O Tarot (Pt.1)

Escrito por: Zuleika Juliene

O Tarot 1

Chovia muito naquela tarde e como de costume Raul jogava Tranca com Sâmela sentados no chão da sala de D. Ana, avó de Raul.

Desde os três anos de idade Raul morava com seus avós maternos, pois seus pais haviam morrido em um acidente de avião deixando o pequeno Raul sob a responsabilidade deles.

Raul nunca conseguiu esquecer o momento em que chegou à casa dos avós, mesmo sendo muito pequeno a imagem daquela linda menina andando em sua bicicleta rosa nunca saiu de sua mente, era a criatura mais linda que ele havia visto até aquele momento e não demorou nem mesmo um dia para que eles iniciassem uma amizade daquelas em que as pessoas não se desgrudam para nada.

– Sâmela, para de roubar! Você contou como Real e sabe que era suja.

– Tá esperto! – Sâmela sorriu com ar malicioso de quem certamente continuaria se não fosse pega em flagrante.

– Eu estou sempre esperto em você!

– Tudo bem, mas da mesma forma eu ganhei, mesmo não contando aquela como Real.

D.Ana adentrou a sala com uma bandeja contendo uma jarra de suco e bolo de laranja, o ar ganhou aquele perfume doce e aconchegante, perfeito para uma tarde chuvosa.

– Vocês não cansam de jogar baralho? Vamos tomar um lanchinho, saco vazio…

-Não para em pé – ambos disseram ao mesmo tempo.

D.Ana sentou no sofá para acompanhar os meninos no lanchinho, pois gostava muito daqueles momentos em que ficavam juntos jogando conversa fora, amava muito o neto e estimava todo minuto que passava ao seu lado. Raul a fazia lembrar sua filha que havia deixado o mundo de forma tão estúpida e estar com ele dava a ela a sensação de que Helena ainda estava lá.

– Vó, posso te perguntar uma coisa?

– Claro meu filho, pode falar.

– O vô Miguel…

– Raul, você sabe que não permito nem sequer a pronúncia deste nome aqui em casa, seus avós somos eu e Pedro, nós somos a sua família. – D. Ana levantou transtornada e saiu batendo a porta atrás de si.

Raul soltou um suspiro de insatisfação, pois há tempos queria saber mais sobre suas origens, seus avós se recusavam a falar da família de seu pai e isso o incomodava.

– O que foi Raul?

– Eles nunca falam nada, não dizem o porquê de não poder falar o nome do meu avô, não falam se ele foi um canalha, um bandido, eu não sei nada Sâmela, nada. Me sinto incompleto, sinto que falta parte da minha identidade, só sei o nome dele porque ouvi uma vez eles conversando, mas o nome foi tudo que consegui escutar.

– Podíamos bancar os detetive e tentarmos descobrir alguma coisa.

– Não sei como, já revirei a casa toda e não tem nada, nem uma carta, nem uma foto, nada e olha que não revirei a casa uma vez só.

– E não tem nenhum parente…

– Sâmela, você já viu algum parente aqui em casa?

– Não. Minha mãe sempre fala que depois que seus avós mudaram para cá…

– Como é? Sempre achei que meus avós sempre moraram aqui!

– Não Raul, vocês mudaram para cá quando tínhamos três anos, você não lembra…

– Sim, eu lembro, mas achei que eles já morassem aqui. Agora estou ainda mais confuso, então após o acidente eles mudaram de casa. Por quê?

– Talvez estivessem fugindo de más recordações.

-Ou talvez estivessem fugindo de alguma realidade que não quisessem enfrentar.

– Acho que você está sendo muito radical, desconfiar de seus avós…

– Sâmela, você percebe que eu não sei nem de onde vim.

– Tudo bem Raul, mas acho que as pessoas não conseguem esconder algo durante muito tempo, se houver alguma coisa que você deva saber certamente em um momento oportuno eles te contarão, talvez o lugar onde moravam antes era mais deplorável que este aqui…

– Já tenho quinze anos…

– E por falar nisso este ano não farei festa de aniversário, estou juntando dinheiro para conhecer a Europa, quero aos poucos conhecer o mundo. Você iria comigo?

– Não! E você iria assim mesmo?

– Sim. Mas falaria com você todos os dias.

– Duvido que tenha coragem, nunca nos separamos, nem nas férias.

– Eu sei, mas quero muito ter coragem.

Continua

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