Memória Esquecida…

islander

Por Lillithy Orleander

” Eu jamais amarei alguém, como amei aquele que em meus braços, deixou de viver…”

A frase martelava em minha cabeça na manhã seguinte, uma manhã chuvosa, solitária e silenciosa. Tudo era cinza, e a lembrança, sim era uma lembrança, me tirou o sono nessa estranha manhã de Domingo…

Os cachos bem alinhados, feito molas alouradas, caiam aos montes sobre meus ombros, a pele alva se assemelhava a neve que caia janela afora. Dominique, minha serva, ajudava – me a apertar o espartilho, meus seios tinham que ficar visíveis mesmo que envelados.

Enquanto as grandes damas vestiam – se como verdadeiras freiras, eu vestia a moda parisiense, vestidos cinturados que deixavam o corpo marcado, e meus ombros desnudos, eu era a herege na sociedade londrina, ou a libertina como muitos gostavam de me chamar. Não me preocupava em ter um único homem, eu podia ter o que eu queria, na hora que eu queria, eu era livre e feliz, ganhava presentes caros, e da miséria que saí eu não queria nem o nome de meu pai.

Eu não queria a vida simples e um casebre no meio do mato, mesmo que nesse casebre eu pudesse ter o único homem que morreria por mim, Leonard, ele era bom, amável e gentil, mas era pobre, e isso eu não poderia aceitar.

Cresci á seu lado e criamos uma relação mais do que amistosa, podíamos ter quem quiséssemos mas pertencíamos um ao outro, e para mim bastava, mesmo que esse não fosse seu desejo. Mal sabia eu que as coisas mudariam de forma drástica.

Era uma festa grandiosa e acredito que todos estariam lá, Leonard iria, eu sabia, eu sempre sabia onde encontra – lo.

Escolhi um vestido creme, com seda e renda, com pequenos arabescos bordados, reluzindo de forma perolada, assim como o colar de pérola que escolhi usar, presente de um dos meus amantes. Naquela noite eu me sentia deslumbrante e sabia que seria motivo de burburinhos das mulheres invejosas, eu se quer liga.

– Srta. Helena, a senhorita está parecendo uma deusa. – disse – me Dominique admirada

Eu saí do quarto e peguei a carruagem que me aguardava do lado de fora, Peter um rapaz solteiro e rico fazia qualquer coisa para me ver sorrir, me dava tudo e não me exigia nada em troca, a única coisa que me pedia era para escuta – lo, era tudo o que ele me pedia, e eu gostava de sua companhia.

A carruagem parou e a neve começou a cair em pequenos flocos sobre minha cabeça, subi a escadaria e na porta fui recebida pelo mordomo, que guardou minha capa e me levou até onde todos estavam. Havia uma grande escada de mármore e um lustre de cristais que iluminava o grande salão abaixo de nós, foi quando comecei a descer as escadas que o vi.

Leonard dançava com outra moça, uma moça de família simples e nem tão bonita quanto eu, fosse homem ou mulher, ninguém ignorou minha chegada, todos olhavam fossem encantados ou com inveja, fosse com cobiça ou com ódio, mas ele me ignorou. A raiva a principio me tomou, para em seguida ser tomada pelo ciúmes, nossos olhos se encontraram e eu estreitei os meus em sua direção, virou – me as costas como se eu fosse nada.

– Srta. Helena quanto gosto em vê – lá. – disse – me Paolo, um italiano que acompanhava algumas vezes minhas idas á outras festas, era – me um pai, vendia tecidos e era dele que minha costureira comprava seus tecidos. Se eu queria um tecido em especial, ele me trazia, não havia preço que eu não pagasse para me sentir única.

– Paolo. – ele beijou – me  a mão. – Quanto gosto em vê – lo, esta cada vez mais jovem, a que devemos a honra de festa tão grandiosa?  – meus olhos corriam ávidos em direção á Leonard que alegre me ignorava com aquela coisinha insignificante, sem sal e sem açúcar. eu não era boa, era ciumenta e se preciso fosse eu mataria para conseguir quem eu queria aos meus pés, sobre meus comandos e Leonard era essa pessoa. Minha posse.

-O motivo é meu sobrinho que chegou da Rússia, Armand. – ele virou – se para tentar encontrar o rapaz mas não o viu a suas vistas. – Ora essa, o garoto sumiu, quero que você o conheça, pequena Helena.

A música tocava suave e Paolo me tirou para dançar, esbarrei na moça de propósito para em seguida me desculpar exageradamente, senti o olhar de raiva de Leonard sobre mim, que a pegou pela mão e saiu de perto de onde eu estava.

-Paolo, diga – me quem é esta moça? Nunca á vi por aqui antes. – perguntei fingindo curiosidade.

