O sangue da Meia Noite – Capítulo 10: Verdades dolorosas.

Escrito por Natasha Morgan.

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Dimitri estacionou o carro em frente o jardim lateral da casa. Havia alugado o Lexus com um velho amigo tão logo chegou ao aeroporto de Seattle. De longe avistou Dolan elegantemente parado na garagem, o rosto preocupado. Antes que ele pudesse pensar ou dizer qualquer coisa, Gwen saltou do carro e atirou-se nos braços firmes do ex-guarda. Dimitri não pôde deixar de se surpreender, jamais entenderia como Gwen era tão afeiçoada à sua espécie. Ele desviou os olhos por um momento, perturbado.

– Minha menina – Dolan sussurrou no ouvido dela, igualmente emocionado com o reencontro. Ele a afastou para fita-la com mais atenção. – Como está? Cuidaram bem de você?

– Eu estou bem – ela sorriu, enxugando as lágrimas. – Heron cuidou muito bem de mim. Ele mandou lembranças.

Dolan assentiu, pensativo. Seus olhos se voltaram para Dimitri, parado ao lado de uma jovem ruiva. Ambos estavam em silêncio, apenas esperando.

– Heron alertou que viriam – disse Dolan. – Pelo visto Brasov não é mais segura.

-Houve um acidente. – Dimitri explicou. – Um dos exilados escapou de vista e adentrou as muralhas. Heron achou conveniente trazê-la de volta. Vou leva-la para Baton Rouge.

– Heron me avisou sobre isso também. – Dolan disse e estava claro em seu tom que ele não aprovava nada aquela ideia.

– Ela ficará segura ao meu lado, Dolan. –Dimitri garantiu.

– Ninguém está totalmente seguro ao seu lado, Fitzroy. Mas se meu filho deu tais ordens, eu as respeito.

-Heron não me dá ordens – Dimitri disse, um tanto irritado. – E não entendo o motivo de suas desconfianças, acaso eu alguma vez faltei com minha palavra?

– Quando há mulheres envolvidas, sua palavra nada significa. No entanto, vou confiar no julgamento do meu filho.

– Onde está minha mãe? – Gwen perguntou, impaciente com a conversa dos dois.

– Na cozinha. – Dolan a fitou, desconfortável com alguma coisa, sua voz saiu tensa. – As coisas andam meio complicadas por aqui.

– Por quê? O que aconteceu? – Gwen quis saber.

– Elin ligou para Sam ontem à noite para ter noticias suas – Dolan contou.

– Essa não.

– Deu o que ver para conseguir acalmá-la quando Sam disse que você não estava com ele. Sua mãe quis ir á polícia. Fiz um esforço danado para convencê-la de que você só estava buscando um lugar para se acalmar e que logo ligaria. Mas você a conhece…

Gwen suspirou, não gostando nada daquela situação. Lentamente se desvencilhou dos braços de Dolan e adentrou em casa, sentindo o aroma familiar de coentro. Seus olhos imediatamente encheram-se de lágrimas, não imaginava a dimensão da saudade que estava de sua casa, das suas coisas, da sua família.

Elin estava debruçada sobre a pia, trabalhando em algum prato especial. Ainda estava de pijama, os cabelos negros soltos e desalinhados, sua aparência refletia seu estado de preocupação. Gwen já a havia visto daquele jeito muitas e muitas vezes.

Aproximou-se lentamente. Podia sentir seu coração martelando no peito, ele doía ao pensar na próxima mentira que teria de contar àquela mulher tão extraordinária a quem amava tanto. Não gostava nem um pouco disso, mas se era para mantê-la segura, ela o faria sem pensar duas vezes. Sua mãe vinha sempre em primeiro lugar, era sua heroína.

Respirando fundo, ela disse:

– Mãe.

Elin se virou quase que imediatamente e pousou os olhos na filha. Suas feições, antes preocupada e triste, transformou-se em alívio. Ela correu naquela direção, tomando a filha num abraço sufocante e deixando o choro ha tanto tempo guardado finalmente fluir.

Gwen enterrou o rosto nos cabelos da mãe, inspirando o aroma adocicado que ela tanto amava. Aquele era o cheiro que ela reconhecia como lar. Imediatamente se sentiu segura de novo, como se os perigos estivessem todos enterrados e ela finalmente pudesse respirar aliviada. Estava em casa.

– Gwen – Elin soluçou, completamente emocionada. – Onde é que você estava?

– Perdoe-me, mãe. – Gwen pediu, chorando. – Perdoe-me não ter avisado onde estava, desculpe ter ido embora…

– Você está bem? – Elin a fitou com olhar preocupado.

– Agora eu estou. Eu só precisava de um tempo longe de todos. Mas não aguentei de saudades, precisava vê-la antes…

– Antes de quê? – os olhos de Elin eram atentos.

– Mãe, eu vou precisar voltar para a casa do Sam – Gwen cuspiu as palavras, odiando mentir para a mãe novamente.

– Você não estava na casa do Sam. – Elin disse, duramente.

– Não. Eu… – Gwen desviou o olhar. – Eu estava em um lugar diferente, não muito longe. Estava apenas esfriando a cabeça, mas achei que você pudesse estar preocupada, então voltei para garantir que estava tudo bem.

– Gwen, está mentindo para mim?

– É claro que não, mãe.

– Então por que eu tenho a impressão de que está? – Elin a fitou diretamente nos olhos.

– Não estou. – Gwen a encarou de volta, sentindo seu corpo inteiro tremer. – Estou apenas nervosa e envergonhada por ter mentido. Desculpe.

– Onde você estava?

Gwen hesitou por um momento.

