In the depths of her soul (Pt.4): Montanhas Selvagens

Escrito por Natasha Morgan

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A primeira coisa que Moon fez àquela manhã foi contar à Erin sobre o que tinha acontecido na reunião com o clã. Não porque achava que devia algum tipo de explicação para a amiga, mas porque sempre dividira tudo com ela, apesar do que os outros achavam sobre isso.

Erin juntou-se à colega na mesinha aconchegante, a caneca de café fumegante nas mãos. Seus olhos eram hostis.

– Vex sempre foi muito desagradável. – disse. – É um excelente lutador, mas sempre teve esse temperamento desagradável.

– À princípio eu não entendi a presença dele por aqui. Até ver Snow.

– Esses dois são encrenca. Dork sempre dizia que a presença deles era um mau presságio.

– Ela também significa que temos caçadores em nosso encalço.

Os olhos de Erin toldaram-se em fúria.

– O que Elvira disse?

– Apenas para sermos mais discretos.

– E ela não pensa em fazer nada a respeito? E se eles se aproximarem de Montana? E se chegarem a entrar na cidade? Elvira ficará sentada em seu trono de estanho enquanto os malditos caçam suas crias?!

Erin ficou vermelha como um pimentão, os olhos faiscando.

– Acho que ela tem um plano caso os caçadores se aproximem. Snow e Vex estão por perto. Duvido muito que abaixem a cabeça.

– O siberiano é a melhor aposta. Dork gostava dele. Uma vez me disse que era um caçador nato, muito melhor do que esses malditos humanos inconsequentes!

– Erin, você é humana. – Moon afagou-lhe o braço. – E daria um Lycan incrível!

– Se isso foi um elogio, eu agradeço. – Erin disse, mas sua fúria estava longe de se aplacar. – Esses malditos sabem o que é melhor para eles. Que fiquem bem longe de Montana. Ou eu mostrarei a eles o que é caçar. E que porcaria de ideia de matar a bióloga é essa? Olha, a garota esteve aqui ontem e não parece nada idiota como Lawson. Desta vez vocês estão lidando com uma profissional. É claro que isso não significa que vocês precisem mata-la! Ora, é apenas uma garota!

– Ragnar me mandou ficar de olho.

– Ragnar é um idiota que está com medo de uma criança!

Moon esboçou um sorriso.

– Se a ouvirem dizer isso, comem sua língua.

– Querida, eu já praguejei em frente seu clã inúmeras vezes. Eles ladram, mas não mordem… Não a mim, pelo menos. Não seja idiota, Moon. Não vai caçar a menina, vai?

– É claro que não! Vou ficar de olho nela e ver o que ela consegue descobrir. Se caso se envolver demais… Aí veremos o que fazer.

– Não vá sujar o focinho com sangue inocente! – Erin ralhou.

– E eu já não fiz isso? – o sorriso de Moon foi melancólico.

– Não fez. Desde que nos conhecemos nunca a vi matar alguém realmente inocente. Sabe, às vezes eu sou obrigada a concordar com Ragnar. Você é o que é. Aceite isso.

Moon virou a cara, de mau humor.

A porta da frente emitiu um Blém e Hugh entrou, usando seu habitual traje excêntrico.

– Ah, bom dia, Bela Adormecida. – Erin cantarolou, sarcástica.

Hugh ergueu os óculos escuros, erguendo uma sobrancelha para ela.

– Noite difícil?

– Pergunte à Moon. – ele lançou um olhar mal humorado à colega. – Ela sabe das visitas inesperadas de ontem à noite.

– Pegaram pesado com você? – perguntou Moon.

– Ah, eles me adoram! Imagine que surpresa voltar para meu apartamento chiquérrimo, pensando em mergulhar numa banheira diva recheada de sangue de virgem quando me deparo com Vex, sentado no meu sofá.

– Oh –Oh.

– Foi exatamente isso que eu pensei.

– Ele foi maldoso? – Erin perguntou.

– Vex é sempre um cretino. – Hugh torceu o nariz.

– Pode ficar na minha casa, se quiser. – Moon ofereceu.

– E deixar meu palácio? De jeito nenhum! Acredite, meu bem, se Vex quiser me incomodar, ele vai até o inferno. Mas eu agradeço a sua generosidade. – Hugh deu uma leve beliscada na bochecha de Moon, sorrindo.

– É sempre um prazer. – a garota sorriu, voltando a atenção para a xícara de café.

– Seria uma boa ideia ficarmos unidos. – Erin disse.

– Por causa dos caçadores? – Hugh ergueu as sobrancelhas. – Querida, nós somos unidos. Além do mais, se sabem o que é melhor para eles, ficarão  bem longe. Não se provoca uma cascavel próxima ao ninho.

– Ah, então evoluímos para cascavéis? – Moon provocou.

– Isso não seria evolução, minha querida, e você entendeu muito o bem o que eu quis dizer. Os caçadores estão apenas rondando. Não deixe que Vex e Snow assustem vocês. Aqueles dois são sedentos por cabeças de caçadores. Só querem caçar e destroçar, e a capacidade que eles têm de enxergar encrenca onde não há é enorme.

– Não são só eles que anseiam por cabeças. – Erin disse num aparte.

Hugh voltou seus olhos azuis para ela.

– Não é só você que quer vingança, Erin. Metade do clã os exterminaria, se pudessem.

– É mesmo? Não é isso que estou vendo. Vex e Snow estão por aí, descontando sua ira naqueles filhos da puta. E o que o restante de vocês faz? Abaixam a cabeça e encolhem a cauda!

Ela se ergueu da mesa, saindo a passos largos. Sua raiva queimou, deixando um gosto amargo para trás.

 

 

Rachel não sabia dizer se havia dormido bem ou apenas capotado de sono. Ficara o resto da noite até o meio da madrugada examinando os arquivos que Garrett lhe cedera e acabou adormecendo no sofá. Acordou quando os raios de sol adentraram pelas frestas na cortina da janelinha amistosa da casinha.

Um focinho gelado fungou em seu ouvido enquanto ela se espreguiçava.

– Bom dia, Flook. – Rachel sorriu, olhando para o focinho rosado de tomada.

O Mini-Pig grunhiu umas duas vezes, saltitando pelo sofá numa clara exigência de comida, o rabinho enrolado tremelicando enquanto ele corria.

