In the depths of her soul (Pt.3): Entre sangue, tripas e pedaços

Escrito por Natasha Morgan

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Larry Garrett Maxwell já estava no ramo da polícia há anos. Começou quando ainda era um menino, acompanhando seu pai nos serviços da delegacia até ter idade para se tornar o que sempre quisera ser: um oficial de polícia. Há poucos anos nem imaginava ganhar o posto de Xerife da cidade, mas devido à morte de seu melhor amigo e mentor acabou por tomar seu lugar.

Era um homem honrado, viúvo leal à memória de sua esposa. Procurava dar seu melhor pela cidade, mantendo-a em segurança. Na noite passada não pôde fazer isso e sentia-se um miserável. Tinha ciência dos delinquentes que rondavam a cidade, escondidos em bares de péssima qualidade, orquestrando roubos e violência.

Pela manhã mesmo teve de lidar com a mãe de um deles. A mulher aparecera na delegacia procurando notícia do filho desgarrado, ficara sabendo do assalto ao bar de Erin e temia que seu filho estivesse envolvido. Deu o que ver para acalmar a mulher e explicar que nenhum dos assaltantes ficara vivo. E que as devidas investigações estavam sendo feitas.

Essa era a parte de seu trabalho que menos gostava.

Adolescentes eram estúpidos e facilmente se metiam em enrascadas, mas nunca era fácil lidar com as mães desoladas.

Hank Pushman não era o caso. Garrett sempre esteve na cola daquele moleque, até mesmo quando o garoto não estava fazendo nada. Conhecia pivetes daquela laia. Sabia muito bem do que eram capazes. A índole daquele rapaz era podre… Talvez tão podre quanto à dos outros meninos que andavam com ele em seu pequeno grupo dErinquente.

Garret podia apostar seu testículo esquerdo que eram os corpos daqueles garotos na floresta. E pensar nisso o fez simpatizar-se com o lobo. Ou o que quer que houvesse estraçalhado aqueles garotos.

A jovem ao seu lado na caminhonete parecia concentrada na paisagem da estrada, observando a floresta ao redor. Tinha nos olhos um brilho encantador que o recordou de sua sobrinha tão amada que há anos não via.

– Conseguiu se instalar bem? – perguntou ele, quebrando o silencio. – Disse que alugou uma casa próxima ao lago.

– Oh, sim. É um lugar maravilhoso, Xerife. Montana inteira é. Foi por isso que a escolhi. As montanhas, o lago, a floresta… Tudo isso me inspira.

– De onde você vem?

– De muitos lugares. – Rachel lhe lançou um olhar tristonho. – Recentemente de Glendale.

– Arizona? – o Xerife sorriu. – Abandonou o sol escaldante para se aventurar nas montanhas frias de Montana.

– Mais ou menos isso. – Rachel sorriu, educada.

– Você parece gostar de viajar. Espero que o recente ataque não a faça desgostar de nossa cidade. Você disse que chegou essa madrugada… – Garrett pareceu refletir, botando em prática seu faro investigativo.

Rachel voltou seus olhos cor de amêndoas para ele.

– Ah, sim. Pois bem. Vai me usar de bode expiatório? Como adivinhou que meu fetiche é me transformar numa criatura selvagem e atacar rapazes desajustados em bares… Não está achando que sou um lobisomem, está?

Garrett gargalhou, apreciando o bom humor da jovem.

– É claro que não! Mas que ideia. – disse ele entre uma gargalhada e outra.

A jovem Rachel riu, acompanhando-o.

Estacionaram a caminhonete num trecho abandonado na estrada e o cheiro ruim de carniça empesteou-lhes o nariz tão logo saíram do carro. Garrett apanhou um lenço de linho no bolso da calça e o pressionou contra as narinas, lançando um olhar de desculpas á garota.

– Recolhemos o que sobrou dos corpos, mas o odor parece ter impregnado na mata.

Rachel franziu o nariz em concordância.

– Venha. É por aqui… – o Xerife a conduziu floresta adentro.

A campina onde os restos humanos foram encontrados não ficava assim tão próxima à estrada – o que fez com que eles tivessem que se embrenhar na floresta. Rachel estava acostumada a caminhadas como aquela, então não viu nenhuma dificuldade em desviar dos galhos ou troncos partidos. Já o Xerife foi obrigado a fazer algumas pausas para recuperar o fôlego depois de tropeçar várias vezes.

Quanto mais se aproximavam, mais o cheiro se intensificava.

Rachel observava os animais encolhidos em suas tocas, espiando os intrusos com certo receio. Pareciam assustados além do normal. Distraída, pisou em algo disforme na trilha e cambaleou, amparada pelo Xerife.

– Cuidado onde pisa. A floresta é hostil.

A garota o ignorou, olhando para o chão encoberto pela grama. Franziu o cenho, aproximando-se do que atrapalhara seu caminho. Ah, sim, perdido ali no meio da terra e grama estava um dedo. Já pálido e descorado.

Garrett espiou também, atraído pelo que a jovem olhava.

Seus olhos se arregalaram.

– Não disse que sua equipe havia limpado o lugar?

O Xerife franziu o cenho, intrigado e deu vários passos à frente, gritando para alguém de sua equipe. Ainda havia policiais e peritos na campina, investigando. Um homem uniformizado apareceu por meio das árvores, acenando para seu chefe.

– Cass, apanhe isso. Achei que os investigadores forenses já haviam recolhido todos os restos!

O rapaz se aproximou de onde estava o dedo, franzindo o cenho. Mas fez como seu comandante ordenara, apanhou um par de luvas de látex, pegou o dedo com cuidado e o colocou dentro de um saco plástico com lacre.

– Sinto muito, senhor. Eles disseram que tudo fora recolhido.

Rachel observava o dedo dentro do saco, o cenho franzido.

– Hum… Xerife, posso não ser do campo investigativo forense, mas esse dedo não me parece rosado o bastante para pertencer a uma vítima desta madrugada.

– O que quer dizer?

Rachel apontou para o saco de evidência que o policial Cass segurava.