– Estava em Los Angeles – disse ela, finalmente. – Tenho alguns amigos por lá.

– Você não tem amigos em L.A.

– É claro que eu tenho…

– Pare de mentir para mim, Gwen! – Elin explodiu, aborrecida. – Você saiu daqui contra a minha vontade, abandonou tudo dizendo que ia ficar com Sam para esfriar a cabeça e colocar tudo em ordem. Mas ambas sabemos que não estava com ele! Eu liguei e ele me disse que você não estava por lá. Devo mencionar o fato de ele ter ficado tão preocupado quanto eu quando soube que você estava sumida?

Gwen abriu a boca para argumentar, mas o olhar de sua mãe a fez calar imediatamente. A essa altura, Dolan, Erika e Dimitri já estavam ali também, ambos em silêncio, apenas observando o rumo que as coisas tomavam. Dolan se moveu uma única vez, postando-se ao lado da esposa como sempre fazia quando as coisas saiam dos eixos.

Elin esquivou-se dele.

– Eu exijo que me diga onde estava! – ela cobrou, fitando a filha seriamente.

– E- eu já disse que estava na casa de uns amigos…

– Ela estava na minha casa! – Erika disse, rapidamente.

– Está mentindo.

– Elin… – Dolan começou.

– Não! – ela explodiu, furiosa – Já chega de suas mentiras! Alguma coisa está muito errada por aqui e estou farta de vocês me escondendo. Exijo saber o que está havendo.

Gwen enrijeceu, seus olhos se voltaram para Dolan em uma súplica silenciosa. Já era hora de acabar com aqueles segredos, sua mãe merecia muito mais do que apenas mentiras vazias. Ele assentiu uma vez em silêncio, fitando a esposa com intensidade.

– Está bem – ele suspirou. – Você merece saber a verdade, Elin. Gwen, por que você não sobe para arrumar suas coisas?

– Dolan… – ela começou, pronta para argumentar, mas Dimitri agarrou seus ombros gentilmente, fazendo-a encarar aqueles olhos negros e profundos.

– Está tudo bem – ele disse, a voz muito gentil – Não vai querer ficar aqui. Sua mãe merece a verdade, permita que Dolan conte a ela.

Gwen o fitou por alguns longos segundos, absorvendo as palavras dele. Então assentiu uma vez timidamente e permitiu que ele a tirasse dali. Erika os seguiu, em silêncio absoluto.

Livre da presença da filha e sem entender nada do que estava acontecendo, Elin voltou seus olhos para o marido, pedindo-lhe a verdade silenciosamente. Dolan se aproximou com cautela e pegou as mãos dela nas suas, puxando-a em direção à sala. Ele a fez se sentar em um dos sofás, silencioso. Sua expressão era uma mistura perturbadora de preocupação, tristeza e medo. Elin jamais o vira assim em todo o tempo em que estiveram juntos, o que indicava que o que ele tinha a dizer não era nada fácil.

– Eu gostaria de nunca ter de lhe dizer tal coisa – ele começou, pouco a vontade. – Ou ao menos lhe contar tudo em um momento mais apropriado. Gostaria que fosse de minha vontade lhe revelar meus segredos, mas infelizmente não é.

– Você está me assustando – ela disse, a voz fraca.

– De fato você ficará assustada – ele garantiu.

– Apenas me diga. Eu quero saber, principalmente se tem alguma coisa a ver com Gwen.

– Honestamente, não sei como contar a você.

– Simplesmente diga. – disse Elin, impaciente.

Dolan a encarou por longos minutos, absorvendo a beleza daquele rosto. Quanto tempo mais ela o encararia daquele jeito tão doce? – ele se perguntou com amargura. Talvez ela jamais voltasse a olhar para ele depois que soubesse de seus segredos, isso lhe partia o coração. Mas que escolha ele tinha?

– Elin… – ele começou, hesitante. – O que vou lhe contar agora é algo muito sério, um segredo que guardo ha mais tempo do que você pode sequer imaginar. Preciso que você acredite em cada palavra que eu te disser, ouça com bastante atenção e saiba que não estou mentindo para você. Será muito difícil absorver tal segredo, talvez você nem possa… Mas ainda assim precisa saber. É seu direito saber do que está acontecendo a sua volta. – ele a fitou – É um direito seu saber o que eu sou. Mas eu peço a você, não eu imploro que me escute até o fim. Precisa entender que em nenhum momento eu quis e nem vou machucar você ou a Gwen. Tenha a certeza de que eu amo você. Amo vocês duas como uma família. Entenda e tenha a certeza disso.

– Diga! – Elin exigiu, perdendo-se em tantos pensamentos.

– Eu e meu filho viemos de uma família diferente… Diferente de uma maneira que você não pode entender. Ninguém de fato entende certas coisas. Somos parte de uma lenda tão antiga quanto o mundo, uma lenda que perdura até hoje em livros, filmes e contos populares. Mas de lenda nossa história não tem nada. Somos reais, assim como você. Apenas nos mantemos nas sombras, evitando o contato com humanos – ele pronunciou tal palavra com cuidado, percebendo como o corpo de Elin estremeceu.

– O que está tentando me dizer, Dolan? – ela o fitou, perturbada.

– Nós amamos a noite, vivemos por muito mais tempo do que vocês, mortais; não gostamos muito da luz do sol, veneramos a lua… Alimentamo-nos de sangue.

– Mas que babaquice é essa?!

– Acho que você não precisa que eu diga.

– Acho que quero ouvir de sua própria boca!

