A Estrela da Manhã [Parte I] Alvorecer

 

 

 

Anjo guerreiro I

Escrito por Naiane Nara

 

Tu eras o querubim da guarda ungido, e te estabeleci. Permanecias no monte santo de Deus, no brilho das pedras andavas.

 

Ainda não consigo acreditar que estou fugindo, que tenho que me esconder por ter cometido um único erro. Toda uma vida de dedicação não é suficiente? Fui para a guerra milhares de vezes ao lado de meu irmão mais velho, o príncipe das hostes celestes, o favorito Dele. E agora tanto meu irmão como meus camaradas de armas, alguns dos quais eu mesmo treinei, estão me caçando.

Sem misericórdia.

A voz ainda me faz estremecer. Cerro os olhos, evitando as lágrimas. Preciso continuar… Mas para onde? Deixei minha vida toda para trás, minha família, meus amigos.

A voracidade com que me caçam não deixa dúvidas, não mostra hesitação. Minha vida é assim tão preciosa para que eu a viva de forma vazia, fugindo? Encaro minhas mãos, que tantas vezes serviram aos propósitos deles, relembrando meu julgamento.

Gabriela, minha comandante, tinha o olhar vazio, sem foco, sem um sinal de compreensão. Não derramou uma lágrima ao ler minha sentença. Não fez um único movimento para impedir que todos naquele lugar me apontassem suas armas.

No fundo, creio que ela sabia o que estava para acontecer. Eu jamais ia me deixar derrotar.

Enfrentei a todos apenas com as mãos nuas, a mágoa a queimar dentro de mim me tornava insano. Depois de tantas vitórias para eles, afinal eu havia mesmo me tornado uma máquina de guerra. Destruí os mais de cinqüenta combatentes presentes de forma rápida, para que não sentissem a dor do fim de suas existências. Só restou Gabriela com seus olhos frios a me encarar. Eu sabia que ela soaria o alarme, como a guerreira leal que era. Mas minha insanidade morreu em seu olhar. Eu não conseguiria levantar as mãos ensanguentadas para atacá-la.

E não o fiz.

Sem saber direito o que fazer, cheguei ao limite dos Céus. Se me deixar cair, passarei por mundos e dimensões para chegar a desprezível Terra. Não vou suportar ter que dividir espaço com os seres de barro que usurparam o amor do Pai.

Não descerei a essa dimensão medíocre. Não viverei fugindo. Ouço o som das trombetas celestes, sempre presentes em qualquer invasão. Me virei, assumindo a posição de ataque, as asas muito abertas, alerta a qualquer aproximação.

O chão tremeu e as nuvens se esconderam. As hordas se aproximavam, lideradas pessoalmente por seu príncipe, seu general adorado.

Ele levantou o braço, deixando a mostra as costas da mão direita. O sinal muito conhecido de que ele é quem vai tomar conta da situação. A poderosa mão esquerda segura um fardo inerte, uma querubim de cabelos vermelhos, completamente ensangüentada e coberta de hematomas.

Meu rosto se contorceu imediatamente. Gabriela!

– Você passou de todos os limites, Miguel. – Consegui sussurrar com raiva.

Ele riu enquanto jogou o corpo da minha comandante no chão. Seus olhos tempestuosos me deram nojo.

– Ora, ora irmãozinho. Qual a surpresa? Quem ajuda um traidor deve morrer.

Não pude mais suportar.

– Ela não me ajudou, seu idiota!

Voei até Miguel e lhe desferi uma cabeçada. Trocamos socos e pontapés que rugiam como trovão. Travei a cabeça do general com meus braços em forma de chave e gritei:

– Melhor parar, ou seus animaizinhos de barro terão medo!

Miguel ficou ainda mais enfurecido, quebrando meu nariz com os socos que conseguia dar alcançando meu rosto. Acabei afrouxando a pressão dos braços e foi a oportunidade de receber chutes na costela, além de ter a espada de Miguel a menos de um centímetro apontada para um dos meus olhos.

– É a última vez que direi, irmão – Rosnou ele. – O Pai não quer ver você dessa forma. Basta somente se curvar a sua criação, como todos nós já fizemos. Por que quer destruir tudo?

