Meu reflexo em mim

amigas

Inspirado no música Mi reflejo – Christina Aguilera

 Escrito por Naiane Nara

Ando pelas ruas, olho as pessoas, será que elas escolheram as suas próprias vidas? Só eu fui arrastada para algo que não queria? Todos dizem que posso escolher ser diferente.

Escolhas, escolhas.

Mas estou me adiantando.

Meu nome é Bianca, tenho 19 anos. Estou a quinze dias de completar 20 primaveras e me sinto como uma velhinha de oitenta.

Não é fácil viver, especialmente quando se é diferente.

Sempre nas proximidades do meu aniversário fico nostálgica. Penso em meus erros, acertos, me julgo como nem o mais impiedoso tribunal faria. Me arrependo de muitas coisas e me alegro com outras tantas.

Mas sempre estive só. E nesse aniversário tenho alguém, que no último ano enfrentou todas as batalhas possíves comigo, sempre sorrindo, sem se deixar abater. Acho que estou apaixonada, e isso me amedronta intensamente. Não quero que nada de ruim aconteça. Mas vai acontecer. Eu sei.

Vivemos em um mundo perigoso. Como eu queria o colo da minha mãe!

Mesmo que ela tenha me sufocado em padrões que não eram meus, ainda é minha mãe e sinto imenso a sua falta. Porém, ela tem vergonha de mim. ‘’Aberração’’, foi o que disse. Essas palavras me queimaram como ferro em brasa. Mesmo que viva mil vidas, nunca vou esquecer.

Nunca gostei de nada que se espera que uma menina goste. Vestidos, cabelo elaborado, maquiagem pesada, jóias. Não, nada disso nunca me chamou atenção. Uma calça jeans, camiseta e lápis de olho me parecem produção suficiente.

Mas minha mãe sempre queria mais. Queria me enfeitar como sua boneca, com as melhores roupas e melhores jóias, e me exibir para o mundo.

Por alguns anos, me sujeitei a isso. Pensei que isso a confortaria, que nos aproximaria. Ficávamos tão sozinhas naquela casa enorme. Meu pai sempre estava viajando, e quando estava presente, fazia ecoar seus gemidos junto aos gritos da empregada por todos os cantos. Ele gostava de fazê-la sentir dor. Ficava tão satisfeito que provavelmente toda a vizinhança ouvia.

E nunca fizemos nada para ajudar a pobre moça. Fomos tão monstros como ele.

Provavelmente você vai dizer que é por isso que nunca me interessei por meninos. Não sei, acho que nunca me interessei pelo amor propriamente dito. Nunca convivi com esse sentimento de fato, até agora, e estou apavorada.

Foram 16 anos assim. Vivendo uma vida que não era minha, apenas para tentar diminuir a infelicidade da minha mãe. Mas tudo só piorava com o tempo. Eu olhava no espelho e chorava copiosamente, todos os dias. Aquela não era eu. Queria gritar até ficar rouca, mas sabia que ninguém ouviria e minha mãe me compraria outra roupa cara, como se isso fosse a solução dos problemas do mundo.

Depois de mais uma noite insone por causa dos gritos da empregada, coloquei algumas camisetas  e jeans na minha mochila e esperei. Certamente seria expulsa de casa.

Na mesa do café, disse que odiava aquela vida. Que não gostava de meninos. Que minha mãe e eu podíamos trabalhar e ser felizes longe daquele ambiente. Todo mundo podia ser feliz, era só querer.

Que ingenuidade a minha.

Meu pai bateu com gosto, até me fazer sangrar. Foi quando me chamaram de aberração, monstro, e outras palavras nada elogiosas. Disseram que eu estava vivendo em pecado e ia passar a eternidade a arder.

Mas pelo quê? Que foi que fiz de tão grave?

Quando terminou, corri para pegar minha mochila e saí daquela casa, como uma louca, machucada e sangrando. Tinha apenas um colar de ouro com meu nome que adorava e pouquíssimo dinheiro, pois estava começando a juntar para comprar uma coleção de mangás que gostava muito.

