A Corte [Parte 3] – Sophie

Escrito por: A.J. Perez

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Capítulo 3 – “Sophie”

Sophie se virou sobre a colcha, abandonando o livro que tentava ler já há algum tempo sem conseguir se concentrar. Mirou o teto por um tempo, tentando criar uma ilusão perfeita para si mesma, embora soubesse que jamais poderia ver tal ilusão.

O sol irradiava seus últimos raios ao longe se ponto atrás da grande fileira de pinheiros centenária ao lado da mansão. Uma batida leve na porta atraiu-a de volta à realidade, e seus olhos escuros como a noite, voltaram-se para o batente onde sua amiga estava parada, olhando-a com uma expressão preocupada.
— Você está há dias sem sair de casa, Soph. — A jovem sentenciou solene, adentrando o quarto com seu vestido bege vintage e sentando-se ao lado dela na cama sem que o colchão afunda-se sobre si.
— Não tenho vontade de sair, Amattha. — respondeu sobriamente observando o teto, como se isso fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Vou ter de tomar uma providência com você, menina. Vamos, levante-se, prenda esses cabelos, vista algo decente e vá à algum lugar. Saia desse quarto, você já está me deprimindo. — A garota ordenou, em tom de ralha sacudindo o cabelo chanel.

Sophie suspirou e anuiu, aceitando a ordem. Amattha ergueu-se da cama onde estivera sentada e, lançando um último olhar à Sophie, saiu do quarto, fechando a porta atrás de si sem tocar nela.

“Com essa idade e ainda recebendo ordens”  — foi o único pensamento de Sophie, antes de levantar-se.

Entrou no closet abarrotado de roupas e escolheu um vestido preto e discreto. Amarrou um cinto prateado ao redor da cintura fina e prendeu os longos e lisos cabelos negros em um rabo-de-cavalo simples. Observou a própria imagem no espelho o modo como sua pele pálida refletia a luz e contrastava com a escuridão quase sobrenatural de seus cabelos e olhos. Suspirou mais uma vez finalizou o look com uma maquiagem leve. Prometeu a si mesma que estaria de volta antes da meia-noite. Pegou um pequeno bloco de notas e uma caneta-tinteiro e os colocou dentro de sua carteira de couro combinando com seu vestido e saiu porta afora. Passou pelo largo corredor de pé-direito alto da mansão vitoriana sem fazer ruídos. As portas dos outros quartos estavam todas fechadas. Deveriam estar todos na sala de jantar reunidos em mais discussões sobre como a Corte deveria ser dirigida nos próximos meses. Eram tempos turbulentos na Mansão Seelie. Desde a morte da última governante da casa em circunstâncias, “um tanto duvidosas” as coisas ficaram complicadas com os candidatos a novo governante fazendo suas politicagens e discussões a todo momento. Isso a deixava completamente enojada. No dia do falecimento, Diana mal tinha desencarnado e já disputavam seu cargo. Ela virou a direita no final do longo corredor e desceu a escadaria como um raio.

Assim que chegou ao andar inferior se dirigiu até a grande porta dupla, mas antes que pudesse se aproximar se chocou contra uma garota que cruzou seu caminho.
— Ai, cuidado! — disse a jovem de longos cabelos negros com enormes mechas verde turquesa caindo pelas costas.
— Desculpe, Natalia. — a voz de Soph foi quase um murmúrio.
O rosto da outra garota se ascendeu repentinamente.
— Ora, ora… alguém finalmente resolveu sair da caverna! — um esboço de sorriso surgiu na face dela enquanto arqueava uma sobrancelha.
— É… — Sophie hesitou— talvez seja bom pegar um ar puro de vez em quando, só pra ver o que está acontecendo lá fora.
— Entendo… — respondeu ela aparentemente ponderando algo — as meninas e eu vamos no Pub Inn Meia-Noite você podia se juntar a nós depois. Que tal?
— É, pode ser. — foi a única resposta que a garota lhe deu.
Natalia abriu um sorriso acalentador e passou levemente a mão no braço de Soph de modo amigável.
— Diana gostava muito de você, sei que vocês eram próximas. — o olhar de Natalia parecia realmente sincero, Sophie nunca tinha conversado muito com ela, mas gostava da garota.
— É nos éramos… — a dor encheu o peito de Soph na mesma hora.
— Bem, vamos estar no Pub lá pelas oito da noite. Aparece lá.
— Okay. Eu vou. — respondeu.
— Finalmente te achei! — Gritou uma outra voz feminina vindo de trás delas.
Ambas olharam na direção do salão de festas de onde uma loira vinha marchando em passadas pesadas. Sophie imediatamente a reconheceu.
— Allyn… — disse Natalia fazendo uma careta e revirando os olhos.
Soph contraiu um sorriso ao olhar para face dela, ela definitivamente gostava da garota. Qualquer um que detestasse Allyn era boa pessoa.
— Aqui… — disse Allyn retirando o colar em volta do pescoço — pega essa porcaria, eu não aguento mais, aquela maluca tá me deixando com dor de cabeça.
— Seria uma pena se ela explodisse. — resmungou Natalia em tom sarcástico.
— Hey! Eu ouvi isso, sua bruxa! — rebateu Allyn silvando como uma serpente peçonhenta pronta para dar o bote.
— Eu sei que ouviu, sua…
— Chega vocês duas! — ralhou Sophie de modo insisivo— pegando o colar da mão da loira — eu fico com isso.
Allyn virou a cara com desprezo e se afastou requebrando os quadris e sacudindo os volumosos cabelos loiros que pendiam em grandes cachos.
— Vaca… — resmungou a jovem de cabelo colorido.
— Ela ouviu isso… — disse Soph.
Ambas caíram na risada.
— Eu tenho de ir, nos vemos mais tarde Sophie. — disse Natalia se afastando.
— Até breve…