Rachel riu, achando graça do seu bichinho incomum. E foi exatamente por isso que ela o adotou. Sua excentricidade a conquistou tão logo o viu no centro de adoções num shopping em Monroe, três anos atrás. Se tivesse amigas até podia imaginá-las surtando com sua aquisição um tanto diferente.

Ela se levantou, pondo comida no potinho de Flook e apanhando uma caneca de café fumegante na cozinha graciosa de sua nova casinha.

Mas Rachel não se lamentava de ser sozinha. Há muito tempo, ela tivera alguém, um companheiro inseparável. Mas a dor de perdê-lo quando ainda era uma adolescente a traumatizou o suficiente para nunca mais querer se aproximar intensamente de outro ser humano.

Flook grunhiu, chamando sua atenção.

Rachel afagou o bichinho carinhosamente e se voltou para o sofá confortável em cores elegantes. Apanhou os arquivos que deixara sobre a mesinha de centro e se sentou, examinando as folhas levemente amareladas.

O ataque misterioso à Cabana Harper datava de 12 de junho de 2007.

Oito anos atrás.

Havia a descrição da brutalidade, como os corpos foram encontrados e, mais abaixo, os nomes das vítimas.

Amanda Ryans, 17 anos. Morta por lacerações na garganta. A vítima foi encontrada nas extremidades da floresta, ferida na cabeça ocasionada por uma pancada forte, dedos parcialmente corroídos, ausência da maioria das unhas.

Josh Merlock, 18 anos. Morto por lacerações no intestino e órgãos internos. A vítima foi encontrada nos aposentos. Feridas no abdômen, pescoço e rosto.

Jessica Hardey, 18 anos. Morta por hemorragia. A vítima foi encontrada nos aposentos. Ferida única no pescoço.

Ronald Farris, 18 anos. Morto por laceração dos membros, hemorragia. Foi separado ao meio. A vítima foi encontrada no chão da cozinha. Feridas nos braços, pernas e abdômen.

Howard Sloan, 15 anos. Morto por lacerações violentas no tórax e traqueia. A vítima foi encontrada no jardim. Feridas por todos os membros.

Havia fotos esclarecedoras dos corpos e local do crime.

Rachel respirou fundo, analisando as fotografias com um olhar impessoal.

Pouca coisa fora encontrada na floresta ao redor da cabana. Nenhuma evidência conclusiva. Sem testemunhas ou sobreviventes.

Passou para o arquivo seguinte, verificando o relatório da polícia e testemunhas do ataque ao Bar na madrugada passada. Viu as fotos, as evidências recolhidas e os nomes na lista de vítimas.

Mesmos tipos de lacerações. Mesmas causas de morte.

Ela suspirou, jogando a pasta sobre a mesinha de madeira.

Em sua mente passava todos os tipos de possibilidades. Lembrava-se de cada animal selvagem que estudara e a forma como eles caçavam, matavam e se alimentavam. Nenhum deles se enquadrava naqueles ataques.

– E então, Flook? O que acha que fez isso?

O Porquinho a fitou com o focinho erguido e grunhiu.

– Tem razão. Também acho que devo ser mais investigativa. – ela se levantou do sofá.

Foi fácil arrumar uma roupa propícia para caminhadas, jogou um colete bem equipado sobre o ombro e deu um tchau à Flook.

 

Rachel parou o Audi no estacionamento do Bar.

Naquela manhã a clientela aumentara consideravelmente. Erin se encontrava atarefada, servindo algumas mesas. Seu semblante parecia um tanto fechado, mas tão logo viu a garota adentrando seu estabelecimento, abriu um sorriso simpático.

– Bom dia.

– Olá, Erin. – Rachel sorriu.

Seus olhos vagaram pelo Bar cheio e avistaram Hugh pela janela da cozinha. Ela acenou uma vez, aproximando-se do balcão de madeira.

– Vocês estão cheios hoje. – comentou, sentando-se num banquinho confortável.

– Eu dou graças. – Erin juntou as palmas das mãos numa saudação. – Café?

– Por favor. Vou querer uma porção de Donuts também, para viagem.

Erin assentiu e desapareceu pela portinhola da cozinha, voltando cinco minutos depois com uma caneca fumegante e um pacote pardo.

Rachel apanhou a xícara, deliciada. Não resistia ao café. Por onde passava, sempre tinha que tomar uma xícara. Seus olhos se fixaram em Erin, analisando-a por alguns instantes em silêncio.

– Noite difícil?

A mulher esboçou um sorriso sem vontade.

– Noticias ruins.

– Sinto muito. Espero que isso não tenha a ver com o caso. O Xerife não me informou de nenhuma novidade.

– Não, não. São coisas pessoais. – garantiu Erin.

Rachel assentiu, não querendo se intrometer.

A garota misteriosa do outro dia se aproximou, carregando algumas caixas de frutas. Seus olhos cinzentos focaram-se em Rachel.

– Ah, Rachel, lembra-se de Moon? – Erin perguntou.

– Sinto muito, não tive o prazer de falar com você da outra vez. – Raquel estendeu a mão.

Moon a cumprimentou, um tanto receosa.

– Você trabalha aqui com Erin, não é?

– Somos amigas faz um tempo. – Moon assentiu.

– Rachel virou freguesa. – Erin contou.

– Ninguém resiste aos Donuts de Hugh. – Moon disse, um tanto alto para que o chef ouvisse.

– E a companhia é agradável. – Rachel acrescentou.

Moon a observou por alguns instantes.

– Está gostando da cidade?

– Ah, é maravilhosa, sim. As montanhas, a floresta. Isso é bem a minha cara.

– Entendo. Pretende ficar muito tempo?

Rachel deu de ombros.

– Depende. Se a cidade continuar me agradando, por que não? Posso oferecer um preço bacana pela casinha no lago.

Moon assentiu, voltando a atenção para a caixa que antes carregava.

Rachel fixou os olhos nela, observando-a por alguns momentos. Não sabia dizer o porquê, mas alguma coisa naquela mulher a perturbou. Talvez fosse aqueles olhos cinzentos que a encaravam com tanta profundidade ou, quem sabe, aquela boca rubra e sedutora. O porte daquela mulher denotava ameaças.

Erin fez uma pergunta, acordando-a de seus pensamentos.

– Desculpe. O que disse? – Rachel perguntou, desviando o olhar da outra.

– Perguntei onde vai com essa roupa de caminhada. – Erin sorriu, ansiosa.

– Ah, sim! Vou dar uma caminhada nas montanhas.

O olhar astuto de Moon não passou despercebido.

