Conte até 10… (Final)

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Por Lillithy Orleander

Rose sentia calafrios quando finalmente adentrou a sala, aquela sensação a perturbava e demorou vários minutos até que sua atenção se voltasse novamente para o que fora designada para fazer.

– Rose? – chamou Franz notando como ela estava dispersa.

-Me desculpe, me distraí. – disse ela esboçando um meio sorriso.

-Está tudo bem? Se você quiser podemos terminar isso amanhã.

-Não, tudo bem, podemos continuar só me distraí um pouco. Acho que foi a paisagem que…

A frase morreu em seus lábios, a concentração não lhe vinha fácil, e por dentro aquilo á incomodava.

-É lindo não é? – disse ele levantando – se de sua cadeira, colocando uma das mãos nos bolso enquanto a outra parecia pentear seu cabelo, jogando – o para trás.

Franz então dirigiu – se para a cadeira que estava próxima de Rose, que sentia – se suar frio com a proximidade, algo parecia suplicar que ela saísse de imediato. Os olhos de Franz encontram os seus, hipnotizando – a, lendo – a de um modo estranho, totalmente invasivo. Suas mão estavam frias.

Franz aproximava seu rosto vagarosamente, ao passo que Rose não se movia, ela parecia já não se importar com o que acontecia ao seu redor, nem mesmo com o que Franz estava prestes a fazer, sentia – se fora da realidade. Como se algo, uma presença preenchesse cada parte daquela sala. Franz beijou – a, mas ela sequer sentiu o gosto do beijo, parou estática e se afastou, sem controle do próprio corpo, abaixou a cabeça e começou a analisar as dez planilhas que ele já havia assinado, mas ainda assim não prestava a devida atenção, aos números ou qualquer outra coisa que estava escrita nos papéis.

-Rose? Rose? – ele chamava já preocupado, ela parecia estar em choque com algo que ele se quer sabia o que era, o único som presente na sala era o de folhas sendo passadas de maneira minuciosa e o relógio de carrilhão que balançava seu pendulo de um lado á outro marcando os minutos que passavam mórbidos, próximo as 18hs…

Ela então levantou – se e ajuntou seus pertences mecanicamente. Rose não podia ver mas uma mão alva e ensanguentada, apoiada em seu ombro, acompanhando -a como se fossem a mesma pessoa.

Rose apertou os botões do elevador de um jeito desconexo enquanto esperava as portas se abrirem, ela primeiro olhou para baixo, e entrou, virando – se de frente. Franz á olhava sem entender, assim que as portas começaram a se fechar ela viu…

A moça de longas madeixas negras, trajava roupas exatamente iguais a sua, a saia social preta parecia estar desgastada e a camisa social branca, tinha várias manchas de sangue e muito rasgos, chegando a deixar um dos seios desnudos, em um dos olhos um hematoma enegrecido ganhava um tom amarelo nas bordas, os dedos arroxeados ergueram – se até os lábios rachados e pediram silêncio.

Rose quis gritar diante do que via, mas sua voz recusava – se á sair, a porta fechou – se por completo e as luzes piscaram, seu coração batia acelerado como se fosse rasgar o peito para sair, as lágrimas agora enchiam seus olhos, embaçando sua visão, sem forças para cair.

Franz agora estava irado, e jogava todos os papéis no chão.

” O que sairá errado?” – pensou ele.

Elas sempre se entregavam, sempre fora assim, sua postura de bom moço as fazia se apaixonar. Mas isso agora não importava, ele tinha que dar um jeito, só tinha três dias agora, e estava disposto, conseguiria o queria e depois dispensaria Rose, seria uma pena, ela era tão bonita.

As lembranças de um passado nem tão distante assim, o fizeram sorrir e passar os dedos pelo canto dos lábios como quem secasse algo, ele foi até a janela onde havia um pequeno bar, colocou Martini em um copo e olhou para baixo. Ninguém nunca desconfiou.

