In the depths of her soul (Pt.2): O despertar do sangue selvagem

Escrito por Natasha Morgan

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Moon acordou no meio da floresta naquela manhã nublada.

Nua.

O corpo marfim envolvido no meio das folhas secas de outono.

Ela abriu seus olhos cinzentos com lentidão, absorvendo a luz. O nariz se mexeu umas duas vezes, reconhecendo os cheiros distintos. Certamente não sabia onde se encontrava. Era assim todas as manhãs.

Quando as sombras irrompiam de dentro dela, ela se perdia até o dia florescer, trazendo de volta sua sanidade.

Seu corpo doía um pouco, os ossos frágeis.

Ela se levantou devagar, olhando as árvores que rodeavam a floresta numa paisagem um tanto assustadora. Convenhamos, se você estivesse na pele de Moon, tudo seria assustador quando acordasse pela manhã.

Moon se colocou de pé, analisando os estragos da noite passada.

Seu corpo estava coberto por manchas vermelhas, as unhas encardidas e o cabelo negro desgrenhado, cheio de folhas secas e galhos da floresta.

Engraçado como tudo estava calmo e silencioso.

Ela checou o bosque mais uma vez.

Droga!

Nem tudo estava normal…

Poucos metros de onde estava havia um corpo totalmente retalhado.

Moon se aproximou, pouco à vontade.

Como odiava esses momentos!

Nem sempre podia evitar matar alguém…

Ela olhou para o cadáver, estremecendo por dentro.

Apesar de estar em péssimas condições dava para ver claramente que o corpo era de um homem.

E ela conhecia aquele homem!

Moon praguejou, seus olhos enchendo-se de lágrimas. Pouco se lembrava da noite anterior, mas ao olhar para aqueles olhos vazios no corpo estraçalhado trouxe de volta o terror que se abateu sobre a noite passada.

Sua expressão endureceu. E ela passou a fitar o corpo morto com frieza. Aproximou-se da cabeça decapitada, apanhando-a nas mãos. E sem nenhum pudor, beijou os lábios gélidos do rapaz sem vida, dando um último adeus.

– Espero que sua alma apodreça no inferno.

Largou a cabeça no chão junto ao que lhe restou do corpo.

Seus olhos vagaram pelo bosque, distraídos. E ela se deu conta de que havia muito mais do que um corpo e folhas secas.

Espalhados pela densa vegetação, havia mais corpos espalhados, em pedaços. Membros mastigados, pedaços de entranhas e alguns dedos mais ao longe. O vento frio que soprou trouxe consigo o cheiro pútrido de carne estragada. Moon teve que fazer um esforço para não vomitar. Tampando o nariz com a mão, começou a andar por entre o emaranhado de carne estraçalhada.

Ela não lamentou.

Nem uma única lágrima caiu de seus olhos.

Se aqueles fossem homens inocentes, ela teria se encolhido e chorado a morte deles, como costumava fazer quando matava nas noites de lua cheia. Mas aqueles eram homens maus. Homens que teriam estuprado Erin e mais moças que estavam no bar naquela noite.

Ao se lembrar de Erin, Moon se afastou dos corpos.

O pio de um gavião tomou sua atenção para o céu azul. Deveria sair dali. Agora mesmo!

Deu meia volta e começou andar apressada em direção á cidade. Seus pés descalços eram silenciosos na mata, conheciam muito bem o caminho. Não demoraria até chegar ao rancho onde vivia.

E enquanto andava, as lembranças novamente invadiam sua mente, causando-lhe náuseas.

Para o inferno com tudo aquilo! Não queria que isso tivesse acontecido. Era para ser uma noite tranquila! Sem nenhum incidente… Mas então aqueles canalhas adentraram o bar, trazendo o terror com eles, ameaçando as pessoas.

Moon praguejou, lembrando de quando fora possuída. Detestava não estar no controle… Quase quanto detestava o que teria que fazer para estar no controle.

Ah, mas a maldição era bem clara, não é mesmo? Se é que podia chamar aquilo de maldição. Alguns deles tinham uma ideia bem diferente sobre carregar aquelas sombras nas profundezas da alma. Alguns gostavam do sabor da morte.