– Acha que é uma boa ideia? – Erin perguntou. – Considerando o animal selvagem que anda solto por aí…

– É exatamente por isso que estou indo. Preciso fazer algumas investigações. Se há um animal selvagem sondando a floresta, qual o melhor lugar para ele se não as montanhas? Além do mais, há algumas coisas que preciso ver.

O olhar acastanhado da garota se fixou nos de Erin.

– Você já ouviu falar da cabana Harper?

Por trás do balcão, Moon enrijeceu.

Erin piscou, atordoada.

– Ela está abandonada.

– Sim, eu ouvi dizer. Você não sabe que houve um ataque naquele lugar?

– Isso foi há oito anos. – Moon disse e os olhos de Rachel se fixaram nela.

– As pessoas da cidade não gostam de falar muito a respeito.

– E não deveriam. Foi uma coisa horrível.

– Assim como o que aconteceu aqui.

Moon se empertigou.

– As pessoas que foram atacadas na madrugada passada eram assaltantes e estupradores. O que aconteceu naquela cabana foi um massacre de pessoas inocentes!

– Sinto muito, eu não vim aqui para dizer que aqueles homens eram inocentes. Só estou pensando que o modus operandi é o mesmo. Pelo menos de acordo com o que eu li. Você se lembra do que aconteceu na cabana? Estava na cidade quando o ataque aconteceu?

Moon pareceu ainda mais nervosa.

– Eu não me lembro de nada. Exceto da histeria que foi para os pais daqueles adolescentes. Não há nada para investigar sobre isso. Aqueles garotos provocaram um animal selvagem. E foram mortos por isso.

– Como sabe disso?

– Foi o que disse a polícia.

– Essa afirmação não consta no arquivo do crime.

Moon se aproximou, debruçando-se no balcão para poder encarar a garota nos olhos.

– Você é uma bióloga. O que pode dizer sobre um ataque daquela magnitude? O que faria um animal atacar bruscamente um grupo de adolescentes bêbedos?

Rachel se negou a se perder na profundidade daqueles olhos.

– Eu achei que tivesse dito que eram inocentes.

– Eu já fui adolescente, Senhorita Bones. Sei o que eles fazem em reuniões como aquelas. Mas só porque estavam bêbados não significam que fossem criminosos.

– Entendo o que quer dizer. Mas não posso obter uma opinião antes de examinar a cena do crime. Preciso analisar o que ocorreu naquela cabana. Para ter certeza do que levou um animal a atacar indiscriminadamente. E que tipo de animal é esse.

– As pessoas estão dizendo que foi um urso. – Moon retomou sua postura, cruzando os braços casualmente.

– Primeiro um lobo, depois um urso. Não me interessam os boatos. Quero ver por mim mesma.

– Você é insistente. Já fecharam o caso há anos.

– E eu estou reabrindo. – Rachel deu um sorrisinho. – Espero que isso não seja um problema.

– Eu também não.

– O que quer dizer?

– Eu quero dizer que espero que você não se meta em problemas. Há animais selvagens no meio da floresta. Especialmente próximo às montanhas. Você é uma bióloga, deve saber se cuidar. Mas todo cuidado é pouco quando se trata de animais selvagens.

– Moon tem razão. – Erin se manifestou. – Não deveria ir sozinha.

– Acho que vocês estão me subestimando. – Rachel se levantou, finalizando o café. –  Vejo vocês mais tarde.

Ela deixou o dinheiro em cima da mesa e se retirou.

Erin voltou os olhos para Moon.

– Acho melhor você ir atrás dela.

Moon assentiu.

 

Rachel não estava zangada.

Mas de certo que a opinião daquelas duas mulheres no bar a aborreceu.

Simplesmente detestava quando a subestimavam. O que havia de errado com aquela gente? Oras! Era perfeitamente capaz de andar sozinha pelas montanhas. Seu relacionamento com animais selvagem era o mais imparcial possível. Ela respeitava o território deles e eles respeitavam o dela. Foi o que aprendeu na faculdade.

As folhas secas farfalharam quando ela adentrou a floresta, esmagadas sob a sola grossa de sua bota de caminhada. O clima estava fresco – bastante propício para explorar as montanhas. Não foi difícil se embrenhar no meio daquelas árvores rugosas, a trilha era um tanto íngreme, principalmente nas subidas, mas Rachel sempre fora ligeira e não viu qualquer dificuldade em subir montanhas como aquela.

De vez em quando algum ruído no meio da floresta a interrompia, fazendo-a olhar ressabiada para todos os cantos. Mas não encontrava nada espreitando por ali, nenhum par de olhos assustador observando-a de longe. Eram apenas esquilos eriçados ou lebres selvagens. Talvez algum cervo perdido.

Rachel suspirou. Parecia que aquela história de animais selvagens a estava deixando assustada.

Ela aproveitou para dar uma bebericada na garrafinha de água que levara, apoiando-se numa das enormes sequoias que circundavam a floresta. Os sons da natureza eram reconfortantes, pássaros cantando em seu voo elegante, o suave deslizar da água numa cachoeira próxima, o mastigar incessante dos animais escondidos. Rachel quase podia se sentir em casa.

Exceto pela falta de ruídos humanos.

Para qualquer pessoa desacostumada, estar sozinha no meio da imensidão de uma floresta poderia ser assombroso. Especialmente quando boatos sobre um animal selvagem rondando a cidade fossem espalhados a esmo. Mas Rachel não se permitiria temer a natureza.

Continuou a trilha, obstinada.

Não demorou muito para encontrar a cabana abandonada. Já estava andando em território plano fazia alguns minutos e estava quase desistindo quando finalmente avistou a ponta de uma chaminé ao longe. Só podia ser a cabana!

Seu coração estava um tanto acelerado da subida à montanha e, mesmo andando por algum tempo, seu corpo não se recuperara do esforço. Então reduziu a velocidade. As árvores naquela área eram um pouco maiores do que as da trilha, dando um visual um pouco sinistro à paisagem. O fato de não haver ruídos ou sons comuns à natureza contribuíam para o ar sombrio que emanava ali.

Rachel varreu os olhos pelo lugar, analisando o ambiente com certa cautela. Esperava mesmo não ser pega de surpresa. Seu instinto profissional lhe dizia que era normal aquela aura densa por ali, afinal de contas, pessoas morreram tragicamente num acidente. Mas seu lado humano estava mais que apavorado, implorando para dar o fora dali.