Sophie seguiu mais uma vez para a porta e andou tranquilamente pelo jardim.
A enorme fonte estava desativada a anos, trepadeiras cobriam as paredes da mansão, enquanto estátuas de anjos adornavam a parte frontal do telhado. Ela nunca entendeu o motivo de colocarem esculturas de seres celestiais na fachada de uma corte. Seguindo pelo caminho de pedras ela finalmente empurrou o antigo e pesado portão de ferro com um enorme “S” trabalhado. Em seguida se pôs-se a andar e, sem encontrar ninguém, ganhou a penumbra crepuscular.
Era cedo ainda, mas o Pub Inn Meia-Noite estava cheio de gente. Ela nem mesmo parou para ouvir sobre o que ou quem falavam, atravessou o lugar direto, ganhando um lugar em uma das confortáveis poltronas ao fundo, próximo à lareira sempre acesa, quer fosse inverno ou verão. Ninguém ali se importaria em ficar próximo ao fogo mesmo no calor, se houvesse uma boa bebida ou uma boa companhia. Sophie não tinha nenhum dos dois.
Abriu o bloco e espiou as linhas em branco. Suspirou e apoiou a ponta da caneta sobre a folha vazia. Olhou para a movimentação por um instante e rabiscou algumas palavras confusas que mais pareciam um mantra do que um poema.

— Eu não posso acreditar que você veio à um bar pra escrever, Sophie! – Amattha ralhou com ela, sentando-se na poltrona ao lado. – Você devia vir pra beber, dançar, pra conhecer gente nova, não pra ESCREVER, sua nerd.
— Você me mandou sair de casa, minha querida, nunca disse que eu não podia fazer o que quisesse… – Sophie disse baixinho, com o bloco em uma mão e a caneta em riste na outra. – Pelos meus conhecimentos, eu poderia muito bem estar dormindo no banco da praça. Então olhe pelo lado bom, pelo menos eu escolhi um lugar movimentado, mesmo que tenha sido para escrever e… — ela fez uma pausa — você não estaria aqui se eu não estivesse. — completou ela sacudindo o colar.
A garota soltou um muxoxo e cruzou os braços contra o peito, evidentemente contrariada. Seus olhos claros varreram o salão, onde as pessoas começavam a se juntar para dançar, e ela suspirou.
— Queria dançar…
— Por que não vai, então? – Sophie perguntou, rabiscando algumas coisas mais no caderninho. A amiga lançou-lhe um olhar duro, mas ficou em silêncio, apenas olhando o lugar.
— Por que você pelo menos não olha os gatinhos? É assim que as garotas os chamam agora né? “Gatinhos”.
— Não faço ideia de como chamam os rapazes nessa época decadente em que estou vivendo — Seu olhar posou jocoso em Amattha — E não os estou olhando primeiro pelo simples fato de que nenhum me interessará, e em segundo porque você não verá sequer um animal “felino” o bastante por aqui, minha querida amiga. Então por favor, deixe-me fazer o que eu quiser. Já saí de casa, conforme você me pediu.
— Você anda estranha ultimamente… Faz um tempo que só lê, só escreve. Na verdade você está assim desde que voltou de viagem. Acho que você está precisando de um namorado. Deim ainda gosta de você…

O bloco na mão de Sophie fechou de repente, e Amattha soube que tinha ido longe demais. Deim era sempre um assunto delicado.
— Deim é um idiota pervertido, entendeu, Amattha? Eu JAMAIS vou voltar com ele, por mais que ele implore daqui até a profundeza do tártaro! Por que é tão difícil pra você simplesmente me deixar escrever em paz?
— Desculpe, Sophie… Eu não devia ter falado dele…
— É, não devia. – A Soph respondeu, abrindo novamente o bloco de notas.
— Está brava? – Houve um instante de silêncio. Por fim Sophie suspirou.
— Desculpe, Amattha. Não devia ter explodido com você. É, Deim… é passado, e eu não estou procurando nenhum “gato” pra namorar agora. Não agora, ainda não quero, e não é como namorar um ser humano qualquer por ai.
Ambas as jovens fizeram silêncio. Percebendo o assunto por encerrado, Sophie tornou a apoiar a ponta da caneta sobre o bloco de papel. Mas tudo o que escreveu foi:

“É, eu ainda não quero um outro alguém no meu coração. Ainda não”

——————————————————————————

Continua…

 

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Um comentário em “A Corte [Parte 3] – Sophie

  1. Mas hein? Cadê a continuação? Vai me deixar na expectativa? Kkkk
    Não vale, você joga uma casa, mansão cheia de mulheres misteriosas e com ar de muitos segredo, é só me deixa ver pelo “buraco da fechadura”? Garoto isso é maldade pra gente curiosa….
    Quero mais e logo viu. 😉

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