A Garota Má (Pt.18/Final): Doce Sabor da Vingança

Escrito por Natasha Morgan

Cherry abaixou a pistola com lentidão e o riso escapou de seus lábios sem que pudesse se conter.

– Vai atirar em mim? – ergueu as sobrancelhas.

– O que você acha? – Alline a encarou de forma séria.

Cherry revirou os olhos, voltando sua atenção ao búlgaro. De jeito nenhum iria deixar qualquer um atrapalhar seu momento tão sonhado. A vingança estava ali, a poucos segundos de distância. Quase podia sentir seu sabor tocar a ponta da língua… Tão próxima.

Alline puxou o gatilho e a bala disparou perigosamente perto de sua rival.

Cherry sentiu o vento zumbir em sua orelha quando foi cortado pela bala, há poucos centímetros de seu rosto. Seus olhos focaram a outra, fuzilando-a.

– Eu disse para você soltá-lo! – Alline repetiu a ordem.

– O que houve com todo aquele papo de aliança? Não era você mesmo quem queria Bóris morto? Ofereceu-me até a liberdade para selar a barganha.

Alline suspirou com tristeza.

– Infelizmente os planos mudaram. Bóris vale mais para mim vivo. Sua família querida está lá fora no meu encalço, junto com aquela maldita mercenária. Não está disposta a lutar com eles para me proteger, está? – ela deu um sorrisinho. – É claro que não. Sendo assim, os planos mudaram. Agora abaixe a porcaria da arma!

Cherry engoliu o gosto amargo em sua boca.

– Ah, nem pense em ser idiota e lutar comigo! – Alline a alertou. – Eu realmente estou com a agenda apertada. Não me obrigue a atirar em você agora.

– Por que você acha que vai conseguir me acertar?

– Ambas sabemos que eu posso.

Bóris se aproveitou daquele momento de distração e deu um soco no rosto de Cherry com toda sua força, fazendo-a cambalear sem equilíbrio. Quando ela caiu no chão, acertou um chute em seu estômago com a perna boa, descontando sua raiva e frustração. E enquanto a garota lutava para puxar mais ar pelos pulmões, ele caminhou tranquilamente até Alline.

A sérvia o observou com cautela, medindo seus movimentos pelo canto do olho enquanto mantinha o revolver apontado para Cherry.

O Búlgaro ajeitou seu terno com esmero, examinando o tecido caro com pesar. Seus olhos fixaram-se na aliada, sombrios.

– Então tinha planos para me matar. – disse ele, com aparente tranquilidade.

Alline abriu a boca para se explicar, mas o tapa dele a silenciou. Bóris a agarrou pela garganta com um aperto de aço.

– Sua puta mal agradecida! – ele rosnou. – Eu lhe ofereço um império, uma aliança cheia de regalias e um posto de honra ao meu lado e o que recebo em troca? Traição! Eu deveria manchar minhas mãos com seu sangue indigno agora mesmo, mas graças às visitas inesperadas terei que adiar esse momento por mais algumas horas.

Alline esperneou, tentando se soltar.

– Eu salvei sua vida. – balbuciou entre dentes.

– Salvou sua própria pele!

– Não seja idiota. Os Von Kern vão nos matar!

Bóris olhou para a porta trancada ao fundo da sala, parecendo considerar o que ela dizia. E então a soltou.

Alline caiu desajeitada no chão. As mãos na garganta. Os espinhos da coleira haviam arranhado sua pele com a pressão, o sangue escorria em pequenas gotas.

– Não pense que me esqueci disso. – Bóris disse, encarando-a de cima.

Alline se levantou, juntando sua dignidade. Apanhou o revólver do chão e o manteve junto a si. Seus olhos se voltaram para Cherry. E Bóris os seguiu.

A garota se levantava com cautela, ignorando as dores no corpo, onde as feridas de outrora ainda não estavam completamente cicatrizadas.

– Então… O que faremos com você agora? – Bóris refletiu, recuperando sua pistola e a apontando para a assassina.

– Vocês tem duas opções: Puxem o gatilho e me matam, ou me deixam viver e perdem o resto de dignidade que lhes resta. À propósito, belo colar, Alline. Foi Meera quem colocou em você? – a risada sarcástica de Cherry ecoou pela cobertura, selando seu destino.