– O dedo está descorado. E totalmente branco. Isso já está aqui há alguns dias. Semanas, talvez.

– Acha que isso pertence a outra vítima? – o xerife parecia cético.

– Provavelmente.

Garrett apertou as têmporas. Aquele dia não podia ficar pior!

– Leve isso até os investigadores que ainda restam. Quero uma análise ainda hoje!

Cass assentiu, apressando-se em direção à campina.

Garrett fez um aceno para que Rache os seguisse.

Havia uma turma de policiais ali, espalhados pelo local do crime. Dentre eles, investigadores forenses coletando as últimas provas, alguns paramédicos para o caso de houver alguém perdido por ali e guardas rondando o perímetro.

Rachel teve que se desviar da grande faixa amarela que cercava o lugar para poder se aproximar da área onde os corpos foram encontrados, tomando o cuidado de não pisar em nada que estivesse catalogado como evidência. O cheiro era quase insuportável ali.

Seus olhos atentos sondaram a área, examinando a grama, os galhos e as marcas nas árvores mais próximas. Havia grandes rastros de sangue no meio do mato, provavelmente por onde os corpos foram arrastados. Ela se aproximou, seguindo a mancha escarlate até a Sequoia imensa que se estendia como uma rainha perto das outras árvores e arbustos.

Rachel se agachou, examinando as marcas deixadas na pobre árvore. Pareciam garras. Ela tocou o tronco profanado, seguindo as linhas disformes e profundas. Que animal teria aquele tamanho e força para deixar arranhões tão grandes e fundos?

Garret a seguiu, acompanhando seu raciocínio.

– Isso aí são as garras do lobo? – ele quase se engasgou.

Rachel voltou seus olhos para ele.

– Isso não são marcas de lobo, Xerife.

Cass se aproximou, interessado no que conversavam. Ele riu.

– Acham que isso se deve ao acidente de ontem? Olhem! – ele apontou para as árvores do outro lado da campina. – Estão repletas de marcas como essas. Meu pai vive por essas bandas há anos, acostumado a caçar veados e se cansa de ver arranhões como esses pela mata. Deve ser algum predador grande como Urso ou um leão da montanha.

– Isso não é obra de um Puma ou Urso. – Rachel foi firme em sua dedução.

– Seja do que for, nada tem a ver com o ataque, senhora.

– Cass, seu pai tem caçado ultimamente? – o xerife perguntou.

– Não desde a última temporada. Ele disse que os animais estavam ficando arredios. Como se alguma coisa os assustasse. Isso sempre acontece quando a lua troca de ciclo. Os caçadores sempre dizem isso.

– Mas ainda moram perto do rio. Não viram nada de estranho na floresta ultimamente?

O rapaz deu de ombros.

– Muito bem. Esta é Rachel Bones. É a nova Bióloga da cidade, vai nos ajudar nas investigações. Deixe que ela examine o lugar. Mais tarde eu e o velho Lawson vamos ter uma conversinha. Onde já se viu, um animal selvagem rondando a cidade e ele sequer emite um alerta!

Cass voltou seus olhos para a Bióloga, achando-a bonita e competente.

– Acha que não foi um lobo o responsável pelo ataque? – perguntou abruptamente.

– Só vou ter certeza depois de investigar tudo. Acharam alguma pegada?

O rapaz assentiu, conduzindo-a para um canto mais afastado da campina. Apontou para o que parecia uma mancha. Lá estava, uma pegada grande e detalhada. A terra embaixo da grama estava molhada – o que facilitou a impressão do animal. Havia uma pequena régua vermelha marcando a evidência. Rachel tomou o cuidado de não mexer nela nem danificar a pegada.

Ajoelhou-se no chão ao lado da marca da pata e a observou por alguns minutos. Cass era um curioso nato, ficou quieto ao seu lado, observando-a fazer seu trabalho. Garret juntou-se à eles, trazendo junto um dos investigadores de preto.

Rachel balançou a cabeça.

– É uma pegada muito grande.

– Bate perfeitamente com a força que dilacerou aqueles corpos. – disse a mulher de preto.

Rachel voltou seu olhar para ela.

– Mas isso não é, nem de longe, a pegada de um lobo.

– Não achei que fosse. – a mulher concordou.

– Rachel, esta é Emma Dawson, investigadora forense. Emma, esta é Rachel Bones, bióloga.

Rachel e Emma se cumprimentaram educadamente.

– É bom ter uma perita na investigação.

– Eu gostaria de ver os corpos. – Rachel foi direta. – Para ter uma vaga ideia de que tipo de animal os matou, preciso analisar as dilacerações.

– É claro. Uma mão lava a outra. Devo admitir que, com toda experiência que tenho em campo, nunca vi um animal capaz de fazer tanto estrago.

– Detetive Dawson, eu nunca soube de nenhum animal que invadisse um bar movimentado e atacasse pessoas selecionadas.

– O que quer que seja isso, temos que mantê-lo longe das pessoas. – Garrett disse.

– Xerife, permita que eu acompanhe a senhorita Bones até o necrotério. Preciso levar a nova evidência ao laboratório, ela aproveita a carona. – Emma se pronunciou.

– Ótimo. Preciso colher o relatório dos meus homens. Encontro vocês lá.

Rachel acenou numa despedida e seguiu a detetive Dawson até sua caminhonete. Estava cada vez mais incomodada com o rumo que aquela investigação tomava. Vira as marcas naquela árvore e aquela pegada imensa. De jeito nenhum aquele era um animal comum! E a semelhança daquilo tudo lhe provocou um arrepio frio na alma.

 

O necrotério St. Montgomery situava-se no centro da cidade, muito próximo à delegacia. De faixada cinzenta e muros altos, podia-se passar facilmente por uma casa mal assombrada. Nem um canteiro simpático de flores, nem uma cor alegre. Apenas aquele cinza fosco e triste.

A detetive Dawson estacionou a caminhonete no estacionamento de cascalho, indicando para Rachel a acompanhar. Era uma mulher competente aquela detetive, seus trajes escuros deixavam isso bem claro, assim como sua expressão séria.

