O Sangue da Meia Noite – Capítulo 04

Escrito por Natasha Morgan.

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Quando acordou na manhã seguinte, Gwen sentia-se completamente recuperada do cansaço e da mordida de Heron. Ela se mexeu inquieta na cama macia, pensando em como fora revigorante dormir embaixo daquelas cobertas felpudas quando trombou com mais alguém. Um corpo seminu.

Surpresa que Heron ainda estivesse na cama com ela e totalmente satisfeita com isso, Gwen sorriu. Seu corpo formigava deliciosamente e, embora tivesse achado estranho, não pensou muito a respeito. Deveria ser ainda efeito da mordida.

Ela se espreguiçou lentamente, encostando-se ao corpo forte a seu lado. O formigamento aumentou proporcionalmente quando fez isso e ela sorriu de novo. Decidida a continuar o que não haviam terminado na noite passada, ela se virou para fitar Heron…

E congelou na mesma hora.

Quem estava com ela na cama não era Heron.

Era Dimitri.

E ele ostentava um sorriso deslumbrante nos rosto absurdamente belo. Estava levemente recostado nos travesseiros, usando apenas uma calça negra e grossa.

Em questões de segundos, Gwen estava fora daquela cama gigante.

– Pela sua aparente decepção eu suponho que não era a mim que esperava – Dimitri sorriu, malicioso.

– O que diabos você está fazendo aqui? – ela sibilou.

– Cuidando de você – ele respondeu sem nenhuma preocupação.

– Na minha cama?

– Heron me pediu que tomasse conta de você enquanto cuidava de algumas coisas – Dimitri explicou.

– Eu tenho certeza de que Heron disse que era para você ficar do lado de fora.

– Ora, Gwen. Por que está zangada? Agora a pouco estava contente e totalmente excitada que tivesse alguém em sua cama – ele a provocou abertamente.

Gwen sentiu seu rosto corar e isso só a deixou com mais raiva.

– Nunca mais se atreva a chegar tão perto! – ela disse, esforçando-se para controlar sua raiva e ser coerente.

– Não se preocupe. Nós não fizemos nada – ele sorriu com malícia.

– É claro que não!

– Mas se eu quisesse poderia ter acontecido. – os olhos dele se fixaram nos dela, provocantes. – Você é facilmente induzida quando se entrega às sensações.

– Saia daqui! – Gwen exigiu e sua voz tremeu. Ela não conseguia raciocinar com aquele vampiro por perto. Estava furiosa… E totalmente assustada com o que aconteceu. E parecia que quanto mais ela se zangava, mais o formigamento em seu corpo aumentava.

Dimitri levantou da cama com um olhar despreocupado. O sorriso malicioso era sua marca registrada e ele não parecia nem um pouco constrangido pelo que havia feito.

– Melhor? – perguntou, fitando-a com divertimento.

Gwen desviou o olhar, decidida a ignorá-lo.

Naquele momento, a porta se abriu com suavidade e Heron entrou acompanhado de Erika. Ele pareceu aborrecido com a presença de Dimitri dentro do quarto e, ao olhar para a expressão de Gwen soube que havia algo errado.

– O que foi? – ele se aproximou dela, envolvendo-a em seus braços protetores. – Aconteceu alguma coisa?

Gwen se aconchegou no abraço dele, escondendo o rosto nos ombros fortes. Foi o que bastou.

– O que você fez? – Heron rosnou para Dimitri.

– Por que eu sempre tenho que ter feito alguma coisa?

– Por que você sempre faz, Dimitri.

– Eu estava apenas cuidando dela como me pediu – Dimitri disse, sossegado.

– Dentro do quarto? – Heron perguntou, astuto.

Dimitri deu de ombros.

– Ele a incomodou, Gwen? – Heron perguntou.

– Está tudo bem – Gwen respondeu com a voz dura. – Eu apenas me assustei quando o vi.

Heron tentou ver a verdade dentro dos olhos dela, mas ela soube encobrir bem suas emoções. Por fim ele voltou seus olhos para Dimitri, zangado.

– Mantenha-se longe dela, Fitzroy. – ele alertou.

– Ela é sua, Heron – Dimitri disse com uma inveja palpável. – Não vou roubá-la. Na verdade – ele disse com desprezo – Ela não me interessa nem um pouco. Prefiro as menos inocentes.

Gwen sentiu certo desconforto com as palavras dele. Ele era tão mesquinho e arrogante, pensou com raiva.

– Eu acho bom – Heron respondeu a ele.

Dimitri abriu seu sorriso sarcástico e saiu do quarto, imperturbável com tudo aquilo. Gwen se perguntou por que ele se permitia seguir as ordens de Heron em vigiá-la. Na hierarquia dos vampiros, Dimitri parecia estar bem acima de Heron.

– Tudo bem? – Heron perguntou, olhando para ela.

– Tudo sim – ela sorriu. – Eu acordei e não vi você.

– Eu precisei cuidar de algumas coisas – ele explicou. – Mas já estava voltando. Provavelmente você queira passar o dia em companhia de Helve. Vou estar ocupado com os guardas.

– Sim – Gwen soltou um pequeno suspiro. – Eu imaginei isso. De qualquer forma, eu estava mesmo pensando em ir para o Templo.

Heron se aproximou dela e beijou-lhe os lábios suavemente. O toque foi gentil – o que sugeria que a onda de frieza já havia passado. Gwen teve vontade de agarrar-se a ele e ver até onde poderiam ir naquele beijo. Desejava que ele a apertasse um pouco mais em seus braços… Desejava afundar os dedos nos cabelos dele e prendê-lo como havia feito na noite passada.

Mas nada disso aconteceu. O beijo foi rápido.

– Vejo você mais tarde – ele sussurrou em seus lábios, os olhos amendoados emanando calor.

– Ok – ela sussurrou também, lutando contra o impulso de tomar-lhe a boca novamente.

Quando Heron finalmente saiu, relutante, Erika deu um passo para dentro do quarto, olhando tudo em volta. Até aquele momento, ela permaneceu calada, apenas observando tudo o que acontecia. Sua expressão era curiosa ao fitar Gwen.

– Eu achei que meu quarto fosse menor – ela disse com um suspiro.

– Você acha isso pequeno? – Gwen ergueu as sobrancelhas ao indicar o amplo espaço onde dormira.

A garota revirou os olhos.

– Preciso de ajuda – disse.

– Aconteceu alguma coisa? – Gwen perguntou, já preocupada.

– Não… Ainda.

– O que quer dizer?

– Vamos para o meu quarto e eu explico.

– Ah… – Gwen olhou para a mala que trouxera, do outro lado do quarto. – Acho que vou tomar um banho antes.

– Que seja – Erika se jogou em cima da cama. – Aproveite o banheiro maravilhoso. Eu espero.

Desta vez quem revirou os olhos foi Gwen. Ela pegou qualquer coisa dentro da mala e voltou-se para a porta na parede do fundo.

Quando terminou e finalmente estava pronta, encarou Erika deitada na cama.

– Pronto. Podemos ir.

Erika soltou um suspiro fingido de alívio e puxou a outra pela mão. Gwen pareceu surpresa com tal intimidade, mas não se deixou levar. Em se tratando de Erika nunca se podia ter certeza sobre como as coisas iriam terminar. Embora às vezes maneirasse, aquela garota era insolente e maldosa na maior parte do tempo.

Quando entraram no quarto da frente, Gwen não se perdeu admirando a beleza e sofisticação. A decoração era a mesma de seu quarto, talvez uma ou duas coisas diferentes. Deixou-se cair pesadamente na cama desarrumada como Erika fez antes e fitou-a.

A outra preferiu se sentar na poltrona de couro a sua frente.

– O que você quer? – Gwen perguntou educadamente.

– Sua ajuda, é claro. – Erika respondeu como se fosse obvio.

– Quem sabe se você for menos arrogante eu possa ajudar – Gwen rebateu.

– Você poderia me ajudar, por favor? – Erika perguntou com excesso de doçura em sua ironia.

– Assim está melhor – Gwen escondeu o sorriso. – Do que você precisa?

– De um par de mãos – respondeu a outra, mordendo os lábios.