Moon odiava.

Nua, ela seguiu pela floresta familiar até chegar de volta na cidade. Esgueirou-se pelos becos vazios, fugindo das pessoas que frequentavam o bairro àquela hora do dia e conseguiu chegar em casa.

Morava num sobrado gracioso perto das florestas da cidade. Embora insistissem que seria melhor morar em bando, ela fez questão de impor sua liberdade. E como amava aquela casinha elegante ao lado da floresta densa!

Moon tropeçou para dentro, trancando a porta com vigor. Deslizou até cair sentada no chão, respirando fundo para aplacar o pânico que se instalava em seu coração.

Há quanto tempo não matava? Há quanto tempo vinha se empenhando para não derramar sangue humano?

Ela praguejou novamente.

O telefone tocou, estridente, fazendo-a pular.

Apanhou-o no segundo toque e a voz doce do outro lado aliviou sua tensão.

– Moon, é você?

– Erin! – ela desabou em alívio.

– Está em casa? Passei pela floresta no intuito de te procurar, mas…

– A floresta? Não a quero de volta por lá!

– Não se preocupe, querida, não tenho intensão de voltar lá. – algo na voz de Erin fez a garota se arrepiar.

Moon fez uma pausa, engolindo em seco.

– Você os matou? – a voz de Erin era calma.

– Todos eles. – Moon assentiu.

– Merda!

– É, eu sei. Desculpe pela bagunça no seu bar ontem á noite.

– Você está brincando? Agradeço por ter me salvo daquele cara sujo!

– Eu não pude me controlar…

– Está tudo bem, querida. Eu só precisava saber se você tinha chego em casa. Escute, Moon, a polícia esteve aqui de manhã. Não tive como evitar. Eles estão investigando o que aconteceu no bar e provavelmente vão seguir os rastros até a floresta. Fique fora de lá. Fiz o que pude para ocultar o que realmente aconteceu, mas…

– Merda! – Moon suspirou, deixando-se cair no chão novamente. – Ragnar esteve por aí?

– Ainda não. Ninguém apareceu. Mas é provável que a polícia vá até você. Se deixou algum rastro na floresta…

– Não deixei nada. – garantiu.

– Vocês nunca deixam, não é mesmo? – Erin pareceu sorrir. – Venha para cá. Acho que precisa de um ombro amigo. Ou eu preciso.

– Mais tarde. Preciso tomar um banho e falar com Ragnar.

– Certo. – Erin soou perturbada. Ah, mas quem não se sentiria perturbada na presença de Ragnar?

– Nos falamos depois.

– Não está encrencada, está?

– Não sei. Vamos descobrir depois.

– Moon, não me deixe sem notícias!

– Não vou. E, Erin, obrigada por fazer sua parte com a polícia.

– Não por isso, querida. Não por isso. – Erin disse e desligou.

Moon colocou o telefone no gancho, a expressão vazia.

Às vezes se culpava por envolver a amiga em situações como aquela.

Mas Erin era tudo o que tinha naquele mundo vazio e errado.

De repente seu estômago se revirou, inchando até doer, cheio demais para seu tamanho num corpo humano. A ânsia a atingiu em cheio. Moon saiu correndo pela casa, entrou no banheiro e só teve tempo de chegar ao vaso antes que explodisse em convulsões e soltasse tudo aquilo o que tinha no estômago.

O jato de sangue e tripas manchou a porcelana da privada, provocando mais nojo na garota. O aspecto era horrível e o gosto ainda mais tenebroso. Ela se permitiu vomitar tudo, arfando entre os espasmos.

Deu descarga, limpando a boca com as costas da mão e voltou os olhos para seu reflexo no espelho, enxergando uma beleza selvagem. Seus olhos escuros refletiam uma vida inteira de fome, medo e desejo. As sombras sempre espreitavam por trás deles, seduzindo-a de forma cruel e tentadora.

Mas Moon sempre soube se manter longe daquelas promessas selvagens.

