O Sangue da Meia Noite – Capítulo 09

Escrito por Natasha Morgan.

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Gwen sentou pesadamente na cama, pensando no que faria primeiro. Ainda tinha a toalha felpuda enrolada ao redor de seu corpo, os cabelos penteados e secos. Seus olhos avançaram para a mala ao pé da cama, toda desarrumada e a tristeza novamente a invadiu ao pensar em voltar para casa.

Estava louca de saudades de Elin, é claro. Mas pensar que teria de se despedir dela mais uma vez para ficar fora por um tempo indeterminável era angustiante. Quando aquilo tudo terminaria? Quando poderia voltar para a sua vida normal? Quando poderia estar reunida com sua família amada novamente e ser feliz?

Aquelas perguntas não tinham respostas ainda…

E, de repente, uma vozinha maldosa sussurrou em seu ouvido: Não era você mesma que sempre se queixou de uma vida normal? Não era você mesma que ansiava por um amor que lhe tirasse o chão e reverberasse por sua alma?

Gwen suspirou, irritada. A voz tinha razão. Ela não queria uma vida normal, ela queria uma paixão intensa. E conseguira.

– E eu não mudaria nada! – ela disse a si mesma. – Amo Heron e se pudesse voltar no tempo faria tudo de novo. Não serão esses exilados idiotas ou a distância cruel que me farão me arrepender de minhas escolhas.

Decidida e enfrentar as consequências por suas escolhas, ela se levantou da cama e fuçou a mala, procurando por qualquer roupa que a mantivesse protegida daquele frio cruciante que fazia ali em Brasov. Vestiu uma calça jeans reforçada, uma blusinha de renda fina e um suéter verde oliva. Por fim, empurrou o restante das roupas para dentro da mala e fechou o zíper sem muito esforço.

A batida suave na porta a sobressaltou. Heron certamente não se incomodaria em bater. Seus pensamentos voaram para Dimitri e ela sentiu seu corpo estremecer, não queria ficar perto dele tão cedo. Se pudesse adiar aquele encontro por apenas alguns minutos a mais, ela seria eternamente grata…

Mas ao se aproximar da porta, sentiu a suave energia conhecida e não pôde deixar de sorrir por reconhecer quem era. Gwen murmurou um entre e aguardou, sentada na cama.

A porta se abriu lentamente e Erika entrou bailando. Usava uma calça de lycra preta que modelava perfeitamente o corpo bem feito e uma blusa grossa de mangas compridas na cor bege. Os brilhantes cabelos ruivos estavam soltos em ondas suaves. E ela trazia uma caneca fumegante nas mãos.

A garota sentou-se ao lado de Gwen na cama e lhe entregou a caneca.

– Como você está? – perguntou, a voz rouca.

– Estou bem – Gwen suspirou, realmente se sentindo bem. – O que é isso? –ela olhou em dúvida para o líquido fumegante.

– Chá. Helve me ajudou a preparar, vai te fazer bem. Tem um pouco de Mõlly aí dentro.

– Obrigada – Gwen agradeceu e bebericou o chá, suspirando quando o líquido quente e gostoso desceu por sua garganta.

– Eu senti… – Erika disse no silêncio que se fez. – Senti quando você foi atacada.

Gwen a fitou, surpresa.

– Eu tentei ir até você, mas Dimitri não me deixou – Erika explicou. – Ele disse que Heron cuidaria de você melhor do que ninguém. Disse que ele teria que sugar o veneno que o exilado deixou em você. Eu senti tudo. Sua dor, sua agonia…

– Eu sinto muito – Gwen disse, sincera.

– Eu sei. – Erika deu de ombros. – Não foi sua culpa. Temos uma ligação agora.

– Você não parece muito gostar disso.

– Bom, eu não gosto de sentir dor, então não me culpe por estar fula da vida com essa história de sentir o que você sente. De qualquer forma, essa erva – ela apontou para a caneca – Vai impedir que aqueles exilados mordam você novamente. Isso os repele.

