A Corte [Parte 5] – Visitante Noturno

Escrito por: A.J. Perez

joseph-morgan-e-il-temibile-klaus-in-the-vampire-diaries2.jpg

Capítulo 5 – “Visitante Noturno”

O livro era bom, mas a fome falou mais alto e fez Elena sair da cama.

Ela usou os braços para se deslocar por sobre ela, até finalmente alcançar a cadeira de rodas. Percorreu a curta distancia entre seu quarto e a cozinha e se pôs imediatamente a fazer um sanduíche. Preparou um pouco de café, alguns minutos tediosos se passaram até que ela encheu uma boa caneca.

Ela sorveu o liquido negro e quente, sentindo o delicioso e bem conhecido sabor forte que ela tanto gostava. Mordiscou seu sanduíche abarrotado de pasta de amendoim e seguiu com pensamentos sobre o livro que estava lendo.

Então um tilintar eletrônico arrancou ela dos devaneios literários, e a trouxe para a vastidão negra e desoladora da realidade, mais um vez. O aviso sonoro indicou alguém a porta da casa, o que a fez fechar a cara em uma carranca. Olhou imediatamente para o grande relógio de madeira na parede e achou aquilo realmente estranho. Eram oito horas da noite, – quem diabos visitava alguém as oito da noite? – Ela se moveu tediosamente para a entrada movendo seus braços e um ritmo suave ao deslocar-se até a porta. Ascendeu a luz e a abriu em seguida, a preocupação, que logo desapareceu.

Parado a frente da porta um homem alto com seus um e oitenta e alguma coisa de altura, a olhava com um sorriso, Deus, e que sorriso, ele era lindo, algo entre real alegria, e uma pitada de deboche. Logo Elena constatou que não era só o sorriso que era bonito. Os olhos do homem eram de azul profundo e ao mesmo tempo cristalino, cintilavam quase como se… estivessem luminescentes? Os olhos dele estavam mesmo cintilando! Jesus ela deveria ter parado de ler antes, aquilo só podia ser sua vista cansada a fazendo ver coisas. Ele era branco, não pálido como um morto, podia se sentir o calor de sua pele pelo ar, a pele com aquele tom saudável, de quem pega sol mas não ao ponto de ficar bronzeado. Os cabelos bem cortados e de um castanho claro – quase loiro – eram ondulados e pequenos cachos se formavam na cabeça dele, ele aparentava ter cerca de trinta anos, e que os bons cristãos a perdoassem ele era um “tio” que ela adoraria agarrar mesmo tendo só dezesseis anos.

O sorriso no rosto dele se alargou liberando um semi-riso, como se conseguisse ler os pensamentos sujos que ela teve com ele naqueles poucos segundos.

– Boa noite. – iniciou o homem com a voz carregada de um sotaque familiar – Sou Lucian Gregóri, você deve ser Elena…

Antes que ela pudesse responder a mão dele – ela realmente era quente – pousou sobre a dela a pegando de modo gentil, mas firme, levando-a até seus lábios, lhe dando um suave beijo nas costas da mão. Sem tirar em nenhum instante os olhos azuis de dentro dos dela.

– Estou encantado em conhecê-la… sussurrou sobre a mão da jovem, a fazendo estremecer – Sua avó Laura me falou muito de você. – seu corpo retornou a ficar ereto soltando a mão dela – Estou aqui para vê-la, ela se encontra? – mais um sorriso arrebatador surgiu naquele rosto de deus grego.

– Ah.. err, não. – “droga pense, pense, pense sua estúpida. – ela gritava em pensamentos consigo mesma. Mais uma vez ele liberou uma semi-risada – mas eu posso avisar ela que o senhor veio, sr. Lucian.

– Por favor, sua avô me falou tanto sobre você que é como se nos conhecêssemos, me chame de Gregóri, é assim que meus amigos me chamam.

– Assim seja, avisarei que “O Vigilante” esteve aqui… – Elena sorriu.

Ele finalmente riu, sua risada pareceu harmoniosa como musica, o que a fez pensar que diabos ela tinha colocado naquele café.

– Gregóri, “Vigilante” em Latim, gosta de línguas antigas, senhorita Elena?

– Dependendo da língua, não me importo com a idade. – Jesus! Ela havia dito aquilo em voz alta? – “Santo Deus, abra um buraco no chão e me jogue no inferno.

Uma gargalhada, ecoou pela sala atrás dela.