Ela fitou o corpo machado de sangue, torcendo o nariz. Ligou a torneira de água quente e deslizou para dentro de sua banheira de cristal, relaxando quase que imediatamente. Água morna era uma terapia e tanto.

Fechou os olhos, absorvendo aquele momento raro de serenidade enquanto lavava o sangue e o horror de sua alma.

* —*—*

Ela se enrolou numa de suas toalhas felpudas ao sair da banheira, atravessando o corredor iluminado até o quarto, onde se vestiu.

Calça jeans, camiseta básica e tênis.

Confortável e prático.

Penteou os cabelos negros com suavidade, amarrando-os em um rabo de cavalo e saiu.

Precisava alertar Ragnar sobre o que acontecera na floresta. E é claro, dar notícias.

Não gostava muito de ter que dar satisfações sobre sua vida, mas sempre fora assim. Tinha que viver em bando. Sozinha era perigoso, além de não ter a mínima ideia de como se orientar sem um mentor… Se é que podia chamar Ragnar de mentor.

Não, eles tinham outro nome para isso.´

Chefe.

Líder.

Mestre? Não isso soa mais como uma sociedade vampiresca.

Moon franziu o cenho para tal pensamento.

Alpha. Era o que Ragnar era dentro daquela sociedade. Um Alpha.

Pack Master para outros. Cada um tinha uma forma de chamar.

Moon sempre preferiu vê-lo como um controlador. Mas o respeitava por tudo o que tinha feito pelo Clã até aquele momento. Ragnar era um bom líder.

Estava quase apanhando as chaves quando sua campainha tocou.

Seu corpo se sacudiu num tremor cálido e imediatamente ela soube quem era.

Moon suspirou uma vez e abriu a porta.

 

*-* *-*

Ragnar era um homem alto, forte e um tanto severo. Os cabelos castanhos claro faziam pequenas ondas até o pescoço, mas não era isso o que tornava sua expressão severa e sim o cavanhaque ao redor do rosto. Os olhos de um negrume inesquecível eram penetrantes, assim como as sombras que ali se ocultavam. Ele vestia uma calça puída, botas pesadas e jaqueta escura com algumas estampas de motoqueiro. No dedo indicador, o anel de garra que indicava claramente sua posição na alcateia.

Tão logo Moon abriu a porta, seu olhar se recaiu sobre ela, sério.

– Não se juntou aos outros. – disse, quase num suspiro.

– Houve um imprevisto. – Moon se defendeu, inquieta. Sempre que ficava diante dele seu corpo tremia, seu sangue corria mais rápido e era dominada pela ansiedade.

Os olhos dele repousaram sobre os dela.

– Fiquei sabendo.

– Eu estava indo agora mesmo falar com você.

– Elvira achou prudente eu vir atrás de você. Caso ainda estivesse adormecida pela floresta.

– Você já foi à floresta? – os olhos dela se turvaram.

– Não há muito que eu possa fazer por lá. Só quis me certificar de que você estivesse segura em casa.

– Estou bem, obrigada. – ela pareceu constrangida. – E quanto aos corpos, vocês conseguiram…

– Não mexemos nos corpos. Não quando a polícia foi envolvida.

– Não foi culpa de Erin. Ela…

– A humana fez o que devia fazer. – Ragnar foi um tanto seco. – Melhor para nós que ela tenha dado seu relato e chamado a polícia. Pior para nós aqueles malditos humanos escolherem logo aquele bar para assaltar.

Moon se calou, observando em silêncio a expressão dele.

– Acidentes como esses acontecem. Não foi culpa sua.

– Se eu não fugisse tanto de minha natureza talvez fosse capaz de me controlar melhor.

– Se você cedesse aos seus instintos, de fato teria feito menos sujeira. – ele concordou.

– Não vou ceder. – ela o enfrentou, firme. – Nós coexistimos.

– Não se pode coexistir com uma parte essencial de quem você é. Seus pais sabiam disso.

– Não se atreva a falar da minha família!

– Nós somos a sua família, Moon. Sempre fomos. Somos uma tribo unida por sangue! Já é hora de aceitar isso. Não pode fugir para sempre de sua verdadeira natureza.

Moon cruzou os braços.