Mas ela prosseguiu, atenta ao mais sutil movimento ao seu redor.

A medida que chegava mais perto, a cabana ia se revelando. A madeira estava ensebada, abraçada pelo musgo verde que ia se adensando cada vez mais. O telhado estava coberto por folhas, cascas de árvore e terra. O mato tomara conta dos arredores, infiltrando-se pelas janelas e tampando parcialmente a entrada da cabana. Era como se ela fizesse parte da floresta agora.

Os vidros das janelas estavam embaçados, cobertos de poeira. Mas a porta de madeira estava aberta. Pelo menos o que sobrara dela.

Rachel se aproximou, cautelosa.

Na madeira, antes muito bem cuidada, havia um arranhão gigantesco intrincado com tanta força que quase partira a porta. Rachel podia jurar que atravessara a madeira e, com um pequeno puxão, confirmou suas suspeitas. Assustada, perguntou-se que tipo de animal faria uma coisa dessas.

Ela recuou alguns passos, fitando o interior da cabana. No chão de mogno, logo abaixo de seus pés, havia outra fissura com o mesmo entalhe da porta. Ela seguiu os riscos até os degraus da entrada e os viu desaparecer no solo da floresta.

Rachel se agachou, tocando o assoalho profanado. A fissura continha a mesma profundidade da outra, o que sugeria a mesma força com que fora causada. A garota franziu o cenho, lembrando-se dos corpos que vira o legista examinar. Um animal com força suficiente para destroçar madeira tinha imensa capacidade para retalhar pessoas com uma violência assombrosa.

Seus olhos varreram o interior da cabana, investigativos.

Os poucos móveis que havia ali dentro estavam cobertos por poeira e teia de aranha. O sofá de couro velho ocupava a maior parte da sala, tinha um pedaço faltando como se algo houvesse arrancado um naco do encosto onde as espumas saltaram sujando o chão. As paredes rústicas pareciam em ordem apesar da sujeira. Alguns quadros rupestres estavam organizados de qualquer jeito, pendendo para o lado.

Rachel avançou cautelosa, observando tudo.

Seus dedos tocavam tudo como se tentasse provar para si mesma que aquela era uma paisagem real. Aquela tragédia realmente acontecera anos atrás.

Ela chegou à curva que dava para o corredor. Estava bastante escuro ali dentro e a rajada fria do vento lhe soprou a face vinda dos quartos lá nos fundos. Rachel se apertou em seu casaco, ignorando o arrepio frio que ameaçou irromper em seu corpo. Seus olhos se estreitaram, tentando enxergar naquele breu, mas pouco se viu.

Ela não avançou. O que vira até aquele momento estava de bom tamanho. Não precisava checar os quartos. Duvidava muito que houvesse algo para se ver ali. Segundo o relatório, os jovens haviam sido arrastados de dentro da cabana. O ataque havia ocorrido ali onde estava: na sala de estar.

Rachel recuou, perturbada com a escuridão daquele corredor.

Avançou até o centro da sala, analisando o sofá parcialmente destruído. Seus dedos sondaram o couro danificado, juntando as espumas que se derramavam por ali e colocando-as de volta dentro do estofado. Ela fitou a mesinha de centro logo a frente, também destruída como se algo a tivesse partido ao meio.

Rachel se abaixou no meio dos destroços, surpresa em encontrar algumas manchas na madeira. Era sangue. E, de alguma forma, ele se impregnara nas fendas da madeira. A única evidência de que as pessoas tinham sido feridas naquele ataque.

Como se a cabana parcialmente destruída e as marcas no assoalho não fossem provas suficientes – a mente pragmática da garota a censurou.

Rachel se levantou novamente, dando alguns passos para trás. Sua expressão carregava tristeza. Seu pé esmagou algo sob as botas e ela recuou, abaixando-se para olhar no que havia pisado.

Ela apanhou o pedacinho branco do chão, colocando-o na palma da mão para poder analisar. Parecia uma concha em formato de fenda, bastante afiada. Uma das pontas estava trincada, como se houvesse sido partida.

Com espanto, Rachel se deu conta de que segurava um dente na palma da mão. Não tinha certeza de qual espécie pertencia, mas levando em conta o formato pontiagudo só poderia ser um canino.

Ela o rodou nos dedos, analisando-o sob a luz do dia que adentrava pela janela.

Aquilo era um dente canino?

Ela franziu o cenho. Nunca tinha visto algo como aquilo. Cães têm dentes caninos pontiagudos, mas de tamanho mediano. Aquele dente era grande demais para caber na boca de um cachorro, mesmo estando partido ao meio. Poderia facilmente ser catalogado como um dente felino, de um puma, talvez… Se não fosse pelo fato de que felinos tivessem dentes longos e mais finos.

O dente em suas mãos era longo, grosso e pontiagudo.

Rachel enfiou a evidência dentro do bolso de sua calça e resolveu dar o fora daquele lugar. Seus pés a guiaram para fora e ela decidiu que seria uma boa ideia fechar a porta destruída. Aquela aparência assombrosa de certo deixaria os curiosos afastados. Se é que ainda existiam curiosos vagando pela floresta depois do que acontecera na outra noite.

Rachel se voltou para a floresta e deu de cara com um urso enorme.

Ah, merda!

O urso a fitou por alguns segundos, curioso. E então se ergueu nas duas patas de trás numa clara expressão agressiva. Sua bocarra se arreganhou, exibindo as fileiras de dentes pontiagudos num urro que estremeceu as árvores.

Rachel tapou os ouvidos com as mãos. Estava paralisada ainda em frente a cabana. Se ousasse mexer apenas um músculo corria o risco de ser atacada pelo urso. Seus olhos deslizaram até a porta semidestruída da cabana e, por um momento, pensou em correr lá para dentro. Mas duvidava muito que o urso a esperasse lá fora.

Ao olhar para as garras estendidas em sua direção, ela se perguntou se não poderia ter sido aquele animal que destruíra a cabana e matara aqueles adolescentes. Mas não teve tempo para divagar sobre o assunto.

O urso se abaixou novamente sob as quatro patas e avançou contra ela.

Rachel apanhou a mochila das costas e usou para se defender das garras do urso. O tecido camuflado foi reduzido a tiras, arrebentando-se instantaneamente e jogando as coisas que abrigava ao chão.

O urso se recusou a se distrair com a mochila arrebentada. Seus olhos escuros estavam novamente na garota prensada contra a cabana. Ele urrou novamente, deixando claro que ela não escaparia. Suas patas enormes estavam bem próximas, aquelas garras horrendas perfurando a terra sob seus pés.