-Ah esta é Ariel, filha de um dos meus empregados, boa moça, educada e tem uma candura invejável. Mas hora veja quem vem lá. Creio que chegou a hora de dar a oportunidade de ver a senhorita  dançar com a graciosidade que nenhuma outra mulher tem nesta cidade.

Um rapaz alto, vestido de preto e camisa branca, fumava um charuto enquanto ria em um canto com outros homens, falando da economia de Londres e de projetos para aumentar a renda da população de moda a beneficiar também a classe alta.

– Armand, meu sobrinho venha cá quero lhe apresentar alguém.

Armand se virou e por um instante algo em mim ,me fez parar de pensar em tudo, ele tirou o charuto dos lábios, e o sorriso morreu como se um choque percorresse seu corpo, se passou apenas um instante, mas aquele salão parecia estar vazio. Os olhos esverdeados brilhavam como duas esmeraldas luzidias, eu estendi – lhe a mão e ele á beijou sem deixar de olhar em meus olhos, Paolo não teve nem que pedir ele apenas me levou para o meio do salão.

-Armand, é um prazer conhecê – lá senhora.

-Senhorita.

-Sorte a minha, ser senhorita.

Eu sorri e ele aproximou – se mais de meu corpo, fazendo com que meu coração acelerasse seus movimentos.

-Helena.

Armand me levou ao jardim naquela mesma noite, e me deu um longo beijo, ao qual nem resistir tentei, não tive olhos para outros homens e esqueci até mesmo que tinha raiva de Leonard. Ele me levou até em casa e combinamos de nos ver no dia seguinte, quando adentrei meu quarto uma sombra próxima a janela me observava.

-Como foi a noite, Hel? – Leonard havia entrado em meu quarto, e sua face parecia furiosa, ele se levantou e veio em minha direção.

-Vá embora, Leonard, não tenho nada a falar com você.

-Você me deve ao menos um explicação. – disse ele segurando meu braço.

-Saia! – disse furiosa. – você não tem nenhum direito sobre mim.

-Sim eu me vou, sua cortesã maldita. Ariel é mais mulher do que você.

Aquilo me doeu profundamente, e lhe desferi um tapa na cara.

-Nunca mais,você entendeu, nunca mais você ouse falar comigo desse jeito.

Nossa relação era dessa forma amor e ódio, unidos, entrelaçados…

Ele me segurou a força enquanto beijava meu pescoço e deixava suas mãos livres passeando por meu corpo, naquele momento meu corpo não o queria, eu o empurrava, mas sua força parecia a de mil demônios.

Leonard rasgava meu vestido enquanto eu o esbofeteava.

-Você é minha e sabe disso. – ele dizia com ódio brilhando em seu olhar e com o desejo ardendo em suas veias, desejo esse que eu compartilhava, eu o odiava, mas meu corpo ansiava por Leonard.

Na manhã seguinte, quando levantei – me com o corpo marcado pela noite anterior, ele ainda dormia em minha cama, olhei – o com desdem  afinal havia acabado o encanto que me prendia á ele.

Nos dias que se seguiram eu sempre arranjava uma desculpa para manter Leonard afastado, e funcionou, por um tempo longo, ele ficou noivo de Ariel, eu já não levava uma vida promiscua e me comportava mais como as damas serias de nossa sociedade. Armand me fazia bem e inacreditavelmente era a única coisa que eu queria.

Eu presenciava, eu sentia o amor arder em meu peito, Armand dormia meus braços e faia amor comigo de uma forma cadenciada e cheio de pequenos floreios e detalhes suaves, ele traçava desenhos em meu corpo nu, enquanto planejava quantos filhos eu lhe daria, ele beijava meus seios e me pedia em casamento.

Aquilo fazia a mim, a Paolo e a Armand feliz, era um sonho do qual eu jamais pensei em acordar, eu teria minha família e agora o que me sobrava era sonhar com um casamento próximo.

Paolo viajou e deixou Armand pra cuidar de tudo em sua loja de tecidos, em uma dessa noites, chovia, uma tempestade furiosa. Ficamos ali abraçados, parados diante da janela, Armand beijou – me o pescoço, como tinha mania de fazer, e ficou ali calado.

-Helena.

-Sim.

-Eu a amo. – Armand me virou de frente para ele e se ajoelhou, eu não sabia o que estava acontecendo e fiquei sem saber o que fazer, sem ter reação. Foi quando ele tirou uma caixinha preta do bolso da calça.

– Helena, seja minha, só minha, daqui pra frente por toda vida. – ele abriu uma caixinha com um anel dourado e grosso, parecia ser trançado com filetes prateados e uma pedra verde no meio.

