Maysee, Um Toque do Mar [Parte 7]: Luto Provisório

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Amanheceu finalmente. Por mais nublado que estivesse, era 5 da manhã e o sol brilhava por trás das nuvens de um tom cinza azulado. Um novo dia, uma nova realidade. Loreena sentia apenas o peso dos acontecimentos sobre seus ombros. Depois de tantas revelações nem ela, Claud ou Golde falaram algo. Simplesmente cada um ficou imerso em seus próprios pensamentos. Ela viu Golde adormecer sentado no chão, encostado no sofá que sua tia estava deitada, em uma rapidez surpreendente, como se tivesse simplesmente desmaiado. Claud caminhava para lá e para cá pela sala e Loreena acabou pegando no sono ao inclinar suavemente a poltrona para trás, não por conseguir relaxar, mas pelo cansaço finalmente vencê-la.

Quando abriu os olhos viu que tudo o que rezou ser um sonho era a realidade mais sórdida e cruel que poderia enfrentar. Seu coração apertou mais ao ver tia Emy, ou melhor, Emilly, deitada sobre o sofá, o peito subindo e descendo suavemente, num sono sem fim. Loreena espreguiçou-se e notou o quanto estava rígida, pela posição que dormiu e por tudo que enfrentou. Hematomas agora apareciam nos braços e na perna esquerda. Imaginou se os arranhões estariam tão feios quanto o dia anterior e apagou as imagens, chegando à conclusão que certamente estariam piores.

Percebeu que Golde não estava mais no chão aos seus pés e viu a movimentação de Claud na cozinha. Parecia que preparava o café da manhã. Suavemente Loreena inclinou-se para frente para olhar a mulher que cuidou tanto dela e de sua irmã, mesmo não sendo sua tia. Passou a mão nos cabelos e percebeu que estavam levemente encorpados, como se estivessem mais fortes e saudáveis. Estranhou, pois os cabelos da tia idosa eram finos e sem volume.

Congelou ao olhar para o rosto da tia e ver que ela estava de alguma forma diferente. A pele tinha uma tonalidade mais saudável, menos pálida e senil. Não tinha tantas rugas e parecia mais firme também. Aquilo seria efeito do colar? Era assustador e ao mesmo tempo maravilhoso. Emilly estava viva e saudável. Mas por que ainda dormia? Como explicaria tudo àquilo à Jane? Mas o que realmente precisava explicar à Jane? Porque Emilly estava em coma e parecia mais jovem?

– É efeito do Relicário. – Ouviu Claud a suas costas.

– Ela está… Rejuvenescendo? – Loreena não achou palavras melhores.

– Sim e não. – Claud explicou – O corpo dela reconhece a Pedra que ela escolheu para ter a ligação e a pedra busca o momento mais forte e saudável da sua vida corporal para tentar curá-la. A mente dela permanece com a mesma “idade” e sã e ciente de tudo o que aprendeu durante a vida.

Loreena apenas acenou com a cabeça e olhou para a janela. Hoje seria um belo dia de passeio. Um daqueles para ficar no rochedo e não ver nenhum monstro marinho. Apenas sentir a chuva e o vento e sonhar com outro mundo. Era tudo o que queria. Tia Emilly dormindo no quarto e Jane no outro, enquanto Loreena escapava escondida para andar na chuva. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Nunca mais seria assim. Mesmo que Emilly acordasse agora, tudo estava fora do lugar, diferente e algo dentro de Loreena dizia veementemente que jamais tornaria a ter a vida que tinha anteriormente.

Fez força para levantar da cadeira e ouviu a porta da frente abrir e fechar. Golde entrava na casa com a mesma blusa rasgada da noite anterior. Por um instante incalculável e infimamente rápido, Loreena prendeu a respiração, pois percebeu que ele olhava para ela, todo bonito e dourado e trazia flores lilases nas mãos, que reconheceu do jardim da tia, as lavandas.

– Esta quantidade serve? – Ele perguntou a Claud, desviando o olhar de Loreena e fazendo-a relaxar novamente, pois achara inexplicavelmente por poucos segundos que as flores seriam para ela.

– Sim. – Claud falou pegando o ramo. – Ajude à senhorita Loreena levantar e vir até a cozinha.

Golde caminhou até ela e ela percebeu que ele ainda estava sujo de sangue e areia da noite anterior. Sentiu-se um pouco triste e até culpada, pois se não fosse por ela os Telquines não teriam atacado, teriam? Afinal, eles tentaram levá-la e Golde só fez defendê-la.