– Não quero destruir nada! Sou um guerreiro celeste e tenho o meu orgulho. São seres ainda mais falhos que nós. Não me curvarei até que se provem dignos disso.

Miguel puxou meu cabelo e estapeou meu rosto inchado repetidas vezes. Em seguida me arrastou até o corpo inerte de Gabriela.

– Isso não é suficiente para que confie no julgamento do Pai?

Meus olhos se encheram de lágrimas, mas ainda assim não recuei. Gabriela não havia me ensinado a dar as costas para o inimigo e correr.

– Isso só é suficiente para desconfiar do seu julgamento do que é justo!

Levei uma joelhada no nariz já quebrado enquanto o ouvi dizer:

– Viram como a soberba o dominou? Duvida do julgamento do Pai. Quer ser igual a Ele!

Eu quis gritar mas minha voz estava fraca demais. Só consegui sussurrar:

– É claro que duvido do SEU julgamento, Miguel, não o Dele!

Os olhos do meu irmão mais velho brilhavam:

– Tarde demais. Todos já ouviram.

Miguel me golpeou repetidamente no peito e nas costas com a bainha de sua espada, se aproveitando da minha surpresa. Eu estava sem ar, mais pelo assombro que pela dor. Não podia acreditar que ele elevara nossa rivalidade até esse extremo. O príncipe dos anjos só podia ter enlouquecido.

Sua voz grave ecoou pelos céus:

– Perfeito eras nos seus caminhos, Lúcifer, desde o dia em que foste criado até que se achou iniquidade em ti.

Eu estava ajoelhado, assombrado demais para falar. Eu era o único quem impedia Miguel de tomar o poder absoluto. Sem mim, ele era o único príncipe das hostes celestes, o único herdeiro. Ele continuou, com a maior pompa:

– Pela multiplicação de teu comércio, se encheu o teu interior de violência, e pecaste. Pelo que te lançarei, profanado, fora dos montes de Deus e te farei perecer, ó querubim da guarda, em meio ao brilho das pedras.

Os olhos azuis de Miguel pulsaram e ele usou meu peito como bainha de sua espada, tão rapidamente que quase não houve dor. Com suas grandes mãos, arrancou minhas asas e isso sim foi a coisa mais dolorosa e insana que senti na vida.

Miguel gritou, saboreando a sua vitória:

– Eu expulso Lúcifer, a Estrela da Manhã, o mais belo e talentoso de todos os querubins, da minha morada. Nunca mais retornará aos Céus.

Com o pé direito, ele chutou meu peito, me empurrando para as fendas dimensionais que conduziriam a Terra.

Meu irmão, você vai pagar.

Caí, é a única coisa de que me lembro. O vazio sempre foi terrível. A escuridão me fez gritar, a mim, que sempre coloquei terror nos inimigos. Mas sempre estive em meio a mais pura luz, então a Terra para mim se converteu em um castigo e um tormento.

Minhas asas… Sem elas nunca mais seria o mesmo. Antes de mergulhar na inconsciência, eu as vi caírem também, Miguel as jogou fora como lixo. Tem que estar em algum lugar deste inferno. Preciso encontrá-las, preciso estar completo para consumar minha vingança.

Vaguei por muito tempo, imerso entre as lembranças e o ódio. O Pai estava ciente disso? Ele também me expulsara?

Algumas vezes ouvia as pessoas chamarem meu nome, oferecerem sacrifícios. Eu mal tomava conhecimento deles. Foram os causadores da minha queda, se houvesse algo que eu pediria, seria a destruição desse mundo e de seus habitantes.

Mas não precisava nem me esforçar. Os seres de barro consumaram todos os meus medos, não se mostraram dignos do amor do Pai e se destruíam sozinhos, além de destruírem a criação. Gostaria de ver a cara de Miguel agora, testemunhar sua desonra por ter se curvado a seres como eles.

Um dia, minhas forças simplesmente se esvaíram. Séculos, milênios a esmo, sem achar minhas asas, consumiram o que um dia restou de mim… Dormi, sem vontade nem esperança de acordar.

Não sei quanto tempo se passou. Mas gotas de chuva me acordaram e a primeira coisa que vi foi um rosto de mulher aparentemente preocupado. Certamente não poderia ser comigo. Não havia ninguém que pudesse se preocupar comigo no Universo.