Rachel fechou os olhos, preparando-se para se jogar do outro lado da cerca que rodeava a cabana quando alguma coisa se chocou contra ela e ambas caíram no chão. A garota abriu os olhos assustada, achando que o urso havia atacado e se deparou com os olhos profundos de Moon.

A mulher estava praticamente em cima dela, fitando-a com certo aborrecimento.

– O que está fazendo aqui? – indagou Rachel, surpresa e um tanto irritada.

– Corre! – foi tudo o que Moon disse antes de se levantar e encarar o urso furioso.

Rachel se ergueu rapidamente do chão, olhando com incredulidade para o que acontecia.

Moon assumira uma posição de ataque próxima ao urso que a ameaçava com seus urros. O animal, afrontado, ergueu-se sob as duas patas e avançou contra a mulher, dando-lhe uma patada no ombro.

Moon não pôde evitar o grito quando sentiu as garras se afundarem em sua carne.

Rachel também gritou, assustada, e avançou em direção à outra.

– Corre! Saia daqui! – Moon gritou.

Mas Rachel não acatou a ordem. É claro que não deixaria aquela idiota se matar!

O urso urrou novamente, tentando avançar sobre a mulher.

Rachel apanhou a garrafa de água que jazia no chão junto de suas outras coisas que caíram da mochila e, num golpe rápido, a jogou na cara do urso.

O animal se confundiu com o golpe e Rachel se aproveitou desse momento para puxar Moon pelo braço não machucado e sair correndo com ela pelo meio da floresta. A mulher não contestou, seguiu a outra pelo meio das árvores enquanto ouviam o som pesado do urso em seu encalço. Por sorte, as árvores o atrasaram.

Moon puxou Rachel em direção a uma descida mais íngreme, se conseguissem descer a montanha, o urso ficaria para trás. A garota se mostrou eficiente, agarrando-se nos troncos mais ásperos das árvores para se equilibrar na descida. Sua respiração era ofegante, assustando os outros animais da floresta. Já Moon andava tranquilamente, desviando-se dos galhos no meio do caminho. Seus olhos escuros estavam fixos em Rachel, com aquela imensidão perturbadora.

Logo o som ameaçador do urso ficou para trás e elas conseguiram chegar até o lago.

Rachel escorregou pelas árvores, feliz de estar fora da floresta. Caiu no chão de cascalho, ofegante. A brisa do rio lhe tocou o rosto, suavizando o medo que a dominava. Pelo canto do olho viu Moon saltar elegantemente do barranco até onde estava.

A mulher a fitava com cautela e se abaixou para ficar mais próxima.

– Você está bem? – perguntou.

– Agora estou. – Rachel respirou fundo, acalmando seu coração que batia descompassado.

– Eu disse para não ir sozinha até as montanhas.

– E você, o que fazia lá? – seus olhos foram diretos. – Por algum acaso me seguiu?

– Erin achou melhor se certificar de que você estava segura.

Rachel suspirou.

– Bem, me lembre de agradecer a ela depois.

Moon assentiu, em silêncio.

Os olhos de Rachel a examinaram.

– Você não me parece cansada ou surtada como eu.

– Estou acostumada a esse tipo de situação.

– Que tipo de situação? Sair correndo de um urso faminto?

Moon chegou a sorrir.

– Mais ou menos isso.

Rachel balançou a cabeça.

– Você é estranha. Mas obrigada. Salvou minha vida.

– Não está ferida, está?

Rachel negou, olhando para o ombro da outra.

– Mas você está. – ela se levantou rápido, examinando o ombro da moça.

A blusa de malha estava rasgada e exibia um ferimento grotesco. O urso havia enfiado as garras na carne de Moon até quase expor o osso. Rachel sentiu uma onda de pânico.

– Você precisa ir a um hospital. – ela retirou a jaqueta que usava e pressionou contra o ferimento.

– Não se preocupe com isso. Não foi nada.

– Como não foi nada? Dá para ver seu osso!

– Vocês turistas não sabem como é viver nas montanhas. Ferimentos como esse saram rápido. – Moon deu uma piscadinha. – Não é tão ruim como parece.

– Você é louca? – Rachel parecia surtada.

– Acho que não deveria me julgar, senhorita Bones. Não fui eu quem saiu para um passeio numa floresta perigosa ignorando os avisos das pessoas locais.

– Está certo. Mas não fui eu quem enfrentou um urso gigante achando que poderia vencer! – Rachel rebateu, enfrentando o olhar da outra.

Moon revelou um esboço de sorriso.

– Não sei quem é mais idiota. Você por ter se enfiado nessa confusão ou eu por te seguir.

– Ótimo. – Rachel cruzou os braços, irredutível.

– Cada um com sua cicatriz. Você ralou o traseiro nas raízes das árvores e eu fui atacada por um urso. Só tente não fazer isso novamente, ok? Eu posso não estar lá da próxima vez. Não tenho a mínima vocação para babá.

– Mas como você é arrogante! Não te pedi para me seguir, tampouco me salvar daquele urso!

– No entanto, se eu não a tivesse seguido, a essa hora estaria sendo devorada.

– Eu já te agradeci por isso.

– E eu só estou lhe dizendo para ficar longe dos arredores da Cabana Harper.

Rachel se encolheu, lembrando-se das marcas de violência deixadas naquela cabana.

– Não pretendo entrar naquele lugar de novo.

Moon a observou por alguns segundos.

– Ninguém deveria. – sua voz saiu seca.

– Conseguiu sentir a onda sombria que cercava o local?

– Não. Eu estava mais preocupada de tirar você das garras daquele urso.

Rachel a fitou de mal humor.

– Vai ficar se lamentando da boa ação que fez ou me seguir até em casa para cuidarmos desse machucado?

Moon ergueu as sobrancelhas.

– Se não vai a um hospital, ao menos me deixe fazer um curativo. – pediu Rachel. – É o mínimo que posso fazer por ter salvado minha vida.

Moon hesitou, mas acabou aceitando. Poderia descobrir mais coisas a respeito da garota.

Rachel seguiu pela margem do rio em silêncio, seguida pela outra. Sua casa ficava ali por perto, não era uma caminhada assim tão longa. Mas o silêncio foi perturbador. Ainda mais porque estava assustada. Ainda não se recuperara totalmente do susto. Seus olhos atentos se lançavam de minuto a minuto para trás, nas proximidades da floresta que as cercavam, esperando ver o urso sair de trás de uma daquelas árvores.

