A Corte [Parte 2] – Elena

Escrito por: A.J. Perez

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Capítulo 2 – “Elena”

As folhas voavam ao longo da estrada conforme o carro avançava pela via vazia. Os olhos cinzentos de Elena observavam algum lugar distante além do mundo físico, quantas vezes ela se pegou fazendo aquilo nos últimos meses? Relembrando o acidente, revivendo aquele momento doloroso, quando ela pode ouvir o som do seu corpo se estilhaçando, e com ele toda a sua vida, todos os seus sonhos.
Ela inspirou fundo e dragou o ar com gosto o cheiro de mato e de pinho encheu seus pulmões com uma pitada de lavanda e uma série de outros odores amadeirados que a lembravam da infância.

Quando ela corria pela mata se imaginando uma caçadora indígena, a grande líder da Tribo do Corvo.

— Você está bem, minha querida? — a voz gentil de Laura invadiu seus pensamentos e sua mão acalentadora se pôs sobre o ombro da garota a trazendo de volta de onde vagava.
— Sim, Laura. Estou tão bem como uma rockstar! — ela sorriu.
— Então está usando drogas! — gritou Laura rindo.
— Não! — respondeu gargalhando — Só um baseadinho de vez em quando.
— Elena! — Marcus olhou pra ela com uma expressão de desaprovação.
— Qualé Mark, tenho certeza que a Laura queimava um quando era mais nova, não estou certa? — seus olhos foram na direção da avó que ria.
— Mas não conte pra ninguém, garota!
— Vó! — Marcus olhou pra trás por alguns segundos encarando ela.
— Ahh que isso garoto, vai de dizer que nunca queimou unzinho? — Laura deu um tapa no ombro dele.
Elena gargalhou no banco ao lado vendo a cara de desconcertado do irmão.
— Mas escute aqui mocinha… — iniciou Laura — nada de fumar erva dentro de casa! Se quer puxar um, faça isso no jardim dos fundos, que nem eu.
— VÓ! — o grito de Mark sobressaiu-se sobre a música.
— É Laura! — ambas gritaram de volta pra ele.
Elena gostava da avó, sentia muita saudade dela. Agora ela era tudo que lhe restava além de Mark, mas não importava quanto toda aquela conversa fosse engraçada ou o quanto ela se sentisse em casa com a avó, nada mais seria igual, não depois do acidente. Ela podia sentir com todo o seu ser, apenas não sabia dizer se era só a morte dos pais ou se era o seu atual – e permanente – estado, mas tudo aquilo doía na alma. Sua vida estava uma merda. Independente das risadas, ou qualquer falsa alegria que ela demonstrava quando conversavam com ela, a única coisa que poderia definir seu estado de espírito era que se sentia morrendo por dentro. Apenas não tinha coragem de admitir o quão destruída estava. Finalmente após alguns minutos que pareceram uma eternidade eles chegaram até a casa da avó.
— Trouxeram muita bagagem queridos?
— Não, pegamos apenas o que pudemos carregar, o resto eu vendi no eBay. — respondeu Mark abrindo a porta.
— Cidade nova, vida nova não é? — sentenciou Elena, olhando pra avó enquanto abria a porta do carro.
— Mais ou menos isso. — sorriu Laura ao abrir sua porta e sair do carro.
Marcus se dirigiu ao porta-malas o abrindo e retirando algo grande de lá.
Elena segurou suas pernas e as pôs para fora do carro no exato momento em que pouso a cadeira de rodas dobrável na frente dela.
Ela sorriu gentilmente em agradecimento a ele, quando ele a tomou nos braços e a retirou do veículo para colocá-la sentada na cadeira.
Laura olhou com compaixão para a neta, Elena percebeu o olhar da avó e colocou um sorriso no rosto.
— Temos de ver o lado bom das coisas — iniciou a garota — se eu tivesse espatifado minha coluna uma vértebra acima vocês estariam me dando comida de canudinho a essa hora. — ela sorriu de modo debochado para a avó.
— Não diga esse tipo de coisas Elena — ralhou Laura parecendo pela primeira vez incomodada com algo — Bem vamos entrar, está certo? – respondeu se dirigindo a parte de trás da cadeira de rodas da neta.
Marcus fechou o porta-malas com uma batida e trouxe quatro malas consigo.
A casa de Laura era branca com um belo jardim na frente. Rosas roxas, gardênias, e outros tipos de flores que eles não conheciam.
— Laura, o seu jardim do lado direito. — indagou Elena ao ver que no lugar do antigo jardim estava posicionada uma rampa de metal emborrachada.
— Fiz algumas alterações na casa pra você querida. — a voz dela era gentil.
— Mas você sempre amou seu jardim!
— Eu amo mais você. — ela pousou a mão no ombro da garota de modo terno.

