A Herança de Rowena [Capítulo 1]: Turbulento Paraíso

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Edwiges era uma das noviças que viviam no mosteiro desde seu nascimento. Ela tinha 17 anos e gostava de passear descalça sobre grama do pomar pela manhã e observar a floresta. Os animais pareciam senti-la e sempre permitiam a aproximação. Ela sorria suavemente, ouvindo o canto dos pássaros e sentindo o vento roçar-lhe a face.

A Irmã Leonor sempre ralhava ao vê-la descalça, em algum dia mais frio poderia sim contrair uma tosse e adoecer seriamente. Não que Edwiges não se importasse, era em toda uma boa noviça. Dedicava-se bastante aos estudos, mas ao contrário das qualidades devocionais comuns nas outras irmãs, não aplicava-se tão bem às leituras litúrgicas ou à caridade; Isso não podia forçar-se. Preferia cantar ao sol ou à lua, ouvir ao vento ou responder aos animais, e principalmente tocar a natureza, e senti-la dentro de si. Isso sim, lhe era tão natural quanto falar ou andar.

Sentou-se ao chão e aguardou, observando o interior sombreado da floresta por trás dos pomares. Sempre tivera tais visões, que mudavam de acordo com a hora do dia ou a estação do ano. Ao ter idade suficiente para perceber o que via, resolvera comentar com a Madre Superiora, explicando naturalmente e sorridente, como se dissesse que os rouxinóis cantavam e a Madre Cosete castigou-lhe, afirmando que as visões advinham do mal e que caso se deixasse levar, ela seria carregada pelas almas do inferno. Então, chorando, permitiu-se sentir as açoitadas de madeira nas costas, como punição por se permitir ter tais visões. Ela tinha apenas 7 anos.

Durante os meses seguintes, ela chorava e corria ao vislumbrar as aparições, mas nenhum mal veio, e no decorrer dos anos as visões perseveraram. Não havia nada de ameaçador nelas, mas aprendera que este dom não poderia ser compartilhado com ninguém.

Respirou fundo sentindo o calor do sol, suspirando o cheiro típico do verão e logo formou-se a figura. Um homem com vestes de folhas corria quase invisível entre as árvores, ao mesmo tempo a imagem de um imenso cervo branco e dourado, com chifres de galhos sobrepunha-se e tomava o lugar do homem. Corriam, alternando-se entre homem e animal, seguidos por outros pequenos seres silvestres, como coelhos, esquilos e pássaros. Era lindo aos olhos de Edwiges.

Tão rápido quanto aparecera, sumira. Edwiges permaneceu em sua meditação; no decorrer do tempo, passou a acreditar que esse era algum espírito da floresta, algum tipo de anjo ou guardião, mas suas conjecturas ficavam apenas para si, pois já ouvira sermões sobre os mitos pagãos de demônios disfarçados de espíritos florestais, embora pouco achasse provável que aquele ser fosse um demônio, não iria contar a ninguém o que vira.

– Madre Cosete vos chama, irmã Edwiges. – Ouviu a voz do frei Ducan, uma das poucas pessoas que compreendiam sua ligação com a natureza, sem saber das visões. Olhou para o frei, poucos anos mais velho que ela. Ele buscava nas árvores o que ela estaria observando, mas apenas os esquilos e pássaros lhes eram visíveis. – Ah, mal chega o verão e os esquilos já começam a brincar pelos galhos! Logo no outono os veremos tão ocupados em coletar alimentos que sequer será digno de contemplação.

– Tudo na terra é digno de contemplação, irmão. – Edwiges respondeu, levantando-se e sentindo as vestes úmidas pelo orvalho – Por mais dura que seja a visão, é a Terra que Deus criou e nos presenteou para viver, seja a diversão dos pássaros ou o trabalho duro dos animais por seu sustento. Ainda assim há beleza, no segundo caso, pois nós também plantamos para colher e ainda preparar nosso alimento, e isto, Frei, é trabalhar.