Rose chegou ao apartamento transtornada e sem entender o que estava acontecendo com ela.

Largou a bolsa no sofá e foi até a geladeira, pegou a garrafa de vinho e bebeu no gargalo, largando o salto que calçava no meio da cozinha, passou pelo gato cinzento como se nunca o tivesse visto.

Com a garrafa em mãos despiu – se enquanto ia para o banheiro deixando as roupas espalhadas pelo caminho, ligou o chuveiro e ficou á observar a fumaça que invadia o banheiro.

Limpou o espelho encoberto pelo vapor e olhou – se estava um trapo, lágrimas invadiam seus olhos e ela se sentiu frágil pela primeira vez em um ano que estava longe dos seus, teve vontade de ligar para a mãe ou para alguma amiga e contar o que acabará de acontecer, mas á achariam louca ou que estava se drogando ou bêbada.

O rosto da moça não lhe saia da mente, como se fosse um filme de terror que se  repetisse por hora, em uma determinada cena. O que era aquilo?

A água quente escorria por suas costas e logo a tensão deu lugar ao descanso. Rose desligou o chuveiro, vestiu o pijama de flanela e foi para cama, o dia pra ela havia acabado. A noite foi tensa e sem pesadelos, cada célula de seu corpo ainda resistia firmemente ao sono e ao cansaço.

O dia seguinte se perdia entre manter – se em meio ao edredom e ir trabalhar. Rose se levantou na marra, procurou uma roupa e quando se olhou no espelho e tomou um susto, estava pálida, com olheiras que pareciam estar ali á meses.

Ela voltaria para empresa e pediria as contas, tinha boas referências e sabia que Johann não se negaria á fazer uma carta de apresentação.

Se arrumou o melhor que pode e tentou disfarçar as marcas do rosto com a maquiagem, no caminho pensou de forma racional, sabia que estava tensa por causa das contas, nada poderia sair errado, e até então nunca havia saído desde que começará a trabalhar com os Morthimer.

A manhã seguia chuvosa, uma noite continua caia sobre sua cabeça, o guarda – chuva parecia que ia se partir ao meio, mas o assovio do vento em seu ouvido era o que apavorava Rose.

– Não vá. – dizia a voz suplicante.

Rose adentrou o prédio e subiu no elevador vazio, mas quando este iniciou o fechamento das portas Johann o impediu.

-Dia estranho esse hoje. – disse ele para quebrar o gelo. – Está tudo bem?

O rosto maltratado e cheio de olheiras de Rose mostrava uma pessoa apática que não dormia á dias, ela tentou gesticular algumas palavras, mas novamente emudeceu e viu o teto do elevador piscar diante dos seus olhos, Johann não sabia o que fazer, o elevador parou e sua secretária estava desmaiada em seus braços.

Quando o elevador voltou a subir, não respondia mais á nenhum dos comandos, se dirigiu somente ao décimo andar, como se uma força  estranha quisesse atrai – lo pra lá.

Rose estava presa em um corpo que não era seu, a moça em meio aos prantos, soluçava diante de Johann dizendo que não era culpa sua.

– Então conte comigo, diga pra mim que contei errado…

As planilhas eram jogadas na cara da moça que cada vez mais se encolhia.

-Me responda Kathelyn, como um desfalque desse tamanho pode acontecer? Como você deixou passar esses número? Ou vai me dizer que essa não é sua assinatura?

– Franz…

Foi tudo o que ela disse, Johann pareceu mais nervoso e mandou que ela retirasse suas coisas naquele mesmo dia do escritório.

Kathelyn foi embora e jurou vingança, Franz ficou meses sem aparecer na empresa, o pai de Johann achou melhor abafar o escândalo de que o próprio filho, além de seduzia a secretária, era um ladrão. Deu uma boa quantia á Kath e mandou que saísse da cidade, mas ela não saiu.