Gwen franziu o cenho, confusa.

– Vou mudar a cor dos meus cabelos – Erika explicou.

– Por quê? – Gwen perguntou, surpresa. Sempre admirara os longos fios platinados da jovem.

– É um disfarce – ela deu de ombros – Vai me ajudar a ficar imperceptível para os exilados.

– Isso não vai adiantar, Erika – Gwen disse, gentilmente. – Eles podem rastrear o seu cheiro. Além do mais, você não precisa fazer isso. Estamos seguras aqui dentro das muralhas.

– E quando sairmos delas? – Erika rebateu, sensata. – Eu não sei você, mas eu não estou disposta a sacrificar a minha vida toda para ficar me escondendo. Não vou ficar aqui para sempre!

– Não é para sempre – Gwen disse numa voz baixa.

– Não me interessa o tempo. Eu não vou ficar aqui me escondendo… Não por muito tempo.

Gwen desviou os olhos, preferindo não entrar em detalhes. Ela trouxera a garota para mantê-la protegida, mas não tinha pensado que talvez ela tivesse uma vida que gostasse lá fora e quisesse vive-la. Erika era o tipo de garota que fazia sucesso, o tipo de pessoa que teria uma vida proveitosa e incrível. Era normal que ela quisesse ir embora.

– Você quer a minha ajuda com a tinta? – Gwen perguntou, suavemente.

– É para isso que lhe chamei.

– Nossa, Erika! Quanto mau humor – Gwen se queixou. – Você deveria tratar as pessoas melhor, ainda mais as que estão tentando te ajudar.

– Desculpe, mas ficar trancada em um lugar cheio de sombras e trevas não ajuda muito no meu humor.

– Até parece – Gwen a puxou para o banheiro gigantesco. – Desde que a conheço você sempre foi mal humorada e insolente.

– Então por que espera que eu tenha outra atitude? – Erika rebateu – A essa altura já deveria ter se acostumado.

– Não me acostumo com coisas desagradáveis. Eu tento torna-las agradáveis – Gwen fez com que ela se sentasse em um dos degraus que levavam para o Box de vidro. – Onde está a tintura?

Erika apontou para a bancada de mármore do outro lado. Gwen pegou a caixa pequena e começou a preparar a mistura vermelha enquanto a outra trocava de roupa.

– Você se assustou? – a voz de Erika a surpreendeu.

– Como é?

– Quando viu Dimitri no quarto – Erika explicou, o olhar curioso.

Gwen enrijeceu.

– Ele estava deitado na cama ao meu lado quando eu acordei – ela disse e não soube dizer o motivo de estar contando.

– Ele o quê? – Erika se mexeu inquieta no degrau, o sorrisinho brincando no rosto.

– É – Gwen assentiu, sem olhar para ela. – Foi isso mesmo o que você ouviu.

– E o que você fez? – perguntou, excitada.

– Nada – Gwen respondeu, mal-humorada.

– Ah, eu finalmente entendo o porquê você ficou tão irritada.

– Você não ficaria? – Gwen rebateu, olhando para a garota.

– Você está brincando? Eu iria aproveitar! Dimitri é deliciosamente lindo! Não entendo como você pode ter ficado tão zangada.

– Ah, claro – Gwen sorriu sem humor. – Esqueci que eu estava falando com a Erika. É obvio que você ia dizer isso.

– Ah, por favor! Nem mesmo você pode negar o quão incrível ele é.

– Eu não estou negando nada. Ele é mesmo muito bonito e tem toda aquela sedução. Mas isso não dá a ele o direito de se deitar na minha cama. Eu estou com o Heron e é a ele quem eu amo.

– E por que eu iria esperar outra coisa de uma garota como você? – Erika riu. – Você é tão certinha, não sabe aproveitar as coisas boas.

– Eu tenho princípios, é diferente.

– Bom… Eu não tenho – Erika sorriu com malícia.

– Disso eu já sei – Gwen também riu. – Sabe de uma coisa, eu não acho que o Thomas vá gostar da competição.

– Não existe competição. Não com Dimitri no jogo.

Gwen revirou os olhos. Àquela altura já havia terminado de preparar a mistura.

– Você tem certeza? – ela perguntou, erguendo o tubo de tinta.

Quando Érika apenas assentiu, Gwen começou a tingir os fios claros. Ela agia com calma, sendo o mais cuidadosa o possível. Erika podia ser detestável, mas Gwen nunca faria nada maldoso com ela… Por mais que lhe desse vontade. Na verdade estar tingindo o cabelo dela lhe deu uma enorme tristeza, desfazer-se dos fios loiros era um grande pecado!

Mas Erika parecia tranquila. Estava relaxada no degrau de azulejo, os olhos levemente fechados. Se estava triste com a mudança, ela não deixava transparecer.

Quando terminou, Gwen cobriu a cabeça dela com uma touca de plástico e foi limpar a bagunça que fizera na bancada. Pelo canto do olho viu Erika se aproximar e sentar-se em silêncio no chão, próxima á porta.

– Não é só um disfarce – disse ela de repente. – A tintura.

Gwen a fitou em silêncio.

– É uma mudança para mim mesma – Erika continuou. – Como se eu estivesse finalmente me tornando o que eu sou… Uma bruxa.

– Você não precisava ter pintado seu cabelo para isso – Gwen disse amavelmente e se sentou no chão junto da colega.

– Eu não gostava do loiro – Erika confessou. – Ele não me deixava ser eu mesma.

Gwen franziu o cenho.

– Você lembra quando Helve disse que eu sou uma bruxa por herança de família? – Erika perguntou.

– Sim. Lembro-me também de você não gostar da ideia.

– Minha tataravó era uma bruxa – Erika começou. – Ela deixou essa herança com a minha família, minha bisavó e minha avó aceitaram. Mas a minha mãe não.

Seus olhos estavam vagos, como se ela não gostasse do que estava contando.

– Minha mãe sempre fugiu da magia porque queria ser uma garota normal. Ela nunca quis ser considerada  uma aberração, como ela mesma diz. Então, quando minha avó morreu e deixou a herança de família, minha mãe queimou tudo o que tinha haver com a magia: livros, objetos, relíquias. Ela simplesmente extirpou a bruxaria da família e abraçou a igreja.

Erika fez uma pequena pausa.

– Com essa fé eu fui obrigada a também virar as costas para o que eu sou. Mas, diferente da minha mãe, eu nunca tive controle sobre os meus poderes. Apesar de nunca ter tido interesse em despertá-los, algumas vezes coisas estranhas aconteciam… Certos acidentes.

Seus olhos claros encontraram os de Gwen.

– Minha mãe nunca disse que a culpa era minha – ela continuou. – Mas eu podia ver a acusação nos olhos dela todas as vezes que esses acidentes aconteciam. Ela não queria ter uma filha bruxa… Ela não queria ter nada que a fizesse lembrar a abominação que era a sua família.

Erika fitou seu reflexo no espelho, olhando para a touca que cobria os cabelos.

– Quando eu tinha doze anos e disse a ela que queria ser ruiva, ela tingiu meu cabelo de loiro e disse que essa era a cor certa para as meninas educadas… Disse que se eu pintasse o cabelo de vermelho ninguém gostaria de mim porque vermelho era a cor do demônio.

Erika fez silêncio.

– Não há nada de errado em ser diferente, Erika – disse Gwen, gentilmente.

– Minha mãe nunca me deu a opção de ver isso. E com o tempo, eu mesma fui desprezando tudo o que não era normal… Tudo o que não era aceito.

– Por isso muitas vezes você me agrediu – disse Gwen, baixinho.

– Sim – Erika assentiu. – Eu via em você aquilo que eu deveria ter sido. E isso me deixava com raiva. Minha mãe me privou de ser uma bruxa, por causa dela eu me escondia dentro de mim mesma quando tudo o que eu queria era uma vida normal.

– Uma vida normal que não era a sua.

– Uma vida normal que eu sempre fingi ser anormal e desprezível.

– Agora entendo por que você não quis se despedir da sua família.