– É o que veio fazer aqui? Tentar me converter?

Ragnar suspirou, relaxando um pouco a tensão nos ombros largos.

– Não. Eu vim me certificar de que saiu intacta da bagunça de ontem.

– Eu estou bem. Não deixei rastros para trás. A não ser os corpos. Não se preocupe, saberei lidar com isso. Não vai sobrar para você.

– Faz parte da Tribo, Moon. É claro que não vou deixa-la desprotegida. Vamos limpar a bagunça. Como sempre fazemos.

– Não estou pedindo ajuda!

– Você não precisa.

Ragnar retirou um pacote pardo de dentro da jaqueta e o depositou na pequena mureta da varanda.

– São seus favoritos.

Moon franziu o cenho e espiou dentro do pacote.

Donuts.

– Comer doce ajuda a lidar com o amargor do sangue. – Ragnar disse, antes de descer os degraus em direção à sua caminhonete. – Fique longe da floresta! Não vai querer se meter em mais encrencas.

Ele ligou o motor e desapareceu na estradinha de terra.

Moon apanhou o saco de Donuts e saiu resmungando pela rua.

*-* *-*

Erin estava varrendo os restos de vidro na entrada do bar quando sua primeira cliente do dia chegou. Suspirou, tentando por em ordem seu estabelecimento e seus pensamentos. O bar ainda estava uma bagunça, mas isso parecia não afugentar os clientes fiéis. Apesar de que nunca tinha visto aquela garota por ali…

A menina parecia entusiasmada com a cidade, de fato uma turista. Usava calça marrom escuro e um Sobretudo vermelho que combinava perfeitamente com seus cabelos acobreados. O rosto jovem trazia covinhas quando sorria e o olhar era doce como as amêndoas.

Sentou-se numa das mesinhas afastadas, pediu um chá quente e abriu seu livro de poemas.

Erin a serviu com um sorriso simpático e voltou a seus afazeres, lançando um olhar triste ao cozinheiro. Desde a noite passada o estabelecimento estava vazio, nenhum cliente voltou depois dos horrores que presenciaram. Nem mesmo as pessoas que costumavam tomar seu café da manhã por ali. Mas é claro que a cidade inteira já estava sabendo do assalto!

Por sorte ela soube encobrir muito bem o que aconteceu durante o assalto.

Estava perdida em seus pensamentos quando avistou Moon atravessando a rua. Imediatamente o alívio tomou conta de si.

– Ah, não. – Moon exclamou, olhando com tristeza os estragos no bar.

– O pior já passou, acredite em mim. – Erin a abraçou.

– Sinto muito, sinto muito.

– Você fez o que deveria fazer. Agradeço você por isso.

– Eu não podia deixar aqueles desgraçados…

– Eu sei, eu sei. – Erin lhe sorriu.  – Está tudo bem. Venha, vamos tomar um chocolate quente.

Elas se sentaram numa mesinha próxima ao caixa.

– A polícia já esteve aqui? – Moon foi direta, enquanto beliscava um dos Donuts que trouxera.

– No instante em que você saiu. Achei por bem envolvê-los. As pessoas que estavam aqui testemunharam o que houve, não havia como ocultar.

– É claro! Eu… Eu machuquei alguém?

– Ninguém que não merecesse. Meus clientes estão seguros. Fisicamente. – Erin torceu os lábios. – Mentalmente eu duvido. Estavam apavorados. Por sorte consegui convencê-los de que um lobo invadiu o bar, vindo da floresta.

– Aquilo não era nada parecido com um lobo. – Hugh se juntou a elas, depositando chocolate quente em cima da mesa.

Era um rapaz de vinte e poucos anos, alto, magro e bonito. Os cabelos eram claros e os olhos tinham um brilho azul inesquecível. Usava uma blusinha regata e uma saia comprida parecida com um kilt. Ao olhar para Hugh ficava muito claro suas predileções. Seu sorriso era um charme, assim como sua levantada sarcástica de sobrancelhas.

Moon lhe deu um beijo na bochecha quando ele se sentou.