– Você ainda está todo sujo! – Ela exclamou quando ele passou seu braço sobre o ombro. – E precisa de outra camisa!

– Não acho que um vestido da sua avó fique bem em mim. – Ele disse com certo humor.

– Eu tenho blusas que podem caber em você! – Ela exclamou e ele a encarou com uma expressão divertida no rosto.

– Não visto PP…

Ei! – Ela exclamou. – Eu visto M! Mas minhas blusas de banda são G… Eu gosto de roupas folgadas! – Concluiu com a expressão incrédula dele.

– Certo, mademoseile Sweem, mas primeiro vamos tomar café da manhã. – Golde concluiu a conversa, deixando-a na cadeira que Emilly sempre ocupava na mesa.

Ele não teria como adivinhar. Ela suspirou e sentou-se no lugar com um aperto no coração, enquanto Golde ocupava o lugar de Loreena à mesa e Claud levava para eles o café da manhã. Torradas com mel e algum tipo de chá, que após sentir o aroma Loreena percebeu ser lavanda.

– Sente-se melhor, senhorita Loreena? – Claud falou sentando-se à cadeira que Jane normalmente ocupava.

– Bem… – Loreena dividia-se na resposta e se incomodava com a repetição da palavra “senhorita”. – Pelas poucas horas que dormi, estou consideravelmente descansada, se bem que com a carga de adrenalina vivida ontem, acho que não dormirei muito por pelo menos uma semana. E apesar de ter dormido em uma poltrona, não estou tão entrevada, mas parece que levei uma surra… – O sarcasmo atingindo a voz. – Ah, sim, é mesmo, eu levei uma surra dos monstros Telquines e uma surra na minha vida.

Golde tinha uma expressão divertida no rosto. Parecia achar engraçado a garota tratar com pouco decoro seu superior. Claud ignorava a postura de Loreena, apenas comparando-a a Emilly e sentindo-se cada vez mais culpado pelo ocorrido à sua amada. Precisava resolver este problema o quanto antes, pois quanto mais tempo desacordada Emilly passar, piores poderiam ser as sequelas.

– E sua perna? – Golde falou em meio a uma mordida na torrada.

– Até que não está mais latejando como ontem, mas sinto que não posso pisar… – Ela disse sentindo as bandagens incomodarem um pouco a pele.

– Assim que terminar de tomar o desjejum, Golde irá trocar seu curativo. – Claud falou sem prestar atenção realmente à garota. – Golde, enviou o relatório, como pedi?

– Sim. – Ele disse, corrigindo a postura na cadeira. – Enviei o relatório do ataque, mas ocultei o incidente com a senhora e a garota. – Completou e Loree sentiu uma contração no estômago. “Garota?”, ele falou como se ela não estivesse presente e sequer se conhecessem. “Depois da noite anterior!” Ela revoltou-se e trancou a cara. Tomou apenas um chá, o estômago revirado pela raiva de Golde e pela tristeza da situação.

– Senhorita Loreena, não está comendo… – Claude falou olhando direito para a moça. – Sei que fazem décadas que não preparo uma comida de Filho do Barro, mas também não sou um desastre culinário…

– Estou sem fome. – Ela disse apenas. – Por favor, poderia me dizer o que faremos com a minha tia? – Perguntou, corrigindo-se mentalmente “Ela não é minha tia”.

– Se meus livros ainda estão na biblioteca, e provavelmente estão, irei buscar uma solução rápida, e que os Deuses nos ajudem para que eu encontre. – Ele olhava para a sala enquanto falava.

– Deuses… – Loreena murmurou, nunca havia parado para pensar em um Deus, quanto mais em Deuses!

Claud e Golde terminaram o café da manhã rapidamente, enquanto Loreena pensava no que deveria dizer a Jane na segunda-feira. Quando terminaram de comer, Golde ajudou Loreena a ir para a sala novamente e a ajudou a sentar à poltrona. Ela ainda estava irritada com os modos distantes dele, e se contraiu quando ele começou a desatar as bandagens no topo da coxa. Tinha alguma piada malvada para cutucar Golde, mas seja lá o que estivesse em sua mente, sumiu quando viu as feridas muito melhores do que poucas horas atrás.

O inchaço havia diminuído e o sangue estancara. Apesar das bordas estarem esverdeadas, o emplastro havia sido absorvido pela pele e a aparência era de que logo se recuperaria. Golde analisou os ferimentos e assobiou baixo.