– Apesar de aparentar ter uma vida maravilhosa, o meu relacionamento com a minha família é péssima. Minha mãe me ignora o tempo todo, mesmo se esforçando para disfarçar. Meu pai é um fanático religioso, ele é o pastor da igreja onde minha mãe vive enfiada. Não tenho ninguém além deles… E eles não me fazem a menor falta.

– Sinto muito – Gwen disse com sinceridade. – Eu entendo a sua revolta. Entendo toda a sua raiva. Entendo mesmo… Mas isso não justifica as suas atitudes maldosas para com os outros. Por mais que a sua mãe tenha feito o que fez, ela não obrigou você a ser a pessoa que é. Você quis assim. Nós determinamos o que queremos ser.

Erika a fitou com intensidade.

– Sabe, nunca ninguém havia me dito isso antes… Não que eu tenha contado isso para mais alguém, mas… Nunca pensei dessa forma.

– Você se deixou virar essa pessoa. Sua mãe contribuiu, mas foi você quem deixou que tudo isso acontecesse…

– Eu deixei a influencia dela me corromper – Erika terminou a frase por Gwen. – Eu sei que sim. Não estou justificando meus atos.

– Eu sei que não está – Gwen sorriu um pouco. – Você é insolente demais até para bancar a coitadinha injustiçada.

– Oh, que bom que você sabe! – Erika fez pose de esnobe.

Gwen riu com ela.

– Foi por isso que você quis tingir o cabelo – ela disse após um breve momento de silêncio. – Para se libertar das correntes que ainda a prendiam.

– Sim – Erika assentiu. – Eu quero poder ser quem eu sou… Quero poder agir da forma que eu quiser sem ter que me preocupar com o que a minha mãe vai dizer. Vir para cá foi a ruptura de que eu precisava.

– Você começou bem – Gwen lhe sorriu. – Deu o primeiro passo.

– Não começa com isso! – Erika a repreendeu, endurecendo as feições. – Não vou virar a garota boazinha e caridosa. Eu ainda sou a antiga Erika. Estou apenas começando a despertar a bruxa adormecida em mim. Nada vai mudar!

Gwen revirou os olhos para ela.

– Tudo vai mudar – ela disse, provocando. – Quando aceitamos a magia que há em nós, tudo muda. Agora deixa de ser rabugenta e vamos tirar essa tinta!

Erika escondeu o sorriso e acompanhou a outra até o Box gigantesco. Gwen ligou o chuveirinho e começou a tirar a tintura dos cabelos da colega. A tinta escorria pelo azulejo branco, manchando tudo de um vermelho vivo. Parecia sangue e essa visão perturbou a jovem, fazendo-a se lembrar dos horrores que sofreu no labirinto.

– Não pense nisso – Gwen sussurrou em seu ouvido enquanto terminava de enxaguar a cabeça dela.

– Não pensar em quê? – Erika perguntou, embora já soubesse.

– Você sabe.

– Parece que não são apenas meus poderes que estão despertando – o comentário foi divertido, o que fez as duas rirem.

– Estamos seguras aqui – Gwen garantiu.

– Porque Helve e seu namorado vampiro vão nos proteger?

– Não só por isso – Gwen a ajudou a se erguer, fitando-a com intensidade. – Porque nós somos bruxas.

– Vou me lembrar sempre disso.

Gwen a conduziu até o espelho e tirou a toalha, revelando os cabelos tingidos de um vermelho fogo. Erika encarou seu reflexo no espelho, atenta a cada detalhe. A mão se ergueu no ar, tocando o vidro frio. Era como se aquela fosse outra Erika… Uma Erika forte, poderosa e muito mais bonita. O tom escuro acentuou-lhe o rosto bonito, tornando a pele mais clara e aguçando a beleza dos olhos.

– Ficou… – Erika começou, sem palavras.

– Lindo – Gwen completou por ela, sorrindo.

Erika se voltou para ela, o olhar sério.

– Melhor que o loiro? – perguntou.

– Muito melhor. Eu diria que se o seu séquito da escola a visse agora eles se ajoelhariam a seus pés e a idolatrariam como rainha.

Erika deu um sorriso altivo e voltou-se para o espelho.

– Estou começando a gostar da nova Erika – ela disse para si mesma.

– É bom não ficar convencida – disse Gwen, revirando os olhos.

A leve batida na porta as interrompeu. Gwen jogou o resto da bagunça no lixo e foi atender. Era Astrid. Ela estava tão linda como na última vez que a vira, vestia um longo vestido azul escuro grudado no corpo esbelto, os cabelos louros estavam parcialmente presos em uma fita de cetim. A beleza dela era estonteante causava inveja até na mais bela das mulheres.

Ela sorria amistosamente quando entrou no quarto.

– Heron me disse que estava aqui – ela disse.

– Astrid! – Gwen sorriu para ela, sentindo uma forte vontade de abraça-la. Mas se conteve, hesitante.

Como se percebesse a hesitação, a vampira abriu os braços com um sorriso sincero.

Gwen a abraçou com força, inalando o doce aroma de jasmim dos cabelos longos e macios. Desde a primeira vez que ouvira falar em Astrid, Gwen a adorou. E quando a conheceu só comprovou o quanto aquela vampira era especial. O carinho que sentia por ela era único… E inexplicável.

– Ah, querida Gwen… – Astrid suspirou de felicidade. – Como é bom vê-la novamente.

– Também estou contente em te ver – Gwen sorriu.

– Eu já estava preocupada com a frieza de Heron – disse a vampira, tristonha. – Ele estava cada vez mais distante e eu temi que se perdesse para sempre no meio das trevas.

– Ele está bem – Gwen garantiu. – De alguma forma eu consegui fazê-lo voltar ao normal.

Erika fitou a vampira do canto do quarto, achando-a imponente e assustadora. Não querendo perturbá-las, voltou para o banheiro em silêncio e fechou a porta.

Astrid fitou Gwen com tristeza.

– Eu disse a você que aprovava o relacionamento de vocês – disse ela – E não foi somente por você pertencer à Meia-noite tanto quanto nós, nem por ele a amar como nunca amou ninguém. Mas pelo fato de que você é a única capaz de fazê-lo agir com clareza. Você ilumina a alma do meu filho como eu nunca vi ninguém fazer. Como mãe, eu sempre fui capaz de dar carinho e amor para ele, mas sempre houve as trevas que cercam os vampiros. É inevitável! Ele nasceu com isso. Mas não é fácil para uma mãe ver o filho se perder em tanta escuridão… É horrível.

Ela fez uma pequena pausa, fitando a garota com carinho.

– Heron teve seus dias de sombra, mas também teve seus dias de luz. E agora, com você, ele parece totalmente bem… Feliz.

– Eu tento… – Gwen disse em voz baixa. – Eu tento dissipar as trevas. Mas não é sempre que eu consigo. Quando eu o vi no momento em que cheguei… Eu achei que o tivesse perdido. Ele estava tão frio…

– É a frieza de Brasov – Astrid explicou. – Os vampiros são frios por si mesmo devido às trevas que nos habitam… Mas aqui… – ela olhou para as paredes escuras. – Aqui tudo aumenta. São muitos vampiros juntos, muita energia pesada… E muita crueldade da parte de todos.

– É estranho… – Gwen comentou, olhando para ela. – Eu vi essa frieza em Heron, vi em Dimitri e na maioria dos guardas. Mas não a vejo em você.

Astrid sorriu.

– Há frieza em mim – ela garantiu. – Mas eu sei lidar com ela. E eu gosto de você – ela sorriu. – Gosto muito.

– Eu também – Gwen a acompanhou no sorriso.

Nesse momento, Erika abriu a porta do banheiro e seu juntou a elas, o olhar tímido.

– Ah, a menina de Helve – Astrid lhe sorriu, educada.

– Olá – Erika a cumprimentou.

– Eu não sabia que você também viria – ela pareceu surpresa.

– Na verdade fui eu quem insistiu para que ela viesse – Gwen confessou.

– Não vejo problema nisso – Astrid disse com sinceridade. – Ela é uma das aprendizas de Helve, pode ir e vir quando quiser.

– Obrigada – Erika disse em voz baixa.

Astrid sorriu para ela, tentando ser simpática.

– Estávamos indo ver Helve agora mesmo – Gwen disse.