Rachel a seguiu para dentro daquela construção mórbida, passando pela recepção simples e adentrando os corredores insípidos. O toc toc dos saltos de Dawson era o único barulho naquele silêncio perturbador. Poucos funcionários trabalhavam ali. Uma recepcionista durona, algumas faxineiras silenciosas e os legistas de plantão.

Elas se aproximaram de uma sala com portas metálicas e a detetive a abriu com seu cartão de acesso restrito.

Antes mesmo de adentrar a sala, Rachel sentiu o cheiro de formol pinicar seu nariz. O piso era claríssimo e um tanto escorregadio, as paredes lisas e igualmente claras. Elas se aproximaram do médico legista que examinava um corpo aberto numa das inúmeras mesinhas metálicas.

Rachel varreu os olhos pela sala. Havia mais quatro macas como aquela, dispostas uma ao lado da outra. Um lençol branco cobria os corpos. Ou o que restara deles.

Dawson acenou para que a jovem se aproximasse.

Rachel desviou o olhar contra sua vontade e seguiu até onde estava a detetive e o legista.

– Frank, esta é Rachel Bones. Bióloga. Está aqui para nos ajudar a identificar o que estraçalhou esses cinco homens.

– Rapazes, você quis dizer. – Frank lançou um sorriso simpático para Rachel. – É um prazer, senhorita Bones. Gostaria de conhecê-la em circunstâncias mais agradáveis.

– Rachel, este é Frank Wess. – a detetive se limitou a um breve revirar de olhos.

Frank era um garoto ainda. Deveria ser um estagiário com aquele seu rosto infantil e sorriso animado. Os cabelos loiros desajeitados. Vestia um jaleco branco e calças jeans. Seus olhos claros miraram a bióloga com entusiasmo.

– Quer ver os corpos?

– Eu adoraria, Dr. Wess.

Frank deu uma piscadinha e acenou para que a garota se aproximasse.

– Ainda estou examinando o primeiro corpo. Parece-me que não sobrou muito dos outros. – começou ele.

Rachel espiou o corpo na maca. Estava parcialmente estraçalhado. As lacerações iam do tórax à garganta, deixando a carne grotescamente exposta. Ela respirou fundo, dando alguns passos para trás.

– Eu sei. É chocante de se ver. – disse o legista.

– Você está bem, senhorita Bones? – a detetive perguntou, preocupada.

– Estou. – Rachel piscou algumas vezes, recuperando-se. – É que… Não estou acostumada a ver esse tipo de coisa todos os dias.

– Suponho que biólogos não investiguem muitas mortes humanas em seu campo. – Frank sorriu um pouco, tentando deixa-la mais confortável.

– Uma ou duas. Não mais que isso. Mas vamos continuar. – Rachel se aproximou novamente do corpo. Vestiu uma luva de látex disposta junto ao material de autópsia e tocou as feridas da garganta.

– As lacerações foram profundas. – ouviu-se a voz da detetive, espiando por cima do ombro da garota.

Frank assentiu, apontando as áreas onde a carne fora mastigada e rasgada.

– Sinceramente, nunca vi esse tipo de laceração antes. – disse ele. – Quer dizer, uma vez encontramos um homem morto por um puma nos arredores das montanhas, mas as feridas não tinham nada a ver com essas. Desconheço qualquer tipo de animal que faça um estrago como esse.

Uma ruga se forçou na testa de Rachel.

– E os outros corpos?

Frank apontou para as quatro macas cobertas do outro lado da sala.

Eles seguiram para lá.

O legista segurou o lençol com as duas mãos, disposto a levantá-lo, mas seu olhar cauteloso fixou-se na jovem dos cabelos acobreados.

– Tem certeza de que quer ver? Pode ser uma cena chocante.

Rachel o fitou com firmeza.

– Não se preocupe comigo, Dr. Wess.

Ele levantou o lençol, expondo os pedaços de carne amontoados na mesa metálica.

– Não sobrou muito deste corpo, apenas pedaços. As lacerações são as mesmas. Suponho que foi o primeiro a ser atacado… Pelo estrago que o animal fez ao corpo, deveria estar com muita fome.

– Ou furioso. – Rachel sussurrou.

Os olhos da Detetive Dawson a fitaram.

– Acha que o animal foi movido pela raiva?

– Detetive, animais de grande porte não atacam dessa maneira para se alimentar. Já vi centenas de ataques a outros animais por predadores famintos e te garanto que as mordidas e lacerações estão longe de ter essa magnitude.

Ela se aproximou da maca, apontando os membros retalhados.

– Isto foi feito por um animal furioso. Provavelmente defendendo seu território.

– O centro da cidade não é o território de animais selvagens.

– Nunca pensei que fosse, Detetive. – Rachel voltou seus olhos para os outros corpos cobertos por lençóis brancos, especulando. – O Bar é próximo à floresta. Esses garotos podem tê-la atravessado no caminho e provocado o animal. É a única explicação plausível para um ataque como esse. O animal os seguiu até o Bar e os atacou, arrastando os outros até os limites da campina.

– Não há vestígios de terem sido arrastados. – Dawson falou. – Eles seguiram para a floresta por sua própria vontade, fugindo do animal. E há testemunhas que alegam que o lobo surgiu de dentro do Bar.

Rachel voltou-se para a Detetive com um sorriso.

– Isso não é possível.

– Acha que minhas testemunhas mentiram?

– Eu acho que suas testemunhas estão chocadas demais para se lembrar do que viram. E é exatamente por isso que eu gostaria de falar com elas, mais tarde, para poder tentar entender como é que confundem um animal de grande porte com um lobo.

Frank pigarreou.

– Minha irmã estava jantando com o namorado no Bar da Erin. – disse ele. – Ela viu tudo e, por mais perturbada que estivesse, descreveu o animal com bastante clareza.

– Eu já conversei com sua irmã, Dr. Wess. – Dawson disse.