Dearg-Due na Irlanda, Ekiminus na Síria, Kathakano em Creta, Obours na Bulgária, Strigoiul na Romênia, Vârcolac na antiga Moldávia, Upierczi na Rússia, Vlokoslak, Inccubbus, Nosferatu… Tantos nomes em tantos lugares do mundo! Mas para vocês somos conhecidos como vampiros. – Dolan finalmente disse, fitando-a com cuidado.

Elin o fitava sem qualquer expressão definida, seus olhos estavam fixos nele, absorvendo tudo o que havia dito. Ela poderia ter rido, poderia ter se levantado e lhe dado um tapa pela piada sem graça, poderia ter fingido acreditar e desmascará-lo depois. Mas ela não fez nada disso. Seu rosto desmoronou em uma tristeza profunda e ela chorou, pois sabia no fundo de sua alma que aquelas palavras eram reais, que absolutamente tudo o que ele disse era verdade. Dolan jamais brincaria com uma coisa dessas e ela sempre soube, no fundo, que ele era diferente de tudo o que ela já conhecera.

– Eu não acredito em você. – ela se obrigou a dizer em meio ao choro compulsivo, como se dizendo isso apagasse a revelação dele.

– Você acredita sim – disse ele, tocando gentilmente seu ombro para confortá-la.

Elin recuou bruscamente, encarando-o com os olhos furiosos.

– Não encoste em mim!

– Elin… – ele parecia surpreso com a reação dela, embora não fosse uma surpresa tão grande ela reagir daquela forma. – Eu não vou machucar você.

Ela encostou-se à parede fria da sala, deixando seu corpo escorregar. Seus olhos o condenavam em silêncio.

– Como você se atreveu a entrar na minha casa? – ela perguntou, cruel. – Como se atreveu a entrar na minha vida? Na minha família! Como você se atreveu a me tocar!

– Elin…

– Você envolveu minha família nessa sujeira! – ela o acusou, furiosa.

– Eu amo você – ele deixou escapar, como se isso explicasse seus atos.

– Mentira! – ela cuspiu.

– Não, Elin – Dolan avançou em direção a ela, puxando-a do chão e agarrando-lhe as mãos bruscamente para imobilizá-la.

Furiosa e aterrorizada, ela se debateu tentando se libertar. Mas ele a segurou fortemente e a obrigou a fita-lo, prendendo-a em seus braços musculosos. Deixou que ela esperneasse até cansar, deixou-a descontar toda a raiva que estava sentindo.

– Elin, pare – ele disse, sacudindo-a – Eu não vou te machucar!

– Eu não acredito em você – ela gritou.

– Se eu quisesse machuca-la já estaria morta – disse ele, sombriamente.

Elin estremeceu com tais palavras, aquietando-se. Pelo pouco que conhecia das lendas sobre vampiros sabia o quão perigosos e cruéis eles eram, então tinha certeza de que Dolan estava falando sério.

– Você me magoa duvidando assim do meu amor. – disse ele baixinho, afrouxando um pouco o aperto. – Eu posso ser o monstro que você pensa que sou, mas eu amo você com todas as forças do meu coração e jamais a machucaria.

– Monstros não amam – ela murmurou com raiva. – Não são capazes de amar.

– Mas eu amo você. Com toda a minha alma eu amo você.

– Não! – ela tentou se soltar mais uma vez.

– Não acredita em mim, não é mesmo? – ele disse, triste. – Quando eu a vi naquele museu há alguns anos, eu pensei que jamais fosse capaz de me apaixonar novamente por uma mortal. Mas provei estar enganado no exato momento em que você cruzou seu olhar com o meu. Você me fascinou no primeiro instante em que eu a vi até o momento em que aceitou ser minha esposa e continua me fascinando todos os dias. Eu te amo como você jamais entenderá, mesmo que você me odeie agora.

– Mentiras – ela disse e o empurrou com todas as suas forças – Você vem mentindo para mim todo esse tempo!

– Somente porque eu precisei. – ele se defendeu. – Acha que foi fácil esconder essas coisas de você? Acha que eu gostei de te enganar dessa forma? Eu queria poder ter contado o que eu era desde o momento em que a conheci. Mas não é seguro para um mortal saber sobre nós, eu não podia me arriscar a perder você.

Elin balançava a cabeça de um lado para o outro, recusando-se a acreditar em qualquer coisa que pudesse sair da boca daquele monstro. Não podia acreditar que se permitiu amar aquilo, não podia acreditar que estava sofrendo por causa dele! Ela o odiava com o fundo de sua alma…

– Você permitiu que minha filha cometesse o mesmo erro que eu, você deixou seu filho entrar em minha casa e seduzir a minha filha. Você deixou Gwen se envolver com um monstro! – ela o acusou, insana de tanta raiva.

– Heron não fará mal à Gwen. Ele jamais faria isso, eu não o teria deixado se aproximar se fosse perigoso.

– Todos vocês são perigosos e cruéis. Caso não tenha percebido, Gwen sofreu mais do que você sequer pode imaginar por causa do seu filho quando ele foi embora!

– Heron só foi embora porque precisava acatar um chamado de nosso superior…

– Não interessa! – cuspiu Elin, cada vez mais irada – Ele foi embora e, mesmo eu estando feliz por isso no momento, não posso ignorar a dor que isso provocou na minha menina! Pouco me interessa suas desculpas por ter mentido, pouco me interessa suas justificativas por ter entrado na minha vida!

– Você é injusta comigo, Elin. – Dolan disse, fitando-a com tristeza. – Eu lhe dei amor sincero e em troca você me acusa de mentiras.

– Mentiras? – ela riu sem nenhum humor – Olha só quem está falando! Você mentiu para mim, você me enganou. Você me seduziu com suas trevas.