– Para uma Filha do Barro você até que tem um metabolismo rápido. – Disse levantando a perna de Loree pelo tornozelo. – Agora, isto pode doer um pouco… Preciso movimentar sua perna para que não enrijeça.

Loreena sentiu pontadas por toda a extensão dos arranhões e enterrou as unhas no braço da poltrona enquanto Golde movimentava a perna suavemente dobrando o joelho e girando o pé. Felizmente não sangrou. Claud veio da cozinha com as pétalas das flores dentro de uma tigela.

– Alfazema é antiinflamatória e cicatrizante, ajudará a fechar os ferimentos. – Disse para Loreena, entregando o pote a Golde.  – Agora, dêem-me licença, estarei na biblioteca pesquisando um meio de salvar Redy.

Loreena observou Claud entrar na saleta e depois se recostou na poltrona para ver o processo que Golde executava com agilidade e delicadeza. Logo a perna estava coberta de pétalas e envolvida por bandagens mais leves. Golde levantou analisou o serviço com um ar de satisfação, os braços cruzados no peito, como se fosse o melhor por ter feito aqueles curativos. Loreena viu o quanto ele era bonito, mesmo ainda sujo e com a roupa rasgada. Com aquele ar de superioridade e auto-suficiência, cabelos tão loiros que chegavam ao dourado de seu colar. Os olhos eram da mesma cor, assim como os cílios e sobrancelhas.

– Porque está me encarando? – Ele disse e ela corou desviando o olhar para a janela.

– Não estava encarando… – Ela gaguejou – Só me perguntava se você é tão velho quanto Claud e Tia Emy… – Despejou, mas na verdade só tinha pensado nisso no momento em que falou e a curiosidade a tomou. Sentiu que ele ainda a encarava e ela virou o rosto para ele novamente. Ele tinha um riso ardiloso no canto dos lábios.

– Talvez… – falou vendo que ela estava tentando calcular. – Ah, ok, não, não sou tão velho.  Tenho realmente 20 anos e pretendo ficar com vinte por algum tempo antes de crescer mais um pouco.

– Como assim, “ficar com vinte por algum tempo antes de crescer…”? – Ela indagou.

– Bom, os Relicários nos mantém na melhor forma física e atualmente esta é minha melhor forma física pela qual já passei. Além do mais, mal saí da adolescência e escolhi meu relicário. Completei 20 na primeira Lua do ano, então prefiro manter essa aparência jovem por enquanto.

– E como funciona isso? Como vocês mantêm a aparência e como escolhem um Relicário? Como se faz um Relicário, a propósito? – Loreena o encheu de perguntas e ele riu.

– Ora, primeiro que assim que nascemos recebemos um Relicário dado por nossos pais, ele é de conchas, por tanto logo se desgastam e ao completar 20 anos temos que escolher um que vai nos acompanhar durante toda a vida…

– Mas, quanto tempo realmente vocês vivem? – Loreena o interrompeu e Golde revirou os olhos.

– Nós vivemos por muitas décadas, séculos… Não chegamos a realmente completar milênios, mas temos uma longevidade que Filhos do Barro jamais alcançarão… A não ser que morramos em batalhas. E como de século em século há guerras e guerrilhas, é raro chegar aos 700 anos… – Ele explicou olhando para o exterior chuvoso. – Os Relicários são feitos com os Cristais extraídos de Atlântida, que foram formados muito antes de nossa era, quando Lemúria ainda existia. São especiais, e cada Filho das Conchas escolhe ou faz o próprio. O cristal tem uma energia praticamente mágica, que se liga a você a partir do momento da escolha. Ele é insubstituível e intransferível, a não ser em caso de família quando o dono anterior o destina a algum descendente ao morrer. Quando está próximo do dono, emite uma luz e aquece como você viu noite passada.

– Nossa… – Loreena estava boquiaberta cada vez mais com as histórias que eles contavam. – E como funciona isso de manter a aparência jovem? Se Tia Emilly é uma Filha das Conchas por que envelheceu? – Disparou mais perguntas e ele riu agitando o cabelo com as mãos enquanto dava alguns passos pela salinha.