– Então concorda que com o depoimento dela se conclui que o tal animal não se parecia com um lobo e sim um urso.

– Urso? – Rachel pareceu pensativa. – Isso poderia explicar a força do ataque. Talvez as lacerações. Mas não o fato de estar dentro dos limites da cidade. Detetive, ursos vivem em montanhas, dentro da floresta. Não costumam se aproximar da população.

– A não ser que se deixe frutas e restos de doces nos lixos das casas à beira da floresta. – Frank falou. – Isso certamente os atrairia.

– Está bem. Vou investigar. – a detetive Dawson concordou, checando seu Page. – Seja o que for, quero isso bem longe da população. Precisamos ter certeza do que matou esses garotos.

Ela voltou os olhos para a bióloga.

– Os restantes dos materiais encontrados na campina foram enviados para o laboratório. Você terá acesso a tudo o que precisar. Estamos contando com a sua ajuda, Senhorita Bones. Nossa cidade jamais passou por situação como essa.

– Não recentemente. – murmurou Frank.

Dawson lançou a ele um olhar fulminante.

– Senhorita Bones, vou deixa-la à vontade para investigar os corpos. Preciso voltar ao laboratório, mas volto no fim da tarde.

Rachel assentiu, agradecendo a atenção da Detetive.

O Toc Toc dos sapatinhos ecoou no silêncio da sala até desaparecer no corredor e eles ficaram sozinhos na imensidão perturbadora daquele recinto cheio de corpos.

– O que você quis dizer com: essa cidade não passou por situações como essa recentemente? – Rachel perguntou à Frank.

O legista se mexeu pouco a vontade.

– Não é nada de mais. Dawson não gosta muito de falar sobre o que houve.

– E o que houve?

– Há oito anos houve um ataque à cabana Harper no alto da montanha. Alguns adolescentes estavam se divertindo de férias, abrigados na velha cabana quando algo os atacou. Não houve sobreviventes. E a polícia nunca soube o que os matou. Foi o único ataque assombroso que a cidade conheceu… Até essa madrugada.

– Há registros sobre isso? – o faro investigativo de Rachel se manifestou.

– Claro. O antigo xerife era bem metódico com os arquivos. Talvez Garrett lhe deixe ver. Pode ter alguma coincidência.

– É claro que sim. – Rachel concordou, aproximando-se novamente da maca.

Seus olhos se fixaram no corpo retalhado, perdidos. Instintivamente, sua mão agarrou a medalhinha que carregava ao redor do pescoço e ela disse um prece silenciosa, lamentando tudo aquilo.

 

 

Rachel saiu do necrotério quando o céu já começava a se turvar num rosa alaranjado. Carregava num pasta embaixo do braço os arquivos do ataque à cabana Harper, que Garrett gentilmente cedera, e os arquivos do ataque ao Bar naquela madrugada. Pretendia estuda-los com mais calma em sua casa mais tarde na companhia de uma caneca fumegante de café. O que vira naquele necrotério só reforçava em sua mente que o animal responsável por aquele ataque não era nem de longe um lobo.

Tampouco um leão da montanha perdido.

Um urso, talvez…

Ela se distraiu, caminhando pelas ruas pouco movimentadas naquele final de tarde. A floresta espreitava por trás da cidade, misteriosa. Seus olhos vagaram pelas árvores imponentes, perguntando-se o que elas escondiam. O vento zumbiu em seu ouvido, vindo da mata e Rachel estremeceu, apertando-se na parca escura que usava.

Atravessou a rua e seguiu pela avenida comprida, acenando algumas vezes para as crianças que passavam com skates. Parecia uma cidade tranquila. Um bom lugar para se morar. O ar era leve, completamente diferente daquelas cidades cheias de construções, movimentos e poluição. O cheiro de terra e plantas impregnou-lhe o nariz quando deu uma boa fungada.

Fizera uma boa escolha ao se mudar para lá.

E, considerando os acontecimentos daquele dia, tinha cada vez mais certeza disso.

Rachel parou na entrada do Bar, olhando a faixada rústica.

O aroma de pães e café a convenceu entrar e foi recebida por uma lufada de ar quente. Sentou-se numa mesinha de canto, próximo a uma elegante mureta cheia de vasinhos de flores. O lugar parecia mais movimentado do que naquela manhã, pessoas contentes tomando xícaras de chá e se deliciando com Donuts recheados.

A mulher loira que a recebera mais cedo se aproximou, o sorriso levemente cauteloso.

– Boa tarde.

– Olá. – Rachel sorriu para ela, confortável.

– Você voltou. O que posso oferecer?

– Um cappuccino duplo, por favor. – Rachel disse enquanto a observava escrever num bloquinho. – E, talvez alguma coisa doce.

– Talvez queira experimentar um dos nossos Donuts. – a loira sorriu, amistosamente. – São bastante queridos por aqui.

Rachel apanhou o cardápio revestido em couro bruto em cima da mesa e deu uma olhadela rápida.

– Seria ótimo. E também quero uma porção de Muffins, por favor.

A mulher assentiu e desapareceu por trás de uma portinhola.

Sozinha, Rachel suspirou, olhando ao redor do Bar amistoso. Seus olhos astutos observaram com eficiência os detalhes do estabelecimento, tentando compor em sua mente uma imagem detalhada do ataque naquela madrugada. Não era uma detetive, mas estava bastante empenhada em descobrir o que foi que atacou aqueles garotos de forma tão brutal.

Podia ver as marcas no assoalho de madeira, parcialmente escondidas sob um tapete colorido. Na porta principal, os vidros pareciam novos e havia algumas rachaduras na mureta com os vasos.

– Seu café.

A voz amigável da loira fez Rachel piscar, voltando sua atenção para ela.

– É Erin, não é mesmo?

– Erin Moller. – assentiu a moça, depositando uma cestinha com os Muffins e os Donuts em cima da mesa. – E você é a Rachel, certo? Rachel Bones. Fico feliz que tenha voltado. – o sorriso foi sincero.

