The Islander

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The Islander

Escrito por: Lua Morgana

Os dias naquele lugar pareciam infinitos, Frederich não reclamava… Era como um sonho. A cada entardecer o céu ficava de uma cor diferente, o mar se agitava e se aquietava, dependendo da fase da Lua; era magnífico como as fases da Lua influenciavam em tudo. Ele agradecia por não conviver mais com as pessoas para vê-las enlouquecer com a chegada da Lua cheia – ria ao pensar.

Seus dias eram sempre os mesmos. Acordava ao nascer do sol, observava o horizonte enquanto tomava seu café forte. Era bem raro um navio ou barco aparecer por ali, mas mesmo assim ele cumpria com seu papel: mantinha o farol aceso. Fora destinado a essa missão e não reclamava um dia se quer, afinal, ele escolhera. Quisera se isolar do mundo; apenas ele e seu fardo. Às vezes ele se pegava conversando sozinho, como se tivesse falando com seu melhor amigo – o que não deixava de ser – falava e ria, como se fossem duas pessoas conversando. Aprendera a viver assim, amava viver assim, longe de todo aquele caos. A vida o levou para essa ilha: A chamada Ilha da Alma.

A ilha era belíssima: areia branca, mar azul e cristalino, alguns animais estranhos e outros bem comuns. Bem parecida com algumas ilhas ao redor, a única coisa que diferenciava era aquele farol no alto de uma colina ao leste da ilha. Vários homens já tomaram conta daquele lugar, porém, um mistério assombrava: em determinado momento de suas estadias, eles sumiam. Sem deixar rastros, sem deixar os corpos; apenas desapareciam da face da Terra. De tempos em tempos, era observado que o farol apagava. E era nesse momento que sabiam que o faroleiro havia desaparecido. Era a hora de encontrar outro corajoso para a missão: tomar conta do farol da Ilha da Alma. Mantê-lo aceso enquanto puder.

Frederich sabia de toda a história, fora alertado por todos antes de aceitar a missão de sua vida. Ele não tinha mais o que perder. Sua vida se fora a partir do momento que sua mulher e filho foram assassinados na sua frente por caçadores de tesouro. Disseram para os assassinos que ele guardava o tesouro da rainha que havia desaparecido há décadas, mas não estava com ele. Foram a sua casa, reviraram tudo, assassinaram sua esposa Marisa e seu filho Frederich Jr, para tentar faze-lo falar. Ele não tinha o que falar; não tinha como se defender. Agüentou toda a dor das torturas, agüentou toda a dor da perda. Os assassinos cansaram, foram embora. E o deixaram ali, ensanguentado, abandonado, sem seus amores e sem vontade de viver. Aquele convite para ir morar na Ilha da Alma, apenas o fez assentir que seu destino era desaparecer. Que diferença fazia? Sua alma não pertencia mais a toda aquela confusão da cidade. Partira, então, com toda sua dor e tudo o que sobrou de seu ser, para tentar passar os últimos momentos que lhe restava de vida em um lugar relaxante, que não lhe trouxessem lembranças tristes e destrutivas.

Os dias que lhe traziam mantimentos eram os únicos nos quais ele via alguém. Apesar de não conversar muito com os marinheiros que lhe traziam comida, perguntava notícia de como estava “o mundo lá do outro lado”… Não que ele se importasse com qualquer notícia vinda de lá, mas era sempre bom saber que não estava sozinho no mundo.

Passaram-se dez longos anos, já não era mais tão jovem. Já sentia o peso da idade. Não tinha o mesmo vigor para longas caminhadas, já não conseguia fazer certas atividades. Todavia, o fardo parecia menor, já não se sentia mais tão culpado; aprendeu nesse tempo que a culpa o fazia sentir-se mal, a angústia tirava-lhe o sono, a saudade deixava-lhe sem apetite. Porém, com tanto tempo para pensar, para conversar sozinho no silêncio daquele lugar, ele notou que não tinha a culpa. Deixar aquele fardo se esvair de sua alma, deixar aquela culpa sair de sua vida o fez sentir-se mais leve. O fez perceber que deixou os seus descansarem em paz, sem ter que ouvir suas lamúrias e choros dolorosos todas as madrugadas.

Aprendeu, enfim, a contemplar ainda mais a beleza a sua volta. O som dos pássaros, a beleza do mar sob a luz da Lua. Apreciava a melodia das tempestades, o clarão dos raios ao formar desenhos no céu escuro era mais atraente. Foi em um dia de tempestade que ele percebeu que deveria sair daquele farol; algo lá fora o chamava. Algo com uma voz doce… Ele não poderia negar. Certificou-se de que o farol não apagaria em meio a tanta chuva e vento, estava tudo certo. Ele partiu. Pegou sua lanterna e foi rumo ao desconhecido, seguiu aquela voz, seguiu sua intuição. Ao sair, observou umas formas trêmulas dançando no ar, pareciam espíritos. Ele não temeu, prosseguiu seu caminho. Aquela cena, além de tudo, era muito instigante, algo o atraia, ele sentia que deveria ir… que era sua hora… de… desaparecer…

Sentiu seu corpo todo transformar-se em luz, era apenas sua alma. Seu corpo sumira, assim como sua culpa, seu fardo.

Os faroleiros eram atraídos para aquela ilha para se desculparem com suas almas. Cada um tinha sua história de vida; sua tristeza entorpecida. Eles tinham uma coisa em comum: seu fardo, sua dor, sua culpa. Eles deveriam libertar-se daquilo, seguir seu caminho espiritual. A vida fora dura com eles, mas ali, naquele lugar, eles aprendiam que não eram culpados das ações de outrem; a tristeza ali, era opcional. Aprenderam a valorizar suas qualidades, exacerbar a natureza – o universo ao seu redor. Quando eles libertavam-se daquela energia pesada, entravam em contato com seu Eu interior, davam-se a chance de viver sem dramas – eram chamados, era chegada à hora de partir; suas missões eram encerradas.

Muitos homens sofridos foram parar na Ilha. E com o passar dos anos, aquelas almas deram-se o direito de ser livre, de se perdoar. Aquelas almas daqueles faroleiros dançavam junto com os espíritos guardiões, felizes… para sempre; libertos.

Aquela noite fora quando o farol se apagou, assim como todas as almas sumiram ao amanhecer. Era chegada à hora de mais um homem solitário aceitar a missão: ser o novo faroleiro da Ilha da Alma.

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*Conto inspirado na música “The Islander – Nightwish”.

6 comentários em “The Islander

  1. Nem preciso dizer que ficou bom por que você já sabe do seu potencial.
    Eu adorei a forma como foi escrito, gostei do teor reflexivo, e da profundidade que ele capta dentro das pessoas (pelo menos em mim), lágrimas nos olhos e muita emoção, foi assim que me senti, dessa vez não “assisti” o conto acontecer, eu me senti a própria personagem, me identifiquei em muitos trechos e acho que foi isso me tocou tanto. Parabéns Lady Morgana 👏👏👏👏

    Curtido por 1 pessoa

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