Passei os primeiros dias na casa de um amiga de infância, a Ana Clara. Dormia no chão, atrás do sofá. Durante a madrugada, os pais dela vinham verificar se eu realmente estava ali e não no quarto com a filha deles. Como se eu fosse alguém incontrolável. Mas engoli a raiva, pois mesmo com toda a desconfiança me ajudaram quando precisei.

Vendi o colar para ter mais dinheiro e aluguei uma kitnet simples, na periferia. Consegui um colchão velho, e comecei a procurar emprego. Foi bem difícil esse início. Por mais bem educada que fosse, não tinha experiência em nada. Andava muito, entregava currículos, fazia entrevistas, e nada de respostas.

 

O dinheiro estava acabando, eu comia pouco para esticar o máximo possível. Pelo menos o aluguel tinha que ser mantido intacto. Gastava mais em passagens de ônibus do que com comida propriamente dita. Sabia que pipoca alimenta por quase um dia inteiro? E na falta dela, água doce tira a fome. Aprendi todos esses macetes nos primeiros meses. Emagreci muito, mas não podia desistir. Era a única vida que tinha para viver agora.

Consegui um emprego, finalmente, em uma franquia de lanches. Pagava o aluguel e sobrava algo pra comida. Mas eu tinha direito a um lanche por dia, e acabava comendo lá. Assim, só pagava o aluguel e a luz e começava a juntar dinheiro para comprar alguns móveis.

O trabalho era estressante, e eu tinha parado de estudar. Mas a sensação de ser dona da própria vida era poderosa. E a esse primeiro emprego devo ter conhecido a Luisa.

Ela vinha uma vez por semana e comprava apenas batatas fritas. Dizia que era para matar a vontade, já que não podia gastar muito nos lanches.

Luisa também morava sozinha e me ouvia sem julgamentos. Comecei a oferecer as minhas batatas para ela vir todos os dias. Ela recusou, no início. Pensou que fosse me causar problemas. Mas garanti que não e ela veio iluminar os meus dias.

Nos conhecemos melhor, nos apaixonamos. Ambas conseguimos empregos melhores e com o acerto dos anteriores, mobiliamos um apartamento pra nós. Claro que era simples e todas as coisas que compramos eram usadas. Mas e daí? Nossa casa nosso mundo. E a felicidade de dividir as contas, a cama, a vida?

Essa alegria tem um ano e espero que tenha muitos outros anos por vir.

Alguém bate na porta e me assusto, saindo abruptamente dos meus devaneios. Luisa tem a chave, quase não recebemos visitas. Quem poderia ser?

Abro a porta devagar, com cuidado, pois não temos olho mágico. Luisa até queria colocar, mas a convenci de que era um gasto desnecessário.

Meu mundo parou de repente.

Minha mãe, vestida simplesmente. O rosto tenso, as mãos tremendo. Convido-a para entrar cerimoniosamente e ela se joga nos meus braços. Choramos juntas.

Ela diz, com a voz trêmula:

– Sabe o quanto foi difícil te achar, mocinha?

Respirei fundo. As palavras ‘’monstro’’, ‘’aberração’’ e ‘’pecado’’ dançando na minha mente.

– Pensei que não queriam me ver nunca mais…

O rosto da minha mãe se enterneceu.

– Tive medo minha filha, medo por nós e nossa posição, na época. Porém mais medo por você. Pelas agruras que passaria, ao escolher fazer parte de uma minoria hostilizada. Só uma mãe pode entender. O que dói em você, dói em mim.

Choramos mais um pouco. Encarei-a de frente:

– Não é uma escolha, mãe. Nasci assim. Não sou uma aberração. Seu Deus, que é tão amoroso a ponto de sacrificar a si mesmo, não pode me querer no inferno apenas por isso. Eu sou uma pessoa boa, me esforço para ser.

Ela soluçou:

– Eu sei que é, minha querida. Eu eduquei você.

De repente, o trinco da fechadura gira e Luisa entra em casa, com a sacola de pães frescos da padaria da esquina, que ela adora. Sorrio de felicidade. Tenho orgulho de quem eu sou e do que conquistei. Não preciso mais chorar ao me olhar no espelho!

 

*****

Fim

Será?

2 comentários em “Meu reflexo em mim

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