– Vou me lembrar disso – Gwen assentiu.

Erika a fitou por alguns momentos em silêncio e então explodiu:

– Honestamente? Você é uma idiota! – disse, furiosa. – O que diabos você estava pensando quando saiu sozinha no meio da noite? Se tivesse ficado lá comigo naquela torre nada disso teria acontecido.

Gwen a encarou, pronta para rebater, mas ao olhar bem para a colega se deu conta da preocupação espreitando os olhos claros.

– Sim, sim… – Erika confirmou, exasperada. – Eu me preocupo com você, sua tola!

– Lê meus pensamentos agora? – Gwen escondeu o sorriso.

– E acaso eu tenho escolha?

– Não acho que nenhuma de nós tenha, embora eu não me importe de estar ligada a você.

– Ah, claro. É maravilhoso compartilhar dor e agonia! – ela disse, irônica.

– Eu teria impedido isso se soubesse como. – Gwen respondeu, sentida.

Erika suspirou.

– Sim, eu sei disso. Você está bem mesmo?

– Agora eu estou. Heron me deu um pouco do sangue dele para eu me recuperar. – Gwen contou.

– E o que isso provoca em você? – Erika perguntou, verdadeiramente curiosa.

– Sarou a minha ferida – Gwen ergueu a bainha da blusa para mostrar a pele intacta. – E eu me senti muito, muito bem.

– Certamente não foi só isso – Erika a fitou com intensidade por um breve momento, enxergando algo através dela. – Sua aura está muito mais brilhante.

– Ele disse que isso aconteceria mesmo.

– Como é? – Erika perguntou – Como é sugar o sangue de um vampiro?

– A sensação é inexplicável. Quando eles sugam o seu sangue, a saliva deles libera endorfinas. Mas quando é você quem suga… É inexplicável.

– O gosto é…

– Doce – Gwen sorriu. – É claro que não se espera isso uma vez que para nós, humanos, o sangue tem gosto de ferrugem. Mas o sangue dele é doce, como uma mistura inebriante de vinhos antigos.

– Você parece ter gostado – Erika observou.

– É difícil não gostar de alguma coisa que tenha haver com Heron. – ela sorriu timidamente.

– Ah, sim… Porque ele é lindo, sensual e gostoso. – Erika sorriu, insolente como sempre. – Olha, Gwen… Seu namorado pode ser tudo isso, mas eu fico com o Dimitri. Aquele cara é o cara…

Gwen enrijeceu ao ouvir aquele nome novamente. Sua mente vagou pelas lembranças dele se deliciando com aquelas duas mulheres e depois com a lembrança cruel do beijo que lhe roubou. Seu coração pulou uma vez dentro do peito e então voltou a bater descompassado.

– Eu só saí do bar sozinha ontem à noite porque Dimitri me beijou – ela disse abruptamente, sentindo a necessidade de contar a alguém.

– O que foi que você disse? – Erika a fitou, cética.

– Isso mesmo que você ouviu. Eu fugi dele, por isso fui atacada.

– Uau! – Erika corou um pouco.

Gwen ficou em silêncio, observando-a absorver aquela verdade.

– E o que você fez? – Erika quis saber.

– Eu correspondi. – confessou, Gwen, perturbada.

– Não acredito! E eu achando que você era toda certinha… Parabéns, Gwen. Agora sim você me surpreendeu.

– É sério, Erika! Não tem a mínima graça. Eu não queria que ele me beijasse.

– Então por que você o correspondeu?

– Eu não sei… – ela suspirou, angustiada.

– Está arrependida.

Não era uma pergunta, mas Gwen respondeu mesmo assim.

– É claro que estou arrependida! Foi uma total idiotice. Eu amo o Heron e me sinto uma cretina por tê-lo traído desse jeito.

– Você não o traiu. Foi apenas um beijo roubado ao qual você não teve chances de resistir.

– Eu tive chances de resistir!