– Sábias palavras, irmã… – Frei Ducan a olhou espantado pela resposta, e ao mesmo tempo admirado. Sabia que ela possuía algo que outras irmãs não tinham. Era algo em seus olhos, que viam o mundo de um modo diferente das outras pessoas. Ela podia verdadeiramente ver e sentir. E isso a tornava também uma bela criatura.

Ao chegar a tais pensamentos, retesou-se e olhou para a Abadia do outro lado do pomar. Não podia chegar a estes caminhos. A tentação lhe era forte, ainda mais na idade que se encontrava. Mas era difícil lutar. Havia anos, a irmã Edwiges lhe despertara algo que sabia jamais poderia sentir ou entregar-se, e mesmo assim todas as vezes que ela lhe olhava falando tão sinceramente sobre o mundo em que vivia… Ah, mas havia consolo em tudo! Ah, sim! Assim como ele, irmã Edwiges logo se entregaria ao celibatário e ninguém poderia tocá-la, como ele também não podia. Isso consolava bem mais do que a dor de não poder tocá-la.

– Onde a Madre me aguarda? – Edwiges falou, olhando para a Abadia também.

– Na Capela, foi o que me pediu para vos informar. – Frei Ducan respondeu rápido e virou-se para contornar a grande construção e voltar ao Mosteiro. Mal Edwiges se encaminhou para a Abadia, ele parou para observá-la.

Ela havia crescido bastante, quase da altura dele, embora quando pequenos, ela fora menor que ele vários centímetros, agora era quase uma mulher. E que mulher maravilhosa ela seria, se não tivesse crescido no convento? O tipo que se casaria aos 14 anos e não havia dúvida que se ele mesmo não tivesse crescido na igreja também, seria o seu marido. Ah, esses pensamentos novamente! Apressou os passos para o mosteiro, precisava castigar-se por novamente deixar que a luxúria o dominasse em pensamentos.

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Edwiges entrou na Abadia e logo fez o Sinal da Cruz, ajoelhando-se e depois levantou-se para procurar pela Madre Cosete. A mesma se encontrava sentada à frente do altar, nas cadeiras laterais que eram destinadas às 12 irmãs mais velhas e à Madre Superiora. Caminhou silenciosamente até a sua reitora e, a não ser pelo suave chapinhar de seus pés descalços, úmidos da grama, nem mesmo o roçar de suas vestes de algodão cru podia-se ouvir.

– Chamou-me, Madre? – Falou, ajoelhando-se novamente em frente ao altar e ajoelhando-se aos pés da Madre, ao sinal desta.

– Sim, querida Edwiges. – Falou, a voz contornava a ternura maternal e pacifica que toda freira possuía, mas apenas beirava. Por trás dos dezessete anos assomados a si, havia certa raiva e inveja oculta da criança à sua frente e da sua origem e apesar de tê-la batizado, comungado, crismado, educado e orientado por esse tempo, não conseguia deixar de sentir o asco por cada vez a criança parecer mais com a sua mãe. – É certo que agora estás pronta, não? Já tem seis meses que o Postulantado foi aceito, e vejo que de vossa parte temos fé e perseverança, sim? – Falou dando um pausa apenas para observar as feições de sua noviça, então prosseguiu – Sabes que para casos de pedidos externos, após a aceitação do Postulantado, a noviciada terá dois anos para estudos e avaliações de sua vida eclesiástica. Mas em casos como o teu e das irmãs Anelise e Brigith, que se criaram dentro da igreja e estudando sempre a Palavra de Deus, então este período se resume a um ano, sim? – Falou.

– Sim senhora, decerto já sabia que em meu aniversário já realizarei os Votos Perpétuos e poderei servir o resto da minha vida à nossa Ordem. – Edwiges falou sorrindo suavemente, pois não convinha de uma noviça ou qualquer mulher que existisse esboçar imensas emoções dentro de uma capela.