– Bom, os Relicários tem uma ligação mágica com nossa essência, praticamente, então é quase como se pedíssemos para que ele nos deixasse com determinada aparência. Claro, não é possível regredir a uma idade se vivemos com o Relicário, apenas crescer, mesmo que lentamente. As crianças crescem normalmente, mas ao receber o Relicário definitivo isso muda. – Explicou. – Emilly, como herdeira das Conchas, tente a ter uma longevidade muito além das expectativas dos Filhos do Barro… Entenda, – ele ergueu a mão quando viu que Loreena o ia interromper – o que nos permite viver por séculos e nos curar muito mais rápido é o Relicário, mas naturalmente, por nosso… Sangue, como posso dizer, temos uma vida mais longa que qualquer outro ser. Emilly chegaria com facilidade aos 140 anos, a aparência cada vez mais senil, mas como Filha das Conchas, sua consciência seria perfeita.

Loreena olhava para a tia enquanto Golde falava e ficava imaginando como seria quando Loreena tivesse 70 anos e a tia ainda viva, caso nada disso tivesse acontecido ou sido revelado. O rosto de Emilly estava sereno e cada vez mais saudável, desde que o Relicário voltara para seu colo, sua vida anterior parecia retornar a seu corpo. Mas permanecia adormecida, e isto realmente preocupava Loreena.

– Então… De que é feito seu Relicário? Parece Ônix… – Loreena puxou o assunto quase como um devaneio.

– Sim. É Ônix e Ouro. – Ele disse dando de ombros.

– Mas Ônix não se funde ao Ouro, pelo menos não dessa forma… – Ela começou e parou ao ver a expressão divertida de Golde.

– Então falava sério quando disse que gostava de pedras. – Riu – Eu também realmente gosto, e deve entender que todos em Atlântida têm bons conhecimentos, já que as ciências dos Cristais nasceram lá. E sim, Ouro e Ônix podem nascer assim, em uma jazida especial de Atlântida.

Loreena ia perguntar sobre como era seu lar, mas ele olhava para a janela, encarando a chuva e foi aos poucos perdendo a coragem. Ele poderia parecer não se importar de falar, mas Loree sentia-se cada vez mais intimidada pela postura do rapaz.

– Acho que você poderia tomar um banho agora. – Ela finalmente disse e ele olhou para ela com uma sobrancelha levantada. – Aproveito para pegar uma carona até meu quarto, já que preciso mesmo tirar um cochilo.

Subiram novamente a escada, desta vez mais leve, a perna doendo menos e permitindo um suave apoio. Ele a levou até o quarto onde ela arrumou uma camisa do Beirut, branca e com um desenho de bicicleta antiga. Foi até a mala velha com um pequeno aperto no coração, onde secretamente guardava algumas coisas dos pais e pegou a bermuda que pertencera a seu pai, a que ele geralmente usava nos piqueniques de domingo. Bem, não poderia guardá-la para sempre e era uma emergência.

– Acho que teve sorte por eu ter esta peça guardada. – Entregou a ele e viu a curiosidade brilhando nos olhos. – Pertenceu a meu pai. – Falou rápido, antes que ele dissesse algo e viu outro brilho nos olhos, uma tristeza que logo sumiu. – Guardo algumas coisas que foram de meus pais… Mas nunca pensei que… Fosse usar. – Tagarelou e Golde analisou a camisa.

– Nunca pensei que a camiseta de uma magricela fosse caber em mim. – Riu e Loreena corou. – E obrigado… Quer carona até algum cômodo ou…

– Vou tirar um cochilo na minha cama, obrigada… – Respondeu e em seguida sorriu. – Além do mais, não aguentaria sentir mais esse fedor de sangue de Telquine.

– Eu jamais fico fedorento! – Ele exclamou cheirando as mangas. – Mas vou tomar um banho porque não gosto de sangue seco.

Ele saiu do quarto e Loreena olhou para o mar através da janela. A chuva tomava o mundo e aquele frio que ela amava já deixava o ar úmido e agradável. O cansaço e as poucas horas de sono deixavam o corpo molenga e uma sensação de flutuar fez Loreena decidir deitar-se. Olhou para o relógio antes de desabar na cama, 6:37, foi a última coisa que registrou antes de seus olhos pesarem e sua mente afundar-se em um sono de puro cansaço, sem sonhos nítidos.

_X_

Claud revirava seus livros velhos, conhecimentos antigos que sua Emilly guardou enquanto ele não podia mais voltar para casa. Como deve ter sido doloroso para ela, olhar para estes livros e lembrar-se de toda a vida abdicada. Achou finalmente o livro grosso de capa dura, revestida de algum couro impermeável. Na capa letras antigas mais ancestrais que o grego, diziam “Sangue do Mar”, abriu as páginas envelhecidas, esverdeadas e amareladas em alguns pontos. Procurou página por página até encontrar o que precisava.