Bóris entregou sua pistola à Alline, apanhou um bastão de madeira jogado no canto do sofá e pousou na palma da mão.

– Vamos ver se continua durona depois que eu acabar com você…

 

Meera foi a primeira a chegar ao fim do corredor, perseguindo o rastro de Vedrana.

As botas de couro legítimo derraparam no mármore liso assim que freou no meio do caminho ao se deparar com a multidão de homens cercando o corredor.

Oh-oh.

Os capachos do búlgaro se viraram diretamente para ela, atraídos pelo som de passos. Estavam armados com pistolas profissionais e muito bem vestidos, no rosto expressões severas. O mais baixo deles, que vestia um terno elegante, deu um passo á frente, apontando um dedo ossudo para a mulher e gritando ordens numa língua estrangeira.

Os homens se mexeram em sincronia e doze pistolas foram apontadas diretamente para a mercenária.

Meera recuou um passo estudado, erguendo as mãos como quem se rende.

– Calma, rapazes. Não há motivos para serem rude.

O homenzinho de terno trincou os dentes.

– Matem-na!

Meera deu um sorrisinho, enfrentando os homens com os olhos altivos. Apenas um movimento quase imperceptível foi o suficiente para fazê-la agir. Num gesto simples, ágil e elegante, ela puxou a Khopesh[i] e rebateu as primeiras balas que vieram.

Os guardas passaram a abrir fogo, tentando de todo jeito acertar a mercenária. E ela soube se esquivar muito bem dos disparos numa elegância quase felina. Passou uma rasteira no capanga mais próximo, dando-lhe uma coronhada com o cabo pretencioso de sua espada. Agarrou o próximo pela bandoleira, dando uma cabeçada em seu nariz e empurrando-o em direção ao grupo, que cambaleou.

Foi puxada para trás pela trança e teve que manusear a espada para se livrar. Num golpe rápido e limpo, partiu ao meio o capanga que ousara tocar seus cabelos. O sangue respingou nas paredes adornadas, sujando os quadros renomados.

O homenzinho de terno gritou, assustado com a violência e se escondeu atrás do grupo armado enquanto seus homens avançavam um à um, perecendo diante da Khopesh da mercenária.

Do outro lado do corredor surgiram Sander e Willa, atirando nos seguranças. Willa parecia uma vingadora infantil com aquele cabelo cor de rosa, apontando sua arma para os homens uniformizados e atirando em suas cabeças.

Klaus, Halle, Fridda e King chegaram correndo, juntando-se ao restante e trazendo consigo mais um punhado de capangas. Dentre eles, Savedra.

Houve um pequeno momento de reconhecimento quando o grupo avistou Willa. Klaus lançou-lhe uma piscadinha antes de se ater aos seguranças perigosos que os separava da cobertura. O Mouro deixou sua espada em riste, jogando-se para cima da multidão entregando-se de corpo e alma àquela luta, ao seu lado, Fridda atirava com a garrucha. Halle se juntou à mercenária, lutando ao seu lado numa sincronia cômica.

E no meio daquela cacofonia de urros, gritos e lamentos, Savedra se enfiou no meio dos capangas, buscando segurança junto à porta fechada. O outro homenzinho se postou ao lado dele com a expressão amedrontada. Ele considerou abrir a porta, mas não enfrentaria a fúria do búlgaro caso desobedecesse a suas ordens. Preferia morrer sob a espada daquela bela e poderosa mulher do que ser submetido aos castigos de Bóris Petrov.

Meera pareceu notar seu medo absurdo, pois focou aquele olhar penetrante e sedutor no homenzinho. Num esboçar de sorriso, ela livrou-se de um dos capangas, aproximando-se mais um passo da porta. Uma assassina inteligente.

Halle lhe deu cobertura, avançando contra outra fileira de guardas e contando com a ajuda dos outros. Fridda estava às suas costas, golpeando os homens com seus punhos. King terminava o serviço, dando aos feridos a honra de sua espada fina. E Sander e Willa avançavam do outro lado do corredor, tentando derrubar a barricada que os separava de seus companheiros e da porta.

Fridda lutava no meio de dois caras muito jovens quando foi puxada pela gola da jaqueta como se fosse um gato indisciplinado.

– Aonde pensa que vai, velhinha? – o cara zombou.