– Gostei do seu Bar. – Rachel varreu os olhos pelo ambiente. – Embora deva dizer que mais parece um café elegante do que um bar.

Erin riu.

– Venha aos sábados e Domingos de noite e mudará de ideia.

Rachel riu, bebericando seu café fumegante.

Erin assentiu. Seus olhos vagaram pelo rosto da garota, analisando-a. Pousaram nos envelopes rotulados em cima da mesa.

– Algum progresso no caso?

Rachel bebericou seu cappuccino.

– Fui ver a campina e examinei os corpos. – disse a garota, devagar. – Mas confesso que duvido muito que tenha sido um lobo, Erin.

A mulher assentiu, sentando-se junto à mesinha.

– Vimos muito pouco da… – ela pigarreou – Criatura.

– Entendo.

– Foi tudo muito rápido.

– E traumático, posso supor.

– Talvez mais para meus clientes do que para mim.

– Sinto muito, Erin. – Rachel disse e, por um momento, Erin teve certeza da sinceridade nas palavras dela.

– Não se preocupe. O importante agora é concluir a investigação e se certificar que nenhum animal se aproxime mais da cidade. Não que isso aconteça muito por aqui. Não pense que nossa cidade é selvagem. De vez em quando surge um leão da montanha perdido nas proximidades da floresta e alguns cervos, mas nenhum ataque.

Rachel sorriu, pensando que Erin estava tentando convencê-la a não pensar mal de sua cidade.

– Não tenho medo da vida selvagem. – garantiu.

– Claro. – Erin deu um sorrisinho. – Alugou uma casinha próxima ao lago, não é mesmo? Um lugar bastante agradável para quem aprecia a natureza. E conseguiu um emprego. Começou bem. Espero que goste da nossa cidade.

– Estou gostando bastante. – Rachel concordou, mordendo um Donuts. – Principalmente dos doces.

– Contarei ao nosso chef. Tenho certeza de que ele ficará feliz em saber, é muito caprichoso em seu trabalho.

– Você administra muito bem o lugar. Está aqui há bastante tempo?

– Minha mãe abandonou uma cidadezinha provinciana em Nebraska e veio viver aqui quando eu tinha três anos, eu nunca mais quis ir embora. – Erin deu um sorriso saudoso. – E você? De onde veio?

– Ora, pare de aborrecê-la com suas perguntas! – protestou um rapaz com sorriso levemente especulativo. Ele estendeu sua mão bem tratada para ela. – Olá, queridinha. Eu sou Hugh Miller, o chef. De lá da cozinha a ouvi elogiar meus Donuts e é claro que vim me apresentar e dar boas vindas.

Rachel sorriu, encantada com o jeito alegre do rapaz.

– Muito prazer, Hugh. Eu sou a Rachel e seus Donuts são realmente uma delícia.

Erin revirou os olhos.

– Eu não a estava aborrecendo-a. Estava? – lançou um olhar preocupado para Rachel.

– De jeito nenhum. – a garota sorriu.

Hugh puxou uma cadeira e se sentou ao lado delas.

– Então, Rachel. De onde você vem?

Em qualquer outra circunstância, ela poderia ficar cautelosa com aquele interesse repentino e tantas perguntas, mas se sentiu bastante confortável na presença do rapaz descontraído e a mulher amistosa. Com um olhar mais detalhado, ela percebeu que ele usava uma saia longa escura que poderia facilmente ser confundida com aquelas calças muito largas, e uma camiseta apertada demais para ser masculina.

De repente sua afeição pelo rapaz se intensificou, lembrando-se de um amigo querido que não via há anos.

Ela piscou, lembrando-se do que conversavam.

– Glendale. – disse ela. – Eu venho de Glendale.

– Ah, Arizona! Adoro! – Hugh comemorou.

– Você é mesmo uma aventureira. Deixar o calor de Arizona para se aventurar nas montanhas frias daqui… – Erin comentou.

– Sempre gostei muito de montanhas. – disse Rachel. – Costumava viajar muito. Montanhas, desertos, ruinas … – ela se calou, um olhar tristonho assombrando seus olhos.

– Deve ser divertido. – Hugh disse, sorrindo.

– Foi sim. Mas uma hora nos cansamos e decidimos sossegar.

– Espero que consiga o conforto que vem buscando. – disse Erin.

– Eu também.

– Será fácil se adaptar à cidade. – Hugh começou a tagarelar. – Temos badalação todos os fins de semana, se quiser companhia é só me chamar. Conheço os melhores lugares para beber tequila.

Rachel riu, desanuviando seus pensamentos amargos.

– Vou me lembrar disso.

– Não demorará muito para fazer amizades e encontrar rapazes bonitos. Você não tem namorado, tem?

– Está se candidatando? – Rachel ergueu uma sobrancelha, divertida.

– Ui. – Hugh estremeceu. – Você é uma mulher linda. Realmente fantástica com esses cabelos acobreados, mas eu não curto a fruta, meu bem. Ou é melhor dizer a carne?

Erin lhe deu uma cotovelada e Rachel explodiu numa risada.

– Então quem sabe possamos sair algum dia para paquerar.

– Caçar, você quer dizer. – Hugh lhe deu uma piscadinha. – E, querida, eu adoraria caçar alguns bofes com você. – ele lambeu os lábios.

Erin lhe deu mais uma cotovelada, lançando-lhe um olhar de advertência que não passou despercebido à Rachel.

– Não se preocupe, querida. Erin está com inveja porque não a convidamos. – Hugh levantou-se com graciosidade acenando para as meninas enquanto voltava ao trabalho.

– Não ligue para ele. Hugh gosta de ser malicioso.

– Eu gostei. – Rachel disse, com sinceridade. – O mundo é tão escasso de pessoas alegres e espontâneas. Sinto-me grata quando as encontro.

Erin sorriu para ela.

– Bom, espero mesmo que goste daqui, Rachel. É muito bem vinda aqui no Bar. E tenho certeza de que Hugh lhe chamará para sair nas noites solitárias.

– Já me sinto acolhida. – a garota assentiu com gratidão.

