O Tarot (Pt.2)

Escrito por: Zuleika Juliene

O Tarot 1

Daquele dia em diante D. Ana sentiu-se incomodada, não raro arrepios percorriam pelo seu corpo, tinha a nítida impressão que coisas ruins estavam para acontecer. Aquela pergunta de Raul fez ressurgir lembranças que ela tinha se esforçado muito para apagar da memória.

  Pensou em desabafar com o marido, mas teve medo de deixá-lo no mesmo estado ou ainda pior, ponderou e chegou à conclusão que se dividisse a situação ele como homem talvez tivesse mais molejo para lidar com o problema. Por fim decidiu não dizer nada

  Senhor Pedro, avó de Raul, trabalhava como tradutor em uma empresa na cidade vizinha, muitas vezes chegava tarde da noite, isto quando não dormia por lá. Devido ao fato do trabalho tomar muito do seu tempo durante a semana ele não conseguia acompanhar de perto o crescimento do neto e isto o deixava triste, mas no fundo aliviado por não ter muitas oportunidades do neto lhe fazer perguntas impróprias que certamente ela não responderia. Porém para suprir a falta que sentia do neto na maioria dos finais de semana ele levava o neto e a vizinha para passear, fosse um piquenique, fosse para pescar, fosse para acampar ou ir a praia. Sentia-se confortável nesta posição, pois tinha certeza que nestes momentos de distração o neto não teria coragem de perguntar nada para não aborrecê-lo.

  Estava tudo certo para aquele sábado, ele lotou a mochila com lanches, frutas e suco, pegou as bicicletas na garagem colocou- as no carro rumo a um parque que julgava propício ao ciclismo. D. Ana quase nunca ia, preferia ficar em casa lendo, bordando e preparando guloseimas que Raul e Pedro tanto apreciavam.

  Assim que entraram no carro ele percebeu que Raul estava com uma expressão diferente, colocou o cinto e ao ajeitar o espelho aproveitou para dar uma olhada na expressão de Sâmela que estava normal.

  – Tudo bem Raul? Queria ir a outro lugar?

  – Não vô, está tudo bem sim, apenas algumas dúvidas que estão me perturbando.

  – Ué! Se for coisa da escola sei que a Sâmela sempre te ajuda.

  – É verdade Seu Pedro. – disse Sâmela distraidamente.

  Olharam para fora do carro e acenaram para D.Ana que estava na porta da casa esperando eles partirem e então saíram.

  – Não é coisa da escola não vô.

  – E o que seria então?

  – Queria saber onde morávamos antes de vir para cá.

  Tentou disfarçar a angustia, segurava o pigarro com a mesma intensidade que segurava o volante, quase implorando para que gotas de suor não brotassem em sua face.

  – Já faz tanto tempo filho.

  – Nem tanto, doze anos.

  – Aquela cidade, aquela casa, depois que sua mãe se foi aquele cenário ficou triste demais para nós.

 Raul olho Sâmela pelo espelho retrovisor e ela estava retribuindo o olhar com uma expressão de: “Eu te disse”.

  – E minha avó por parte de pai, como ela se chama, onde eles moram?

  – Sabe filho eu não sei, seu outro avô não era a favor do casamento entre seu pai e sua mãe, sempre estiveram afastados.

  -E ninguém nunca disse o nome dela?

  – Devem ter comentado com certeza, mas não me lembro mais.

  – E eles moram nesta mesma cidade?

  – Como disse filho, sempre se mantiveram afastados.

  Raul virou para a janela demonstrando nitidamente sua indignação, não era bobo e logo percebeu que não conseguiria extrair informação nenhuma Dalí; porém antes de dar a conversa por encerrada lançou mais uma pergunta:

  – E qual era mesmo o nome da cidade?

  – Como disse Raul este assunto mexe com minhas emoções, sua mãe era nossa única filha e…

  – E meu pai também era filho único?

  – Sim

  – Que incrível! Um casal de filhos únicos!

  Após cinco minutos de impenetrável silêncio chegaram ao parque, ajudaram a tirar as bicicletas do carro e foram dar umas pedaladas enquanto seu Pedro sentado em um banco fingia ler um livro.

  – Nossa Raul acho que você pegou pesado com o vô!

  – Não gosto de mentiras!

  – O que ele disse me pareceu bem convincente.

  – Ai Sâmela, acho que é porque ele realmente queria que parecesse convincente, mas fui criado por eles, sei quando estão mentindo! Olha para a cara dele, mal está conseguindo disfarçar que está abalado. – disse Raul olhando na direção do avô.

  – Eu sinceramente acho que como diz a vó Ana, você está procurando chifre na cabeça de cavalo!!!

  – Sim Sâmela, e se eu achar um chifre na cabeça de um cavalo este será um unicórnio, o que é bem parecido com o que estão querendo me empurrar!

Continua

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