As lágrimas de uma Rainha

 

 

ana-bolena-condenada

 

Escrito por Naiane Nara

 

E mais uma vez estou aqui, neste lugar suntuoso, o local de minha coroação. Naquela maravilhosa ocasião, eu pensava haver vencido a batalha contra o esquecimento. Pensava estar a salvo de tudo de ruim que pudesse me alcançar. Eu era a Rainha e carregava o herdeiro presuntivo da coroa em meu ventre, o mundo se abriria para mim em felicidade e meu nome seria inserido nos anais da História.

Como pude ser tão tola e insensata?

Olho pela janela, a noite, me perguntando por que essa necessidade egoísta de governar meu destino teve que me trazer até aqui. Meu nome e o de minha família enxovalhado. Prostituta, a palavra que tanto evitei, atirada a minha cara. Minha adorada filhinha, considerada uma bastarda, tendo que crescer sozinha neste mundo triste, desprezada pelo pai, sem o carinho da mãe.

Como isso dói. Dilacera… Existe alguma maneira de ter paz em meio a esta agonia?

Sei que essa missiva vai ser destruída, junto a tudo que prova minha inocência. Mas por Deus, preciso desabafar. O desespero me corrói as entranhas como se de um rato gordo e hostil se tratasse. Não há nenhuma alma caridosa para me ouvir. Minhas damas de companhia são espiãs e relatam tudo que faço e digo aos meus algozes.

Por vezes creio que jamais voltarei a ver qualquer face que me tenha carinho.

Ana Bolena, a prostituta, finalmente caiu.

E todos, absolutamente todos, até meu familiares, se regozijam. Por favor, alguém me diga que a morte vai dar fim a esta dor.

Por minha vida inteira fui uma mulher modelo. Educada primorosamente, sempre tomei cuidado com mexericos. Ver minha irmã, Maria, ser chamada de prostituta desde a mais tenra infância serviu-me de mais prudente lição.

Servi nas brilhantes cortes da Áustria e França. Aprendi os coquetes de uma mulher sedutora. Me deixei apaixonar pela moda e coisa belas. Passei incontáveis horas a conversar com grandes pensadores e li sobre eles. Mas sempre tive o cuidado de jamais sujar meu nome. Sei que o mundo em que vivemos é implacável com as mulheres. E sob o belo disfarce da sedução e galanteria – que nunca passavam disso – me escondi, por anos.

Então, em meu país natal, me apaixonei por um rapaz. Tão jovem quanto eu. Tão inseguro quanto eu. Mas a estirpe dele era nobre demais para se misturar a minha. Nos separaram, dissolvendo nosso honesto compromisso.

Meu coração ferido ainda esperava que ele lutasse. Mas Henry Percy não tinha essa força. Os homens não conhecem a sanha de uma leoa ferida. Isso ecoou em minha alma dando-me ímpetos de violência.

Me curvei a vontade do Rei e de seu odioso cardeal, que mandaram meu amor embora, para se casar com uma nobre de estirpe tão alta quanto a dele.

A mim, prepararam um casamento vantajoso para minha família, com um conde, onde eu seria enviada para longe, com o objetivo de nossas famílias se unirem para reforçar as fronteiras do país.

Como um objeto sem sentimentos. Sequer olharam para mim enquanto concluíam as negociações.

O ódio nasceu então e me queimou por dentro. Nunca mais fui a mesma. Me tornei gelada e decidida a usar os homens apenas para alcançar poder. Se poder é o que importa, eu o teria, não importa a desvantagem do meu sexo. Senti necessidade de ver as pessoas que me humilharam se curvando a mim.

Me tornei anda mais bonita e mais criativa em minhas vestes e conversas espirituosas. Chamaria atenção de alguém com muito poder e me casaria muito melhor do que o planejado para mim.

Foi então que aconteceu. Dizem que temos que tomar cuidado com o que pedimos, não é verdade? Realmente, chamei atenção de alguém muito poderoso. O próprio Rei Henry VIII.

E não havia seis meses que minha irmã lhe aquecera o leito.

Isso já seria uma situação repugnante por si só, mas como dizer não para o Rei sem destruir a mim e a minha família? Como dizer sim e ter meu futuro destruído e meu nome na lama?

Tive de pensar.

Construí um estratagema para que ele desistisse. Amor cortês. Declarações, brincadeiras, poesias e músicas trocadas, talvez até alguns beijos, mas nada além disso.

Meu plano voltou-se contra mim. O Rei se apaixonou ainda mais e muito mais vivamente. Me encheu de presentes, de atenção, de gestos de carinho. Mesmo em frente a sua Rainha, a quem eu servia.

Eles não tinham filhos. Somente uma filha, Maria. O Rei sempre dizia que era a pérola de seu mundo, mas que uma mulher não bastava para governar. Precisava de um filho. E admirava minha tenacidade em manter-me virgem para meu casamento.