Num movimento simples e preciso, a Bestemor lhe chutou estômago, virou-se com a garrucha e a enfiou na boca do capanga, puxando o gatilho e observando seus miolos se espalharem no lustre de cristal.

Meera riu.

– É o que acontece com quem te chama de velha.

– Pare de conversar e atente-se ao que é importante. – ela apontou os novos guardas que vinham naquela direção.

Meera levou um tiro de raspão no braço e se enfureceu, partindo para cima deles com toda sua raiva. Acertou um no rosto, outro no saco e um terceiro na orelha com a lâmina da espada imponente.

Pelo canto do olho viu Fridda soltar um risinho.

– Vocês duas estão competindo? – Halle perguntou, com humor, enquanto atirava.

– Não existe competição. – Meera o avaliou por poucos segundos. – Mas no seu caso posso abrir uma exceção.

O caçador ergueu as sobrancelhas num claro desafio e eles avançaram contra os guardas restantes, competindo quem matava mais. Em dado momento, ela largou a Khopesh, assumindo suas pistolas Grand Cannon e mandando bala para todos os lados. Mas sua empolgação a atrapalhou e foi atingida no rosto.

A Grand Cannon deslizou pelo chão.

Meera fuzilou o maldito capanga. Ele lhe deu um sorrisinho malévolo e ergueu os punhos num convite.

Ah, que se dane! Ia ser mano a mano mesmo.

Meera avançou, interceptando-lhe os golpes com maestria e acertando-o umas duas vezes no rosto enquanto ouvia a risada de Halle. Num pulo, enlaçou as coxas no pescoço do desgraçado e o torceu, ouvindo o osso partir num estalo. O capanga caiu morto.

Mas ela não teve tempo de comemorar. Era preciso agir bem rápido. Avistou suas pistolas a poucos metros á frente e correu em seu encalço, sendo seguida por mais dois seguranças. Habilidosa em artes que estavam acima da compreensão humana, a mercenária tomou impulso numa corrida frenética até a parede longa e lisa, seus pés tocaram o gesso sólido impulsionando-a para cima num mortal digno de cinema. Ela ultrapassou o capanga que a seguia, caindo em pé do outro lado e apanhando suas pistolas gêmeas.

O capanga se virou, confuso e sentiu-a pressionar o cano frio em sua testa.

Ela apertou o gatilho, enfiando uma bala no meio da testa do infeliz. Agachou-se com agilidade e atirou nos outros três que restavam.

Um silêncio duro se fez, enquanto eles respiravam com sofreguidão, cansados da luta.

O corredor jazia vermelho, cheio de corpos caídos.

– Mas que porra é essa? – Halle explodiu, fitando a mercenária. – Foi infectada pelo T-Vírus?

– Aposto como gostaria de aprender esse truque. – Meera lhe deu uma piscadinha.

Foram interrompidos pelas lamúrias do homenzinho de terno. Ele implorava, de joelhos, para Fridda lhe poupar a vida. E a velhinha se divertia com seu medo. Ao seu lado estava Savedra, rígido sob a arma de Klaus.

Meera se aproximou.

– Qual é o código? – perguntou.

O homenzinho começou a chorar e rezar para Alá, agarrando o Masbaha[ii] em seu pescoço.

Ela voltou seus olhos para Savedra.

– Diga-me você então. Não parece tão abalado.

O homem respirou fundo e enfrentou o olhar da assassina.

– Meu único dever é obedecer ao senhor Petrov.

– Só que agora você vai obedecer a mim. – a mercenária lhe deu um sorrisinho.

– Acredite, madame, nada do que me faça será pior do que Bóris fará se eu lhe revelar o código.

– Eu não sou uma Madame.

Meera o socou.

– Agora, abra a porra da boca!

Savedra permaneceu calado.

– Escute aqui, seu filho da puta! Uma vadia escapou de mim hoje e se refugiou nesta sala. Se você não abrir a maldita porta, posso lhe garantir o tipo de sofrimento…

Willa bufou, apontando a Beretta diretamente para a caixa digital na porta. Ela deu três tiros, estourando a pequena caixa metálica.

A porta se abriu num click.

Meera ergueu uma sobrancelha.

– De nada. – disse Willa.