Ao entrarem o cheiro da casa de Laura inundou as narinas de Elena, a acalmando e trazendo lembranças de tempos felizes.
— Seu quarto fica no sótão Mark. — indicou ela se virando em seguida para Lena —O seu, meu anjo, fica aqui em baixo.
—Vou arrumar as coisas lá em cima vó, essas duas malas são da Elena — ele as colocou em cima do sofá enquanto falava.
— Mas que inferno garoto, me chame de Laura.
Com as pesadas malas ele subiu as escadarias até o segundo andar onde foi em direção ao sótão.
— Venha querida, vou mostrar seu quarto.
Ela levou a neta passando pela sala, para o local onde era a antiga biblioteca de seu avô.
— O que achou, meu anjo? — indagou Laura ao mostrar o lugar a ela.
De longe aquilo estava muito além do que ela podia esperar, as paredes eram de um tom lilas escuro, a da esquerda havia sido transformada em uma estante repleta de centenas de livros, provavelmente todos de seu falecido avô. Haviam posters de bandas nas paredes; Ramones, Misfits, Rammstein e Marilyn Manson. Um notebook em cima de uma mesa de canto e uma cama aptada.
— Está perfeito, Laura… é lindo. — os olhos dela se encheram de lágrimas — obrigado, de verdade, muito obrigado.
— Acho que lembrei de tudo que você gostava, se faltou algo é só me avisar está certo?
— Tudo bem, Laura. Está tudo em ordem.
Ao entrar Marcus ficou surpreso com o lugar.
— Nossa, alguém pegou o melhor quarto. — brincou Mark largando as malas sobre a cama da irmã.
— Na próxima vida quebre a coluna e terá do bom e do melhor. — sentenciou Elena de modo ácido.
— Credo menina! — ralhou mais uma vez sua avó.
— Sejamos francos, — ela manobrou a cadeira de rodas para ficar de frente para o irmão e Laura — Eu estou paraplégica, okay? O carro bateu, e eu fodi a porra da minha coluna. Não falar sobre isso não vai me fazer andar de novo. Então eu vou continuar a fazer as minhas piadinhas de humor negro o quanto, quando, e como eu quiser, estamos entendidos?
— Por mim, okay. — sentenciou Marcus cruzando os braços.
— Se você quer assim, Elena — Laura suspirou — que assim seja. — anuiu sua avó.
— Muito bem! Estamos acertados, agora deem licençinha que a aleijadinha vai desfazer as malas…

Pela primeira vez em muito tempo de fato Elena de fato se sentiu em casa.

As horas correram enquanto ela se instalou no quarto e arrumou suas coisas.
Depois de olhar atentamente por alguns bons minutos seus novos livros Elena escolheu um que lhe chamou a atenção. Tinha a capa toda marrom, feita de couro e não havia nenhuma informação nele além do título “A Maldição do Carvalho”. Após alguns minutos de leitura ela se encontrou totalmente absorta em suas linhas. Contavam a história de um agente da Inquisição na Idade das Trevas, ela havia se apaixonado por uma misteriosa garota de longos cabelos negros. Apesar disso não era um romance meloso, a história era sombria, até certo ponto perturbadora, era como um diário antigo escrito em primeira pessoa, mas ela não conseguia entender quem diabos narrava a história, pois não era o Inquisidor, nem a moça. Esse era um dos muitos mistérios, e a cada pagina ela ficava mais focada nelas. Até ouvir uma batida na porta.
— Posso entrar?
— Claro, Laura.
Laura pôs sua cabeça para dentro do quarto.
Elena se encontrava deitada lendo seu livro com seus óculos de leitura, com grossas hastes negras.
— Vamos jantar fora, Lena…
Elena ficou parada tendo alguns devaneios.
— Algo errado Lena? – indagou ela a neta.
— Não, nada… Só que eu prefiro não sair hoje, vá você e o Mark, eu fico aqui lendo, tenho toda uma estante pra debulhar agora.
— Você tem certeza? Não quero te deixar sozinha.
— Tudo bem, Laura. Não se preocupe nada vai acontecer, eu ainda tenho os braços tá? Não sou uma completa inútil…
— Eu não quis… — ela pareceu se entristecer com o comentário.
Elena reparou no semblante da avó, ela ia ter de se esforçar para não magoá-la, seu humor ácido e negro seriam um problema.
— Eu sei que não quis, Laura, mas prefiro ficar em casa. Leva o Mark ele tá rabugento, tá precisando de uma namorada — ela levantou uma sobrancelha e gesticulou empurrando e retrocedendo o dedo indicador de uma mão dentro de um circulo feito com a outra — se é que a senhora me entende…
Laura só pode gargalhar.
— Meus Deus menina, você é terror.
Lena sorriu de modo sacana, voltando a ler o seu livro.