– Aqui nesse bar somos família. Seja bem vinda. E espero que consigam concluir logo esse caso. Agradeceria muito se me mantivesse informada. Garrett é sempre muito gentil comigo e tenho certeza de que cuidará muito bem da investigação com sua ajuda.

– Mas é claro. Qualquer novidade eu a avisarei.

– Obrigada, Rachel. – Erin sorriu. – A próxima rodada de é por conta da casa. – ela apontou para a cestinha de Donuts.

 

 

 

O pneu da caminhonete derrapou no estacionamento de cascalhos quando o carro estacionou. O céu já terminava de se cobrir com seu manto negro, deixando apenas a luz da lua cheia iluminando sua imensidão. Moon saltou para fora da caminhonete e encarou o casarão logo à frente, escondido pelas árvores densas e antigas.

O vento frio açoitou seu rosto, fazendo os cabelos negros voarem à esmo. Ela estremeceu, imaginando o que poderia enfrentar lá dentro. Seus olhos varreram o terreno mal iluminado, encontrando os outros carros estacionados nos limites da floresta por trás da casa.

Então ela não era a única ali.

De repente se sentiu ainda mais nervosa, o estômago doendo em protesto.

Espreitou os olhos, tentando enxergar alguma coisa àquela distância pelas janelas levemente escurecidas. Havia luzes lá dentro e um farfalhar elegante de roupas. O som de algumas vozes e o inconfundível cheiro de outros como ela.

Moon respirou fundo, dando alguns passos hesitantes em direção ao casarão.

Havia um tempo que não pisava ali. Em geral, o clã preferia as cavernas escondidas pelas montanhas para suas reuniões. Mas, de vez em quando, a sofisticação os obrigava a se reunir na casa da família Alpha.

A construção era antiga, um casarão do século XVIII construído naquele lugar remoto, tão distante da cidade. Abrigado na floresta densa que envolvia as montanhas frias de Montana, era difícil de achar. Mas a trilha era visível para qualquer um que pertencia ao clã. Suas janelas altas de vidro fumê eram arqueadas e elegantes, mas a madeira parecia puída.

Moon atravessou o portão de lanças enegrecidas e parou diante da porta imponente.

A imagem do lobo entalhado a encarou, os dentes pontiagudos prendendo o batente de ferro. Ela ergueu a mão, agarrando o ferro e bateu duas vezes na porta, esperando pacientemente.

A porta pesada se abriu com um pequeno chiado e um homem alto a encarou com seus  olhos penetrantes.

Moon engoliu um palavrão. Seus olhos o espreitaram, enxergando o couro cru de suas roupas pesadas, a bota de cano grosso e o anel de garra que usava no polegar.

– Vex. – disse ela, num reconhecimento.

– Agora sabe o nível de gravidade das coisas. – disse o homem, os lábios sérios.

Ele se afastou, deixando ela passar.

Moon adentrou o casarão, observando os móveis antigos que adornavam o lugar com elegância. Seguiu pelo hall levemente iluminado, sentindo os passos de Vex ecoarem atrás de si. É claro que se perguntava o que diabos ele estava fazendo ali, embora já suspeitasse. O cheiro que emanava dele era de terra e sangue.

Ela chegou ao grande salão onde todos se reuniam, reconhecendo algumas pessoas. Eles a encararam com um misto de acusação e medo, mas ela ignorou. Seguiu em frente a passos largos, procurando Ragnar com os olhos. Mas ele não estava ali.

Seus olhos se voltaram para a escadaria longa.

– Eles já vão descer. Estão todos esperando. – disse Vex, logo atrás  dela.

Moon voltou seus olhos para ele.

– O que está acontecendo, Vex?

– Me diga você. – seus olhos escuros a perscrutaram. – Pelo que ouvi alguém fez um grande estrago na floresta, deixando pistas por todos os lados. E, conhecendo-a como eu conheço só posso supor que tenha sido você a autora de toda essa bagunça.

– Por que é que toda vez que acontece alguma coisa assim você vem com suas acusações para cima de mim?

– Porque você, minha querida ferinha, é a única no clã que se recusa a se entregar ao poder do sangue.

Moon cruzou os braços com impaciência.

– Eu estou errado? – Vex ergueu as sobrancelhas. – Vai me dizer que não tem nada a ver com isso? Porque posso jurar que senti o cheiro de sangue no seu focinho.

Moon rosnou para ele, armando-se.

– Não comecem com isso. – repreendeu uma voz feminina.

Uma jovem de aproximadamente vinte e seis anos veio naquela direção. Seus cabelos castanhos espalhados pelas costas delgadas e negras. Usava uma saia de couro na altura dos joelhos e uma blusa apertada que quase fazia explodir seus seios. Os olhos escuros analisando com astúcia.

– Leola. – Moon a cumprimentou.

A mulher lançou um olhar firme para ela.

– Não veio caçar conosco na virada da lua.

Moon comprimiu os lábios.

– Sabe que não pode ficar sozinha na fase cheia!

Vex cruzou os braços, observando-as com certo divertimento.

– Não se preocupe em me dar sermões sobre isso. Ragnar já fez isso hoje de manhã.

– Eu duvido muito disso.

– Você sabe que não gosto de caçar. – Moon fitou a outra com franqueza.

– Moon, quando é que vai parar de encarar isso como uma maldição?

– Talvez quando você parar de achar que é uma benção!

Vex rosnou, atraindo olhares.

Moon revirou os olhos.

– Todos sabem o que penso sobre isso! Se não gostam, problema de vocês.

– Ragnar está certo quando diz que é uma desgarrada selvagem.

– Não sou eu quem sai por aí rolando com corpos estraçalhados na floresta! – Moon rosnou.

– É mesmo? Não foi o que eu vi hoje de manhã quando o sol estava nascendo. Você me parecia bastante à vontade, nua, no meio daqueles garotos mortos. Ou devo dizer no meio dos pedaços deles? – Leola riu, provocando-a.

Moon avançou uma vez, mas foi detida pelo aperto de Vex.