– Não é possível você pensar assim depois de tudo o que vivemos. Não é possível que você duvide assim do amor que sinto por você. Eu te amo, Elin Alles!

– Eu não acredito em você – disse ela, fria.

– Você não quer acreditar em mim.

– Não, eu não quero. E eu não vou! – ela desabou a cabeça nas mãos, soluçando. Não se permitira acreditar em mais nada do que ele dissesse, não permitiria que a sedução suja dele a corrompesse novamente. Pensar em tudo o que vivera ao lado daquele homem, se é que podia chama-lo de homem, lhe partia o coração. Ela realmente acreditou que tinha encontrado o homem de sua vida, ela se entregou completamente a ele, ela se permitiu amá-lo… E agora percebia o quanto havia errado.

– Elin… – Dolan sussurrou, a voz agoniada, e ameaçou se aproximar.

– Por favor, vá embora. – foi tudo o que ela disse.

Aquelas palavras o atingiram impiedosamente, fazendo-o paralisar ali mesmo onde estava. Ele a fitou por um longo tempo, procurando combinar as palavras dela com o que ela verdadeiramente sentia. Lentamente seus olhos se encheram de lágrimas ao se dar conta de que ela estava falando sério, ela realmente o odiava. Tudo o que viveram foi em vão afinal, todas as palavras, todos os toques, todas as promessas de amor. Ela simplesmente se esqueceu ou não se importava  mais com tudo aquilo, o que pesava, o que realmente a importava era o fato de ele ser um monstro.

Dolan sentiu seu coração se partir em mil pedaços ao se dar conta de que mais uma vez perdera um grande amor por ser o que era.

– Não! – o grito de Gwen o despertou de sua tristeza fria, ela desceu a escada correndo. – Não, mãe! Você não pode fazer isso!

Elin ergueu os olhos para a filha, incrédula.

– Você sabia! – ela a acusou.

– Sim – Gwen assentiu, incapaz de não se sentir culpada.

– E mesmo assim aceitou tudo isso? – Elin gritou, ainda mais indignada.

– Quando se ama, o resto é irrelevante.

– Amar? – Elin caçoou, por um momento deixando de ser a mulher que era. – Você só tem dezessete anos, não sabe o que é o amor de verdade. Sequer imagina! Mal viveu a vida.

Gwen recuou com as palavras da mãe, mal acreditando que ela tivesse dito mesmo aquilo. Logo Elin que sempre fora uma mulher tão alegre, compreensiva e amorosa. Não podia acreditar em tal reação.

– Eu sei o que eu sinto, mãe. – disse Gwen, magoada. – Eu tenho absoluta certeza de que é amor, pois sinto isso no fundo do meu coração. Como você me ensinou, você lembra? “Se você sente no fundo do coração, se sente na alma e em sua essência, se você sente em cada parte do seu corpo, então é amor” – ela recitou as exatas palavras que Elin tinha lhe dito há tanto tempo atrás quando estava explicando o amor à filha.

Por um momento, Elin abaixou a cabeça sentindo-se verdadeiramente envergonhada. Ela se lembrava exatamente daquele dia. Gwen havia chegado da escola, tinha treze anos e estava muito chateada porque não entendia por que tantas meninas tinham namorado e só ela não se interessava, lembrou-se da filha perguntando se o amor existia de verdade ou era só um mito. Ela havia se ajoelhado ao lado da filha e dito que o amor vinha na hora certa para cada um, que ela era jovem demais para encontrar tal sentimento, mas lhe disse para não desistir dele…

Essas lembranças só aumentaram a ferida no coração de Elin, pois ela não havia desistido do amor, mas ele a tinha traído no final ao fazê-la cair na sedução de um monstro e amá-lo com todas as suas forças.

– Eles não são humanos – ela disse num fiapo de voz. – Não se pode amar monstros, Gwen. E tampouco eles podem nos amar.

– Eles não são monstros, mãe. São apenas diferentes. E o amor… O amor não tem formas, Mãe. Nós apenas o sentimos e deixamos que ele nos complete incondicionalmente. Você sabe disso tão bem quanto eu, pois ama o Dolan de uma forma que só os que se permitem amar sentem. E eu tenho certeza de que esse segredo idiota não vai destruir esse sentimento.

– Segredo idiota? –Elin a fitou, cética. – Ele mentiu para mim! Escondeu coisas que eu tinha o direito de saber. Todos vocês esconderam – seus olhos passaram por todos ali e se fixaram e Dimitri – Aposto que você é um deles. Quantos mais de vocês existem?- seus olhos se voltaram para Erika.

– Eu não tenho nada a ver com eles, sou humana! – ela garantiu.

– Muitos – Dimitri respondeu. – Existem muitos.

– Está vendo? – ela voltou-se para Gwen. – Eles não têm alma, são frios como o gelo. Monstros! Não podem amar! São assassinos, Gwen.

– Mãe, você não sabe o que está dizendo… – Gwen começou, angustiada com a histeria da mãe.

– Não, Gwen. Ela está certa. – disse Dimitri, imponente. Com apenas alguns passos, ele se colocou na frente de Elin, capturando-lhe a atenção com o olhar sombrio. Pôde sentir a preocupação de Gwen e Dolan, mas não deu atenção a eles. Sua atenção estava fixa na mulher a sua frente.

