mais nobres do clã, o herdeiro ficava no posto de vigia. Assim como seus mais fortes guerreiros.

Além do que, a floresta era a casa daquelas criaturas tão singulares.

Uma sombra se moveu na parca luz da caverna, alertando Ragnar.

Moon surgiu diante de seus olhos, bela e misteriosa. Em sinal de respeito, a jovem se ajoelhou e mostrou o pescoço numa saudação tradicional da espécie.

Ragnar mostrou surpresa.

– Não esperava vê-la aqui. – admitiu.

– Encontrei com a bióloga na delegacia. – Moon contou.

Ragnar ergueu as sobrancelhas.

– Que coincidência. Tive o desprazer de conhecê-la hoje também. Aqui. – seu olhar tornou-se aborrecido.

– Eu sei. – Moon suspirou. – Eu a ouvi contar ao xerife sobre sua escalada à caverna.

– E qual a sua explicação para isso? Achei que houvesse deixado claro que a humana está sob sua guarda.

– Eu sinto muito.

– A essa altura deveria saber que se lamentar não adianta de nada.

– Ser um durão cheio de críticas também não. – Moon rebateu.

Ragnar a fitou muito sério.

– E como você preferiria que eu a tratasse? Eu não lhe disse que a garota estava sob sua responsabilidade? Não lhe disse que se ela passasse dos limites seria morta? E o que encontro nos limites da caverna, aqui no alto da montanha? Aquele pedaço de carne humana! – sua voz alterou-se a medida que ele falava.

Moon o fitou sem dizer nada.

– Você já pensou se ela dá de cara com Snow? Já pensou se não fosse eu a encontra-la?

– Você é mais assustador que Snow quando quer.

Ragnar a fuzilou com os olhos.

– A humana chegou perto demais. – ele disse.

– Rachel não descobriu nada. Estava apenas xeretando. Parece que está procurando por alguém.

– Eu a ouvi gritar a plenos pulmões pela floresta. Mas jamais pensei que fosse se atrever a escalar esta montanha. Imagine qual foi minha surpresa ao vê-la invadir minha caverna.

– O que você fez com ela?

– Assustei, é claro. Se dermos sorte ela não pisará mais nessas trilhas.

– Duvido muito disso. Aquela garota é teimosa.

– Então espero que não tire os olhos dela. Porque se eu a ver aqui novamente vou esmaga-la.

– Você não precisa fazer isso. – Moon disse, sensata. – A sorte está ao nosso lado. Um urso pardo se aproximou da trilha bem quando ela estava descendo a montanha. As probabilidades de ela concluir que um urso curioso desceu até a cidade e atacou aqueles pervertidos são grandes.

– Não tenha tanta certeza disso. Aquela garota é esperta. Pode-se ver nos olhos dela.

– Vou ficar de olho nela.

– Mas não se aproxime demais. Ontem machucou seu ombro tentando salvá-la. Hoje não há mais nenhum ferimento. Humanos percebem essas coisas. Não seja tola.

– Já acabou?

Ragnar lhe lançou um olhar perigoso.

Céus, como ela odiava toda aquela agressividade dos machos do clã.

– Eu não vim aqui para falar sobre o incidente de Rachel na caverna.

– Para que veio então?

– Para alertar você sobre as novidades da investigação.

– Falei com Lawson logo depois que ela desceu a montanha, ele me disse que ela parece obstinada a descobrir o que ronda a floresta. Também sei que ela andou sondando a cabana Harper e que reuniu mais provas sobre o ataque. Não há nada para me contar que eu já não saiba.

– Mas quanta grosseria! Eu sei o quanto é difícil para você, mas poderia se esforçar mais para não ser tão rude.

– Estou de mal humor. – Ragnar soltou o ar que prendia.

– Alguma notícia sobre os caçadores?

– Snow e Vex continuam protegendo as fronteiras.

– Compreendo.

– Se fosse só isso, eu toleraria. Não é a primeira vez que esperamos visitas como essa. O que me deixa sobrecarregado é lidar com tantos problemas ao mesmo tempo.

Moon se surpreendeu com o desabafo de Ragnar.

– Essa investigação bem quando os caçadores estão próximos, pistas descuidadas deixadas para trás, desgarrados se aproximando da fronteira, olhos curiosos espreitando a cada passo que um de nós dá e agora isso com Rudolf.

– O que ele fez agora?

A desavença de Ragnar com o irmão mais novo não era segredo entre os membros do clã, nem fora dele. O herdeiro mais jovem era um tanto irresponsável, cheios de hormônios e um bocado de crueldade. Suas aventuras mais supérfluas viviam colocando o clã em perigo. Não chamar a atenção era o lema, mas Rudolf parecia não dar a mínima para aquela regra.

– Ele se reuniu com um bando de adolescentes revoltados e decidiu sair por aí espalhando sua ideologia anarquista sem o menor cuidado.

– E você se ressente da ideologia ou do fato de ele estar andando por aí com um bando de humanos?

Ragnar a fitou com franqueza.