Moon percebeu sua insegurança e, por um momento, quebrou o silêncio.

– Ele não vai aparecer do nada.

– Eu sei.

– Então por que fica olhando para a floresta?

– Porque ainda estou assustada.

– Achei que estivesse acostumada a lidar com esse tipo de animal.

– E estou. Mas, geralmente, os animais que observo não tentam me devorar.

Moon deu uma breve gargalhada.

– Animais selvagens sempre tentam nos devorar.

– Isso não é bem verdade. – Rachel assumiu um tom profissional. – Animais selvagens só esboçam comportamentos agressivos quando se sentem ameaçados. Aquele urso, por exemplo, se sentiu ameaçado quando eu, sem perceber, adentrei o território dele. Pumas só atacam quando estão famintos, Búfalos atacam quando tem seu território invadido e Elefantes atacam quando veem seus filhotes ameaçados.

Rachel suspirou, percebendo o quanto se sentia mais tranquila.

– Você sabia que havia um anima selvagem a solta pela floresta. – Moon a lembrou.

– Eu sabia. E fiz de tudo para não invadir seu território ou perturbá-lo. Mas, de vez em quando, coisas como essa acontecem. Não é a primeira vez que me meto em uma confusão.

– É mesmo? E em que outra confusão se meteu? – Moon parecia verdadeiramente interessada.

– Em uma manada de búfalos. – Rachel riu, lembrando-se do episódio.

– Não existem muitos búfalos aqui nos Estados Unidos.

– Foi no Quênia. Eu estava com uma equipe de observação e, por uma estupidez, acabamos nos enfiando no meio de uma manada e os assustamos. – ela riu novamente.

– Você parece viajar muito.

O sorriso esmoreceu nos lábios de Rachel.

– Eu costumava viajar bastante. – ela corrigiu.

– E o que fez você mudar?

Rachel piscou, desviando os olhos. Continuou andando em silêncio.

– Não me diga que encontrou, aqui em Montana, o lugar dos sonhos para viver. – Moon brincou.

– Na verdade, Montana é muito agradável.

– Diz a garota que quase foi devorada por um urso.

Rachel voltou os olhos para ela.

– Bom, parece ter sido bastante divertido para você.

Moon apontou o ombro ferido.

– Nada engraçado.

– Mas você disse que estava acostumada a esse tipo de coisa. Sair correndo de animais selvagens.

– De vez em quando é divertido, sim.

– Você é louca. – Rachel disse mais uma vez e apertou os passos.

Moon a seguiu com um princípio de sorriso.

 

Rachel ficou contente ao chegar em casa.

A casinha de pedras com chaminé graciosa ficava próxima ao rio, rodeada por algumas árvores que escapavam da floresta logo atrás. Rachel passou pela elegante cerquinha de madeira florida a apanhou as chaves dentro do bolso da calça, abrindo a porta pesada.

Moon a seguia em silêncio, observando tudo ao seu redor. Uma mistura deliciosa de ervas secas, baunilha e o aroma pessoal de Rachel invadiu seu nariz quando a garota abriu a porta. Ela espiou lá dentro com curiosidade.

Rachel sorriu para ela.

– Entre. – convidou, gentilmente.

Moon adentrou a casinha, os olhos profundos analisando tudo.

Era extremamente elegante ali dentro. E aconchegante.

O teto era de madeira e as paredes um tanto rústicas. A sala era pequena, contava com um sofá de malha grossa com repouso para os pés, uma mesinha de centro arredondada e um criado mudo onde a TV média se encontrava desligada. Havia um comprido balcão de madeira com algumas vigas envernizadas que separava a cozinha pequenina.

Era retangular, abrigando um fogão pequeno, a pia de acrílico, uma geladeira pequena e verde claro, alguns armários de madeira embutidos na parede e um micro-ondas velho. A mesa de jantar era pequena também, arredondada e ficava disposta fora da cozinha, próxima ao corredor onde havia o quarto.

Moon não chegou a ir adiante a sua inspeção pela casa. Ficou ali parada no meio da sala enquanto observava Rachel ajeitar os poucos objetos espalhados a fim de dar um ar mais organizado.

Rachel apanhou a manta grossa cor de creme que ocupava a maior parte do sofá e a jogou no canto, convidando a outra para se sentar.

– Eu tenho um kit de primeiro socorro em algum lugar. – disse a garota, encaminhando-se para o corredor curto. – Espere só um minuto.

Moon se recostou no estofado macio, permitindo-se fechar os olhos. Estava um tanto cansada da pequena e desastrada aventura que tiveram e realmente sentia dor no ombro. Ela olhou a ferida de canto de olho, ainda estava aberta embora não mais sangrasse. Respirou fundo, permitindo-se relaxar pelo menos por alguns minutos.

Alguma coisa roçou suas pernas, fazendo-a olhar despreocupada para baixo.

Aquilo era um porco.

Sua constatação não foi nem um pouco exaltada. Como se achar um porco dentro da casa das pessoas fosse uma coisa normal. O bichinho a encarou com os olhos miúdos e deu um pequeno grunhido, sentando-se sobre as patinhas de trás.

Rachel voltou com uma maleta branca.

– Ah, vejo que já conheceu o Flook.

Moon se recostou no sofá novamente, fechando os olhos.

– Vocês têm o hábito de dar nomes e criar porcos em casa para depois abatê-los?

Rachel lhe lançou um olhar feio.

– Flook não é comida. É um Mini Pig muito fofinho.

Moon sorriu, ainda de olhos fechados.

– Eu sei. Parece meio louco uma pessoa ter um porco dentro de casa. Mas se conhecer o Flook verá que ele é muito limpinho. – Rachel garantiu.

– Bones, nada que venha de você será capaz de me surpreender.

Rachel torceu o nariz, separando de dentro da maleta o que iria usar. Sentou-se ao lado de Moon no sofá, depositando a água oxigenada, gases, pomada e esparadrapo em seu colo.

– Tudo bem. – ela respirou fundo. – Tente não se mexer muito, ok? Tentei achar uma agulha e linha, mas adivinha? Nenhum. O que é sorte para você. Não sou boa em dar pontos, acredite, já tentei.

– Apenas faça o que precisa fazer. – Moon disse, tranquilamente.

– Tudo bem.