– Ele está acordado – ouvi sua voz suave sussurrar. – Por favor, façam menos barulho.

Minha visão estava enevoada, mas pude ver seu rosto que se inclinava para o meu. Eu estava… Em um local branco, deitado em algo que não tinha a menor idéia do que fosse, mas me sentindo ligeiramente melhor.

A mulher disse com cuidado:

– Espero que esteja se sentindo bem. Meu nome é Daiana. Minha equipe o encontrou, junto a uma série de artefatos antigos e valiosos. – Seu olhar não conseguia conter o assombro. – Não pensávamos que estivesse vivo.

Encarei o teto, sem vontade alguma de falar. Ela suspirou e foi embora.

Mas todos os dias voltava para me ver, me contava algo novo sobre o mundo. Quando me senti restabelecido, se ofereceu para ser minha guia neste lugar desconhecido que afinal eu nunca quis conhecer verdadeiramente, já que era o local do meu exílio.

Contemplei de perto a miséria e a dor, mas também a alegria e os sacrifícios daquelas pessoas para sobreviver. Não pude deixar de me enternecer. A vida se tornou deveras difícil de ser vivida na Terra.

Provei os sabores, as comidas, algo delicioso que Daiana chamava de ‘sorvete’. Me fez ter lágrimas nos olhos de saudades de casa, por lembrar muito as nuvens radiosas.

E nessa fase tão tardia da minha vida, provei o amor pela primeira vez. Daiana foi minha guia também, me fez amá-la e as demais pessoas. Eu os protegeria da fúria de Miguel se fosse necessário, mesmo sem minhas asas.

Pensei que não pudesse amar mais, quando senti o pulsar de uma nova vida no ventre dela. Quando a última barreira caiu e mais amor inundou-me, quando menos podia esperar, encontrei minhas asas. Levou tempo para me restabelecer, e o fiz, com a ajuda de minha amada. Porém cada vez mais me esquecia de minha vingança, nunca mais falei em voltar para casa. Meu pedaço de paraíso estava na Terra agora.

Mas a vingança veio me procurar, claro.

Miguel estava furioso e mandou seus asseclas. Não atrás de mim, obviamente. Eles ainda tremiam ao ouvir meu nome, lembravam de quem eu era e tinha amor as suas existências. Mas foram atrás de Daiana e meu filho. Quando os encontrei, só havia o vermelho de sangue em seus corpos. Nenhuma vida.

Então algo dentro de mim morreu. Minhas asas se tornaram negras, meus olhos dourados ficaram maiores, assim como minha boca e garras assustadoras cresceram nas mãos. Meus chifres se tornaram ainda maiores e mais ameaçadores.

Perdi completamente o controle, me tornei um ser bestial e promovi a maior chacina de todos os tempos, anjos, arcanjos, querubins, serafins, humanos: tudo que estava na minha frente era destroçado, deixado da mesma maneira que encontrei minha família.

Eu só tinha mais uma vida para tirar, que era a de Miguel, depois me entregaria a morte. Mas o maldito nunca mais esteve face a face perante mim. Pediu ao Pai que interviesse, mas nem o Pai me deu a chance de explicar. Simplesmente abriu um buraco no abismo e me aprisionou lá, junto aos mais variados seres.

Eu me tornei o rei daquele lugar, daquela dimensão. Os seres, meus servos leais agora, me contaram que aquela prisão era fina e tinha validade. Inspecionei meus novos domínios e constatei que realmente aquilo não poderia durar mais que mil anos.

Enquanto isso, abri fendas pequenas para que meus servos saíssem e atormentassem as hostes celestes.

Mil anos não são nada. Eu vou esperar. E você vai pagar por tudo, Miguel.

 

 

*****

Fim.

Será?

12 comentários em “A Estrela da Manhã [Parte I] Alvorecer

  1. Então quer dizer que temos um plot twist?
    Miguel tinha tanto orgulho quanto Lúcifer, a diferença é que ele queria ser o cavaleiro da armadura dourada e Lúcifer não queria ajudar os homis?
    Ai ai ai!!

    Gostei, ein!!! Muito bom mesmo!

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