 

*-* *-*

Cherry sentiu o maxilar explodir em dor ao ser atingida com o bastão de madeira no rosto. Curvou-se no chão, cuspindo os fragmentos de um dente. Bóris a rondava manuseando o bastão no ar, o sadismo marcando seu rosto ferido.

Do outro lado, Alline os observava com certa impaciência.

– É assim que eu gosto. Vadias curvadas para mim. – dizia o búlgaro, observando a garota no chão.

Cherry cuspiu mais sangue.

– Va à merda!

O próximo golpe a atingiu nas costas e suas costelas, já danificadas, protestaram num estalar repugnante. Ela gritou, sentindo um gosto ferruginoso amargar sua língua.

Bóris gargalhou, mancando ao seu redor.

– O que houve com a vingadora impenetrável? Não é mais a toda poderosa? –riu novamente.

– Não vai querer estar aqui quando ela retornar.

– Ah, Solina. Ainda acha que vai vencer essa batalha?

– A batalha? – Cherry riu. – A batalha não, seu velho. A guerra.

Bóris a observou com humor.

– Por um momento eu realmente pensei que fosse me matar. Olhe só como me deixou. – apontou para seu corpo lastimável. – Mas no fundo, você é apenas uma garotinha atormentada pelo passado. Mas, permita-me retribuir o favor. Estou louco para destruir seu corpo como fez comigo.

– É mesmo? Você só fala. Por que não vem aqui e me mostra do que é capaz? Ou o bastão de madeira tirou sua masculinidade.

Cherry gargalhou, provocando-o.

Bóris avançou contra ela, insultado. E levou um chute em sua perna ferida, urrando de dor.

– Ok. Já chega! – Alline interferiu, atingindo a assassina no rosto com o revolver. Seus olhos se voltaram para o búlgaro, furiosos.  – Drogue-a se for necessário, Bóris. Mas acabe logo com isso! Quero sair daqui agora.

Do outro lado da sala, ouviu-se um estouro e a porta se abriu.

– Merda! – Alline praguejou, dando um pulo para trás e apontando a arma naquela direção.

Bóris agarrou Cherry pelo pescoço, tomando-a como refém. Pressionou as garras de metal próximas à garganta dela enquanto pressionava uma pistola em sua cabeça com a outra mão.

Os Von Kern adentraram velozmente, sôfregos por sangue.

Mas foram obrigados a pararem ao se deparar com Cherry sob a mira de uma bala.

Fridda rosnou.

Alline arregalou os olhos diante daquela visão.

– Ainda está viva, velha. – sua voz soou assombrada.

– Não sou facilmente derrotada. E não poderia adentrar o submundo sem antes manda-la para o inferno, vadia.

– Sejam bem vindos à minha esplendorosa residência. – a voz pomposa de Bóris preencheu o salão, interrompendo a hostilidade entre as duas. – Não os esperava tão cedo, mas como um bom anfitrião, prometo entretê-los com grande espetáculo. Por que não se acomodam para apreciar a minha arte?

Klaus fez menção de avançar contra o búlgaro, mas Halle o conteve pelo braço, lançando um olhar de advertência.

– Solte-a, Búlgaro. Ou vai se arrepender pela eternidade. – alertou ele.

Alline deixou escapar um riso histérico, incapaz de se controlar. Seu coração batia à mil, extasiado com o que se desenrolava à sua volta. Estava alegre e aquela alegria a explodia por dentro.

Os olhos de todos se fixaram nela, incrédulos.

– Ah, Klaus. Não faz ideia do quão prazeroso é vê-lo tão impotente diante dessa situação. Como se sente sabendo que o poder não está mais em suas mãos? – ela deu um pulinho, resistindo à ideia de bater palmas como uma criança contente.

– Você é uma cadela traidora.

Um sorriso sedutor esboçou-se nos lábios tingidos de vermelho.

– Não sabia que ainda guardava ressentimentos. Sinto muito, querido. Não foi nada pessoal. Eu até me diverti bastante com você. Mas sua cama sempre foi fria demais.

Klaus rosnou, ultrajado – o que só provocou satisfação da mulher.

– Vai pagar por seus crimes. Isso eu prometo.