– Ah, sim – Astrid assentiu. – Eu imaginei isso mesmo. Só vim lhe dar as boas vindas e dizer que se precisar de qualquer coisa é só falar comigo.

– Obrigada, Astrid.

– Ora, minha querida. Somos amigas agora… Sempre seremos – ela abraçou a jovem mais uma vez antes de abrir a porta para que saíssem.

Erika agarrou o braço de Gwen conforme andavam pelo corredor longo e estreito, vendo Astrid se afastar elegantemente.

– Ela me dá medo – Erika comentou.

– Astrid? – Gwen riu.

– Ela é assustadora – a jovem se defendeu. – Linda, mais ainda assim assustadora.

– Ela é a vampira mais pacífica que eu conheço. Não precisa ter medo dela.

– Fale por você. Fala isso só porque ela é a mãe do Heron!

– Não é só por isso – Gwen olhou bem no fundo dos olhos de Erika. – Astrid é uma guerreira.

 *-* *-*

 A fortaleza era ainda mais linda durante o dia, Gwen pensou enquanto caminhava ao lado de Erika pelo caminho de cascalho. A luz do sol, embora fraca, tinha força o suficiente para refletir nos pilares que sustentavam o pátio principal, iluminando parcialmente as escritas antigas. Gwen tinha uma vontade imensa de se aproximar para tentar ver que língua era aquela desde a primeira vez que esteve ali.

As paredes do castelo pareciam ainda mais escuras à luz do dia, dando um aspecto ainda mais sombrio àquele lugar. No oeste, as duas torres enormes brilhavam, ameaçadoras. E as montanhas reluziam ao fundo, imponentes, sedutoras e sombrias.

E havia as sombras. Elas nunca deixavam o castelo, mesmo durante o dia. Espreitavam todos os cantos com sua brisa fria, tomando conta de tudo e de todos. Seu toque ríspido não incomodava Gwen, ela aprendeu a lidar com aquela parte desagradável de Brasov.

Erika também percebia tudo ao seu redor, fascinada com a beleza sombria. Mas, ao contrário de Gwen, ela tinha medo das trevas. Estava vestida com um casaco tão grosso que Gwen se perguntou se ela estava mesmo com frio até perceber que a frieza que atingia a amiga era maior… E muito mais densa.

– Você tem que se iluminar – ela disse numa voz bem baixinha, fitando a colega pelo canto do olho. – Use a luz que você tem para dispersar as trevas.

Erika a fitou com intensidade, mais uma vez surpresa que a outra tivesse lido suas emoções novamente.

– Não sou uma estrela – ela a lembrou.

– Todos temos luz dentro de nós. Use-a e não se assustará mais com a presença das trevas.

– Isso eu duvido – Erika murmurou baixinho.

O Templo estava incrivelmente lindo com a luz irradiando em suas paredes douradas e imponentes. As duas estátuas que cercavam a entrada podiam ser uma grande ameaça para qualquer um que viesse de fora. E aquele era exatamente o objetivo: espantar. Mas Gwen e Erika, além de bruxas, sabiam que as esculturas estavam ali apenas para proteger o Templo de intrusos e energias negativas.

Era estranho, Gwen pensou quando se aproximou da entrada. Seu corpo estava formigando. Na noite passada, quando esteve ali para ver Helve, ela havia sentido sensação parecida e descobriu que estava brilhando. Agora ela sentia o formigamento um pouco mais forte, como quando estava perto de Dimitri. Tensa, ela olhou em volta para ver se ele não estaria por perto.

Mas tudo o que encontrou foi a beleza fria da fortaleza. Não havia ninguém além dos guardas. Ela franziu o cenho novamente. Fitou as mãos com curiosidade, procurando por algum sinal de brilho como na noite passada.

E, de fato, estava certa. A luz brilhava suavemente por seus dedos, subindo ao longo do braço e infiltrando-se no resto do corpo.

– Estrela – Erika disse com um sorriso.

Gwen a fitou com intensidade.

– Gostaria muito de saber por que isso acontece – ela disse, um tanto frustrada. – Você não está brilhando.

– Eu não sou Êzant – Erika a lembrou.

– Você acha que é por isso que eu brilho? – Gwen perguntou com curiosidade.

– Não só por isso – Erika disse, pensativa. – Você ouviu o que Heron disse. Você é como uma estrela. Sua luz consegue dissipar as trevas dele, então faz sentido que você brilhe. Mas não sou a pessoa mais indicada para dizer isso. Pergunte a Helve.

Gwen assentiu, pensando que era exatamente isso o que ela faria.

Um das sacerdotisas que viviam no Templo as recebeu na entrada, ela era incrivelmente bonita. Vestia um vestido azul e uma coroa de flores na cabeça, os cabelos eram longos, castanhos e ondulados. Caíam pelas costas em cascatas abundantes. Ela tinha um sorriso doce no rosto quando as fitou.

– Helve está esperando por vocês – ela disse e as conduziu para dentro.

A brisa suave de magia as recebeu com graça, rodeando-as. O aroma de incenso era mais forte lá dentro, e acabou por embriagar as meninas. Elas sorriram, olhando tudo a sua volta.

As demais bruxas que habitavam o Templo estavam sempre em movimento. A maioria gostava de ficar ao redor da fonte, sentadas nas almofadas e banhando o pé nas águas claras. Outras preferiam a companhia uma das outras, sentadas no tapete do outro lado. E havia umas poucas que limpavam e repunham as ervas na mesa de Carvalho. Todas sempre muito atarefadas, servir à Antiga Religião era sua vida.

Gwen se permitiu sentar nas almofadas junto à Fonte. Gostava da energia que fluía dali. Erika a acompanhou, também se sentando. Seus olhos brilhavam perceptivelmente e Gwen teve certeza de que a garota estava vendo a aura do lugar. Por um momento se perguntou de que cor seria.

– Prateada – Erika respondeu, baixinho.

Gwen escondeu o sorriso.

– Estamos lendo a mente uma da outra, agora? – ela perguntou.

– Algumas pessoas tem essa ligação – Erika deu de ombros, tornando-se muito séria.

– Nós somos ligadas? – Gwen a provocou.

– Por mais que isso me seja inconveniente, ás vezes, é inevitável negar. – Erika disse, com fingida arrogância.

Gwen se preparou para responder com algum comentário malicioso, mas a presença de Helve a interrompeu. A Grande Sacerdotisa caminhava suavemente naquela direção, o vestido vermelho flutuando sutilmente a seu redor como se levitasse naquela onda de magia em que a mulher estava sempre envolvida. Seu sorriso era doce e acalentador.

– Ah, minhas meninas – ela sorriu, sentando-se ao lado delas. – Que satisfação poder tê-las aqui comigo mais uma vez.

As garotas sorriram de novo, mas antes que pudessem dizer alguma coisa, foram interrompidas de novo. A sacerdotisa que as recebeu se aproximou, trazendo uma jovem minúscula que mais parecia uma fada. A garota era encantadora em sua beleza infantil, não poderia ter mais que onze anos. Usava um vestido mesclado em estilo cigano, o que a deixava ainda mais delicada. O rostinho jovem era completamente meigo, os olhos de um profundo violeta e os cabelos castanhos e longos.

Quando ela se sentou ao lado de Helve, sorrindo afetuosa, Gwen soube imediatamente que era uma vampira. Os traços belos no rosto e a aura imponente revelava a verdade. E com surpresa, Gwen se deu conta de que não havia nem uma leve onda de frieza.

– Esta é Kell – Helve a apresentou com um sorriso.

Gwen e Erika murmuraram um oi.

– Olá – a menina disse por sua vez, com um sorriso deslumbrante.

Gwen imediatamente ficou fascinada com aquela garotinha.

– Então… – Helve começou, a voz baixa, e fitou Erika. – Vermelho. – ela disse, olhando para os cabelos recém-tingidos.

Erika corou, constrangida.

– Eu precisava dessa mudança – ela confessou.

– Ah, todos nós precisamos mudar de vez em quando. – a sacerdotisa sorriu. – É parte essencial da vida.

– É mais do que isso… Eu estou começando a ser quem eu sou. O cabelo foi o primeiro passo.