– Gwen, Dimitri é alguém completamente fora do comum. Ele é lindo, sensual, sedutor… É normal sentir interesse por ele. Quem não sente? Mas você ama o Heron. O que aconteceu já passou, foi uma estupidez sem sentido. Apenas isso. Nada mais importa.

Gwen a fitou por um longo momento, analisando a expressão sensata da colega.

– Você deve ter razão. – disse por fim em um suspiro aliviado.

– Eu devo? – Erika deu uma gargalhada, voltando a ser a insolente de sempre. – Não, meu bem. Eu tenho razão!

Gwen não pode deixar de rir.

– Arrogante como sempre…

– Ora, essa é minha marca registrada! Não está contente? Peça à Deusa então para quebrar nossos laços e te dar outra parceira. – ela disse e piscou.

Gwen estava rindo quando a porta se abriu novamente e Helve adentrou. Ela usava o mesmo vestido vermelho de antes e um manto acima do ombro, a coroa de cristais de Alta Sacerdotisa pendia em sua testa, brilhante.

– Minha querida – a bruxa sorriu afetuosamente, estendo os braços.

Gwen saiu da cama apressada e se atirou no abraço da Sacerdotisa, soluçando.

– Ora, bruxinha, por que está chorando? – Helve perguntou.

– Gostaria de não ter que ir embora – Gwen disse baixinho.

– Não quer abandonar Heron – ela sorriu compreensiva.

– Não… E nem você.

– É necessário. – Helve sentou-se na beira da cama, entre as duas jovens – Estaremos esperando você retornar quando for seguro.

– Não gosto da maldita distância – Gwen resmungou, fungando.

– E quem é que gosta? – Helve riu. – Pense na distância como um aprendizado. Como um fortalecimento no amor que você sente pelo jovem Heron. Você tem uma jornada pela frente, Gwen – os olhos da Sacerdotisa brilhavam, sérios e misteriosos – Tem coisas a aprender sobre você mesma nesse período. Você tem vai evoluir antes de poder ficar ao lado de quem ama.

– Não acho que eu vá evoluir coisa alguma convivendo com Dimitri, a não se a minha paciência.

– Você vai perceber que ele tem muita coisa a ver com a sua evolução, pequena – Helve disse com um toque de humor na voz, fazendo Gwen estremecer levemente. – Não tenha medo de se afastar um pouco de Heron. Ele ama muito você, mas também precisa saber da dimensão desse amor. Nada como a distância para reforçar tais laços.

– Eu sei que você tem razão, Helve. Mas a distância é também muito cruel.

– Eu entendo o peso da distância. Mas no momento ela é necessária para a sua segurança e para a sua evolução. Confie em mim.

– Eu confio – Gwen assentiu. – Assim como eu confio na minha própria intuição me dizendo que devo ir, embora eu saiba que é a maior furada.

– Uma bruxa sempre sabe o que deve fazer.

– Sentirei saudades – Gwen disse, sentindo as lágrimas invadir os olhos. – Não sei como e nem por que, mas gosto de você como se fosse minha mãe.

– Posso dizer o mesmo de vocês duas. – Helve disse, fitando as duas meninas com carinho. – Para uma Sacerdotisa, todos seus aprendizes são como filhos. E eu as vejo como as minhas mais queridas meninas.

Ambas a abraçaram, mergulhando na paz profunda que emanava daquela mulher misteriosa e antiga.

– Vou deixa-las agora, pequenas bruxinhas. – Helve disse e lamentou tal fato – Vim me despedir e desejar que façam uma viagem tranquila. Que o vento leve vocês em segurança, que o fogo queime os perigos que se atrevam entrar em seus caminhos, que a água acalente as tristezas impostas e que a Terra sustente cada uma de vocês. E que a Deusa abençoe suas almas – ela fez uma pequena mesura, abençoando-as tão logo recitou a antiga benção celta que conhecia.  – Não temam, pequenas. Tudo vai se resolver no final e vocês poderão escolher o caminho que querem seguir. E se acaso quiserem meus conselhos, simplesmente me procurem… Sei que arrumarão um modo de me achar. – a Sacerdotisa piscou uma vez, misteriosa antes de sair suavemente.