– E que crimes seriam esses? Mexer com sua preciosa família? Insultar sua masculinidade quase inexistente? – ela gargalhou. – Poupe-me de todo esse orgulho ferido, Klaus. Você não é mais o leão Nórdico. Não passa de uma alma caída diante de Deuses.

– Ah, não se trata de você ter me traído. Você traiu a Família. E isso é um insulto que eu levo muito a sério. Mas não se preocupe, querida vadia. Eu não vou mata-la. Vou deixar que briguem pela sua cabeça. Soube que é por demais cobiçada.

Meera, Fridda, Sander e Willa esboçaram um sorriso cruel.

Alline ignorou o arrepio que lhe subiu pela espinha. Encarou-os com altivez.

– Vocês não vão tocar em mim. Mesmo que anseiem tanto por minha alma. Terão que engolir o orgulho ferido e aceitar o que não podem mudar. Eu sou uma Borsahy. E vocês deveriam se ajoelhar aos meus pés.

– Você fala demais. – Meera se manifestou, abaixando as pistolas e avançando um passo.

Alline recuou, os olhos fixos na inimiga.

– Cuidado, Meera. Não somos mais irmãs. Não tenho mais nenhum motivo para deixa-la viva, mas milhares deles para derramar seu sangue. – ela disparou o revolver.

A bala passou zumbindo pela orelha da mercenária, ferindo-a propositalmente.

– Acha um absurdo minha traição para com a Família deles, mas o que fez comigo ultrapassa os limites da infidelidade.

Alline avançou alguns passos.

– Dê-me um bom motivo para não mata-la agora mesmo, kardeş.

Meera a fitou com intensidade.

– Você é uma vadia muito, muito burra. – disse e então pressionou o pequeno controle quase imperceptível que escondia nas mãos.

Alline só teve tempo de puxar o ar com a boca escancarada antes que os espinhos afiados em sua coleira penetrassem seu pescoço numa dor aguda. Ela soltou um gemido rouco, sentindo as lágrimas se empoçarem em seus olhos e caiu no chão molhado da chuva, engasgando com o próprio sangue.

– Não achou mesmo que eu não estaria preparada para sua fuga, achou? – Meera fitou o corpo com desprezo.

O silêncio se estendeu, sombrio, enquanto todos observavam o sangue se empoçar sob o corpo.

– Que sua tormenta no inferno comece. – Willa sussurrou.

Fridda não pareceu aborrecida, apenas lamentou não ter sido a assassina da Sérvia.

Bóris fitou o corpo caído no chão à sua frente, sem expressão. Talvez fosse melhor assim. Afinal de contas, a vadia tinha planejado traí-lo. Mulheres eram tolas se pensavam que podiam competir com homens… No entanto, fora uma mulher que matara sua cúmplice. Ele fitou a mercenária com respeito.

– Você é o próximo. – Meera lhe deu um sorrisinho.

– Eu poderia ficar zangado por ter manchado meu chão, se não fosse tão bela.

– Está tentando me seduzir para seu lado? – ela ergueu as sobrancelhas.

– Por que não? Mercenários são bem pagos. Posso lhe oferecer uma grande fortuna, além de uma posição prestigiada ao meu lado. Você parece muito mais inteligente do que sua ex- parceira. Aprecio mulheres inteligentes e bonitas.

– E quanto estaria interessado em oferecer?

Os outros trocaram olhares cautelosos.

– O quanto quiser, minha bela. – Bóris se aproximou, arrastando Cherry. – Disponho de uma fortuna quase infinita.

Meera o observou, fingindo refletir sua oferta.

– Não gosto de competição. Terá que largar a vadia em seus braços para selarmos um acordo.

Bóris riu, bem humorado.

– Não se preocupe, querida. Vou me livrar dela rapidamente assim que dispor do que é meu.

– É o que pretende comigo também? Dispor do que é seu?

– Eu só tomaria o que estaria disposta a oferecer.

– O que eu oferecer… – Meera sorriu. – Interessante.

Discretamente, ela trocou um olhar com Cherry. Seus olhos se encontraram numa fração de segundos e a outra fez um pequeno movimento com a cabeça.

– Diga-me, Bóris Petrov. Como pretende passar por eles? – perguntou a mercenária, apontando o grupo logo atrás deles.