– Estou muito contente com isso, querida – Helve lhe sorriu. – De fato, você parece mais reluzente. Como se a magia tivesse, por fim, tomado conta de você.

– Eu me sinto mais uma bruxa – Erika assentiu em concordância.

– Eu vejo isso. Você está começando a se aceitar. Uma grande mudança desde que a vi ontem à noite.

– Sim – Erika soltou um suspiro – Não adianta fugir, não é mesmo?

– E por que você sentiria vontade de fugir? – Kell parecia indignada, como se o fato de recusar a magia fosse surreal.

– Porque no mundo em que eu vivo ser uma bruxa é considerado anormal. E eu lutei a minha vida toda para ser uma garota normal. Eu gosto da popularidade. Gosto das pessoas querendo ser eu… Eu gosto de ser aquela que causa inveja.

– Você pode ser normal e bruxa ao mesmo tempo – Kell argumentou.

– Não no mundo em que eu vivo. Minha mãe se esforçou para tentar tirar a magia de mim, ela me fez detestar qualquer coisa que tivesse a ver com a magia. E com o tempo, mesmo eu sabendo o que era, eu acabei por ignorar completamente. Foi fácil uma vez que eu tinha tudo o que uma garota da minha idade poderia querer. Eu me acostumei a ser normal… A ser amada pelas pessoas.

– Não consigo ver o meu mundo sem a magia.

– Érika, você sabe que é especial, não sabe, querida? –Helve perguntou, amavelmente.

– Eu sei – a jovem suspirou.

– E você aceitou o que você é. Até mudou a cor dos cabelos.

– Sim.

– Você não pode esconder o que é. A Magia exala de você, trilhando um caminho florido e cheio de energia. Impossível os outros não perceberem. Os humanos sabem que somos diferentes… Saberão sobre você também.

– Eu não preciso contar á ninguém. Posso ser uma bruxa em segredo, como muitas hoje em dia são. Não tive problemas para esconder até agora – Erika deu de ombros.

– Sabe, Erika… Uma bruxa não tem vergonha de ser o que é – Helve a fitou com intensidade – E você, sem dúvidas, não parece o tipo de mulher que vive ás escondidas, estou certa?

Erika pareceu pensativa.

– Eu prefiro que as pessoas… Não saibam. – disse ela, cautelosa.

– Você não quer que as pessoas saibam por que acha que irão te rejeitar – a voz de Helve era firme… E compreensiva.

Como Erika não disse nada, ela continuou:

– Você se sente na obrigação de agradar às pessoas e ser aceita por elas. Você quer ser normal no meio daqueles que julga normal. Mas o que você precisa entender é que as pessoas lá fora não são as corretas para se imitar. Elas são cruéis em sua maioria, sem qualquer sentimento de respeito para com os outros. Não respeitam a Deusa antiga à qual conhecem como natureza, fazem coisas terríveis com os animais que a habitam. É a esse tipo de pessoa que você quer agradar?

Erika ficou em silêncio novamente, compreendendo o argumento da sacerdotisa. Pela primeira vez em sua vida ela via o mundo de uma forma diferente.

– A humanidade está regredindo á eras sombrias – Helve continuou com tristeza no olhar. – Onde deveria haver evolução só há desgraça e caos. A violência tomou conta da população, restando somente poucas pessoas de boa índole. Os humanos já não sabem mais como apreciar a vida que lhes foi dada.

– Você não parece odiá-los como Morris – Gwen comentou, fitando a sacerdotisa com respeito.

– Ah, querida Gwen – ela sorriu – Não posso odiar parte de mim. Sou imortal, mas já fui mortal. Tudo o que sinto ao olhar para meus semelhantes é uma tristeza profunda. Eles se perdem em meio a coisas banais quando poderiam estar vivendo em meio à prosperidade e harmonia. Mas o que esperar de uma raça que se corrompeu há tanto tempo… – ela mergulhou em lembranças. – Quando eu ainda era um deles, as coisas eram tão mais simples! Havia violência, é claro, mas naquela época as pessoas costumavam matar para defender seu território. Não por seu próprio prazer em tirar vidas.

– Eles não são tão diferentes dos vampiros, a final – Erika comentou.

– Você está errada. – Kell disse, muito devagar. – Vampiros matam porque precisam. Para se alimentar. Não matamos por dinheiro ou porque gostamos… – ela se calou.

– Alguns vampiros matam porque querem. – Gwen sussurrou.

– No entanto, ainda não são tão cruéis quanto os humanos. – Erika pareceu tomar conhecimento disso.

– Você está certa, minha querida – Helve concordou. – E é por isso que eu lhe digo: se você quer esconder quem você é por escolha, eu não vejo nenhum problema nisso. Muitas bruxas preferem assim. Mas não se esconda somente porque quer ser aceita em uma sociedade como essa.

– Eu não quero que eles saibam – Erika disse, calmamente. – Não por orgulho – a sinceridade brilhou em seus olhos. – Mas porque o ser humano é complexo demais para entender certas coisas. A intolerância religiosa está cada dia mais grave e eu não quero me ver no meio disso, sendo tratada como uma lunática por seguir o que eu acredito.  Eu entendo por que algumas bruxas se escondem… Afinal, a caça às bruxas ainda não terminou. Ainda somos hostilizadas.

– Não deve se preocupar com os humanos, Erika – disse Kell. – Eles se acham muito poderosos, mas no fim não são nada. Temos poderes para nos defender.

– Sim, nós temos – Erika concordou. – Mas nem todo o poder nos concedido foi o suficiente para salvar aquelas bruxas que foram caçadas, torturadas e mortas na inquisição.

– É aí que você se engana. – a voz da sacerdotisa morena as interrompeu. Ela estava sentada em silêncio até aquele momento, mas quando falou, sua voz assumiu um tom grave e sério. – Nem todas as mulheres mortas naquela caçada lunática eram bruxas. A maioria era apenas camponeses acusados injustamente.

Todos olharam para ela, Helve sorriu com tristeza. Kell era solidária.

– Eu sempre tive essa impressão – comentou Gwen, pensativa. – Me parece estranho que as bruxas tenham se deixado ser capturadas. Temos poderes. Não somos tão fáceis de ser dominadas.

– Algumas bruxas, de fato foram capturadas – A Sacerdotisa morena disse, os olhos perdidos na água transparente que escorria da fonte. – Talvez por que estivessem cansadas de fugir. Talvez por que seus poderes não foram suficientes contra o ódio das pessoas. Eu não sei dizer. Mas a igreja ocultou bem seus crimes, propagando que todos os executados eram criminosos hereges. Sua influência foi tão grande que até hoje há quem diga que aquelas mulheres eram mesmo pecadoras.

– Eu odeio a igreja! –Erika cuspiu. – Minha mãe sempre me obrigou a ir, mas eu jamais gostei. Talvez porque eu soubesse que aquela gente não prestava.

– Você não deveria odiar – a sacerdotisa voltou seus olhos para ela. – Não devemos guardar ódio em nosso coração, por mais hediondos que tenham sido os atos cometidos pela Igreja. Nossas ancestrais os perdoaram.

– Eu posso ter negado a magia em meu sangue por muito tempo, mas jamais manifestei qualquer ato de concordância com esse despropósito. Foi cruel! Eles construíram uma fé falsa em cima de sangue e mortes. Não há como perdoar um crime como esse. Eu sei o que eles fizeram – por um momento a voz dela se tingiu de horror – Eu já li sobre a inquisição… O martelo das feiticeiras. Eu sei o que eles faziam com aquelas mulheres, cada passo. Eu senti. E tudo o que posso lhe dizer é que foi abominável!

– O perdão é algo divino – a sacerdotisa argumentou.

– E algo que eu não tenho para dar – Erika a fitou com determinação.

– Eu perdoei – a mulher olhou no fundo de seus olhos.

Erika franziu o cenho, fitando-a com confusão.

– Margueride viu de perto a tragédia da inquisição – Helve explicou.

Gwen e Erika fitaram a sacerdotisa morena com surpresa.

