A Bruxa de Praga – O Castigo Púrpura

Escrito por Natasha Morgan

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A feiticeira caminhava pelas ruas de Praga silenciosamente. Seus passos suaves como pluma tocavam os blocos de pedra com os quais as ruas foram confeccionadas tão perfeitamente, sem fazer qualquer ruído. Ela não seria tão rude a ponto de violentar o silêncio de uma noite tão bela.

A chuva caia leve, quase imperceptível para uma criatura como aquela. Mas afugentava os outros, fazendo-os correr a passos largos até alguma taverna ainda aberta àquela hora.

Megara inspirou o cheiro reconfortante da tempestade que se avizinhava, contente. Já passava da meia noite. Seus olhos misteriosos de feiticeira brilhavam com uma luz quase lunar, destacando-se na semiescuridão do bairro.

O vento uivou e ela se apertou em sua manta de zibelina. Por sorte tinha aquela beleza sofisticada para lhe proteger das rajadas cruéis. Seu vestido longo de tafetá arrastava-se nas pedras da calçada, dando-lhe uma elegância ainda maior. O tecido azul cobalto ressaltava o tom marfim de sua pele e os olhos brilhantes, o cabelo caía-lhe como uma cortina de seda carmesim.

Uma mulher tão linda, fina e elegante não duraria muito nas ruas de Praga. Ainda mais andando sozinha tão tarde da noite. Depois da última badalada, os verdadeiros monstros saíam de suas casas à espreita de mulheres indefesas.

Que sorte a dela por não ser indefesa… E por estar fazendo um ótimo trabalho limpando as ruas de Praga da escória humana.

No entanto, o que enfrentou naquela noite não foi um simples assassino sem escrúpulos. O que Megara enfrentou foi o egoísmo de uma mulher.

Ela estava quase em casa, próxima ao portão de ferro enegrecido que separava sua mansão adorável do resto da cidade. Podia sentir o aroma almiscarado do incenso que deixara aceso logo pela tarde, a euforia de sua Familiar adorável e o doce burburinho do caldeirão aceso. Estava mais que ansiosa para arrancar aqueles sapatos de brim que esmagavam seus dedinhos e pisar no carpete aveludado de seu lar quando o som desagradável a alcançou.

Era o lamento de uma mulher.

Megara suspirou, revirando os olhos. Estava tão cansada daquilo! Mas, por algum motivo, o som a fez parar.

A mulher do outro lado do muro prosseguiu, sem saber que estava sendo ouvida.

– Eu já lhe disse, Hagel! Não aguento mais as suas loucuras. É inadmissível que continue a frequentar tais lugares tão desagradáveis. O que eu fiz para merecer um filho tão desajustado? Diga-me, rapaz. Criei você com tanto esforço e dedicação para me retribuir de tal modo! É uma vergonha para mim!

Megara pode sentir as emoções conflitantes do rapaz. Mesmo que ele não dissesse nada, lá estava a frustração em sua energia.

Já fazia semanas que aquele tipo de conversa prosseguia. Todo dia aquela mulher tinha algo para reclamar de seu filho. Hora eram as amizades dele, hora era a falta de dinheiro. Nada nunca estava bom para aquela falsa nobre.

Como feiticeira, Megara observara meticulosamente seus vizinhos antes de se mudar para aquela mansão. Sabia perfeitamente a personalidade de cada um deles e também seus desejos mais devassos. Aquela mulher se casara com um senhor alemão e o viu definhar numa cama de hospital durante longos meses de uma doença degenerativa. Criara o filho sozinha e projetava no jovem todos os sonhos que uma mulher gananciosa poderia ter. Megara nunca sentiu uma energia totalmente ruim nela, mas também pouco havia de nobre. Era uma senhora preocupada com a opinião alheia, ambiciosa e viciada em conforto. E queria desesperadamente que o filho fosse um homem prestigiado, rico e bem sucedido.

Tudo o que o rapaz não era e não queria ser.

Para Hegel tudo o que importava era o som de uma guitarra potente. Um rapaz tranquilo, inteligente e prático. Um bom filho para qualquer mãe… Menos para aquela.

As brigas sempre estiveram ali, do outro lado do muro. Mas Megara nunca se importou ou pensou em interferir. Não era de seu agrado gastar magia com problemas tolos familiares. Quando ousava balançar o equilíbrio da natureza deveria ser por motivos plausíveis. Uma criatura individual como ela perdia pouco tempo lidando com humanos. Mas, por algum motivo desconhecido, aquela história a estava irritando.

Ser perturbada todos os dias pelas reclamações sem fundamentos de uma mãe egoísta e não empática a estava deixando extremamente mórbida.