– Ele é um dos herdeiros. Não pode se comportar como um inconsequente.

– Pelo que ouvi dizer dos membros mais velhos, você também era um inconsequente.

– E então meu irmão foi assassinado e eu tive que assumir responsabilidades demais para a mente de um jovem tresloucado. Tive que aprender na marra.

– Dê um tempo a ele. Rudolf também se desapegará dessa vida adoidada. E, afinal, você precisa admitir. Melhor ele como amigo dos mortais do que caçando aqueles jovens de forma descontrolada.

– O problema, Moon, é que quando nos aproximamos dos humanos por tempo demais essa convivência se torna algo viciante e logo nos apegamos às suas vidas frágeis. Isso nunca foi bom para nenhum de nós.

– Diga isso por você.

– Não, eu digo por meu irmão. Ele foi morto justamente pelo amor desmedido que dedicou àquela mortal. E digo também por você que dedica o mesmo amor por ela.

– Erin é uma amiga fantástica que já fez muito por nosso clã. Uma amizade sem a qual teríamos nos dado mal em diversas situações.

– Eu me atenho muito a nossas regras. E, até onde sei, convivência com humanos é proibido. Se aturamos Erin em nosso meio é devido a relação que ela teve com meu irmão. Nenhuma outra convivência será aceita. Isso vale para você, para Rudolf e para Hugh.

– Escreva suas leis num pedaço de pedra e a pendure nos limites da caverna, talvez assim o restante de nós as aceitem mais docilmente. – Moon lhe deu as costas, decidida a ir embora.

– Ah, e Moon… – Ragnar a chamou. – Não banque o herói novamente.

– Não vou deixar uma garota ser destroçada por um urso só porque isso resolveria nosso problema mais fácil.

– É isso ou podemos destroça-la nós mesmos.

– Rachel Bones está sob a minha tutela. E se chegar o momento de ter que mata-la, quem fará isso sou eu. Nenhum de vocês encostará uma garra afiada nela.

Moon o deixou com seus próprios pensamentos e desapareceu na escuridão da caverna.

 

Rachel examinara o relatório do desaparecimento de Tobias Hawke umas três vezes antes de se voltar para uma pesquisa no Google. O que estava escrito no documento era pouco conclusivo. Tobias conseguira fugir no meio de uma rebelião, passando por uma abertura numa das paredes e desapareceu no meio da floresta. Os guardas haviam feito as buscas pela mata, mas as pegadas sumiram ao longo da trilha. Nenhum vestígio. Também não havia nenhuma reclamação da família por buscas mais conclusivas. Aquele homem era praticamente uma pária, logo mais ninguém sentira falta dele.

Encafifada com o que mais poderia estar perdido diante de seu nariz, Rachel decidiu uma busca rápida no Google pela penitenciária. Cross Velk localizava-se próxima à fronteira com o Canadá, há apenas alguns quilômetros dali. Era conhecida pelas várias mortes decorridas por fugas. Os prisioneiros tinham mania de tentar fugir pelo rio, atravessando-o a nado até o Canadá e desaparecendo em suas montanhas frias. No entanto, sempre aparecia os corpos boiando nas águas congeladas ou estraçalhado pelos lobos nas florestas frias.

Rachel avançou a tela, lendo os tópicos de mais destaques.

Algumas acusações de suborno dentro da penitenciária, alguns casos de estupro e, mais a frente, a pesquisa de gente desaparecida na fronteira com Montana. Ela clicou no link vermelho, lendo o artigo de letras pequenas.

O número de pessoas desaparecidas era gritante. As vítimas variavam de idade e classe social, em sua maioria homens. Um alpinista europeu, alguns dados de casais em lua de mel e um número assustador de condenados.

Rachel apertou os olhos na tela do notebook.

Mais de 30 fugas eram relatadas por mês, nas quais não conseguiam capturar o prisioneiro. Apenas em 5% dos casos os corpos eram encontrados. Todos os casos de desaparecimento em Cross Velk.

Rachel pesquisou um pouco mais e descobriu que uma investigação havia sido iniciada por parte de superiores federais, mas não havia dado em nada.  O diretor da prisão apresentara argumentos incontestáveis sobre a explicação para diversos desaparecimentos em sua penitenciária e tudo se perdeu em rumores e notícias antigas. Em um artigo menor, um blog categorizava Cross Velk como a prisão mais aterrorizante e negligente dos Estados Unidos e o autor incentivava o governo a mandar seus piores criminosos para lá uma vez que todos estavam sujeitos a morrerem em fuga. A penitenciária foi aprovada por uma divisão federal como a prisão com melhor destaque em se evitar fugas, já que a morte dos prisioneiros fujões alarmava o restante incentivando-os a não tentarem escapar. Havia também um artigo de ativistas querendo boicotar o funcionamento do lugar com argumentos que manter pessoas naquela situação era algo desumano.

Rachel fechou a aba da tela, deixando o olhar se perder no vazio.

Alguma coisa estava bem errada.

E ela descobriria o que era!

 

Continua!

 

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