-Mas Armand, eu não…

-Eu sei do seu passado me não me importo, olhe, essa pedra são meus olhos, que sempre terão somente você por horizonte, você nunca mais ficará só e será pra sempre amada. Só diz que me aceita.

-Sim. – eu me debulhava em lágrimas, a felicidade que havia em mim era imensa, não cabia em meu peito.

Armand me amou ali mesmo, no divã que havia em baixo de um quadro, ao som da chuva que começava á esmaecer.

-Eu te amo, minha doce Helena

-Eu te amo mais Armand.

Fomos interrompidos pelo som de algo se partindo, mas nem ligamos afinal estava chovendo poderia ser somente mais um trovão cortando o céu, eu estava deitada no peito de Armand, quando ele fez menção de se levantar, foi tudo rápido demais, em seguida fui arrancada de seus braços, nua, enrolada apena em um lençol.

-Leonard, NÃO!

O estampido do tiro deixou – me surda, para em seguida ver o brilhos dos olhos de Armand sumir vagarosamente diante de mim, eu gritava, eu chorava, eu empurrava, até que consegui me desvencilhar de quem me segurava, o sangue manchava meus dedos, e meus olhos ardiam como se tivessem fogo em brasa.

-Armand, não me deixe…

-Eu te amo, Helena e serei sempre teu, me espere ainda não acabou… – foi o último sussurro de meu amado antes de partir.

Armand não voltaria, e Leonard me arrastava de perto de seu corpo.

-Você vai entender uma coisa de uma vez por todas. Você. É. Minha…

Armand foi enterrado dois dias depois, o preto me caiu tão bem que parecia que era minha cor desde sempre, eu não mais comia, não tinha motivos pra viver e não viveria, a dor corria meu peito de forma insuportável.

Leonard passou a vigiar meus passos e a ir ao meu encontro sempre que achava conveniente para si, eu o odiava, e eu me vingaria…

Ariel era a nova favorita, sempre sorrindo, ela pagaria. Vigiei cada passo seu, pois havia colocado um garoto pra vigia – lá, cada minuto das horas de seu dia e descobri que Leonard á havia pedido em casamento, era a minha oportunidade de fazê – lo pagar, era justo. Ele me tirará Armand, eu lhe tiraria Ariel.

Numa tarde quente quando ela estava sozinha, e Leonard havia saído fui até o casebre, esperei até vê – lá dentro da casa e com a juda de dois homens que havia pago, incinerei a casa com ela dentro, e fiquei assistindo a tudo desabar, os gritos e os pedidos de socorro, eu não sentia dó, eu não sentia nada, mas ainda faltava Leonard.

Ele chorou, sofreu, se embebedou até que veio á mim.

Eu esperava ansiosa essa visita, busquei o vinho mais doce de minha casa e escondi a minha vingança nele, servi duas taças e fui ao encontro dele.

-Foi você.

-Tome primeiro vamos nos acalmar e você me diz do que está me acusando.

Ele sentou – se e deu o primeiro gole.

-Ariel está morta. Foi você.

-Sim, por Armand e por mim.

Ele se levantou e veio em minha direção, mas parou segurando o peito no meio do caminho,

-Nos vemos no Inferno Leonard, esse é meu presente pra você. – e joguei o resto do vinho próximo a seu rosto.

Leonard espumava e não conseguiu dizer uma palavra. Eu subi para meu quarto e tranquei a porta, fui á meu porta jóias e coloquei em meu dedo o anel que Armand havia me dado, fazia um mês que ele havia partido. Peguei um abridor de cartas e cortei meus pulsos, eu não viveria sem Armand. Nunca

“Eu  jamais amarei alguém, como amei aquele que em meus braços, deixou de viver…”

Eu acordei como se houvesse passado dias dormindo, um sonho estranho e tão familiar, eis que a campainha toca e abandono meus devaneios.

“Quem será á essa hora, nessa chuva, em pleno domingo?” – pensei eu.

vesti um roupão e desci pra atender.

-Oi, meu nome é Alexandre. – parei estatica, os mesmos olhos verdes do sonho. – sou seu novo vizinho e queria saber se você conhece algum eletricista, a fiação da casa está uma droga e com essa chuva, eu não sei o que fazer e…

Ele olhou em meus olhos e ficamos ali parados na porta, em silêncio, como se nada mais importasse…

Será que foi tudo somente um sonho? Uma visão quem sabe, eu não sei e não acredito no acaso, e se eu era aquela moça? Poderia eu ter mais uma chance de me sentir tão feliz quanto ela se sentiu?

-Prazer eu sou, Agatha, entre está uma chuva terrível aí fora eu vou buscar o numero pra você…

Armand… Helena… Alexandre… Agatha…

FIM…

4 comentários em “Memória Esquecida…

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