Naquele livro havia receitas que seus ancestrais descobriram e que eram muito usadas até poucos séculos atrás. Ele leu rapidamente a página, a respiração acelerando no meio e a cor sumindo do rosto pouco antes de concluir. Pegou uma folha na escrivaninha e começou a traçar os ingredientes que seriam necessários. No mesmo momento uma batida na ponta de corrediça da biblioteca o sobressaltou.

– Entre. – Falou e Golde adentrou no recinto, tomado banho, vestido de uma bermuda larga e uma camiseta branca um pouco justa.

– Tudo está em ordem, Divere. A garota foi dormir, a senhora está estável e tirei algum tempo para tomar um banho. – Claud apenas assentiu e tomou as anotações novamente. Após alguns minutos percebeu que Golde falava com ele e encarou o rapaz. – Loreena realmente se destaca da família. A irmã e a mãe são loiras e o pai moreno.

– Sim, eu reparei. – Claud disse ainda com o pensamento no livro.

– Mas pelo que vi, ela realmente se parece com a senhora desacordada, não me estranha muito que tenha acreditado ser sua sobrinha. – Golde continuou e Claud olhou novamente para o subordinado. – Achei que ela me lembra alguém quando a vi no festival, mas agora não consigo lembrar…

– Sim, também achei isso, mas esqueci quando Emilly desmaiou. – Claud finalmente falou. – Há quanto tempo a senhorita Loreena dorme?

– Duas ou Três horas pelo menos. – Golde respondeu prontamente – A deixei no quarto não eram sete horas ainda.

– Preciso que a acorde, tenho algo a falar com ela e se tudo der certo, uma tarefa para você. – Disse e Golde assentiu.

_X_

Loreena acordou com as batidas na porta, sentia as pálpebras pesadas de sono, mas sua mente disparou alguns segundos depois, lembrando-se da sua tia.

– Quem é? – Perguntou com a voz abafada.

– Divere quer uma reunião. – A voz de Golde soou do lado de fora. Ela se esticou e lembrou que precisava de ajuda.

– Pode entrar. – Golde abriu a porta e a ajudou a descer. A perna estava mais dormente do que dolorida agora.

Golde a levou direto para a biblioteca, Loree ainda esticou o pescoço para a sala e viu a silhueta adormecida da tia. Dentro da biblioteca Claud se encontrava atrás do gabinete, que ela percebeu que sempre pertencera à ele. Ele olhava para alguns papéis e só levantou o olhar quando ela sentou-se na poltrona da biblioteca.

– Como se sente senhorita? – Ele perguntou.

– Bem melhor, mas ainda estou sonolenta. – Loreena respondeu engolindo a mesma resposta mal educada da manhã.

– Tenho notícias da minha pesquisa. – Ele falou e o coração de Loreena contraiu-se. – Felizmente Emilly guardou todos os meus livros e encontrei o que precisava. É um processo rápido o que preciso para caso não a acorde, pelo menos possa levá-la para a Corte e trazê-la de volta à consciência…

– Mas… – Loreena encorajou-o.

– Preciso de alguns ingredientes e não posso me demorar muito, pois quanto mais tempo ela passar desacordada, menores serão as chances de trazê-la de volta à vida, e mesmo com o Relicário, ela ficará nesse coma infinitamente.

– Então vá buscar os ingredientes! – Loreena exclamou sentindo uma ansiedade imensa, mas ao ver a expressão quase de pena de Claud, encolheu-se na cadeira. – Quanto tempo nós temos?

– Temos exatamente até amanhã à noite para levá-la. – Ele disse e o sangue fugiu do rosto de Loreena. – Pedirei a Golde que vá imediatamente buscar os ingredientes, mas devo alertá-la, senhorita, que as chances dela acordar são menores do que 30% e que caso não acorde eu deva levá-la à nossa Terra assim que beber a poção… Entende o que quero dizer? – Claud indagou, mas Loree não conseguia falar e apenas assentiu – Isso levará pelo menos dois dias de viagem para lá e pelo menos um dia para curá-la e mais dois para trazê-la de volta.

– Mas e Jane? – Loreena indagou atordoada – Como poderei explicar a minha irmã o que está acontecendo?

– A escolha é sua, senhorita Loreena – Claud falou à contragosto, pois por si já teria levado sua amada até Atlântida – mas deve lembrar-se que estamos numa corrida contra o tempo, praticamente um luto provisório, pois não sabemos as seqüelas internas que a pancada causou.