– Você está certa – ele disse a ela. – Nós somos cruéis, monstros famintos por sangue. Você não pode imaginar as coisas terríveis que somos capazes de fazer com a sua espécie e até mesmo com a nossa. Você não faz ideia da dimensão da nossa fome ou a tentação da nossa sede. Posso garantir que seus medos são fracos perto do que deveria sentir. Mas eu posso garantir também que Dolan não lhe oferece perigo nenhum. Sim, ele é um de nós, um vampiro que precisa de sangue para viver. Mas ele jamais machucaria você ou sua família, tampouco outras pessoas. É um homem correto, por assim dizer, e um guarda honrado. Não precisa temer a ele e nem qualquer outro de nós enquanto ele a tiver em consideração, ao lado dele você e sua família estarão em perfeita segurança.

Ao seu lado, Gwen deixou de lado qualquer raiva ou ressentimentos que ainda nutria por ele e se permitiu admirar sua atitude. A sombra de um sorriso se formou em seus lábios à medida que ela o observava com os olhos brilhantes.

– Agora que você sabe que ele não fará mal a você, precisa fazer exatamente o que mandarmos se quiser que sua filha sobreviva. – Dimitri continuou, a voz sombria.

– Do que você está falando? – Elin recuou um passo, aflita além do normal.

– Estamos sendo perseguidos por nossos inimigos. – Dolan explicou. – Nós os chamamos de Filhos da Noite. Lobos selvagens e ferozes, incapazes de voltar a forma humana.

– Lobisomens? – Elin perguntou, assombrada.

– Não gostamos dessa expressão. Os Filhos da Noite eram como nós, mas se rebelaram contra nosso líder, Morris, e foram exilados. Eles se curvaram ao ódio e isso os fez ficarem presos dentro da fera.

– Vocês podem se transformar em lobos?

– Há muita coisa sobre nós que a lenda não conta.

Elin o ignorou completamente.

– E onde Gwen entra nisso tudo? – ela quis saber.

– Eles sabem sobre ela, sabem que ela é importante para nós e querem mata-la.

Instintivamente, Elin recuou dois passos e tomou a filha nos braços, apertando-a.

– Ninguém vai tirar minha filha de mim – ela disse e havia uma coragem admirável em sua voz.

– É claro que não! – Dolan fez menção de se aproximar. – Eles não vão pegá-la, nós não vamos deixar.

– É por isso que ela tem que vir comigo – Dimitri se adiantou, fitando a mulher com os olhos negros e profundos – Eles sabem que ela vive aqui. Já fizeram uma visita uma vez.

– O ataque de Heron – Elin se lembrou, espantada.

– Sim. Fui obrigado a mentir sobre isso também – Dolan disse, lamentando tal fato. – Aqui não é mais seguro. Ela precisa partir.

– Ir para onde?

– Para minha casa – disse Dimitri. – É o lugar mais seguro para ela nesse momento. Moro em Baton Rouge e tenho amigos que podem defendê-la por lá. Eu vou protegê-la.

Elin fitou o vampiro com atenção.

– E quem é você? – ela quis saber.

– Um amigo – Dimitri disse, respondendo de boa vontade. – Cuidarei bem da sua filha, Elin. – ele prometeu.

Gwen se obrigou a desviar os olhos dele, surpresa com a paciência que ele estava demonstrando. Voltou-se para a mãe, encarando-a com carinho.

– Vou ficar bem – prometeu. – Dimitri vai me manter segura.

– No que você foi se meter, Gwen? – Elin disse com tristeza.

– Vai ficar tudo bem, Mãe. Isso tudo é apenas uma fatalidade.

– Não, isso tudo é culpa dele – Elin apontou Dolan. – Se ele não houvesse arrastado nossa família para o mundo deles nada disso teria acontecido.

– Não, mãe. Isso não é culpa de ninguém. Ninguém me arrastou para esse mundo. Eu o teria descoberto mesmo sem conhecer Heron ou Dolan, pertenço à Meia-Noite tanto quanto eles.

Sem entender, de fato, o que Gwen queria dizer com aquelas palavras, Elin se concentrou no rosto da filha, os olhos enchendo-se de lágrimas.

– Nunca vou me perdoar se alguma coisa acontecer com você. – ela disse.

– Nada vai acontecer comigo, eu prometo. – Gwen disse e abraçou a mãe.

– Você precisa se aprontar – Dimitri as interrompeu – Devemos ir o mais rápido possível.

Gwen assentiu.

– Volto já. –ela disse, beijando a testa da mãe e subindo a escada junto de Erika.

Dolan se voltou para a esposa, o olhar profundo e repleto de tristeza.

– Você também deve partir. Esse lugar não é seguro para mais ninguém.

– Deixar minha casa? – ela parecia indignada.

– É preciso.

– Eu não tenho para onde ir, Dolan. Essa casa é tudo o que eu tenho, caso não tenha notado. – disse Elin, seca.

– Vá para a casa de Sam. Pelo menos até aqui ser seguro novamente.

Elin começou a protestar, mas Dolan a interrompeu.

– Elin, eu sei que você não quer mais me ver. Não vou insistir nisso, a decisão é sua. Mas ainda assim eu vou mantê-la segura.

– Manter minha filha em segurança é o bastante para mim. Estarei muito bem aqui, obrigada.

– Não estará, não. – disse Dimitri. – Eles vão voltar para cá tão logo perceberem que Gwen não está mais em Brasov e não vão se importar se ela não estiver mais aqui. Eles vão entrar, Elin, e você não vai querer estar aqui quando isso acontecer.

– Mesmo que isso seja verdade – disse ela – Não posso me arriscar a levar essas coisas para outro lugar.

– Eles não vão segui-la. É a Gwen que eles querem. E pode acreditar, eles roubam vidas a qualquer hora e em qualquer lugar. Acredito que o garoto Sam tenha forças para proteger você.