– Com a cadela nos meus braços, é claro. É assim que vai ser – ele se dirigiu aos Von Kern. – Eu vou passar com ela e desaparecer pelos corredores. Se quiserem que ela fique viva, vão ficar aí quietinhos. Prometo devolvê-la depois que tudo terminar. Só não prometo que estará viva.

Bóris riu, dando alguns passos à frente. Automaticamente, sua mão se ajustou ainda mais ao pescoço de sua presa, mantendo-a quieta sob seu poder. Voltou seus olhos para a mercenária.

– Pode vir comigo, se quiser. Tenho planos para nós dois.

– Ah, Bóris. Eu também tenho planos para nós dois.

Cherry agiu nesse momento, virou o pescoço com brusquidão, sentindo as garras de aço lhe arranharem. Com o braço direito, aplicou um golpe na mão de seu captor, tomando a pistola preta com a qual ele a ameaçava. Empurrou-o com toda sua força com o braço livre, libertando-se de suas garras sórdidas.

Bóris cambaleou para trás. Ao ver-se vulnerável diante de seus inimigos, assustou-se de verdade. Chegou a recuar alguns passos e se esconder atrás do sofá de cachemir. A expressão atordoada. Mas o pânico só se instalou em seu interior de verdade ao olhar para o rosto de Cherry.

A assassina o fitava com uma exuberância felina. Pronta para a caça.

Pronta para destroçar a presa.

Os outros o cercaram, apontando suas pistolas carregadas num clara ameaça, os olhos dilatados. Sedentos.

Halle estava bem ao lado de Cherry, mas não ousou tirar a concentração dela, postou-se perto para mostrar seu apoio. Houve uma pequena roçada de mãos. E ela soube que ele estava ali, ao seu lado para apoiá-la no que quer que fosse.

Ao constatar que fora encurralado, o pânico cresceu dentro do búlgaro. Mesmo que quisesse, não havia para onde correr. Sua única saída era enfrentar a cólera da leoa… A Leoa que o esperava nos braços da morte.

Desesperado, olhou à sua volta na esperança de encontrar algo com que pudesse se defender. Encontrou o bastão de madeira caído ao chão, próximo a seus pés e o apanhou com sofreguidão, apontando-o para o grupo que o cercava.

Ninguém ousou adentrar aquele círculo. Ficaram imóveis, postados onde estavam, aguardando a leoa se manifestar.

Cherry avançou um passo, arrancando o bastão das mãos do búlgaro sem nenhuma dificuldade. Fechou o punho e o esmurrou com força no nariz, segurando-o pelo colarinho da camisa. Seus olhos ferviam de um ódio corrosivo. Ela o mirou com intensidade, desnudando sua alma.

– Eu poderia prolongar isso, como planejei. Divertir-me com sua agonia por meses, anos. Mas não vou levar isso a diante. Chegou o dia de sua alma apodrecer no mais pútrido inferno. Caronte o espera nas margens do Cócito. E eu me certificarei que não lhe deixem nenhuma moeda para pagar a passagem.

Cherry puxou a adaga no coldre de Halle e a enfiou entre as costelas de Bóris, cravando-a fundo até acertar um dos pulmões. O búlgaro emitiu um grito alto, postergado com a dor. E de seu peito saiu um chiado borbulhante. Ele caiu, estendendo o corpo agonizante e sem forças no chão de mármore.

Cherry deu um passo para trás e voltou os olhos para Willa.

A garota sentiu seus olhos encherem-se de lágrimas. Estendeu a mão para Sander e ele lhe deu uma das adagas que carregava. Ela fechou a mão no cabo macio, seus olhos continham um brilho feroz.

Klaus, Fridda e Sander também puxaram suas adagas.

Meera e King se afastaram, dando privacidade à família.

Mas Halle não. Halle juntou-se aos Von Kern, Cherry e Willa.

Bóris arregalou os olhos e o grupo avançou sobre ele, esfaqueando-o inúmeras vezes até que o chão estivesse banhando em sangue pútrido.

Eles se afastaram, ofegantes. Os rostos salpicados de sangue e morte. Cherry foi a única que permaneceu onde estava, os olhos vidrados no corpo retalhado de Bóris Petrov. Ela tremia. Halle se aproximou devagar, pousando a mão em seu ombro delicadamente. Seus olhos se encontraram.