– Falas com tanta certeza… – Madre Cosete falou com um ar de desconfiança, pois temia que o sangue nas veias da moça falasse mais alto que sua vida pura e criação benéfica. – De qualquer maneira é chegada agora a hora de observar o mundo lá fora. Do contrário como é feito para aqueles de fora que pedem o Postulantado e passam dois anos aqui dentro observando nossa vida, as noviças criadas aqui têm a permissão de conviver agora no mundo lá de fora, conhecer as pessoas e observarem a vida comum, para decidir o que querem.

– Mas… – Edwiges assustou-se, não conseguiria conviver com as pessoas daquela vila.

– Calma, criança. – Madre Cosete levantou um dedo em advertência à interrupção. – Tendes uma semana para decidir se realmente desejas passar esse tempo na vila ou aqui e se decidires viver aqui, pode visitar a vila regularmente, contanto que não tragas ninguém de lá. – Falou com um olhar ardiloso, que Edwiges não entendeu – Neste período de uma semana, poderás conversar com a Irmã Anelise, que realizará os Votos Perpétuos no domingo de Nosso Senhor. A irmã Brigith recebeu a concessão do Postulantado há duas semanas, portanto não deve dirigir palavra a ela sobre nossa conversa. – Falou olhando-a – É preferível, – disse prosseguindo – que passe esse período na Aldeia, pois vossa movimentação pode atrapalhar as atividades aqui. Assim que sair, terás três meses para passar por lá, sem esquecerdes as vossas atividades da Igreja, vindo à missa todos os Domingos e dias santos e também realizando suas orações e deveres. Ao fim de cada quinzena, um relatório escrito deverá ser entregue a mim para estudo meu o do Padre Edvard. Está entendida? – Concluiu, dando vez à jovem moça falar.

– Sim, Madre Cosete. – respondeu simplesmente, atordoada demais com a drasticidade que uma mudança para a vila poderia trazer.

– Vá agora ao seu quarto preparar-vos. Terei em parte com a irmã Anelise para que ela possa aconselhar-vos, mas tendes que lembrar: As escolhas, descobertas e experiências devem ser tuas e advir de um planejamento prévio, feito apenas e unicamente por vós. – Madre Cosete falou e Edwiges levantou-se, curvou-se à irmã, fez o Sinal da Cruz ao altar e saiu pelas portas laterais que levavam aos frios corredores de pedra. Deixando Madre Cosete analisando esta conversa.

Será interessante este estudo, sim. Logo saberemos se o sangue a corromperá ou se nossos sacrifícios tenham sido recompensados. Mas se esta criança perder-se neste mundo de Trevas, não terá sido culpa minha, mas sim dela própria e da própria imundice do sangue da mãe que terá se tornado um demônio a atormentá-la…”. E ao se dar conta do sacrilégio que cometera ao duvidar do poder de uma criação impecável dentro da igreja, ajoelhou-se para pedir perdão a Deus e acrescentou “Sei que a sua criação foi impecável e que mesmo quando pequena tenha sido atormentada por visões demoníacas, ela cresceu mais dedicada que nunca a Vossos Serviços, e quem sou eu, Pai, para duvidar das Tuas forças contra isso?

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Edwiges percorreu os corredores frios e úmidos que levavam à Ala dos Quartos das Noviças sem prestar atenção a nenhuma irmã que passava por eles. O chão estava tão frio que parecia molhado e o ar congelava seu corpo sob a bata. O silêncio era tão intenso que doía nos tímpanos e toda a paz que conseguira sentir pela manhã, dissipara com a conversa anterior. “Mas ainda tenho escolha” pensou, mas com pouca convicção, percebendo pela primeira vez que não sabia o que queria.