Erika sorriu para a colega, entendendo a mensagem secreta nas palavras de Helve. Uma bruxa sempre reconhece os truques de outra.

– Acho que não ficaremos tanto tempo sem vê-la – disse Erika.

– Também acho – Gwen sorriu em cumplicidade.

A porta mais uma vez se abriu e desta vez foi Heron quem entrou no quarto, acompanhado de Astrid. A vampira estava bela como sempre e foi logo abraçando Gwen com afeto enquanto Heron pegava as malas no chão e se encaminhava para fora.

Erika o acompanhou em silêncio pelos corredores sombrios, deixando Gwen com sua amiga, ou seria sogra? Ela deu de ombros, mais preocupada em sair logo daquelas terras frias do que pensar em bobagens.

Gwen realmente aproveitou a presença de Astrid, andando ao seu lado.

– É uma pena que não possamos ficar juntas por mais tempo – Astrid disse com tristeza – Gostaria de lhe mostrar tantas coisas.

– Você me mostrará! Teremos essa chance quando isso tudo terminar. – Gwen prometeu.

– Assim eu espero, minha querida. Já era tempo de tudo isso ter acabado. Espero que não demore mais. – uma tristeza antiga fundiu seus olhos.

– A esperança é a última coisa que devemos perder. – Gwen disse ao lhe tocar o ombro suavemente.

– É como todos aqui pensamos – ela sorriu, aprovando o comentário da jovem. – Espero vê-la de volta a essas muralhas, ao lado do meu filho como uma princesa. Seríamos uma família feliz. Você até perderia o medo de Morris. – a vampira sorriu, divertindo-se com aquilo.

– Eu espero realmente um dia perder esse medo – Gwen confessou com um sorriso.

– Ele não é tão cruel quanto aparenta. É durão demais, apenas isso.

– Espero um dia poder conhecer o coração dele de verdade – Gwen disse com sinceridade.

Astrid lhe sorriu com carinho.

Gwen caminhava pelos cascalhos brilhantes, vendo o grande portão de ferro logo a frente. Embora estivesse compelida a ir naquela direção, sua vontade era agarrar-se a Heron e fugir para um lugar só deles onde ninguém pudesse separá-los novamente. Como se pudesse ouvir seus pensamentos, ele assumiu o lugar onde Astrid estava, dando um beijo suave na bochecha da mãe. Astrid sorriu uma vez, enlaçando o braço na cintura do filho com o mesmo carinho.

Gwen desejou desesperadamente ficar ali com eles, como uma família de verdade. Mas ela sabia que isso não seria possível no momento. Recordou-se das palavras de Helve e tirou forças dela para conseguir atravessar aqueles portões.

Seu coração se apertou de um jeito doloroso quando percebeu que o momento da partida estava chegando rápido demais. Seu medo não era tanto o de ficar longe de Heron, mas sim a possibilidade de ficar perto de Dimitri.

Ele estava lá, parado casualmente ao lado do portão, sedutor e sensual. A calça grossa e negra em conjunto com o casaco marrom escuro dava a ele um ar sobre-humano, mas também uma beleza irresistível. Quando seus olhos se encontraram, ele abriu um sorriso estonteante que a fez querer sair correndo.

– Vejo que está melhor – ele disse, observando-a com atenção. – Bom.

– Graças ao Heron estou muito bem, obrigada. – Gwen disse, seca, e desviou os olhos.

Astrid lhe sorriu com carinho e lhe deu mais um abraço.

– Vá com sua Deusa, querida. E que ela te proteja sempre. – disse a vampira, com afeto.

Morris, que até então não estava presente, se aproximou a passos largos. Sua presença sempre seria surpreendente para ela, principalmente quando ele se vestia com tanto esmero. A túnica negra daquela noite tinha o bordado cor de sangue, o que o fazia parecer ainda mais sobrenatural e atraente.

– Faça uma boa viagem, pedacinho de gente – disse ele e, ao que parecia, sua voz soara gentil.