– Não se preocupe comigo, querida. Estou ótimo! Acordei num pequeno amontoado de cervos mortos, mas estou bem. Incrível como não sobra diversão para mim.

– Não seja dramático! – Erin o repreendeu. – Teve diversão o bastante quando lidou com aquele policial pela manhã.

Hugh lhe deu um sorrisinho.

– Qual policial? – Moon perguntou.

– O Sr Bonitão que veio de manhã se certificar das investigações. Pelo que vi ele está empenhado em descobrir o paradeiro os assaltantes.

– Ele logo vai encontrar…

– Não sobrou nada, não é mesmo?

– Só carne e tripas.

Hugh riu.

– Ragnar deve estar furioso!

– Isso não tem graça!

– Tem sim. Uma pena ele não ter vindo aqui me trazer doces. – ele apontou para o Donut.

Erin revirou os olhos.

Mon a fitou com seriedade.

– A polícia acreditou no que você contou?

– Ficaram céticos com a possibilidade de um lobo enorme ter invadido o bar e matado um dos assaltantes. E depois ter saído por aí caçando o restante. Quer dizer, é muito estranho a criatura não ter devorado todos que estavam aqui no bar… – ela começou a tagarelar.

– E quanto às testemunhas, os humanos que estavam aqui… Eles acreditaram que aquilo era um lobo?

– Estavam perturbadas demais para raciocinar. Se acreditaram ou não, eu não sei. Mas, convenhamos: Qual é a probabilidade da polícia acreditar num relato tresloucado de que um lobisomem deu o ar da graça na cidade?

Moon deu um gemidinho.

– Ragnar deve estar furioso! – Hugh repetiu baixinho.

– Ele foi rude com você? – Erin perguntou.

– Não. Na verdade foi todo compreensivo.

Erin franziu o cenho.

– É por isso que eu acho que ele está puto da vida. Ele tem que estar!

– Acho que Ragnar está mais preocupado com o que pode advir desse pequeno incidente. – Hugh se manifestou e eles estremeceram.

Caçadores eram um grande problema.

Ainda mais quando lobisomens tinham sangue no focinho.

– E quanto a… – Erin pigarreou. – E quanto à sua chefe? Ela disse algo sobre isso?

Moon deu um sorrisinho.

– Ela odeia que a chamemos assim. E eu não sei. Ainda não falei com ela.

– Elvira tem um temperamento explosivo.

– Soube disso quando se envolveu com o filho mais velho dela?

Hugh lhe lançou uma erguida de sobrancelha.

– Muito engraçada, Moon. – Erin a repreendeu. Não gostava de se lembrar do romance que tivera com Dork. Nem da tragédia que se abateu sobre a Tribo quando ele foi caçado e morto.

Moon se arrependeu imediatamente.

– Sinto muito, Erin. Não quis trazer más recordações. De qualquer forma, vou falar com Elvira hoje à noite. Acho que devo alguma explicação diante do Clã.

– Quer que eu vá com você?

De repente, a ideia de Moon ir sozinha se declarar culpada diante de um bando de selvagens preocupou Erin.

– Não quero que se envolva mais do que está envolvida. Pode ser perigoso para uma humana.

– Dork sempre me dizia isso.

– Sinto muito, Erin. – ela se desculpou novamente.

– Não se preocupe, querida. Só se lembre de que se precisar de ajuda, estou aqui. Sou humana, mas ainda assim durona!

– Impossível esquecer isso.

– É. Você é uma humana muito fodona! – Hugh acrescentou, sorrindo.

Eles riram.

– Que família eu fui arrumar hein! – Erin riu mais uma vez e os abraçou.

Ela se levantou, ocupando-se em terminar de varrer os cacos de vidro para que sua clientela do almoço não se assustasse ainda mais com a bagunça.

Erin era uma mulher bem vivida com seus trinta e nove anos. Tinha um corpo espetacular e uma pele incrível. Vivia a vida loucamente. Não tinha filhos ou família naquela cidade montanhosa, apenas dois maravilhosos amigos. Em sua juventude conheceu um mundo completamente diferente ao se envolver com um rapaz misterioso e foi tragada no meio das sombras para nunca mais sair. Conhecia a existência daquelas criaturas movidas pela lua e era respeitada por aquele povo, mantendo-se longe do seu caminho sangrento nas noites de lua cheia.