Rachel terminou de rasgar a blusa de malha e expôs o ombro ferido da outra. Respirou um tanto mais aliviada ao ver que não sangrava mais, mas ao mesmo tempo se preocupou com o tanto de sangue que Moon poderia ter perdido.

– Eu estou bem. – disse ela, baixinho.

Rachel assentiu mais uma vez e prosseguiu com o curativo. Umedeceu uma das gazes com a água oxigenada e limpou a ferida meticulosamente. Moon não se moveu sequer uma vez, se estivesse sentindo dor, não demonstrou. Com habilidade, Rachel espalhou a pomada cicatrizante sobre o machucado e o cobriu com o restante de gazes, tampando-o complemente e prendeu com esparadrapo.

Moon já tinha aberto os olhos e a observava em silêncio.

– Você é boa nisso.

– Quando se viaja muito nunca se sabe as confusões em que podemos nos meter. Eu aprendi muitas coisas.

– Menos a dar pontos. – Moon a lembrou.

Rachel sorriu, recolhendo a sujeira que fizera.

– Em quantos lugares já esteve?

– Vários. Canadá, Arizona, Monterrey, Austrália, Grécia, Quênia… Vários.

– Tudo em nome de trabalho?

Rachel pareceu refletir.

– Também. Gostávamos de viajar muito, observar a natureza. Algumas vezes precisavam de um biólogo para examinar os animais em um grande parque ou na imensidão do gelo e então eu estava lá. Gostava de aproveitar minha estadia em meio à natureza.

– Nós? – Moon indagou.

– Éramos uma dupla. – a voz de Rachel abrandou.

– E o que aconteceu?

– Aconteceu que nada dura para sempre. – Rachel forçou um sorriso. – Prometa que vai a um hospital caso seu ombro não melhore.

– Não será preciso. Isso vai sarar rápido. Estou acostumada a me machucar na floresta.

– Por favor, não me obrigue a fazer Erin levá-la ao hospital a força.

Moon riu.

– Posso garantir que ela fará exatamente isso.

– Ótimo. Sinto-me mais tranquila.

Fez-se um breve momento de silêncio.

– O que tanto queria fazer na Cabana Harper? – Moon perguntou, embora já soubesse da resposta.

– Eu estava em busca de algumas pistas. Achei que, talvez, o mesmo animal que atacou os adolescentes na floresta há oito anos pudesse ter sido responsável pelo ataque ao bar da Erin.

– E o que você descobriu?

Rachel a fitou com intensidade.

– Eu descobri uma cabana parcialmente destruída, com marcas na parede, porta e assoalho. E uma inegável onda de violência que marcou até mesmo as árvores ao redor.

Moon sentiu seu coração se apertar dentro do peito.

– Que tipo de animal faria isso? – seu sussurro foi baixo.

– Um animal bastante furioso. Talvez faminto. As marcas na cabana coincidem com as marcas deixadas na floresta. E os corpos dos adolescentes atacados há oito anos são iguais aos corpos dos jovens encontrados na floresta, as lacerações são as mesmas. A mesma brutalidade. Nunca vi um animal fazer um estrago tão profundo.

– Você acha que um urso seria capaz de algo assim?

– Depende. Se estivesse irritado o suficiente. Ou se houvesse alguma alteração em seu comportamento. Animais não costumam atacar com essa voracidade, não a menos que sejam provocados.

– Aquele urso não me parecia contente.

Rachel sorriu.

– Não parecia mesmo. Mas acho que ele estava apenas de passagem. Um curioso no meio da montanha.

– Você devia alertar o Xerife.

– Prefiro fazer mais algumas investigações. Os resultados das análises do que foi encontrado na floresta estão quase prontos. Assim poderei ter alguma conclusão sobre o que aconteceu naquela noite.

– Só me prometa que não vai subir as montanhas novamente. Sabe-se lá o que se pode encontrar por ali.

– Contanto que não seja aquele urso, tudo bem.

– Bones. – Moon alertou.

– Você pode me chamar de Rachel. – ela sorriu. – E não. Não vou voltar àquelas montanhas.

– Ótimo. Rachel. – Moon sorriu.

O sino tocou, indicando que havia alguém à porta.

Rachel franziu o cenho e decidiu ver quem era. Não tinha vizinhos próximos, nem qualquer amigo que pudesse fazer uma visitinha.

Moon farejou o ar e franziu o nariz. Levantou-se do sofá e se limitou a seguir a garota até a porta.

Rachel deu de cara com uma senhora vestida de cor de rosa.

A velhinha usava seu melhor vestido, sapatinhos de camurça e um chapéu com laço, como era costume as boas senhoras usarem. Trazia nas mãos uma forma de bolo tapada com um pano de prato e, nos lábios pintados de malva, um sorriso amável.

– Ah, olá, querida! – disse simpaticamente. – Ainda não tive tempo de lhe desejar as boas vindas.

Rachel não pôde deixar de sorrir.

– Ah, obrigada. – sua timidez era adorável, até mesmo para Moon que a observava do canto.

– Eu sou Charlotte Blanc. – estendeu a mão num cumprimento educado. – Sua vizinha mais próxima.

– Prazer, senhora Blanc. Eu sou Rachel Bones.

– Eu sei, eu sei. – a senhora disse com empolgação. – A nova bióloga da cidade. Não se comenta outra coisa nas redondezas. Finalmente uma profissional competente para nossa cidade. Ninguém aqui aguenta mais Lawson com suas ideias idiotas.

– Ah, bom… Sinto-me acolhida.

– Sim, sim. Eu fiz este bolo pensando em você. Pensei que seria de bom grado desejar boas vindas a minha mais nova vizinha. Moro há alguns metros daqui, também próximo ao rio.

– Obrigada. – Rachel aceitou a forma de bolo. – Gostaria de entrar para tomar um chá?

Charlotte esboçou um sorriso satisfeito.

Moon resolveu que era hora de aparecer na soleira da porta.

Charlotte hesitou, olhando para ela com os olhos um tanto arregalados.

– Oh, não sabia que estava com visitas. – disse de modo seco.

– Ah, esta é Moon. – Rachel apresentou, alheia à hostilidade.

– Nós já nos conhecemos. – Moon deu um sorriso presunçoso. – Obrigada pelo curativo, Bones. Nos vemos por aí. – deu uma piscadinha para a garota.

Charlotte se encolheu na porta, abrindo passagem para a mulher.

– Espere! Fique mais um pouco. Tome um chá. – Rachel pediu.

– Talvez uma outra hora. – Moon acenou e foi embora.