Foi ela quem o beijou. Enlaçou os dedos nos cabelos negros, puxando-o diretamente para sua boca num beijo sôfrego. Halle a amparou, apertando o corpo ferido em seus braços. Em sua alma o alívio dominava. Desta vez pôde salvar quem amava.

Fridda se aproximou, abraçando a neta nos braços do Caçador. Willa juntou-se à eles e foi duplamente abraçada, acolhida no carinho daquela família pela segunda vez. Klaus se aproximou a passos cautelosos e apertou os ombros da sobrinha, a severidade nunca deixando seu olhar.

– Você conquistou sua vingança. Ambas conquistaram. – seu olhar passou à Willa. – Agora vamos para casa. Onde é o lugar das duas.

Sander tomou Willa nos braços, beijando-a no alto da cabeça. Em silêncio, acenou para o pai, demonstrando com um simples gesto o quanto estava honrado.

– Isso ainda não está acabado. – Cherry disse. – Meera.

– Diga, Franguinha. – a mercenária lhe sorriu, divertida. – O que tem em mente?

– Eu quero essa casa em ruínas!

O sorriso da mercenária aumentou.

– Vamos nos divertir.

Eles se separaram, espalhando pequenos blocos de explosivos por cada extensão da mansão. Willa se certificou de destruir metade das obras de arte por onde passava. Encontraram-se novamente no que restou do jardim. Meera armou os explosivos, conectando-os a uma pequena caixinha prateada.

O grupo se afastou da mansão, passando pelos muros destruídos da entrada e dando adeus àquela residência amaldiçoada. Estavam na segurança do estacionamento de cascalhos quando Meera estendeu o detonador à Cherry.

– Faça as honras.

Cherry apanhou a caixinha metálica, observando a mansão à distância.

Com um sorriso maligno, apertou o botão vermelho.

A mansão explodiu numa profusão de fumaça, reduzindo-se a ruínas sombrias. A poeira levantou no ar, levada pelo vento forte que fustigava os cabelos insanos da assassina. Seu sorriso se abriu um pouco mais, tornando-se uma gargalhada insana.

Sua vingança estava concluída.

Sua alma para sempre condenada ao inferno…

Mas o diabo teria que esperar mais um pouco para tomarem um drink.

Ela sorriu, estendendo a mão para Sander. Ele lhe passou um cigarro. Cherry o acendeu, dando um pequeno trago. Eles entraram no Mustang vermelho vivo, espremendo-se no banco de couro. Sander girou a chave na ignição, dando aquele sorriso moleque.

– Esta não lhe parece uma cena familiar? – perguntou ele, com humor. – Para onde vamos agora?

Cherry ligou o rádio, ouvindo o prazeroso som de Sympathy for the Devil. Ela sorriu, soltando a fumaça do cigarro.

– De volta para a estrada do inferno.

Sander acelerou e o Mustang desapareceu na estrada deserta.

Logo atrás, o belo Bentley seguiu seu caminho, levando o resto dos Von Kern, a mercenária e o Mouro.

 

Epílogo

Cherry acordou de um pulo, assustada com o pesadelo. Ofegante, varreu os olhos pelo quarto escuro, procurando qualquer tipo de ameaça. Mas não havia nada ali além da mobília simples. Respirou fundo, fechando os olhos e se permitindo relaxar. O silêncio era um tanto incomodo, um zumbido vazio em sua alma.

Voltou os olhos para o lado, onde Halle jazia adormecido, nu, debaixo do lençol.

Por um momento ela sorriu, lembrando-se da noite que tiveram. Quase podia sentir as marcas selvagens que os lábios dele deixaram em sua pele. Um arrepio frio a fez estremecer.

Levantou-se devagar, sem querer acordá-lo e caminhou pela casa escura até a cozinha, onde apanhou uma garrafa d’água. Bebeu com cautela enquanto recuperava o ritmo normal de sua respiração.

Seus pés a levaram novamente ao quarto, ela entrou no banheiro. Abriu a torneira da pia, encheu as mãos de água e banhou o rosto, encarando seu reflexo no espelho logo em seguida. A mulher que a encarou de volta era uma versão cinzenta da verdadeira Cherry.

Dentro de si, havia uma garota que queria renascer.

Mas esta garota não era Mona Von Kern.