Não sei exatamente de quem partiu a idéia. Talvez de ambos. O Rei estava desesperado por seu herdeiro e eu desesperada para livrar-me dessa situação sem manchas a minha reputação, e a essa altura já não seria possível. Nenhuma alma viva na Inglaterra acreditava que não tínhamos dormido juntos.

Concordei com o plano maquiavélico para afastar a Rainha Catarina e ser colocada no seu lugar. Esperei. Fui persistente. Mostrei-me a companheira perfeita, sem dar o que ele mais queria. Minhas explosões de gênio o encantavam. Solicitava minha companhia para ir a todos os lugares. Até que chegou a viagem oficial a Calais, onde deveriam comparecer o Rei e a Rainha. E quem compareceu foi o Rei e eu.

Me deixei seduzir. Jamais esperava gestos tão grandiosos de amor e uma luta tão grande apenas para ter-me como esposa. Henry Percy e sua calma em abandonar-me ainda calavam fundos no meu coração.

Nessa ocasião me entreguei ao Rei pela primeira vez. Apaixonada, feliz. Pensando finalmente ter encontrado meu lugar. Me odiando pelo que fiz para chegar até ali. Uma tempestade de emoções juntas.

Logo fiquei grávida e tudo foi apressado para minha coroação. Foi quando estive nesse lugar pela primeira vez. Os aposentos da Rainha, na Torre de Londres. Me achando muito poderosa. Comemorando minha vitória, me julgando inalcançável.

Mas quando dei a luz, era uma menina. Isso desagradou ao Rei intensamente, mas ainda não tinha perdido sua afeição. Eu ia conseguir superar isso. Provara minha fertilidade. Minha filha nascera bem e era saudável.

Em minha segunda gravidez, um aborto. Brigas, desentendimentos. O Rei voltara a procurar suas amantes. Eu via em seus olhos a desconfiança crescendo absurda e irreversível. O medo de que eu fosse um erro, que tivesse esperado tantos anos para nada.

Procurei esconder meu desespero em sorrisos. Me vestia com apuro, dançava, flertava, recebia os embaixadores com elegância, como me foi ensinado. Encantava a todos com minha voz e alaúde.

Em minha terceira gravidez, pensei novamente ter vencido as nuvens negras que se atraíam para mim e para minha filha. Mas houveram tantos problemas… Primeiro surpreendi uma de minhas aias, Jane Seymor, sentada no colo de meu marido. E pouco tempo depois, houve um acidente… O Rei foi dado como morto temporariamente. Fomos informados da morte da antiga Rainha, Catarina, o que enfraquecia ainda mais minha posição. Eu precisava desesperadamente desse filho para acalmar a fúria de Henry e não terminar como ela.

Não suportei tantas comoções. Dei a luz antes da hora a um menino adorável. E isso selou meu destino, me trazendo de volta para a Torre, dessa vez como traidora, adúltera e incestuosa.

Condenada a morte por não ser capaz de gerar o filho que prometi.

Meu irmão e os nobres que me apoiavam foram condenados comigo. Meu músico, Mark Smeaton, foi torturado para confessar que havia dormido com a Rainha.

Mas ao menos os outros não me traíram de forma tão abjeta.

Estou esperando a morte, sendo inocente. Nunca ofendi o Rei com meu corpo, apenas com meu gênio de tempestade, que me trouxe ruína.

Meu coração bate dolorosamente a espera de ser libertado desse mundo. O homem que tanto me amou a ponto de alterar leis e romper com Roma não se satisfaz com meu banimento, deseja a minha morte.

Estou sendo assassinada, sem defesa.

Sinto ainda mais intensamente por deixar minha filha, Elizabeth, sozinha nesse mundo. Ainda não completou três anos. Lembrará do rosto de sua mãe? Me odiará por crescer sob o estigma de ser filha da prostituta? Entenderá que nós, mulheres, somos injustiçadas se os homens não estiverem satisfeitos conosco?

E meu maior medo… Sofrerá ela o mesmo destino que o meu, pagará ela por meus erros?

Devo parar. As lágrimas já mancham a pena e o papel. O dia da minha morte já amanheceu. Escolhi minha roupa com apuro e luxo. A vida toda preferi a moda francesa, por ser mais elegante, mas hoje escolhi morrer vestida como uma Rainha inglesa, que é o que sou.

Elizabeth… Quando me ajoelhar para receber o golpe do carrasco, meu último suspiro será para você.

De sua mãe que te adora,

Rainha Ana Bolena Tudor.

 

 

 

Fim

*****

4 comentários em “As lágrimas de uma Rainha

  1. Ana Bolena tiro o chapéu pra esta mulher, e mais ainda pra nossa querida autora que expressa com tanta clareza cada palavra deste relato, ficou perfeito, na medida, cadenciado… Sem palavras para descrever como me encanta essa visão única que seus contos possuem, parabéns!

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