– Sam? – Elin fitou Dolan, surpresa.

– Sam é um de nós. –ele confirmou. – A história dele é complicada. Pode perguntar à ele quando estiver em Nova Orleans.

– Há mais algum de vocês que eu conheça? – ela perguntou de mau humor.

– Não – Dolan respondeu.

Por um momento, Elin se permitiu corresponder o olhar dele, perdendo-se na lembrança vaga do homem que um dia ela amara.

– Para onde você vai? – ela perguntou.

– Estarei por perto observando. Você me mandou embora e eu não oferecerei resistência. – disse ele, deixando a sala.

*-* *-*

Gwen bateu a porta do quarto com força e enterrou o rosto nas mãos, sentindo uma enorme vontade de gritar. Não podia acreditar em como as coisas estavam desmoronando ao seu redor. Tudo era uma grande confusão em sua cabeça, a separação temporária de Heron, o ataque cruel de Amadeo, as atitudes contrárias de Dimitri, a mudança para Baton Rouge… E agora aquela loucura com Elin. Tudo estava acontecendo muito rápido.

Erika aproximou-se cautelosamente.

– Eu sinto muito pelo que aconteceu.

– Tudo bem –Gwen suspirou – Já estava na hora da minha mãe saber de tudo. Eu só não imaginava que a reação dela seria assim.

– Foi uma grande revelação para ela. É difícil absorver tudo isso sem surtar.

– Eu e você não surtamos – Gwen a fitou com as sobrancelhas erguidas.

– Nós não somos normais – Erika deu um sorrisinho.

– Você não entende – Gwen suspirou – Eu nunca vi um casal tão apaixonado como aqueles dois, a sintonia em que eles viviam era intensa. Minha mãe jamais amou alguém dessa forma, tampouco foi amada. Entendo ela surtar, mas manda-lo embora depois de tudo o que eles viveram?

– Descobrir que o marido que você amou durante tanto tempo é um vampiro não é uma coisa fácil. Dividir uma parte de sua vida com alguém que você pensa que conhece e depois descobrir um segredo desses é um baita choque.

– Eu já estive no lugar dela. Quando eu conheci o Heron me deparei com essa situação, eu tive que fazer uma escolha. Eu escolhi aceitar o que ele era. Eu o escolhi.

– Há quanto tempo sua mãe conhece o Dolan?

– Já faz cinco anos.

– E há quanto tempo você conhece o Heron? – ela perguntou com as sobrancelhas erguidas.

– Muito menos que isso – Gwen admitiu.

– Viu só? É diferente. Você decidiu aceitar o Heron porque foi fácil para você absorver essa verdade mais cedo. Sua mãe não teve tempo de absorver tudo ainda. Cada um tem uma visão da vida, cada um tem um tempo certo para assimilar as coisas.

Gwen fitou a jovem com intensidade, percebendo a sabedoria naquelas palavras. Jamais imaginaria que aquela garota fosse capaz de dizer coisas tão inteligentes. Bom, ela nunca pensou que aquela garota fosse acabar sendo sua amiga. Não, elas não eram amigas, mas tinham uma ligação. E as coisas estavam melhorando entre elas – o que já era um progresso.

Realmente, as pessoas podiam surpreender de uma forma incrível.

– Vai ficar tudo bem – Erika garantiu.

– Você realmente acha isso?

– Tudo sempre acaba bem. E, além disso, se eles se amam tanto quanto você diz, então é claro que vão se acertar. Só é preciso ter paciência.

– Acontece – disse Gwen, marchando em direção à mala aberta no chão. – Que eu já vi essa história antes e sei como termina.

– Do que você está falando?  – Erika perguntou.

– Astrid.

– O que tem ela?

– Ela já foi apaixonada por Dolan e esse foi um preço alto a se pagar. Um preço que minha mãe jamais aceitaria.

– Não estou entendendo nada, Gwen. – Erika a fitou com confusa.

– Você se lembra de quando eu disse que Astrid era uma guerreira?

– Sim.

– Ela é uma guerreira – Gwen afirmou. – Ela sacrificou algo grande e muito poderoso para poder salvar a vida do filho. Ela entregou a própria felicidade para salvar as pessoas que ama.

– Do que é que você está falando? – Erika parecia estar cada vez mais confusa.

– Estou dizendo que quando Morris conheceu Astrid, ela era mulher de Dolan. – Gwen explicou enquanto socava as roupas dentro da grande mala preta.

– Faz sentido, eles têm um filho juntos. – Erika concordou, ajudando a colega com as coisas.

– Sim, mas o que você não sabe é que Astrid era humana nessa época – Gwen disse, vendo a expressão surpresa no rosto da outra – Esse amor lhes custou muito no final. Quando Astrid engravidou de Heron, Dolan foi obrigado a transformá-la em um deles para que sobrevivesse. O que ele não sabia é que o nascimento da criança despertaria a raiva de Morris, que já estava irritado com o romance dos dois. Dolan acabou se dedicando à família, muitas vezes esquecendo-se de sua obrigação para com o mestre, o que levou Morris a ameaçar a criança.

– Astrid se sentiu obrigada a proteger o filho e também o homem que amava, então se ofereceu à Morris como rainha. Morris não negou, é claro, pois já tinha se rendido aos encantos dela quando ainda era humana. Ela sacrificou o grande amor de sua vida para proteger o filho. – Gwen contou.

– Mas Morris parece amar o Heron – Erika argumentou.

– Ele gosta do Heron agora, depois que se tornou um bom e leal guerreiro.

– Mas o que isso tem a ver com a sua mãe?