Ela tocou o espelho com a ponta dos dedos, examinando seu reflexo sombrio. O rosto estava inchado das porradas que tomara, assim como o resto do corpo. Ela fitou a pele nua, analisando o quadril onde fora baleada, o roxo nas costelas quebradas e o restante de hematomas que descia até as pernas.

Seus olhos se voltaram para o espelho, encontrando-se.

Cherry apanhou a tesoura afiada no canto da pia. Olhou-se intensamente uma vez e apanhou uma mecha de seu longo cabelo sedoso. Cortou uma vez, sentindo um alívio quase surreal. Separou outra mecha e voltou a cortar. Até que restasse pouco de seus lindos fios platinados.

Ela balançou a cabeça, fitando-se novamente.

A Cherry que a encarou de volta era uma versão mais poderosa, mais segura e sem nenhum peso na alma. De seus olhos tristes caiu apenas uma lágrima, lamentando a inocência para sempre perdida.

O telefone tocou, do outro lado do apartamento, assustando-a.

Cherry se virou agilmente, num pulo, apontando a tesoura afiada na direção de onde veio o barulho. Mas ao se dar conta de que era apenas o telefone, relaxou, a respiração voltando ao seu curso normal.

Espiou o quarto escuro, Halle ainda estava adormecido, abraçado ao travesseiro dela.

Cherry franziu o cenho quando o telefone voltou a tocar. Largou a tesoura em cima da pia e pegou o fone no próximo toque.

A ligação estava horrível, um chiado rouco abafava o som de uma rua movimentada. Mas mesmo com toda aquela interferência, ela conseguiu ouvir claramente aquela voz fraca pedindo ajuda.

– … A Vadia me emboscou… – Fridda disse e então a ligação caiu.

 

O cemitério Mount Hope estava tranquilo àquela noite, em seu costumeiro ar de tristeza. O coveiro já tinha encerrado seu expediente e se despedia dos túmulos, depositando uma rosa vermelha em cada um, como fazia todas as noites em sinal de reverência aos mortos.

O ar frio circulava pelas lápides, açoitando os galhos das árvores que rodeavam o local. O perfume de jasmim era intenso, misturando-se facilmente ao cheiro de outras flores. Em particular um arranjo de amarantos depositado em uma das lápides recentes.

A terra no chão sob a lápide ainda estava vermelha, abrigando algumas pétalas de flores e a rosa vermelha que o coveiro havia deixado cair ao relento. O vento bateu zunindo nas pétalas da rosa, despedaçando-a sem nenhuma misericórdia e, onde elas voaram feridas, a terra começou a se mexer.

Uma mão crispada com unhas encardidas submergiu por entre as flores, cavando vorazmente, revolvendo a terra até o corpo ser cuspido para fora do túmulo. Uma respiração ofegante se fez ouvir, abalando o silêncio da noite enquanto a mulher recuperava o fôlego e se arrastava para fora da terra.

O uivo do vento era quase um alerta.

Ela se ergueu lentamente, sacudindo a poeira das roupas cerimoniais. Abriu os olhos para a noite e de seus lábios engruvinhados escapou uma risada tenebrosa que ecoou por toda a noite majestosa.

Fim?

Ha Ha Ha Ha…

Ledo engano.

[i] Espada curvada. Na ficção, usada especialmente pelos Borsahy.

[ii] Colar de contas que os muçulmanos costumam usar.

2 comentários em “A Garota Má (Pt.18/Final): Doce Sabor da Vingança

  1. Que??? Se vira quero a continuação. Alline sai do buraco, vovó Fridda morre e tú me escreve que é o fim???
    Pode não mulher, assim você me infarta.

    Mas…
    Ficou perfeito. Brincadeiras á parte posso dizer que valeu a pena a expectativa, a raiva de algumas personagens, acompanhar a evolução de todo com uma sincronia impecável. Foi maravilhosos ver nossa Cherry vencer ( em tese), a Willa crescer e todos nos fazerem se apaixonar pela A Garota Má.
    Que venha a continuação, querendo s com certeza mais Von Kerns no mundo.

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  2. ADOREI! simplesmente maravilhoso a maneira como escreveu a história nos envolvendo profundamente. estou aguardando avidamente a continuação, por favor, escreva logo e poupe a minha agonia esperando pela continuação rsrsrs.

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