– O-obrigada. – Gwen agradeceu em um sussurro, mas viu Astrid apertar o braço do companheiro em sinal de aprovação.

Erica se despediu dos outros também, um pouco acanhada e então eles se dirigiram ao carro luxuoso do lado de fora dos portões, onde Dimitri os esperava. Gwen agarrou a mão de Heron com força, acompanhando-o em silêncio. Ele colocou a bagagem no porta-malas e se voltou para o colega.

– Leve-as para San Diego para que possam se despedir da família. Depois vá para Baton Rouge e as mantenha em segurança. Cuide delas como se fossem parte de sua família. – Heron alertou, sério. – Estou confiando em você para isso, Dimitri.

– Elas ficarão bem – Dimitri garantiu. – Sua Gwen ficará bem.

– Não deixe que nada aconteça a nenhuma das duas. – Heron insistiu. – E não pense que eu não sei que você a beijou. – ele disse, lançando um olhar muito sério ao outro. – Não tente nenhuma idiotice ou eu acabo com você!

– Não seja egoísta, Heron. – Dimitri o provocou – Já dividimos tantas mulheres antes.

Heron sentiu o sangue ferver em suas veias, a provocação do outro o irritou o suficiente para fazê-lo virar-lhe um soco. Dimitri cambaleou, esfregando o ponto onde o soco o atingiu. Com um sorriso malicioso, ele limpou o sangue do canto da boca.

– Até parece que nunca foi assim – ele riu, fazendo Heron se recordar do passado e irritando-o ainda mais.

– O que eu fui um dia já morreu. Mantenha-se em seu lugar!

Dimitri cuspiu o sangue no chão e entrou no carro, o sorriso malicioso intacto no rosto. Gwen o acompanhou com o olhar, não sabia ao certo o que dizer ou fazer. Aquele soco fora muito bem vindo, ele merecia.

Heron a envolveu gentilmente com os braços, enterrando o rosto nos cabelos macios e cheirosos sem dizer uma única palavra. Queria poder se lembrar do cheiro dela para sempre… Seus lábios roçaram os dela gentilmente, exigindo um beijo. Algo que ela jamais lhe negaria.

Gwen envolveu-o com os braços, deslizando os dedos pelo cabelo macio como tanto amava fazer, desejando que aquele beijo durasse uma eternidade. Seus lábios não eram gentis, ela queria guardar o gosto dele em sua boca por tempo o suficiente para não sentir saudades.

– Tome cuidado, Mici. – ele disse entre um beijo e outro – Fique sempre ao lado de Dimitri, mas tome cuidado com ele. Se ele tentar qualquer coisa, defenda-se com a sua magia, sei que pode fazer isso.

– Desculpe, eu devia ter… – ela começou, mas os lábios de Heron a silenciaram novamente, tomando seu fôlego.

– Sem desculpas, Gwen – ele sussurrou contra a boca dela – Não precisa me pedir nada. Eu sei que a culpa não foi sua, ele joga sujo. Por isso deve ter o máximo de cuidado. Eu confio nele inteiramente apenas para protegê-la, mas duvido que ele possa manter as garras longe de você.

– Eu terei cuidado. – ela prometeu.

– Não se esqueça de mim, Mici. Porque eu não vou me esquecer de você em nenhum momento. Prometo te buscar o mais rápido que eu puder.

Ele a beijou mais uma vez, apaixonadamente.

Te iubesc – sussurrou em seus lábios.

Gwen não precisava de tradução.

– Eu também amo você – ela disse.

Heron a beijou uma vez mais na testa, então seus olhos se voltaram para Erika.

– Cuidem uma da outra – ele disse, sério. – Helve não as uniu à toa. Cuidem uma da outra e fiquem sempre juntas.

– Não se preocupe, Heron. Vou cuidar dela – Erika garantiu.

– Não é somente com ela que eu me preocupo, Erika. – ele disse, com intensidade. – Vocês duas são responsabilidade minha.

Erika o fitou, confusa e surpresa por um momento, então assentiu, entrando no carro.