– Eu fugi da caça às bruxas duas vezes – ela contou, o olhar tristonho. – Minha mãe vivia na França quando tudo aconteceu, ela era uma das curandeiras do vilarejo. Mantinha segredo na maior parte do tempo porque a Igreja controlava tudo e todos naquela época. No entanto, algumas pessoas ainda a procuravam para serem curadas. Quando a turba da inquisição chegou a nossa casa, ela estava grávida de mim.

Ela fez uma pausa, lembrando-se.

– Ela viu suas amigas serem levadas, viu suas vizinhas serem espancadas. Ela viu todo o horror acontecer a sua volta. E antes que a pegassem também, ela fugiu. Roubou um cavalo no meio da noite e fugiu para o mais longe que pôde. Conhecia algumas bruxas num povoado distante, amigas que compartilhavam da mesma magia e julgou que estaria segura. Foi um longo caminho para uma mulher grávida, mas ela conseguiu. Em menos de um mês estávamos seguras num pequeno vilarejo isolado ao norte da França.

Seu olhar passou pelas meninas, exalando uma tristeza antiga.

– Eu nasci forte e saudável – ela sorriu – Um presente para minha mãe se esquecer dos horrores que testemunhou. Mas ela jamais se esqueceu. Havia uma sombra nos olhos dela que nunca a deixava, uma sombra de puro medo e horror… E eu só fui entender o temor dessa sombra anos depois.

Ela se calou por alguns minutos.

– Eu tinha trinta e sete anos quando o terror chegou à minha casa novamente – ela continuou. – Minha mãe havia falecido dois meses antes e eu ainda estava de luto. A inquisição não havia acabado, afinal de contas. Houve burburinhos por toda aldeia dizendo que havia bruxas entre nós, uma acusação infundada. Mas as pessoas do vilarejo acreditaram e o terror teve início – seus olhos se voltaram para Erika. – Eu fui obrigada a fugir mais uma vez. Abandonar a minha casa, a minha vida para fugir do ódio que as pessoas propagaram contra as minhas ancestrais. Ainda me lembro dos gritos das mulheres acusadas, da violência com que eram detidas e julgadas… E finalmente queimadas.

– Eu sinto muito – a voz de Gwen não passou de um sussurro. Ela fitava a sacerdotisa com compaixão, não pena… Apenas pesar.

Margueride a fitou com um sorriso triste no rosto bonito.

– Hoje não dói tanto quanto um dia doeu. Eu posso ver minhas irmãs vivendo livremente por aí, sem medo de se revelar. E isso tudo é muito reconfortante para mim. É uma satisfação inexplicável.

– Eu entendo – Gwen garantiu.

– Você entende o que eu quis dizer? – Margueride perguntou, fitando Erika nos olhos. – Entende por que o perdão é necessário, especialmente para nós? Sem ele eu não teria chegado até aqui… Eu teria me consumido no ódio que nutria pela Igreja e pelas pessoas ambiciosas e maldosas…  Eu teria me tornado parte das trevas que o ódio geralmente proporciona às pessoas que sucumbem a ele.

Erika se limitou apenas assentir.

– Você entende o quanto é importante uma bruxa não esconder o que ela é? – a sacerdotisa insistiu. – É uma homenagem às nossas ancestrais que foram obrigadas por tanto tempo a se esconderem. É uma honra finalmente poder cultuar aos Antigos Deuses e à natureza sem ser caçada por isso. – sua voz tremeu com a paixão.

– Eu acho que entendi.– Erika disse com a voz rouca.

– É normal ter raiva desse passado trágico. – Helve se manifestou, compreensiva. – Algumas bruxas têm. Mas o que você não pode deixar acontecer é essa raiva se infiltrar em seu coração. Já vi muitas mulheres que estavam se descobrindo como bruxa se perder por causa disso. Se você, antes de se aceitar como uma bruxa, já nutria esse sentimento pela Igreja, agora isso tende a aumentar.

– Eu entendo –Erika assentiu – Eu realmente entendo. Não deixarei que isso aconteça.

Helve assentiu, satisfeita.

E, de repente, todo aquele clima tenso se desfez, permitindo a energia circular livremente.

Kell se voltou para Erika, toda animada.

– Você já fez algum feitiço? – perguntou a menina. Ela parecia nutrir certa curiosidade quanto às duas.

– Sim – Erika abriu seu sorriso presunçoso. – Um feitiço muito útil, na verdade. Eu espantei dois exilados que estavam nos perseguindo.

– Ahhh! – Kell sorriu, encantada. – Não são muitas bruxas que conseguem lançar um feitiço repelente como esse em pouco tempo de estudo – Seu olhar voltou-se para Gwen, ainda mais encantado. – E você? Sei que sua alma é antiga na magia, soube assim que a vi. Você é Êzant – sua voz acariciou a palavra com adoração.

Gwen mordeu os lábios, sentindo a tristeza tingir seu olhar.

– Meus poderes ainda não se manifestaram – ela disse, para a decepção da jovem.

– Na verdade – Erika comentou com um sorriso – Ela fez um feitiço muito legal certa vez – seu olhar se fixou em Gwen, solidário pela primeira vez. – Ela derrubou uma cesta de basquete em um idiota que a ofendeu.

– Você fez isso? – o olhar de Kell brilhou.

– Eu não… – Gwen começou, constrangida. Nunca se perdoou verdadeiramente por ter machucado Thomas, mesmo que ele tivesse merecido. E aquele assunto a incomodava demais.

– Foi um acidente – Helve respondeu por ela.

Kell sorriu, deixando bem claro que não se incomodava com o fato de ter sido um acidente ou não.

Gwen fitou a sacerdotisa com os olhos agradecidos.

– Venha, Gwen – ela a chamou, levantando-se das almofadas – Deixemos que as duas se divirtam um pouco – seu olhar passou pelas meninas e depois se fixou na jovem novamente – Eu sei que você tem perguntas.

Gwen sorriu um pouco e a acompanhou pelo Templo. Sentia-se extremamente confortável na presença da Bruxa, principalmente quando Helve demonstrava que sabia o que ela estava pensando e sentindo.

Algumas das sacerdotisas aprendizes estavam rodeando a grande mesa de carvalho deram licença quando Helve se aproximou. Pareciam estar sempre em sintonia com sua Grande Sacerdotisa – o que era extremamente curioso.

Helve fitou a mesa cheia de ervas, frutas, velas, incensos e instrumentos mágicos.

– Oferendas para a Deusa Deméter – ela disse ao ver o olhar curioso de Gwen.

– A Deusa da colheita – a jovem sorriu. – Eu achei que você honrasse o panteão Celta – ela fitou a sacerdotisa com confusão.

– Só os nomes são diferentes – Helve disse com sabedoria – No fundo, todos os deuses são os mesmos. E por aqui – seus olhos sábios varreram o Templo – Somos todos panteístas. Impossível não ser com tantas bruxas vindas de todos os lugares possíveis.

Gwen sorriu, pensando que Helve era a bruxa mais inteligente que ela já conhecera. O mundo mágico lucraria muito se ela passasse seus conhecimentos. Por um momento se pegou pensando em como tinha sorte por ter uma mentora como aquela, uma sacerdotisa antiga que vivenciou séculos e mais séculos onde a Magia era mais pura. Muitas bruxas não tinham esse privilégio.

– Você tem perguntas… – Helve começou, interrompendo-lhe os pensamentos. – Mas antes eu gostaria de lhe mostrar uma coisa. Na verdade é um pequeno exercício.

Gwen a fitou com curiosidade.

Helve pegou uma das velas em cima da mesa e posicionou-a mais perto, o pavio estava apagado. Seu olhar era divertido quando fitou a jovem.

– Acenda – ela ordenou.

Gwen franziu o cenho, fitando a vela a sua frente.

– Como? – ela sabia que Helve não se referia a pegar um fósforo e acender o pavio.

– A magia está dentro de você, só esperando que você a use. Faça isso agora – ela sorriu, tentando incentivá-la.

– Helve, eu nunca fiz nada parecido – de repente a voz de Gwen se tingiu de insegurança.

– Você derrubou uma cesta de basquete – Helve a lembrou – Se foi capaz de fazer isso, é completamente capaz de acender essa vela.