– Hagel, estou lhe dizendo… – a voz da mulher interrompeu seus pensamentos novamente. – Precisa se ater aos estudos. Não criei um filho para ele ser um nada socialmente. Você precisa construir sua vida.

– Já conversamos sobre isso, Mãe. Já sabe onde vai dar essa conversa. Você não vai pagar uma universidade. Sabe disso. E, mesmo se oferecesse para pagar, você reclamaria até o fim do curso.

– Não seja ridículo, Hagel…

– Mãe, por favor. – o rapaz lançou à mulher um olhar pragmático.

– Bom, não é minha obrigação pagar seu diploma, não? Quem quer corre atrás!

– Sim, mãe. É claro.

– Pois então! Você precisa de um emprego melhor. Aquela lojinha horrível de rock não lhe paga quase nada.

Hagel revirou os olhos.

– Ah, mas é aí que você quer chegar novamente.

– Essa não é a vida que quero para você.

– Não. A vida que quer para mim é a de um médico famoso e rico. – a voz do rapaz saiu com ressentimento.

– Pense no que os outros vão falar…

– Ora, mamãe! Deixem que falem. Desapegue-se de uma vez desses trejeitos de nobre. Você não nasceu em berço de ouro. Acha que esses esnobes te aceitam como você é? Nunca te aceitarão. Porque para eles você não passa de uma falsa nobre.

– Hagel! Não seja duro com sua mãe…

Cansada e com uma profusa onda de irritação, Megara interferiu.

– E por que ele deveria ser leve, Sylvia?

A mulher se espantou diante da feiticeira.

Nunca tivera qualquer tipo de contato com a vizinha misteriosa. E agora ali estava ela, toda elegante em seu vestido de gala, parada sensualmente em frente seu portão.

Sylvia pigarreou, nervosa.

– Sinto muito. Não queríamos incomodá-la.

– Acho meio difícil acreditar em suas palavras uma vez que tal gritaria é constante.

Diante da expressão sem graça da mulher, Megara decidiu tomar conta da situação, decidida a por um fim àquela mania estúpida de ficar voltando ao mesmo assunto todos os dias. Adentrou o jardim da casa pouco cuidada, aproximando-se dos dois que a observavam com cautela.

O rapaz tinha lindos olhos negros e um rosto convidativo. E parecia bastante surpreso com a interrupção.

– Sinto muito mesmo se a incomodamos. – Sylvia voltou a se desculpar, realmente muito sem graça.

Megara a fitou com firmeza.

– Sente muito porque sabe que o que estava fazendo não é elegante ou porque teme o que vou pensar de você?

A mulher pareceu amortecida.

– Ah, eu a conheço Sylvia Thorner. Sei de seus mais singelos temores. Assim como sei do enorme ressentimento que guarda de seu filho. Diga-me, por que vocês humanos são tão obcecados com diplomas e aparências? Sinceramente não consigo entender.

Hagel franziu o cenho diante da indagação da feiticeira, mas ela o ignorou.

– Eu acompanho esse drama já fazem meses e devo dizer o quão cansada e decepcionada estou. Nunca imaginei que mães humanas fossem capazes de desprezar os filhos pela ausência de um diploma. Em minha cultura isso jamais aconteceria. E olha que sou antiga, minha querida. Esses olhos acompanharam o mundo evoluir e jamais vi, dentro de minha cultura, uma mãe desprezar o filho por falta de status.

Megara jogou seus sedosos cabelos para trás.

– Antigamente era comum os pais incentivarem os filhos a serem grandes estudiosos da arte, dos livros. Mas não havia todo esse rebuliço com um pedaço de papel que tornava as pessoas importantes de uma hora para a outra. A não ser, é claro que você estivesse preocupada com o fato de seu filho realmente adquirir sabedoria, o que não é o caso. Sua ambição é com o prestígio, certo? – o sorriso da feiticeira foi sagaz. – Está ansiosa com o todo o prestígio que seu filho poderia trazer para você.

Sylvia permaneceu calada com o choque.

– Hã, escute moça – Hagel interferiu, preocupado. – Não sei o que ouviu, mas…

– Eu ouvi o que vocês discutem a dias, criança! E estou cansada. Confesso que não sou dada a observar vocês, humanos, mas como não prestar atenção em um conflito gritante que ocorre todos os dias ao lado de minha casa? Vocês me aborrecem sobremaneira. E devo dizer o quão estressada ando ultimamente. Não é sábio irritar uma criatura como eu em dias como esses.

– Sinto muito, senhora. Não quis parecer egoísta, tampouco que ouvisse nossas conversas.

Megara a fitou com intensidade.