– Bem, se sua avó não se importar, eu sei latim. Poderia ensinar a você mais, sobre como são… as línguas antigas. – ele disse sorrindo com aqueles dentes perfeitos – Bem eu já tomei muito do seu tempo, se me permite, – ele fez um gesto insinuando que iria se retirar – tenha uma boa noite, jovem Elena.

Assim que ele se virou e desceu da varanda uma duvida surgiu na mente da garota, que disparou a pergunta imediatamente.

– Que tipo de assuntos tem com minha avó?

Lucian parou e olhou por sobre o ombro sorrindo, antes de se virar para ela novamente.

Maldito seja esse sorriso encantador! – pensou Lena.

– Venho me correspondendo com sua avó por cerca de dois anos e meio, sou um historiador, assim como ela. E venho da…

– Inglaterra. – sentenciou Elena.

– O sotaque é gritante eu sei – ele riu – na verdade, – ele subiu novamente na varanda – eu não sou inglês, vivo há muitos anos em Londres, mas eu nasci no oriente médio, em um lugarzinho “abandonado por Deus”, mas isso faz muito tempo. Para mim parecem milênios. – ele levantou as mãos dando de ombros como se não se importasse.

– Então vocês tem algo de trabalho a tratar?

– Sim, na verdade sua avó vem me ajudando muito em uma pesquisa, e aparentemente ela possui muito conhecimento “não usual” por determinadas áreas da história. E isso de fato me fascina. Então aqui estou, cheguei na cidade, me hospedei no hotel local e decidi vir fazer uma surpresa a sua avô, eu deveria chegar apenas semana que vem. Minha assistente chega amanhã.

– Quais assuntos “não usuais” da história você se refere?

– Algo me diz que em breve, você saberá.

– Ok. sua assistente? Isso não desculpa pra não dizer namorada? – ela riu entre dentes ao se ouvir falando aquilo.

– Não. Senhorita LeFay é um espírito livre. Jamais terá um namorado. Vocês duas vão se dar bem, ela tem o mesmo tom ácido que você…

Ela observou pensativa por algum tempo e então finalmente falou.

– Posso avisar que você está aqui se quiser… vocês se falam a anos ela vai vir correndo! Ela saiu com meu irmão, mas á devem estar voltando a essa hora.

– Não quero incomodar. – ele lançou as mãos gentilmente no ar como se estivesse se rendendo.

– Não será um incomodo, – ela pegou o celular do bolso e discou imediatamente para Laura.

Após três chamadas rápidas ela atendeu.

Alô? – Disse a voz do outro lado da linha – é você querida? Aconteceu algo? – a voz de sua avó transbordava preocupação.

Elena manteve os olhos em Gregóri, ele se quer piscou. A fitava com um olhar gentil, e aquele maldito sorriso cativante emoldurado pela face jônica esculpida pelo próprio Deus.

– O senhor Lucian Gregóri, de Londres está parado bem na minha frente, ele veio lhe fazer uma surpresa.

Gregóri está ai? Santo Deus, contenha seus hormônios! O homem é um espetáculo… – Como se ela própria não tivesse notado – convide-o para entrar, logo estaremos em casa.

– Okay, vó. Até daqui a pouco. – ela desligou antes que Laura pudesse responder, ou prolongar a conversa.

– Então como ela reagiu? – indagou o homem.

– Ela está vindo para lhe dar as boas vindas, – sentenciou Lena com um sorriso acalorado na face – mas está muito frio para esperar aqui na frente, ela recuou a cadeira de rodas e se dirigiu mais para dentro. Então olhou para a porta. Gregória estava parado no batente. A observando.

– Não vai entrar?

– Isso é um convite?

– Deve estar uns dez graus ai na rua. Entre logo…

Ele passou pela porta e fechou. Ainda passando a mão pela madeira.

– Nunca lhe disseram senhorita Elena, – ele se virou para encará-lo – nunca convide estranhos para sua casa, pode ser perigoso.

Ele andou até o sofá e se sentou.

– Tem sorte de que seja eu aqui. – ele riu comedidamente.

O cara era uma figura disso Elena já não tinha duvidas. Ela imediatamente percebeu sua xícara de café esfriando sobre a mesa.

– Sei que vive em Londres, mas quer café, Gregóri?

– Eu adoraria, obrigado.

Ela foi para a cozinha em busca de outra caneca para servi-lo. Então para o habitual silêncio não engoli-los ela se pôs mais uma vez a interpelá-lo.

– Então seus pais se mudaram pra Londres quando você era pequeno ou algo assim? – ela colocava café quente em uma nova xícara.