Esperou todos os dias até que Franz voltou e o seguiu até o décimo andar, de arma em punho quando o viu virar as costas mirou e atirou, a bala pegou de raspão no braço de Franz  e estourou o vidro e milhões de pedaços.

-Você está maluca, sua vadia?

-Não, eu vim buscar minha dignidade de volta e  não saio daqui sem ela.

Franz riu descontroladamente.

-Que dignidade? A que você deixou no meu sofá, enquanto nós transávamos Kath?

Ela atirou novamente, mas ele agachou – se e a segurou pela cintura, tomou a arma de suas mãos e olhou com ódio dentro de seus olhos, levantou – a do chão e caminhpu segurando – a pelo cabelo até a janela estilhaçada.

– Sabe qual é o mal de putas como você? – ela já sentia a morte sussurrar perto de si, e as lágrimas invadiam – lhe a face. – Nós sempre temos que dar um fim, depois que as usamos.

Franz arremessou a moça pela janela, Rose gritou e quando voltou do desmaio chorava desesperada, a moça, Kathelyn, era o fantasma que a mandou partir no dia anterior.

Rose esmurrava a porta, pedindo pra sair, o rosto banhado em lágrimas.

-Ele vai me matar, igual fez com ela.

-Quem vai te matar, Rose? Você não está bem, acalme – se. – disse Johann agora preocupado

-Franz! Franz vai me matar! Ele matou Kathelyn.

Johann parou estático, como Rose sabia?

Os olhos de Rose tornaram – se vazios de imediato quando as portas se abriram. Franz estava sentado em sua mesa.

A voz gutural de Rose apavorou Johann de tal modo que ele se encostou nos fundo do elevador.

-Franz…

O vidro da janela estilhaçou – se, voando pedaços sobre a cabeça de Franz, que xingou no mesmo instante, Johann não tinha forças nem para se levantar do lugar enquanto via o longo cabelo de Rose ricochetear rebelde com o vento, os olhos em um tom vermelho – sangue.

Rose desmaiou e em pé diante dos dois irmão estava Kathelyn, Franz caiu de joelhos diante da aparição, Johann chorava e clamava perdão.

Kathelyn olhou de um para o outro e sem dizer palavra, fez um gesto para Johann, pediu que ele tirasse Rose e sorriu para o corpo estendido no chão. Colocou o dedo nos lábios e pediu silêncio.

Johann puxou Rose para o elevador e ali ficou, Kathelyn caminhava decidida para Franz que se encolhia na parede.

-Vim buscar minha dignidade, Franz Morthimer. Aquela que deixei em seu sofá. Agora conte comigo, falta um número, Johann, diz que falta um número…

Franz chorava…

-1… 2… 3… 4… 5… 6… 7… 8… 9… – ela contava junto á ele, sussurrando em seu ouvido e passando a língua em seu pescoço.

– Diga – me Franz, qual é o número que falta? – Franz chorava. Responda – me! – gritou ela

-Dez! – respondeu ele.

Kathelyn arrancou um naco de seu pescoço e arremessou o corpo da janela, os gritos logo cessaram…

Johann chorava no elevador enquanto o que havia sido sua secretária, se esvaia em uma escura fumaça. A policia arquivou o caso: SUICÍDIO. Rose voltou para casa, pro seio dos seus e tentou esquecer o impossivel, mas o rosto de Kathelyn seria sempre sua assombração pessoal.

O prédio foi fechado, abandonado no meio da cidade. No décimo andar ainda há os gritos de um homem com o pescoço em carne viva, e com o corpo podre cheio de vermes…

Franz Morthimer, ainda espera a sua vingança…

 

Fim.

*adaptação de Conto Japonês.

 

NA: Espero que tenham gostado, claro esse não é o conto original, e ficou um pouco mais sangrento do que o planejado espero que vocês tenham bons sonhos…rs

 

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