Gwen se voltou para Heron mais uma vez.

– Mantenha-se sempre na luz. Não deixe a escuridão chegar perto de você novamente e se acaso elas insistirem, lembre-se de sua estrela. Jamais deixarei de brilhar para você. – ela disse e o beijou uma última vez antes de entrar no carro.

Quando fechou a porta, Gwen pôde sentir as lágrimas banhando seu rosto e soube que aquilo era apenas o começo. Mas ela precisava enfrentar isso e estava decidida a trilhar aquele caminho com espadas nas mãos…

O portão de ferro se fechou atrás do carro e logo o encanto de Brasov foi ficando para trás junto com suas sombras impiedosas e o homem que ela amava.

*-* *-*

 – Você deveria passar para a frente. – disse Dimitri quando alcançaram a estrada principal para o aeroporto em Bucarest.

– Não, obrigada. – Gwen respondeu de mau humor. – Estou muito bem aqui.

Erika havia adormecido com a cabeça apoiada no ombro de Gwen tão logo a viagem começou, estavam bem acomodadas no banco traseiro e nem por um milhão de dólares Gwen se sentaria ao lado de Dimitri. Seus olhos se distraíam com as paisagens fascinantes da estrada conforme a viagem transcorria, não estava com vontade de dormir e dispensava qualquer conversa com aquele vampiro.

Ele a olhava de cinco em cinco minutos através do espelho retrovisor, os olhos profundos como sempre. Mas ela o ignorava totalmente, não queria correr o risco de mergulhar na escuridão daquele olhar, como sabia que aconteceria caso ousasse cruzar os olhos com os dele. Não, ela preferia observar as árvores cobertas de neve pela janela, concentrava toda a sua atenção naquelas paisagens para não se trair.

– É impressão minha ou você está me ignorando? – Dimitri perguntou em dado momento com o sorriso malicioso.

– Impressão sua.

– Não sabia que meu beijo provocaria tal reação em você – ele riu, divertindo-se em provoca-la.

– Como está o seu queixo? – ela perguntou, maldosa.

Dimitri deu uma risada gostosa, examinando o queixo no espelho. Não havia nem vestígios do soco que havia levado.

– Você não faz ideia do quanto eu e Heron já brigamos pelas mulheres. Costumávamos dividir muitas. – ele sorriu.

– Bom, então eu sugiro que você se contente com todas as outras, porque a mim você não terá. –ela disse, muito educada.

– Você está certa disso, Gwen? – ele a fitou com sensualidade.

– Completamente. Não sou uma Prostituta de sangue para vocês trocarem ou dividirem como uma figurinha.

– Não, você certamente não é uma Prostituta de sangue – ele disse e alguma coisa em sua expressão fez Gwen se sentir incomodada. – No entanto, você não pode negar que sente alguma coisa por mim.

– Oh, sim, eu sinto algo por você… Asco. – ela o olhou diretamente nos olhos, apreciando ver aquela presunção morrer no rosto dele.

Dimitri pisou no freio com tudo, fazendo o carro dar um tranco no meio da estrada vazia. Ele se virou no banco lentamente e fitou os olhos assustados de Gwen.

– Diga-me que você não sentiu nada quando a beijei – ele disse, a voz tão intensa quanto seu olhar.

Gwen o fitou em profundo silêncio, acuada com a presença dele. Era absurdamente intimidador a forma como ele a fitava, como se pudesse enxergar através dela, como se pudesse fazê-la confessar seus mais íntimos segredos… Como se a desafiasse a seduzi-lo.

Ela desviou os olhos, perturbada.

– Está enganado – ela disse, a voz mal disfarçada.

– Está mentindo – ele disse, imperturbável.

– Não estou! –ela teimou.

– Então por que não olha para mim enquanto fala?

– Pouco me importa o que você pensa. –ela disse, ferina.