– Não, – iniciou ele – na verdade, não tive mãe. Éramos só meu pai, meus irmão e eu. Quando fui parar em Londres, – ele fez uma pausa que durou alguns segundos enquanto ela se aproximava com duas xícaras – já não estava com meu pai.

– Ele morreu? – ela realmente ficou triste, não queria trazer recordações ruins a ele. Gregóri estava sendo um cara legal até ali.

– Não! – ele gargalhou– Ele está bem vivo, acredite. – Lucian se ajeitou no sofá. Ele pegou a caneca de café e agradeceu a Lena.

– Na verdade eu não o vejo a muito tempo. Nós tivemos uma briga feia e nunca mais nos falamos depois disso, foi quando ele expulsou a meus irmãos e a mim. Não todos lógico, os “Bons Filhos” ficaram do lado dele na briga.

– Ele os expulsou? Sério? O que vocês fizeram pra ele chegar a isso?

– Fizemos o que um filho nunca deveria fazer… desafiamos a autoridade dele. Meus irmãos e eu eramos jovens e impetuosos, queríamos mudar as coisas, fazer elas a nossa madeira. Nosso pai não gostou nada. Então acabamos entrando em conflito, – ele soltou o ar dos pulmões demonstrando frustração, seus olhos focaram algo além do mundo físico, ele parecia relembrar as memórias. Lembranças antigas e profundas, em seguida bebeu um grande gole de café, e suspirou – Nosso pai era o sol, e nossa pequena revolução eram nossas asas de cera, quando o confrontamos… despencamos do céu, nessa terra desolada e fria. Sozinhos a nossa sorte. Mas nós nos viramos bem. – ele sorriu.

– Caíram do céu, como Ícaro na lenda grega. Uma boa metáfora para como deve ser o seu pai lhe expulsar de casa. – ela ponderou segurando a xícara com as duas mãos para aquecê-las – Nunca pensaram em voltar?

– Voltar? Talvez tenha passado pela minha cabeça e pela dos meus irmãos também, mas não creio que isso adiantaria, jovem Elena. Existem elos invisíveis em nossas vidas, correntes intangíveis. Elas nos unem a todas as pessoas que conhecemos. As forjamos por anos, décadas, um a vida inteira. Mas essas correntes são de cristal, quando se partem, nada mais pode ser feito para consertá-las.

– É meio triste isso, – ele o olhou com certa pena – mas no fim os pais sempre perdoam, talvez você devesse arriscar. E tentar falar com ele. Não importa qual “crime” você cometa, por mais furioso que seu pai fique, um dia ele vai te perdoar. Ou é isso que gosto de pensar que um pai faria.

Gregóri a observou com seus profundos olhos azuis a analisando, sorveu mais um gole do café. E a olhou nos olhos.

– Mas ser expulso não foi de todo ruim, eu viajei o mundo! Vi coisas que meus outros irmão nem sonham que possam existir, experimente a vida ao limite do inimaginável, descobri mistérios incríveis, Elena. Coisas que poderiam mudar tudo o que você conhece. Talvez, só talvez. Essa imensidão de terras sem amor paterno sejam a minha terra prometida, talvez esse seja o meu prêmio. – ela conseguia ver paixão arder nos olhos dele enquanto falava – quanto mais vejo da humanidade, mais ela me fascina e intriga. Cada ser humano é um universo único a ser explorado. Esse mundo abandonado pelo Criador é a minha verdadeira casa Elena. Essa vastidão é o meu lar.

– Como diria John Milton em seu livro Paraíso Perdido, “Antes reinar no inferno que servir no Paraíso.” – Elena sorriu, levando a xícara até sua boca.

– Esse é o espírito Elena, – o semblante de Lucian era exultante, ele era apaixonante, perfeito, como um anjo…

– Vida longa a rebelião… – disse ela com um sorriso.

– Esse é o espírito Elena! Esse é o espírito…

E brindaram com as xícaras enquanto sorriam.

——————————————————————————

Continua…

 

 

Salvar

3 comentários em “A Corte [Parte 5] – Visitante Noturno

  1. Lucian… Lucian… Lucian…
    Um carater sofisticado e envolvente e um ar de mistério inigualável. Com aquele ar de segredo malicioso que todas nós adoramos ver presente em uma personagem. Acertou em cheio, cada detalhe, cada palavra e até o modo de falar da personagem nos pequenos detalhes relatados.
    Elena nossa doce Elena, posso até estar engana mas acho que essa mocinha ainda irá nos render uma bela aventura e nos ajudará a desvendar o oculto da forma mais sensata e criativa.
    Ansiosa por mais, e mais a cada novo capitulo… Parabéns

    Curtido por 2 pessoas

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s