– Aquilo foi diferente. Eu não quis fazer aquilo, foi um acidente. Eu estava com muita raiva…

– Está tudo bem, Gwen – Helve apertou-lhe o ombro suavemente – Ninguém está te culpando pelo que aconteceu. Foi um acidente, como você mesmo disse. Sei que você não quis machucar aquele garoto.

Gwen abaixou a cabeça.

– Quando uma bruxa fica com raiva… – a sacerdotisa começou, complacente – Acidentes acontecem. Tenho certeza de que você conhece a expressão: não deixe uma bruxa irritada.

Gwen sorriu um pouco, sem humor.

– Agora eu sei o que significa.

– Você fez aquilo – Helve a fitou com intensidade. – Fez a cesta cair. A magia está pronta para ser usada. Você só precisa… Deixar fluir. Deixe que ela encontre seu curso… Deixe que aconteça. Liberte-se das correntes que ainda a prendem. Você pode.

Gwen fitou a vela em cima da mesa, ouvindo a voz suave da sacerdotisa penetrando em sua alma. Ela podia sentir as energias aguçadas a seu redor, como se quisessem que a magia fluísse.

– Você sabe que as bruxas têm total poder sobre os elementos, não sabe? – Helve perguntou, vendo-a assentir em silêncio. – É por isso que somos capazes de acender uma vela, controlar uma tempestade… Curar a Terra. Nossos poderes são naturais… Vem direto da Mãe Terra. Nada é sobrenatural na magia. Nós pedimos emprestado, não controlamos. Trabalhamos em harmonia com os elementos, com a natureza. Cada um ajuda o outro. É isso o que nos torna tão especiais.

A voz da sacerdotisa era suave… Acalentadora.

Gwen concentrou toda a sua atenção no pavio da vela, tentando  focar no que Helve dizia. A princípio nada aconteceu, a vela continuou apagada em cima da mesa. Mesmo que Gwen fizesse força com a mente para acender, nada acontecia.

– Acalme-se – Helve sussurrou em seu ouvido, guiando-a. – Deixe o poder fluir. Pare de pensar, desligue sua mente.  Agora pense apenas no fogo. Pense no tom alaranjado, no calor gostoso que ele nos traz… Pense na força poderosa desse elemento.

Gwen fechou os olhos por um momento, focalizando a imagem de uma fogueira. Concentrou-se na imagem das chamas em sua mente, conectando-se com aquele elemento esplendoroso que há muito tempo foi roubado dos Deuses e revelado à humanidade. Não demorou muito para ela sentir o leve formigamento começar a se espalhar por seu corpo. Começou com um leve comichão na nuca, suave, macio… E então se espalhou por todo seu corpo numa explosão de sensações.

Ela tinha certeza absoluta de que estava brilhando.

– Invoque – a voz de Helve chegou à ela num sussurro lento e distante.

Gwen invocou a presença do fogo, usando toda a fé que tinha em sua alma. A magia se manifestou, cercando-a em uma onda de pura energia. E quando finalmente abriu os olhos viu a vela acesa. A chama alaranjada dançava elegantemente no pavio.

Gwen abriu seu sorriso cativante.

– Eu fiz!- ela disse, mal acreditando. – Eu acendi a vela.

Helve lançou um sorriso orgulhoso para ela.

– Eu sabia que você conseguiria – a sacerdotisa disse com presunção. – Não tenha dúvidas, minha querida, sua magia é tão poderosa quanto sua alma diz. E há muita coisa bonita dentro de você, coisas que você um dia passará a outras pessoas como eu estava destinada a fazer.

Gwen sorriu mais uma vez e, sem poder se conter, as lágrimas inundaram seus olhos.

– Obrigada – ela sussurrou.

– Você fez isso – a sacerdotisa disse – Não fui eu.

– Mas você me guiou – Gwen a lembrou, agradecida. – Não teria conseguido sem você.

– Mas é claro que teria conseguido! – ela sorriu. – Você é uma bruxa muito talentosa, minha querida. Fiz esse pequeno exercício com você para você não duvidar mais de si mesma. Você viu do que é capaz. Sabe que há magia dentro de você. Então, nada de se desmerecer ou entristecer-se porque a magia não floresce tão rapidamente como você quer. Tudo tem seu tempo certo. – Helve deu uma piscadinha.

– Obrigada, Helve. – Gwen agradeceu mais uma vez. Ela sorriu, fitando a vela queimar. Seus olhos foram capturados pelo leve brilho que vinha de seu corpo e mais uma vez ela fitou suas mãos, enxergando a luz que se espalhava pelos dedos. Seu corpo ainda formigava.

Gwen fitou a sacerdotisa com curiosidade.

– Eu vejo o seu brilho, pequenina – Helve sorriu, encantada com a luz vinda da jovem.

– Por quê? – foi tudo o que Gwen perguntou.

– Eu poderia dar vários motivos. Uma bruxa comum tem muita luz dentro de si, todo ser humano têm, embora eles ignorem e muitas vezes desconheçam isso. Mas as bruxas mais ainda porque temos a magia desperta em nossa alma. Mas você… – ela fitou a garota com admiração. – Você é Êzant. Sua alma é tão antiga e mágica que a luz se impregnou dentro de você, pura e forte. A magia antiga é mais forte porque não foi corrompida como o mundo está hoje em dia… Ela é pura. Agora imagine a magia que você carga: antiga e pura como é. Não é a toa que você brilha.

Gwen fitou as mãos, o cenho franzido.

– Antigamente, quando uma bruxa utilizava a magia, ela brilhava – Helve contou. – Sua luz atraía todos os seres, resplandecia por todos os lados. Hoje em dia é difícil ver isso. Se você está surpresa com a luz que exala nesse momento ficará ainda mais quando senti-la mais forte. Sua luz ainda é fraca porque sua magia está se desenvolvendo agora, mas conforme o tempo passar ela se tornará ainda mais forte.

Mais forte? – Gwen ergueu as sobrancelhas.

– Muito mais forte – Helve sorriu.

– Eu acho que gosto disso a final – Gwen disse, fitando a ponta dos dedos onde a luz se tornava cada vez mais fraca até finalmente desaparecer junto com o formigamento.

– É claro que gosta – a sacerdotisa riu. – É uma coisa fascinante. Não é a toa que a chamam de estrela.

Gwen corou, lembrando-se de como Heron a chamava de estrela em sua língua materna.

– E quanto ao formigamento? – ela perguntou, lembrando-se desse fato importante. – Eu senti um leve formigamento percorrer todo o meu corpo quando me aproximei do Templo hoje… E quando acendi a vela.

– O corpo de uma bruxa formiga toda vez que ela sente a magia – Helve disse, a expressão muito sábia. – Onde quer que haja magia, se você estiver perto sentirá seu corpo formigar.

Gwen franziu o cenho, lembrando-se de Dimitri. Toda vez que estava perto dele sentia aquele formigamento tomar conta de seu corpo. Confusa, ela pensou em perguntar, mas no último momento se calou. Alguma coisa a impediu…

– Você me faz lembrar Kell quando ela era mais nova – Helve disse, interrompendo-a. Seu olhar era doce ao falar da jovem vampira e Gwen pensou ter captado alguma coisa na expressão da sacerdotisa.

– Ela era tão encantada e ansiosa quanto você quando a magia começou a se manifestar – continuou Helve.

Gwen franziu o cenho, dando-se conta de uma coisa.

– Espere – ela disse, confusa. – Você disse que a magia despertou dentro dela… Mas Kell é uma vampira. – ela argumentou, percebendo que não tinha se tocado que a jovem vampira era também uma bruxa.

Helve sorriu, compreendendo.

– Heron me disse que uma bruxa não pode virar uma vampira – Gwen disse, cautelosa. – Ele disse que o Beijo da Meia-Noite funciona diferente conosco. Uma bruxa se torna imortal quando a meia-noite a beija, não somos controladas pelo sangue. É possível que as duas coisas coexistam?

– Uma bruxa pode se tornar vampira se abdicar de sua magia quando a meia-noite a beijar. É uma escolha que poucas fazem, afinal abdicar de sua magia pode ser a ruína de uma bruxa. No caso de Kell é diferente. Ela nasceu uma vampira – seu olhar se demorou no de Gwen. – Ela carrega a magia dentro de si porque nasceu assim… Filha de uma bruxa e um vampiro.