– Ah, eu não disse que alguém tinha aprontado? Você tem muito que explicar.

Moon se livrou com um puxão, fuzilando o rapaz com os olhos.

– Deixe-me em paz, Vex! Não vim aqui para dar satisfações a você. Não me trate como uma criminosa! Ou já se esqueceu quem tem mais sangue nas patas?

Vex deu um sorrisinho.

– Senti saudades.

Moon virou a cara, afastando-se deles. Sentou-se numa das poltronas pouco confortáveis no salão cheio, ignorando os olhares dos outros e esperou pacientemente até Ragnar descer.

Não demorou muito até que ele aparecesse no topo da escada ao lado de uma mulher elegante e um sujeito sombrio. Moon estreitou os olhos, olhando primeiro para o sujeito de manta zibErina antes que seus olhos se voltassem para a mulher trajando o vestido negro.

Todos no recinto se ajoelharam, inclinando levemente a cabeça e expondo o pescoço num claro sinal de prestígio. Quando o Alpha surgia, o clã o honrava. Moon fez o mesmo, os olhos fixos no homem da manta.

Ele mantinha um olhar distante, mas observador. A manta cinza cobria-lhe quase todo o corpo, abrigando-o do frio perverso de sua terra natal e lhe dava uma aparência sofisticada. Seus cabelos eram claros como a neve e os olhos de um azul quase translúcido, frios como sua aura assombrosa. Uma cicatriz curvada atravessava seu olho esquerdo, tornando sua expressão séria ainda mais sombria.

Moon estremeceu.

A besta selvagem da Sibéria.

Quem nunca ouvira falar dele antes? Por onde passava deixava um rastro de morte e sangue. Mas era também o mais poderoso rastreador que seu povo conhecia. Embora fosse um desgarrado, Snow parecia nutrir um certo tipo de respeito para com a Alpha daquele Clã.

Elvira caminhou pelo amontoado de gente com elegância, os cabelos negros e longos emoldurando a cintura fina marcada pelo vestido colado ao corpo. A Alpha. A mais antiga daquele Clã. Detentora do poder da lua.

Moon nunca pensou no clã como uma família de verdade, mas sempre viu em Elvira um grande poder. O respeito que nutria por ela jamais seria dirigido a outro Alpha. E ao ter aquele pensamento, seus olhos se voltaram para Ragnar.

Ragnar era igualmente poderoso, herdara o poder da lua, força e dominação de sua mãe. E, um dia, assumiria o poder no lugar dela. Eles se acomodaram nas poltronas dispostas no meio do salão, onde podiam observar e falar com todos igualmente. Nada de tronos para eles.

Elvira encarou as pessoas com autoridade, tendo o apoio do filho ao seu lado. Snow postou-se um tanto afastado, numa postura militar. E Vex se aproximou para fazer o mesmo, mantendo os olhos astutos em Moon.

Moon avançou, interrompendo qualquer diálogo que pudesse se iniciar.

– Elvira, nós temos um sério problema.

A mulher estreitou os olhos.

– Moon. – disse ela quase num suspiro.

– Eu sei. Sou a última pessoa que queria ver agora.

Elvira deu um pequeno sorrisinho diante daquela afirmação.

– Isso não é bem verdade. Você é a que menos faz bagunça nesse Clã. Diga-me: O que a fez ter a brilhante ideia de caçar dentro da cidade, na frente de testemunhas e deixar os restos no meio da floresta para a polícia achar? – seu tom foi um tanto duro.

Moon ergueu o queixo, enfrentando-a com altivez.

– Acredite, Elvira, foram eles que invadiram meu território.

Elvira esboçou um sorriso no canto da boca rubra.

– É o que todos vocês dizem. Ragnar mencionou um assalto no bar da sua amiga humana.

– Foi o que aconteceu. Ameaçaram não apenas Erin, como outras pessoas lá dentro.

– As outras pessoas humanas não são nosso problema. – Vex se manifestou, retorcendo os lábios.

– Podem não ser para você. Mas Erin já fez muito por esse clã. E por muitos mais de nós! – Moon se defendeu.

– Conheço a reputação da humana.

– Todos somos muito gratos a Erin por ela ter feito sua parte. – Elvira assentiu. – E devo concordar que ser confrontada em plena virada da lua tenha esgotado qualquer tipo de controle que você possa ter. – seus olhos se voltaram para Moon.

– Eu sinto muito. De verdade. Não queria causar problemas para o clã. Nem deixar pistas.

– Você não é o primeiro Lycan que se descontrola. – disse Vex. – Seria tolice castiga-la por uma coisa tão idiota. Sabemos que outros já fizeram pior e nem por isso foram punidos. – seus olhos se encontraram com os de Leola.

– Eu não pensei em punição. – Elvira disse, com firmeza. – Mas que esteja claro o quanto foi imprudente deixando os restos pela floresta.

– Isso pode atrair o olhar curioso da polícia para o que encobrimos pelas montanhas. – Vex disse.

– Pelo menos não houve sobreviventes. Isso nos poupa de uma caçada desenfreada por desgarrados. Menos bagunça. – Elvira suspirou.

– Está tudo sob controle. Vamos limpar a bagunça, como sempre. – Ragnar interferiu, falando pela primeira vez.

– É sobre isso que eu vim falar. – Moon disse. – Há uma nova bióloga na cidade. E ela parece esperta. Isso pode complicar um pouco nosso lado.

Vex e Elvira trocaram olhares.

– E o que essa mulher disse? – perguntou Elvira.

– Nada, por enquanto. Ela está investigando junto com o Xerife. Seria sábio ficar de olho nela.

– Você faz isso. – a voz de Ragnar soou cheia de autoridade, seu olhar muito sério. – Fique de olho nessa mulher. Se tiver a mínima ideia de que ela descobriu alguma coisa, livre-se das provas e, se preciso, dela também. Podíamos driblar os olhos do velho Lawson, vamos ver se conseguimos isso com essa nova bióloga também.

– Está falando em matá-la?

Os olhos negros de Ragnar se fixaram nos dela.