Rachel parecia chateada. Mas então voltou sua atenção à Charlotte.

– Bem, parece que ficamos apenas eu e você. Gostaria de um chá?

A senhora reassumiu sua postura simpática.

– Mas é claro!

Adentrou a casinha observando tudo e lançando olhares de aprovação. Sentou-se num dos banquinhos graciosos ao lado do balcão de madeira e observou Rachel preparar o chá. Seus olhos azuis fiscalizavam tudo na cozinha, desde as ervas secas penduradas nas vigas do balcão até os armários cheios de temperos.

– Você é alguma dessas naturalistas? – perguntou com cautela.

– Naturalista? – Rachel riu.

– Bem, sim. Essas mulheres que gostam de mexer com ervas e coisas satânicas.

Rachel parou o que fazia por um momento, perguntando-se se realmente ouvira certo.

– Eu gosto de ervas, na faculdade aprendi sobre algumas delas e realmente ficam muito boas em chás. – ela sorriu. – E a senhora?

– Jesus Cristo, não. – a mulher pareceu horrorizada. – Sou temente a Deus, minha filha.

– Compreendo. – Rachel voltou a preparar o chá.

– Se não tiver conhecimento de uma igreja boa nas redondezas, pode ficar tranquila que eu a apresento à congregação da qual faço parte. Tenho certeza que será muito bem acolhida.

– Eu agradeço, senhora Blanc.

Rachel preferiu não comentar que não frequentava igrejas. Conhecia muito bem o tipo de pessoa que Charlotte era e não queria iniciar qualquer tipo de discussão. Estava saturada de pessoas que tentavam converter os outros.

– Você e essa garota são amigas? – a pergunta de Charlotte interrompeu os pensamentos de Rachel.

– Pode-se dizer que sim.

A senhora a fitou com a expressão um tanto amarga, como se não gostasse de sua resposta.

– São mais que amigas? – arriscou.

– Na verdade acabamos de nos conhecer. Eu a conheci esses dias no bar da Erin, mas nunca tive uma conversa longa  com ela. Hoje foi a primeira vez.

– Ah, sim. Erin Moller. Eu me lembro da época em que ela costumava ser uma mulher respeitável.

Rachel franziu o cenho.

– Erin me parece uma mulher bastante respeitável.

Charlotte deu uma risadinha.

– Eu a conheço a mais tempo que você, querida. Não se engane. Esta mulher era decente quando menina, mas no momento em que conheceu o rapaz desgarrado se tornou uma verdadeira pecadora. Deixou de ir à Igreja e temer a Deus. Aquela beleza angelical seduziu os cães de satanás.

Rachel parou, estática. Sua expressão de choque era gritante – o que fez Charlotte soltar mais uma risadinha.

– Sinto muito. Sei que pareço uma fanática religiosa falando, mas eu sei das coisas. Vi com meus próprios olhos o horror que ronda a cidade. Por mim teria ido embora há muito tempo, mas sei que em qualquer lugar estarei a mercê dessas criaturas.

Ela respirou fundo.

– Você, minha querida, deveria tomar cuidado. Um rosto lindo como o seu instiga a tentações. Afaste-se dessa garota com o nome da lua. E de toda essa corja. Só Deus sabe da sujeira de sua alma. São todos amaldiçoados.

– Do que a senhora está falando?

– Só se certifique de tomar cuidado, está bem? De minha casa eu observarei e tomarei conta de você, minha querida. E não deixe de ir à Igreja.

Charlotte se levantou e abraçou a garota, dando tapinhas em seu ombro.

– Qualquer coisa que precisar, não deixe de me chamar. Nosso chá fica para outro dia. Preciso ir orar. Apelarei ao Senhor Pai para que nos dê proteção em dobro.

Rachel ficou observando enquanto a estranha senhora saía pela porta de sua casa.

Assim que a porta se fechou, Flook saiu debaixo do sofá, espiando a dona.

– Eu sei, Flook. Que mulher maluca!

 

Erin terminava de varrer o bar para dar continuidade ao expediente quando Moon entrou.

A garota tinha a blusa de malha rasgada no ombro onde exibia um curativo.

– Mas o que aconteceu? Andou brigando com Ragnar novamente? E que curativo é esse?

Moon se sentou em uma das mesinhas.

– Aquela maluca me colocou na maior enrascada.

– Que maluca? – Hugh perguntou, saindo pela portinhola da cozinha.

– Rachel.

Erin riu, acompanhada pelo cozinheiro.

– O que ela fez?

– Segui seu conselho e a segui pela montanha. Ela foi xeretar a Cabana Harper. E não foi surpresa nenhuma aparecer um urso pardo bem quando ela ainda estava lá.

– Você lutou com um urso? – Hugh perguntou e seus lábios tremeram num claro esboço de sorriso.

– Lutar não é bem como eu descreveria.

Erin observou o curativo no ombro dela.

– Foi uma gentileza da garota?

– Ela se sentiu responsável. – Moon explicou.

– Bem, antes você do que ela.

Moon olhou feio.

– Não é o que Ragnar gostaria.

– Ele não precisa saber que você a salvou. – Erin disse.

– O que, à propósito, foi algo bem bacana.

– Ótimo! Tenho dois defensores da garota ao meu lado.

– Vamos, Moon. Até você já admitiu que é algo bem desnecessário matá-la.

– Só espero que essa garota não me crie problemas. Ou me arrependerei amargamente de não tê-la deixado ser devorada por aquele urso.

– Como da vez em que me salvou das garras de Vex? – Erin a fitou com amabilidade.

Moon sorriu.

– É diferente, Erin. Você estava de romance com Dork.

– E a alcateia toda me queria morta. Mas você enfrentou Vex e me salvou. Não vejo nada de diferente. Moon, você não precisa ser uma selvagem sem escrúpulos quando não há necessidade.

– Isso é verdade. – Hugh concordou. – Não é igual ao caso daquele turista em Madrid que ameaçou me entregar ao show de horrores quando me viu perdido na floresta.

– Hugh, isso não tem graça! Os Caçadores quase nos pegaram.

Erin fechou a cara.

– O que me preocupa é que a garota viu a cabana e comparou os ataques. – Moon explicou.

– E o que vamos fazer agora? – Hugh quis saber, preocupado.

– Esperar. Só podemos esperar. E torcer para que ela não descubra nada de muito importante e não faça nenhuma besteira.

Eles se entreolharam, preocupados.

 

Continua!

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