E, de vez em quando, tinha que limpar a bagunça de um deles.

Moon suspirou e foi ajuda-la, sentindo-se culpada por ter destruído seu bar.

Hugh terminou seu chocolate quente e voltou para a cozinha, ocupado em conduzir bem os ingredientes dos sanduiches que o pessoal pedia na hora do almoço. Inabalável, ele cantarolava algumas canções da atualidade enquanto bailava com o fogão fritando hambúrgueres.

Moon se abaixou no chão, ajudando Erin a limpar a sujeira dos vasos partidos em sua muretinha harmônica, lamentando mais uma vez a desgraça que se abateu sobre o bar quando o Oficial adentrou o pequeno estabelecimento.

– Hã… Com licença, Madame.

Ambas olharam para cima, encontrando um rosto amigável.

O homem estava na faixa dos quarenta anos. De estatura média, era musculoso e tinha ombros largos, além de um rosto bem conservado e até charmoso. Usava o habitual uniforme marrom com a estrela dourada de xerife no peito esquerdo. E um chapéu de caubói que ostentava na cabeça ao qual fez questão de tocar em respeito às moças.

– Oh, Oficial Garrett. – Erin o cumprimentou educadamente, levantando-se e oferecendo a mão.

O Oficial apertou a mão oferecida. Seus olhos astutos se voltaram para a jovem ao lado da loira.

– Ah, esta é Moon. Uma amiga e funcionária. –Erin se apressou a apresenta-los.

Garrett cumprimentou a jovem.

– Moon…?

– Apenas Moon. – disse a garota, tentando soar simpática.

– Oh. É mais ou menos uma coisa Hippie?

– Mais ou menos.

Garrett desviou sua atenção para a loira estonteante.

– Vim para o café da manhã. Espero que não se importe. – seu olhar recaiu sobre a outra. – E também para fazer mais perguntas.

– Por favor, sente-se. – Erin indicou uma mesinha vazia.

Garrett se sentou confortavelmente, escolhendo no cardápio o que iria querer.

Da portinhola da cozinha, Hugh espiou o Oficial, dando uma boa conferida no homem. Um sorriso malicioso se apoderou de seus lábios e ele deu uma pequena piscadinha para Moon. A garota revirou os olhos e se apressou em separar o café desnatado do policial e as rosquinhas que ele pedira, ajudando Erin com o problema.

Garrett sorriu, agradecendo à moça e bebericou o líquido fumegante da caneca de porcelana.

– É Moon, não? – ele perguntou, fitando a garota com atenção.

– Sim senhor.

– Você estava aqui ontem à noite?

Moon ficou nervosa ao vê-lo apanhar seu bloquinho de anotações. Aquilo era uma investigação, com toda certeza. Ela se obrigou a ficar calma. Erin estava logo ao lado, recolhendo as louças da mesinha de uma jovem ruiva.

– Eu estava. – Moon assentiu. – Mas fui dispensada pouco antes do que aconteceu.

– Ficou sabendo do que houve? Com detalhes?

– Eu e Erin somos amigas, ela me ligou pela manhã e me informou o que tinha acontecido. Por isso vim tão cedo.

– Entendo. Você é a garota do rancho Red Velvet, não é? Fiquei sabendo que os antigos donos se mudaram há alguns anos, fico feliz que alguém tenha ficado para tomar conta do lugar. Linda paisagem, minha jovem!

Moon esboçou um sorriso.

Quem não conhecia a propriedade Red Velvet? Um rancho cercado por belas flores escarlates que floresciam à noite? Famosa por sua beleza selvagem e comercializada como o fruto proibido da sedução?

– Perdão por não reconhecê-la. Não sabia que trabalhava no bar de Erin.

– Um passatempo. – Moon explicou, um tanto feliz pelo Xerife admirar suas flores.

Erin se aproximou, juntando-se a eles junto á mesinha.

– Tem alguma novidade sobre o caso, Oficial?