– Minha mãe jamais será uma guerreira como Astrid. – Gwen explicou – Minha mãe jamais vai sacrificar seu mundinho feliz para viver com o Dolan nesse novo mundo que se abriu para ela.

– Não pense assim. Você não sabe como ela vai agir mais para frente, ninguém conhece o coração das pessoas a não ser elas mesmas. Dê um tempo à  ela  para pensar e digerir tudo isso. Eles vão se acertar.

– Eu realmente espero isso. Dolan fez muito por nós e também já sofreu muito. Ele não merece sofrer mais.

– Não estamos livres de sofrer quando decidimos amar alguém – Erika disse, com bastante sabedoria, ajudando Gwen a guardar algumas coisas em uma pequena necessaire.

Gwen sorriu uma vez para ela, gostando daquela camaradagem de última hora.

– Você vai querer se despedir de seus pais antes de irmos? – ela perguntou, em dúvida, lembrando-se da conversa que tiveram sobre a família de Erika.

– Não. – Erika respondeu, sem olhá-la nos olhos.

– Não sabemos quando iremos voltar. Tem certeza de que não quer ao menos dizer que está tudo bem?

– Eles não se importam. Qualquer mentira que eu conte está bom para eles, não vão criar problemas.

– Ok – Gwen assentiu, sem dizer mais nada. Respeitava a opinião da colega. Realmente, ter pais ruins devia ser uma droga. – Então a gente só passa por lá para você pegar suas coisas.

– É. Pode ser. – disse Erika, distraída.

Ela vagou os olhos distraídos pelo quarto, levantando-se para caminhar por ali e explorar as coisas da colega. Não queria falar sobre os problemas pessoais com a família, jamais gostara disso. Na verdade, nunca foi boa em lidar com sentimentos, por isso talvez fosse tão egoísta.

– Você o ama de verdade, não é? – ela perguntou, pensativa. – Quer dizer, você está deixando tudo para trás mais uma vez para poder ficar com ele.

Gwen não precisava perguntar de quem a outra estava falando.

– Na verdade estou deixando tudo para trás nesse momento para sobreviver – Gwen sorriu um pouco. – Mas, respondendo a sua pergunta, sim. Eu o amo de verdade.

– E você sabe disso como? – Erika a fitou.

– Eu sinto – disse Gwen com um sorriso.

– Você sabe que isso é loucura não é mesmo?

– O que é loucura? – Gwen a encarou, séria.

– O amor. Cedo ou tarde ele acaba te ferrando.

– Eu não penso dessa forma – disse Gwen, pensativa. – E nem consigo entender como você ou qualquer outra pessoa pode pensar assim. A Deusa, Deus e acho que todas as outras entidades veneradas no mundo ensinam que o amor é a base de tudo.

– Bom, eu não acredito nisso. – Erika disse muito sinceramente.

– E eu me pergunto quem foi que magoou você para que pense assim.

– Ninguém. Eu jamais gostei de ninguém dessa forma. – ela confessou.

– Então como não acreditar em uma coisa que nunca sentiu?

– Talvez seja esse o motivo. Eu nunca amei ninguém, tampouco fui amada. É normal eu não acreditar na existência de algo que jamais provei.

– Eu conheço pessoas que acreditavam no amor mesmo antes de poderem amar – Gwen lhe lançou um sorriso fraco.

– Bom, eu não tenho toda essa sua evolução – Erika brincou, permitindo-se sorrir também.

– Sabe, Erika, só porque você não acredita não significa que não exista. Uma hora você verá com seus próprios olhos e vai poder sentir. – Gwen deu uma piscadinha para ela. – Ou talvez opte por ficar sozinha mesmo assim.

– Não tenho toda a sua paciência, então vou me divertindo com as pessoas erradas até aparecer alguém que valha a pena. Se valer a pena! – a outra riu.

– É uma opção – Gwen concordou. – Tom seria a pessoa errada?

– Uma delas – Erika gargalhou. – Na verdade, Tom é controle. Só fico com ele para aumentar minha popularidade.

– Há outros meios de ser querida para as pessoas. Convenhamos, o Thomas é um babaca!

– Desta vez eu tenho que concordar com você – Erika assentiu. – Sempre o achei bobo, mas depois do que ele fez com você passei a ter absoluta certeza de que é um babaca.

Gwen deu um sorrisinho tímido.

– Espero que isso signifique que nossa briga por ele termina por aqui. – disse ela, brincando.

– Ah, não esquenta. Eu só implicava com você porque eu gostava. Nada tinha a ver com ele. Além do mais, nossa briga já acabou faz tempo. – Erika deu uma piscadinha camarada.

– Sabe, eu gosto da ideia de sermos amigas agora – Gwen confessou, preparando-se para a reposta sarcástica da colega.

Mas Erika a surpreendeu.

– Eu também – ela disse com um sorriso sincero.

E foi nessa hora que alguém bateu na porta. Dimitri entrou lentamente, correndo os olhos pelo quarto numa expressão aparentemente despreocupada.

– Devemos ir agora – disse ele.

– Tudo bem – Gwen assentiu, esvaziando mais uma prateleira rapidamente.

Dimitri se aproximou cauteloso à medida que ela terminava de aprontar as coisas , os olhos distraídos com o que ela estava fazendo.

– Eu devo desculpas a você – disse ele – Você estava certa no que disse. A culpa foi minha você ter sido atacada. E eu sinto muito mesmo por isso.

Gwen o fitou surpresa, procurando alguma coisa no rosto dele que delatasse cilada. Mas tudo o que encontrou foi sinceridade.