Dimitri continuou fitando o rosto virado para a janela. Quanto mais ela o ignorava, mais ele queria provoca-la, mais ele a desejava. Para alguém como ele, ser dispensado era algo inaceitável, ainda mais vindo de uma humana tão simplória. Em séculos, nunca uma mulher – mortal ou imortal – ousou recusá-lo. E agora ela o fazia de uma forma tão ousada que o instigava a querer devorá-la.

– Será que podemos ir embora? – Gwen perguntou, impaciente. – Não é seguro ficar parado no meio de uma estrada vazia com aqueles exilados por aí.

– Eu estou armado – ele respondeu como um dar de ombros, os olhos fixos nela.

Gwen perdeu a paciência e finalmente o encarou.

– Pode, por favor, ligar o carro e nos levar para longe daqui?

– Temos tempo.

– Mas que inferno! Qual é o seu problema comigo? O que você quer? – ela atirou as mãos para o alto, exasperada.

– Você – ele disse simplesmente, fazendo-a estremecer.

– Vai ficar querendo. – ela disse, inclinando-se para a frente, o rosto a centímetros de distância do rosto dele. – Agora, se você não parar de tentar me seduzir e não ligar esse carro para nos tirar daqui, eu vou atirar você para fora e eu mesma vou dirigir até o aeroporto. – ela o ameaçou, balançando os dedos levemente iluminados por sua magia.

Dimitri deliciou-se com a ameaça.

– Você não tem poder para me lançar para fora daqui, mesmo sendo uma bruxa. Embora a ideia seja bastante excitante. – disse ele, rindo.

– Ah, Dimitri você não vai querer ver a dimensão dos meus poderes – ela o alertou.

– É uma ameaça, Gwen? – ele a fitou com os olhos ardentes.

– Eu posso ser humana, mas sou bruxa. Então acredite em mim quando digo que eu tenho força o suficiente para te por para fora!

– Ah, Gwen… – ele suspirou, verdadeiramente deliciado. – Você é deliciosamente tentadora. Mal posso esperar para você me jogar para fora do carro, talvez eu até lhe dê mais um beijo para adoçar sua vida.

– Dimitri, a próxima vez que você ousar me beijar, pode ter a certeza de que arrancarei a sua língua fora. – ela alertou, bastante séria.

Ele gargalhou.

– Não negue o que você tanto anseia.

– Não seja assim tão presunçoso. Não é porque você é bonito e imortal que todas devem cair aos seus pés. Pare de me provocar. Não sei qual é o seu problema comigo, mas não vou cair nesse seu joguinho sujo.

– Você ficaria surpresa do quanto gostaria de jogar esse joguinho sujo. Eu percebi isso no momento em que a beijei. Você sentiu algo sim, só não quer admitir.

– Eu não senti absolutamente nada.

– Eu não acredito em você. – ele sorriu. – Se isso fosse verdade você não teria correspondido tão arduamente.

– Sabe o que eu senti quando você me beijou, Dimitri? – Gwen perguntou, séria. – Uma dor desgraçada causada pelos dentes de Amadeo. Afinal de contas foi por causa do seu beijo que eu saí correndo e fui atacada. Agradeço a você por isso.

Os olhos dele se tingiram com uma tristeza profunda, ele se voltou para a frente e deu partida do carro, prosseguindo então com a viagem sem mais nem uma palavra.

Quando chegaram ao aeroporto, Erica puxou Gwen para um canto afastado.

– Você pegou pesado com ele no carro, Gwen. – ela repreendeu a outra, apontando Dimitri do outro lado da sala de espera.

-Você estava acordada! – Gwen a acusou.

– É claro que eu estava! Só não queria me intrometer no joguinho de vocês dois.

– Não há joguinho nenhum! Ele que não me deixa em paz. Foi bem feito para ele ouvir tais coisas, ele mereceu.

– Sim, mereceu. Mas você o fez se sentir culpado. Ele é culpado por tê-la beijado e não pelo ataque do Amadeo.

– Se ele não tivesse me beijado nada disso teria acontecido, então a culpa é dele sim! – disse Gwen irritada e se afastou da colega, procurando se sentar bem longe daqueles dois.

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