Entrou em seu quarto, pequeno, úmido pelas paredes e chão de pedras e tirou o hábito. Os cabelos imensos e ruivos caíram em uma cascata emaranhada de ondas. Madre Cosete sempre quis cortar-lhe o cabelo, e Edwiges permitira até os 12 anos de idade, quando soube que sua mãe possuíra cabelos longos e vermelhos. Irmã Bartolina contou-lhe sem querer, durante o trato ta terra, que a menina estava a cada dia mais parecida com a mãe. Espantada, Edwiges perguntou como era sua mãe e Irmã Bartolina disse-lhe que era alta e esbelta, parecia ter família rica, mas que nos poucos dias que passara ali não contara nada além da sua fuga. Os povos bárbaros haviam invadido seu vilarejo e, portanto, ela fugira, mas fraca demais, morrera. Quando a menina perguntou por que parecia com a mãe, a Irmã disse que a mãe tinha a mesma cor nas madeixas, possuidora de cabelos ruivos, compridos até os quadris e que Edwiges herdara tal aspecto.

Desde este dia dissera à Madre que fez uma promessa para deixar seu cabelo crescer, por isso a irmã não poderia cortá-los na altura do ombro como sempre fizera. Por viver no convento, precisava escondê-los dentro do hábito, já que os cabelos soltos eram para mulheres da cidade, mulheres que um dia casariam. Os cabelos soltos eram para aquelas que procuravam marido. Edwiges jamais casaria, e sequer sonhava em casar, era uma boa noviça e jamais falhara em seus dias de uma vida tão curta e jovem na serventia ao Senhor Deus. Exceto…

Exceto enquanto mentira sobre os cabelos, ou omitira quanto às visões nos bosques. Mas ela confessara-se assim que mentira, e o Padre Tobias a fez rezar um rosário pela mentira, mas não pudera fazer mais nada quanto ao cabelo, pois segredo de confissão não pode ser contado e ele não saberia o tamanho do seu cabelo escondido sob o hábito, então seu outro pecado foi omitir o fato de ter deixado o cabelo crescer ao Padre. Mas, de que outra forma se sentiria conectada à sua mãe?

Fora a aparência, possuía apenas a manta de rico bordado que a Madre entregou a ela, o tecido da cor do vindo aveludado e macio, com entranças douradas formando símbolos ocultos que descobriu ao ver a marca de onde foram costurados. A Madre não os vira, e algo disse a ela que não deveria mostrá-los, pois temia que isso lhe fosse tomado. Fora os Símbolos, bordados em uma das pontas da manta, havia duas letras “D” entrelaçadas com floreios e Edwiges supunha que seriam os sobrenomes de seus avós.

Este era seu terceiro pecado, ocultar os símbolos que desconhecia o significado da Madre Cosete e do Padre Edvard. Era errado mentir, omitir ou ocultar coisas. Era pecado grave agir de má fé para com as irmãs da abadia ou o papado. Mas porque algo dentro de si lhe dizia que era para sua própria preservação? Sua proteção? Seria isto a voz do diabo sussurrando no ouvido? Logo agora que o noviciado estava na metade! Sim, isto deveria ser um teste… E dignamente passaria por ele, enfrentaria a cidade e tudo o que ela continha, faria seus deveres e suas atividades diárias, mesmo fora da Abadia e… E as visões do bosque?

As visões que diariamente a acompanhavam desde que se lembrava… Como poderia deixá-la para trás… Sim, iria falar com a irmã Anelise, a quem não tinha muito apreço, pois parecia tentar humilhar ou zombar das outras irmãs ao dirigir-lhes as palavras, decerto, Anelise zombava até mesmo dos Padres, desde que eram pequenas e foi uma surpresa que a mesma não tivesse escolhido viver na aldeia após o tempo de vivência. Teria sim que falar com ela e tomaria a decisão final até a sexta, quando faria a sua primeira visita aos bosques, bem antes do sol surgir, pois antes de partir, precisava descobrir de onde vinham e o que eram aquelas visões.

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Continua

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