– Tudo bem – ela assentiu – Desculpe ter sido dura com você antes. Na verdade a culpa não foi de ninguém. O que aconteceu foi uma fatalidade. – ela o fitou intensamente – E obrigada por ter ajudado com a minha mãe lá embaixo.

Surpreso com a reação dela, ele desviou os olhos. Ao que parecia não gostava muito de ser conhecido como o bonzinho.

– Isso é tudo? – ele perguntou, apontando a mala gigante no chão.

– Quase tudo – Gwen disse, então se virou para o corredor e estalou os dedos – Psi, psi.

Tão logo ela chamou, Meia Noite veio correndo de onde quer que estivesse e, ignorando o vampiro no quarto, foi em direção à dona, esfregando-se em suas pernas e ronronando. Gwen a ergueu do chão com delicadeza e a beijou na bochecha macia, matando as saudades que estava sentindo de sua eterna companheira felina.

– Ela é linda! – disse Erika, aproximando-se e afagando a gata com carinho.

Meia Noite permitiu que a garota lhe acariciasse, mas lançou um olhar fulminante para Dimitri, avisando-lhe para nem pensar em tocá-la. Não que ele quisesse, pois olhava o animal com total desinteresse.

– Ela gostou de você – disse Gwen à Erika quando a gata começou a ronronar.

– E eu de você – Erika disse em uma voz infantil para o felino. – Ela vai conosco?

– De jeito nenhum! –Dimitri se apressou em dizer.

– É claro que ela vai! – Gwen rebateu.

– Nem pensar! – Dimitri teimou. – Um gato em minha casa? Pode esquecer. Caso não tenha percebido, eles não gostam muito de vampiros.

– Faz todo sentido. Sua energia é densa demais – disse Erika, fazendo uma careta.

– Não me importa se ela não gosta de você ou se você não gosta dela – disse Gwen. – Ela vai.

– Ela não vai! – Dimitri insistiu.

– Eu não vou embora sem a minha gata!

– Diabos, você é teimosa – Dimitri disse, frustrado.

– Sou e muito! – ela o encarou com determinação, pronta para enfrenta-lo com todas as suas forças e argumentos se assim fosse necessário para levar Meia Noite junto.

Mas não foi preciso. A carranca dele desmoronou e deu lugar a um sorriso por demais malicioso que arrepiou até os últimos fios de cabelo dela.

– Tudo bem, Gwen – disse Dimitri, cedendo. – Ela pode ir conosco.

Desconfiada, Gwen pegou o resto da bagagem e os seguiu pela escada, pensando no que aquele vampiro estaria aprontando. Não podia se esperar coisa boa por detrás daquele sorriso malicioso dele.

Elin estava sentada no sofá, a cabeça levemente baixa. Quando seus olhos avistaram a filha, seu desespero chegou ao limite e ela se entregou às lágrimas silenciosas mais uma vez.

Gwen tentou aparentar serenidade quando se aproximou, não queria magoar ou desesperar a mãe ainda mais. Abraçou-a com força, enviando uma boa dose de energia para ela através do abraço, na tentativa de fazê-la mais forte.

– Eu prometo que assim que isso tudo terminar, eu volto para você, Mãe – ela disse.

– Gwen, quando você voltar para casa, nada será como antes – Elin também prometeu, a expressão muito séria.

– Enquanto eu estiver fora pense muito bem sobre isso. Porque eu não quero que você cometa um erro estúpido somente por medo – Gwen a fitou com intensidade. – Você tem a chance de fazer uma grande diferença na sua vida e na vida do Dolan, então pense com muito cuidado, Mãe.

Ela se soltou dos braços de Elin gentilmente e se voltou para Dolan, atirando-se nos braços fortes e carinhosos dele.

– Sentirei saudades – ela sussurrou, fazendo força para conter as lágrimas.

– Eu também vou sentir – ele prometeu, abraçando-a com força. – Que sua Deusa a proteja sempre, minha menina.

– Assim seja – Gwen sorriu.

– Cuide delas, Dimitri – Dolan disse, fazendo um aceno afetuoso para Erika, que, surpresa, retribuiu.

Gwen se voltou mais uma vez para a mãe, o coração apertado. Queria ser capaz de adiar aquele momento para sempre. Mesmo com o comportamento egoísta, Elin ainda era sua heroína. Deixá-la era a coisa mais difícil que estava fazendo, muito mais difícil do que deixar Heron.

– Tchau, Mãe – ela disse, a voz quebradiça. – Sentirei saudades todos os dias.

Elin a tomou nos braços, suavizando a expressão dura e apertando a filha com força.

– Apenas volte para mim, minha menina – ela chorou.

– Eu voltarei – Gwen prometeu.

Surpreendendo a todos, Elin se voltou para Dimitri, os olhos suplicantes.

– Cuide da minha filha – ela pediu.

– Ela estará em perfeita segurança comigo – prometeu ele, surpreso com a reação da mulher. – Você tem a minha palavra.

– Ela ficará bem, Elin – Dolan garantiu, aproximando-se automaticamente. Mas parou tão logo percebeu seu erro, ela não era mais sua esposa. – Dimitri é um excelente guerreiro.

Elin o fitou, por um momento sem aquela raiva cega. Mas logo desviou os olhos para a filha, suavizando a expressão, voltando a ser a antiga Elin.

– Que Deus a acompanhe, filha – ela disse.

– Eu acredito em uma Deusa mulher agora, Mãe – Gwen sorriu. – E tenha a certeza de que Ela sempre me acompanha.

Elin não pareceu surpresa com as palavras da filha, então apenas assentiu uma vez, beijando-lhe a testa antes de deixa-la finalmente partir.

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