– Eu adoraria evitar derramar sangue inocente, mas você conhece as regras para quem se aproxima demais do clã. Não podemos nos arriscar. Humanos e Lycans não andam próximos, você e sua amiga conhecem o risco dessa relação.

– Não deixaremos ninguém adentrar nosso território e nos expor. – Elvira concordou.

– Já que você nos colocou nessa posição, você toma conta da garota.

Moon engoliu o gosto amargo que se infiltrou em sua boca.

– Já temos problemas o suficiente para termos que lidar com uma humana curiosa. – resmungou Ragnar.

Os olhos de Moon foram atraídos para onde Snow estava.

Mas é claro. Era por isso que ele e Vex estavam ali.

– Os caçadores. – o sussurro saiu quase inaudível de sua boca, ecoando pelo salão num mau presságio.

Os olhos de Snow brilharam e ele rosnou.

– Não achou que sua baguncinha passaria despercebida. – disse Vex.

– Quantos?

– Não temos uma estimativa ao certo. – Elvira parecia preocupada. – Snow os farejou há poucos dias, na fronteira.

Moon lançou um olhar para o rastreador.

– Eu os segui desde a América do Sul até o México. – Snow disse e sua voz rouca ecoou no salão. – Perdi o rastro em Guadalajara e segui direta para cá. Acredito que estejam sondando a área.

– Mas o ataque foi nessa madrugada! – protestou Moon. – Não tem como eles estarem vindo para cá por causa disso! A não ser que exista uma vidente entre eles. – a ironia toldou sua voz.

– A sua matança não tem nada a ver com isso. – Snow disse.

– Mas isso não significa que tenhamos que ficar despreocupados com a proximidade dos caçadores. – Elvira disse.

– Estão procurando alguma coisa.

– Só porque eles estão nos Estados Unidos não significa que estejam atrás de nós. – a voz de Leola se ergueu no meio dos outros.

– Eles sempre estão atrás de nós. – Moon murmurou.

– E é exatamente por isso que devemos ser discretos. – Ragnar fitou os que estavam reunidos no salão. – Nada de caçar nas fronteiras com o Canadá! Nada de deixar rastros para trás. E nada de festejar sozinhos pela floresta. Devemos ficar atentos.

– É por isso que vocês estão aqui. – Moon falou, lançando olhares para Vex e Snow.

– Nós defendemos os clãs. – disse Vex. – E até os caçadores voltarem seus açoites de prata para outra Terra, ficaremos por aqui.

– E o que fazemos enquanto isso?

– Talvez você possa controlar sua selvageria. – Vex deu um sorrisinho.

Moon o olhou feio.

– Todos controlaremos nossa selvageria. – Elvira disse. – Mesmo que a Lua brilhe cheia lá fora.

– Onde vamos caçar? – Leola perguntou e algumas pessoas ao lado dela assentiram.

– Onde sempre caçamos. – Ragnar respondeu. – Mas seremos mais discretos.

– Você quer dizer caçar animais. – ela retorceu os lábios.

– Não se preocupe, minha pequena caçadora, algumas vezes contamos com um ou dois prisioneiros fugitivos rondando a costa do rio. – Elvira lançou um olhar malicioso para a mulher. – Mas se nenhum brinde surgir, contente-se com coelhos e, ocasionalmente, leões da montanha.

Leola fungou, magoada.

– Não devem se preocupar. A floresta é densa e cheia de presas. – a voz de Elvira dominou o salão. – Por ora, é só isso. Sintam-se à vontade para correrem livres por aí. Há um banquete sendo servido na sala de estar para quem não quiser caçar esta noite. E as cavernas estão cheias de carne. Divirtam-se… Com moderação.

Ela soltou uma risadinha arrepiante.

As pessoas se dissiparam no salão. Algumas seguindo de volta para seus carros, outras se dirigindo para a sala de estar. O salão ficou parcialmente vazio exceto por Moon, Elvira, Ragnar, Vex e Snow.

– Todos devem ser cautelosos. – disse Vex. – Inclusive seu filho. – seu olhar se fixou em Elvira.

Ela suspirou, lembrando-se das travessuras de seu filhote mais novo.

– Onde ele está? – perguntou Ragnar, com o cenho franzido.

– Nas cavernas. Com suas fêmeas.

Ragnar se ergueu da poltrona.

– Eu vou até lá.

Seus olhos se voltaram para Moon.

– Quer uma carona?

– Não se preocupe. Vim com a caminhonete de Hugh.

– E onde está aquele vadio? – grunhiu Vex.

– Hugh não sabia que vocês estariam aqui. Vou avisá-lo sobre o que aconteceu.

– Nunca vou entender as predileções de vocês pelos humanos.

Moon o ignorou, acenando uma vez, respeitosamente, para Elvira e saindo para o ar fresco da noite. Ragnar a seguiu em silêncio.

– Tem para onde ir esta noite?

– Não vou para as cavernas, se é isso que você quer saber.

– Você não pode controlar isso, Moon. Não enquanto a lua cheia dominar o céu. Posso ver os tremores sob sua pele, cada vez mais forte. Você não é como nós. Recusa-se a ceder.

Moon esfregou as mãos uma na outra, perturbada.

– Não pode esconder isso. – Ragnar insistiu. – Você sabe o que tem que fazer para obter o controle.

– Não! – ela o encarou com raiva, enfrentando o poder daqueles olhos escuros. – Eu estou bem. Sei me virar.

– Sabe que está mentindo.

– Pare com isso, Ragnar! Está tudo bem. Posso me conter.

– Só até a meia noite. O que vai fazer depois disso?

– O que eu sempre fiz. Eu gradeço seu convite e preocupação. Mas não deve se preocupar. Ficarei bem. O que aconteceu esta madrugada não irá se repetir mais.

Ela lhe virou as costas, entrou na caminhonete e partiu.

***

Continua

❤ Pessoal, era para o capítulo ter saído na Quinta-Feira, mas só hoje vimos que houve um erro e não foi postado. Desculpem ❤

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