Loreena ficou alguns segundos encarando o homem à sua frente, prendendo a respiração, sem conseguir pensar. Teria que envolver Jane nesse pandemônio, mas só na segunda. Ela ainda tinha uma chance de consertar as coisas e o faria antes disso. Se podia dar essa chance, mesmo que pequena à mulher que cuidou dela como uma parente de verdade, então ela daria.

– Diga-me quais ingredientes são precisos. – Ouviu a voz de Golde e assustou-se, pois havia esquecido sua presença.

– Precisaremos de Sinos-Irlandeses, uma mistura de Hortelã e Lavanda, vindas da China, mas que por sorte encontraremos em uma loja de flores. Quatro Trevos de 4 folhas, que também são facilmente encontrados…

– Apenas isto? – Golde perguntou, tomando nota da receita.

– Na verdade, temos sorte por um dos ingredientes só florescer à lua Negra… Pois estamos na Lua Negra! Erva de Hades, é uma flor muito bela, completamente branca que floresce uma vez no mês em ambientes rochosos e grutas. – Apontou para o desenho da flor e Loreena teve um estalo. – E precisamos de uma Água-Viva.

– Senhor, onde encontrarei esta flor? Se hoje é Lua Negra, só posso procurá-la hoje, já que amanhã preciso trazer tudo para preparar a poção.

– Na verdade – Loreena tomou a vez de Claud falar, ele não se ofendeu, na realidade surpreendeu-se – Eu sei exatamente onde você pode encontrar essa flor e as Águas Vivas estão no mesmo lugar! – Exclamou, surpreendendo a Golde também.

– Então explique-me!

– Você precisa seguir em direção Oeste, passando do festival você encontrará um tipo de cadeia montanhosa, então você precisa dar a volta por dentro da cidade, procurando a rua St. Louis e depois entrar na rua 15. Assim que entrar nessa segunda você pede a informação de onde ficam as velhas construções, então vai seguir a orientação. Nas velhas construções há uma casa, é a quarta ou quinta entre elas, que ao entrar vai descobrir que parte do piso afundou e poderá descer a escadaria de pedra até chegar a uma caverna no subsolo, só que esta caverna dá entrada para o outro lado do rochedo que falei, então você vai seguir pelo túnel de pinturas rupestres até sentir a brisa marinha, logo ali tem uma curva à esquerda…

– Espera, espera… – Golde falou, interrompendo-a – Me perdi na parte das velhas construções….

Loreena tentou explicar pelo menos três vezes, mas Golde não conhecia a cidade e Claud não conhecia o local, então não entenderam metade do que ela falava. O desespero começou a tomar conta dela. Exasperada ela levantou-se e bateu com as mãos na mesa.

– Não é justo! – Explodiu – A única chance que temos e não tem como você adivinhar onde fica este lugar? Você é algum retardado? – Ela falava para Golde, mas na verdade a raiva era de toda a situação. – Como pode não entender isso? Se você não é capaz de encontrar esse lugar, eu vou!

– Senhorita, não acho que possa se locomover hoje… – Claud interveio.

– Como assim não posso? – Ela agora desviava sua fúria a ele. – Estou de pé, não está vendo? Já posso apoiar essa droga dessa perna de leve ao andar. Vou alugar um par de muletas se possível, mas vou até lá. – Sentenciou, deixando a ambos sem palavras.

Golde estava maravilhado com a firmeza que Loree expressava seu desejo de ajudar e resolver a situação, enquanto Claud via uma Emilly mais jovem brigando com quem duvidasse de sua capacidade, e não sabia dizer se isto se dava pela criação de Emilly ou por ser natural a Loreena. Só sabia que não poderia impedi-la de fazer isso, mesmo que tentasse.

-Então, – Claud sentou-se expirando. – Comecem a se preparar, e Golde, dê uma olhada novamente nos ferimentos da senhorita Loreena.

Golde assentiu e guiou a garota para fora da sala, que praticamente não se apoiou nele para andar, como que para provar sua capacidade de realizar a busca. Loreena sentia a dignidade crescer, foram dois anos mórbidos e sem movimento, sem ação e sem nada, apenas a chuva, a tia e a irmã. E agora, mesmo em meio a este luto provisório, ela podia sentir que finalmente tomara uma atitude diante de tantas coisas e poderia salvar a vida de Emilly.

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Maysee foi interrompido e não tem previsão de retorno. Lamentando o transtorno.

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