Uma Estranha em Minha Morte

Reaper lady

Por Lillithy Orleander

Eu nunca descobri em que momento parti ou quando ela apareceu.

Eu a observava todos os dias, ela entrava na cafeteria com os olhos cobertos por um óculos negro.

A pele pálida, os lábios rubros e os dentes alvos  quando sorria olhando a tela do celular.

As vezes estava pensativa e outras tantas irritadiça, era quando me pedia o café amargo e sem açúcar.

Estava sempre com as unhas pintadas num verde esmeralda que por muitas vezes jurei ser um liquido que bailava em seus dedos. As roupas sempre em tons escuros, dando a impressão de que sempre estivera de luto.

Os dias passavam e ela sempre lá estava, mas naquela manhã tudo foi diferente.

Ela chegou de salto alto e pulseiras douradas, um vestido vermelho igual ao de Marylin Monroe e os cachos esvoaçantes em em uma cor dourada. Ela parecia um anjo.

Corri ate sua mesa, pois não deixava que ninguém a atendesse, pois aquilo era meu pequeno ritual secreto, um vício angustiante e por muitas vezes eu tive quase certeza de que ela compartilhava do mesmo pensamento.

– Posso ajudar senhora? – perguntei sorrindo, solicito.

Ela finalmente tirou o óculos e os olhos azuis feito o céu me hipnotizaram.

– Roger, não é?

As palavras me fugiram da boca e minha garganta secou, ela notou meu embaraço e sorriu docemente, enquanto eu respondia apenas balançando a cabeça.

– Quero um veneziense.

Ela parecia estar de ótimo humor, sairá do café amargo.

– Sim, senhora. – e virei – lhe costas.

– Giltine.

– Como?- perguntei estarrecido.

– Giltine, me chamo Giltine.

Voltei para meu posto andando nas nuvens. Feliz da vida, minha musa agora tinha um nome.

Voltei com seu pedido, nervoso e ao mesmo tempo satisfeito. Entreguei – lhe com um sorriso e ela me estendeu a mão.

– Muito obrigado, Roger.

O papel dobrado ficou preso em meus dedos, enquanto eu caminhava a passos rápidos pra meu posto com o intuito de ler o que ali havia.

“Me siga…”

Era tudo o que o bilhete dizia. Eu voltei ao caixa e ela se retirava, arranquei meu avental, e mesmo com o protesto de meus amigos eu corri tentando alcançar aquela beldade que a meses me tirava o sono.

Giltine entrou em um beco silencioso e escuro, não passava ninguém ali. Nem se quer uma viva alma.

– Roger. – disse ela subindo um pouco do vestido e deixando a coxa a mostra.

Algo dentro de mim me mandou recuar, mas eu era tão tolo que não quis saber de nada.

– Giltine.

– Me beije.

Eu era um desconhecido, e ela uma deusa me chamando.

Eu fui em sua direção e segurei sua cintura, meu coração bateu descompassado e eu fui me perdendo naquele halito doce, enquanto as mãos dela caminhavam por minhas costas, vasculhando – me e me apertando.

Mas quando foi mesmo que ela havia me dado trela? Giltine…

– Eu sinto muito, Roger.

O gosto de ferrugem invadiu minha boca e em minha lingua ardia o gosto amargo, enquanto em meu peito a dor aguda me sufocava, o que me fez levar a mão até coração.

A cavidade vazia me causou espanto e quando olhei meus dedos eles estavam manchados de sangue.

A beleza havia sumido e a moça agora tinha a ponta do nariz azulado e longas asas negras.

Minha vista ficou pesada e agora meu corpo esta leve.

O som das vozes me incomoda e as lágrimas me molham a face. É meu enterro, falecido novo. Assassinato sem motivo. Caso arquivado.

Ninguém disse ter visto mulher nenhuma e parecia que ninguém se lembrava que eu havia corrido atrás dela.

Veio novamente a escuridão e me vi deitado nos braços de alguém.

O cheiro acre de enxofre misturado ao cheiro de sangue me deu náuseas.

– Vai passar. – disse a voz de sino. Enquanto eu ouvia o som de água e o farfalhar de asas.

Ainda era Giltine e eu achei que fosse um sonho ruim.Mas ela se levantou e transformou – se num homem, me deixando ali, sozinho….

A barca seguia silenciosas enquanto corpos boiavam no rio negro, e outros pediam socorro as margens do mesmo. A névoa espessa se formou no canto da barca e um velho surgiu.

– Bem vindo ao Estige.

E só então eu entendi, eu não mais sonhava. Eu estava morto.

Minha cabeça deu voltas e mais voltas até se lembrar das histórias de vovó.

“Giltine, era assim que seu avô dizia que se chamava a morte em seu país de origem. A moça que foi morta e agora guardava o submundo, usando suas milhares de faces…”

Não tinha mais volta. A barca seguia seu curso e com ele minha alma.

3 comentários em “Uma Estranha em Minha Morte

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