– Chame-me de Garrett, Erin. Nos conhecemos há um tempo. – ele sorriu um pouco. E então assumiu sua expressão séria. – Meus homens encontraram corpos na floresta. Achamos que possam ser o restante dos assaltantes.

Moon ignorou o arrepio frio que lhe percorreu a espinha.

– Todos mortos. – Garrett disse. – Massacrados, por assim dizer.

– Oh. – Erin tapou a boca com as mãos.

– Uma cena horrível de se ver. Estamos investigando ainda, ao redor da floresta, para termos certeza do que os matou.

– Já disse, foi um lobo. – Erin falou. – Ainda não acredito no que aconteceu.

– Isso é muito estranho mesmo. – Garrett pareceu refletir. – Não sabemos sobre lobos rondando a cidade.

– Hã, com licença.

A jovem ruiva da mesa ao lado se virou, chamando a atenção deles.

– Estão dizendo que o bar foi atacado ontem á noite por um lobo.

– Ah, não se preocupe, querida. Estamos monitorando a área, nenhum animal entrará na cidade. – Garrett a tranquilizou.

A jovem deu um pequeno sorriso.

– Não estou preocupada com lobos, senhor Xerife. Na verdade fico me perguntando o que teria feito um lobo se arriscar à cidade apenas para entrar num bar e assustar as pessoas. Ouvi dizer que ele fez vítimas, isso é verdade?

– Desculpe, quem é você? – o Oficial inquiriu.

– Ah, sinto muito. Sou Rachel Bones. – ela estendeu a mão. – Sou nova na cidade. Aluguei uma casinha perto do lago.

– Diga-me, Rachel, entende de lobos?

– Seria um ultraje não entender. Sou bióloga, senhor Garrett.

Os olhos do policial se iluminaram.

– Ah, trabalha com o Lawson?

– Não o conheço. Como disse, sou nova na cidade. Cheguei pela madrugada e ainda estou me instalando.

– É claro que não conhece. Ele é um idiota. Lawson é nosso Biólogo, mas deixa muito a desejar. Só sabe se preocupar com os Pumas e animais silvestres. Talvez você seja a nossa sorte. Disse que entende de lobos. – o xerife deu um sorrisinho. – De animais em geral. Talvez possa nos ajudar nesse caso.

– Está me oferecendo um emprego?

Erin e Moon se entreolharam.

– Se estiver interessada…

– Está brincando? – Rachel deu um gritinho de felicidade.

– Fico feliz que tenha ficado contente, Senhorita Bones.

Rachel assentiu, empolgada.

– Então, por onde começamos? – o xerife perguntou. – Gostaria de ver os corpos? – ele hesitou. – Ou talvez deva descansar de seu café da manhã primeiro…

– Não se preocupe, Xerife. Sou bastante profissional. Seria ótimo poder ver os corpos. E os rastros pela floresta… Embora eu deva ressaltar que é improvável um lobo descer as montanhas, sozinho, para atacar pessoas na cidade. Ainda mais deixando testemunhas sem nenhum arranhão. – seus olhos se voltaram para Erin e Moon.

Erin deu de ombros.

– Você é inteligente. Gosto disso. – Garrett se levantou. – Vou lhe apresentar ao restante do pessoal. E vamos dar um pequeno passeio na floresta.

O Xerife acenou para as moças no bar.

– Até mais tarde, garotas.

– Até breve, Oficial Garrett. – Erin lhe sorriu. – E Bem vinda à cidade, Rachel.

– Obrigada. – a jovem sorriu, simpática. – Seu bar se tornou meu canto favorito!

Eles desapareceram pela porta, deixando Moon e Erin confusas para trás.

*-* *-*

Hugh jogou seu avental no balcão e saiu apressado pela portinhola da cozinha.

– Isso não vai prestar!

– Acha que ela vai descobrir alguma coisa?

– Ela parece esperta. Competente. Lawson é um idiota, por isso sempre deixava passar alguma coisa em seus laudos. Agora essa aí… –Hugh balançou a cabeça.

– Vou alertar Ragnar! – Moon se apressou a apanhar suas chaves e saiu apressada.

***

Continua

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