Mark desceu as escadas para a sala com uma camiseta branca, calça jeans preta, jaqueta de couro na mesma cor e um tênis All Star clássico.
Seus olhos estavam mais verdes que o comum e bem claros. Às vezes mudavam de cor. Coisa que dependia muito de seu humor, quanto mais claros, mais feliz ele se encontrava, o oposto era mau humor, mas em raros momentos, ficavam castanhos, e nessa hora seria bom não chegar perto dele.
Laura apareceu toda produzida diante dele.
— Você está um gato Mark! Que bom! Porque vamos sair.
— Vamos? – indagou ele surpreso — e aonde iremos?
— Pub inn, Meia-Noite! – Sentenciou ela com um sorriso malicioso no rosto.

——————————————————————————

Continua…

 

Olá, antes de mais nada permitam-me uma breve explicação. O nosso mundo não é perfeito (infelizmente), e as vezes em nossa ânsia de um mundo “mais interessante” passamos por cima de coisas que o tornariam mais real, que fariam mais pessoas se sentir INCLUSAS no mundo da literatura. Quantos livros possuem personagens com deficiência física ou limitação? É fácil nos imaginarmos na posição de nosso personagens favoritos, mas nem todos vivem essa realidade. Assim nasceu Elena, ela serve pra incluir aqueles que muitas vezes não tem espaço nas histórias. Falamos de inclusão em muitas áreas e as vezes esquecemos delas em algumas outras. Espero que não me entendam mal em minha posição. Para finalizar o que posso afirmar é que nenhum personagem que criei, ou criarei um dia, jamais será amado como amo essa garota – olhos marejados – espero que vocês se apaixonem pela força dela, pela sua criatividade e personalidade, que ela ganhe os seus corações como ganhou o meu. Por um mundo onde todos tenham um lugar nas paginas dos livros, para que possamos ver sua força e suas dificuldades, para que possamos nos colocar no lugar do próximo, e sermos menos mesquinhos no dia a dia.

Já falei de mais… – risos – Deixem suas opiniões e criticas nos comentários, elas são importantes para o desenvolvimento do autor!

Grande abraço e até a Parte 3! (com um personagem novo ❤ fiquem ligados)

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6 comentários em “A Corte [Parte 2] – Elena

  1. Elena tem um humor negro tão doce que lembra alguém que conheci um dia e que diga – se de passagem era uma pessoa fantástica, logo também espero que ela seja fantástica. Ache importante o modo como você colocou a deficiência dela, são coisas que não vemos todos os dias. Estou amando cada trechinho, cada detalhe, por que a boa estória, rica em detalhes nos transporta pra dentro dela e nos faz assistir cada capitulo como se estivéssemos em um cinema 5D.
    Parabéns pelo enredo, pelo contexto e pelos detalhes…

    Curtido por 2 pessoas

  2. Já falei que amo o Mark!? hahahahahaha
    Vc me surpreendeu com a Lena. Adorei a personalidade dela. No primeiro capítulo não parecia tão legal assim, agora acho foda!
    Ah, e a Laura é muito amor. Adoro!
    Continue assim… E escreva mais, tá curto…hahahahahaha

    Curtido por 1 pessoa

  3. Como não amar a Elena? já é minha favorita 😀
    Estou me surpreendendo muito com a historia. Fiquei meio receoso de dedicar tempo de leitura a uma “web novela”, mas mordi a linguá, já prendeu minha atenção desde o primeiro capitulo. Alguns errinhos de português ali e aqui, mas nada que atrapalhe a leitura. Parabéns, vc tem um conto muito promissor aki 😀

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