– Mas você é egoísta. Não respeita as decisões e escolhas de seu filho, reclama de qualquer coisa que ele faça. Nada está bom para você. E o quanto você o coloca para baixo! Céus, não consigo imaginar autoestima ou sucesso que brilhe com essa energia que você joga em cima dele.

Sylvia apertou os lábios, verdadeiramente irritada.

– O que acontece entre mim e meu filho é problema meu.

Megara deu um sorriso gelado.

– Sabem o que dizem de quem reclama demais? Os problemas tem o dom de aumentar e nós pagamos em peso pela nossa língua. Deveria estar satisfeita com o filho decente que tem, mulher. Podia ser pior.

– Não é nenhum crime querer que meu filho tenha uma vida melhor.

– Não, não é. Mas obrigá-lo a ter uma vida que ele não quer é um egoísmo sem tamanho. Ainda mais quando seus próprios desejos ditam as regras.

– Não preciso de uma conselheira. Sei como criar meu filho.

– Você sabe como se desfazer de um filho. Sabe como dizer coisas horríveis que se infiltram na mente destruindo qualquer sentimento bom. – a voz de Megara flutuou no ar, fazendo a mulher se lembrar das vezes em que dissera ao filho que tinha vergonha dele.

As lembranças encheram a mente dela, amargas.

Eu não deveria ter sido mãe. De alguma forma deveria ter impedido essa gravidez…

Perdi tantos anos da minha vida com você e agora você só me dá desgosto…

Você é uma vergonha para mim, Hagel!

Você é um nada, um ninguém… Quem vai amá-lo assim?

Se continuar desse jeito vou te colocar para fora de casa! Não criei você para ser um vagabundo!

Nenhum sentimento de carinho há muito tempo.

Aquela mulher queria que suas expectativas fossem seguidas independentes dos desejos do filho. Ele tinha que fazer exatamente o que ela queria, quando queria e da forma como queria. E se, por acaso ele não o fizesse, então não era bom o suficiente para ela. Afinal de contas, ela o criara, fizera sua parte. Agora estava na hora dele retribuir o favor e fazer as coisas do jeito dela… Para ela.

Sylvia cambaleou com a invasão em suas lembranças. Seus olhos se voltaram aterrorizados para a outra mulher. Seus pensamentos mais sombrios foram revelados!

– O que é você?

Megara sorriu.

– Você jamais adivinharia. Tem toda razão, Sylvia, você não precisa de uma conselheira. O que você precisa é de aprendizado. Agora você despreza um filho bom e decente somente porque ele não quer seguir a vida que você planejou para ele. Mas amanhã você chorará lágrimas de sangue.

A feiticeira se aproximou do menino, alisando seu rosto imberbe.

– Eu não ousaria macular uma alma boa. – seus olhos se voltaram para a outra. – Mas você terá sua lição. Há tantas mães sofrendo nesse mundo mórbido… Mães que desejariam ter um filho como o seu. Elas venderiam a alma para isso. No entanto, você só sabe reclamar, humilhar e desmerecer seu filho. Uma boa alma como essa.

Ela acariciou o rosto do garoto assustado novamente, com pesar.

Megara voltou os olhos brilhantes para a mulher e ela recuou com espanto diante do brilho púrpura que exalava daquelas íris misteriosas.

– O seu castigo, Sylvia Thorner não será nessa vida, mas na próxima. – seus olhos assumiram um brilho mais forte e poderoso. – Eu a amaldiçoo a chorar lágrimas de sangue por um filho ingrato, viciado e cheio de crimes na alma. Em sua próxima encarnação você será capaz de fazer jus às suas reclamações e desejará ardentemente que seu filho tenha a alma boa de Hagel.

Sylvia arfou de choque, segurando o peito.

Megara sorriu para ela com ar sombrio.

– E você irá lembrar, minha amiga. A cada lágrima que chorar irá lembrar do filho bom que desprezou nesta vida. Porque não se deve desprezar a alma que geramos.

A bruxa se afastou, caminhando elegantemente pelo jardim.

Na noite fria e nebulosa, sua voz se fez ouvir.

– Espero que você aprenda, Sylvia. Realmente espero que você aprenda. Ainda há tempo.

Mas Megara duvidava muito que a mulher fosse aprender.

Não. Humanos não aprendem tão fácil. É preciso dar a eles um incentivo bárbaro para que absorvam o aprendizado.

2 comentários em “A Bruxa de Praga – O Castigo Púrpura

  1. Tive Mãe como Sylvia! Consegui ser o que queria, mas para cuidá-la em decorrência do alzheimer tive que abrir mão da minha vida e carreira. Erro que assumo ter cometido, e quem sido dificil reparar

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