Helve fez uma breve pausa.

– Kell é minha filha – ela revelou.

Gwen fitou a Grande Sacerdotisa com surpresa. Não havia notado nenhuma semelhança até aquele momento.

– Até mesmo uma bruxa imortal pode se apaixonar – Helve sorriu diante do olhar de Gwen.

– Eu entendo agora por que ela me pareceu tão familiar – Gwen disse, pensativa, fitando a menina do outro lado. – Ela é muito bonita.

– Ela é minha preciosidade.

– Eu não sabia que você tinha um consorte – Gwen disse, surpresa.

– Eu não tenho – por um momento a tristeza tingiu os olhos de Helve. – Foi uma coisa que aconteceu há muito tempo.

Gwen observou a Sacerdotisa, percebendo a leve tensão que ela exalava.

– Nós evitamos falar sobre certas coisas, Gwen – Helve explicou. – O nascimento da minha filha é um segredo que somente poucas pessoas sabem.

– Eu não entendo.

– Você gostaria de ouvir? – Helve perguntou – Se tem alguém que eu gostaria que soubesse é você.

Gwen se sentiu maravilhada com a confiança da bruxa.

– Você faz parte do futuro de muitos por aqui – Helve disse, como se tivesse captado as emoções da jovem – Quando eu disse que esperava por você eu não menti. Você estava destinada a me conhecer, querida. Seu destino é onde a meia-noite se esconde.

– É engraçado, eu tive a mesma sensação – disse Gwen, fitando o Templo a seu redor. – Eu me sinto em casa.

Ainda não, Helve pensou fitando a jovem. Sua alma estava incompleta… Ainda a procura da alma que a faria se sentir verdadeiramente em casa. Mas ela não iria dizer nada. A hora não havia chegado.

Fitando-a com intensidade, Helve começou a contar a história que sempre fora mantida em segredo absoluto dentro daquele Templo sagrado.

– Foi durante o fogo de Beltane[1]. – sua voz soou distante – Há muito tempo atrás. Eu e minhas sacerdotisas estávamos celebrando a fertilidade da Terra além das montanhas… As fogueiras estavam acesas. Posso me lembrar do calor das chamas, fazendo-nos suar. Nossas vestes grudavam em nosso corpo, molhadas, conforme dançávamos ao som suave dos tambores. Embora não estivéssemos em nossa amada terra, ainda podíamos sentir a magia em nossos rituais sagrados. Isso Brasov nunca nos tirou.

Seus olhos se voltaram para Gwen, perdidos em lembranças.

– Foi quando ele apareceu – sua voz encheu-se de emoção, como se lembrar daquele momento trouxesse lembranças doces de alguém que ela realmente amou. – Eu já o havia visto por aqui muitas vezes, respeitávamos um ao outro. Mas naquela noite não se tratava de respeito ou amizade. Ele invadiu nosso espaço, nosso ritual sagrado.  E quando um vampiro ou humano, homem, invade um ritual de fertilidade você pode supor o que ele quer. Minhas sacerdotisas saíram correndo e dançando pela floresta, deixaram-me a sós com o guerreiro. E eu pude ver, no fundo de sua alma o quanto ele me desejava naquele momento.

Os olhos de Helve brilhavam conforme ela falava, ela revivia a paixão intensa daquela noite há muitos anos.

– Celebramos o ritual juntos – ela contou. – Como as bruxas celebravam antigamente, unindo o feminino e masculino para abençoar a Terra com fertilidade. Foi uma noite mágica, nós nos amamos. Mas foi a única. O que acontece nas fogueiras de Beltane permanece nas fogueiras.

Ela fez uma pausa e então abriu um lindo sorriso.

– Eu senti a semente da vida germinar em meu ventre no dia seguinte e soube que em breve seria mãe – sua voz era amorosa. – Foi a maior alegria da minha vida saber que teria uma filha… Uma filha imortal. Saber que ela seria minha para sempre. Eu a amei desde o começo e continuo amando até hoje. Mesmo com todos os problemas que sua concepção me trouxe.

Gwen a fitou com curiosidade.

– Eu jamais revelei a identidade do guerreiro que me visitou naquela noite. Ninguém jamais soube quem é o pai da minha filha. Era melhor para mim e para Kell se ninguém soubesse. O fato de eu estar grávida já era um insulto. Quando ela nasceu, eu a eduquei nos antigos mistérios. Sempre soube que ela teria a magia na alma. Eu a ensinei a ser uma boa bruxa. E assim tem sido até hoje. Eu a ensino constantemente sobre os mistérios da Deusa enquanto espero ela completar a transformação em vampira.

– Quem era ele, Helve? – Gwen perguntou, a voz baixa e encantada.

– Alguém muito especial – a sacerdotisa respondeu, com um sorriso doce.

– Ele ainda vive?

– Oh, ele vive sim – ela sorriu – Tem uma vida maravilhosa, a vida que ele merece.

Gwen sorriu, verdadeiramente encantada com a história de amor da sacerdotisa. Para ela sempre fora maravilhoso ver as pessoas amando. O amor florescia o mundo!

– Ele sabe sobre Kell? – perguntou

– Sabe – a sacerdotisa sorriu. – Não foi possível esconder dele. Ele a visita sempre que pode. Para ele o nascimento dela foi uma benção também. Ele a ama com todo seu coração.

– Mas por que vocês não ficaram juntos? – a decepção era evidente nos olhos de Gwen.

– Há certas coisas que simplesmente não dão certo… Não é para ser. – a sacerdotisa disse com tristeza. – Ele jamais me amou de verdade. Foi uma única noite em que a paixão nos dominou. Nosso relacionamento era de amizade. Seu coração pertencia à outra mulher.

– Você o amou? – Gwen se arriscou a perguntar.

– Por uma noite.

Gwen desviou o olhar, pensando em que segredos habitavam o coração daquela mulher.

– Por que parece tão errado você ter tido uma filha? Por que isso seria um insulto? – ela perguntou, lembrando-se do que a sacerdotisa havia dito.

– Para mim jamais foi errado – Helve sorriu – Mas para algumas pessoas por aqui, sim. – sua voz tingiu-se com amargura e raiva. – Por isso eu mantenho segredo. Para proteger a mim, a Kell e ao pai dela.

– Eu não entendo. Você é uma bruxa poderosa, tem o direito de tomar suas próprias decisões. E, para mim, você é uma mãe maravilhosa. – Gwen disse, carinhosamente.

Helve sorriu.

– Eu tento ser, querida. Eu tento.

Nesse momento, Kell veio correndo pelo amplo espaço do Templo e se atirou nos braços de Helve, abraçando-a com carinho. Seu rostinho jovem estava reluzente com aquele sorriso doce.

– Oh, minha querida – a sacerdotisa lhe sorriu e todo seu amor ficou evidente em sua expressão afetuosa. – Divertiu-se com Erika?

– Sim, Máthair[2]. – ela respondeu com um sorriso – Erika é uma bruxa muito talentosa.

Erika franziu o cenho para Kell, surpresa com seu parentesco com a Sacerdotisa. Mas não disse nada, sua atenção foi capturada novamente pelo elogio que a jovem lhe fez.

– É claro que é – Helve sorriu com carinho.

– O que posso dizer? – Erika deu um sorriso presunçoso. – Eu sou boa.

Gwen revirou os olhos. Já estava se acostumando com o jeito esnobe e arrogante da garota, mas suas atitudes nunca deixavam de surpreendê-la.

– Eu fico muito feliz que esteja aceitando o que você é. – Kell sorriu. – Você tem bastante potencial.

– Eu também estou gostando – Erika disse com sinceridade. – A magia, os feitiços, os poderes… Acreditar em uma Deusa mulher. Tudo isso é fascinante para mim. Não acredito que deixei minha mãe tirar isso de mim por tanto tempo.

– Não precisa ser mais assim – Helve disse, apertando-lhe o ombro carinhosamente.

– Sabe, eu estou começando a gostar de ter sido envolvida nessa história toda de vampiros – seu olhar se voltou para Gwen em um sorriso.

– De nada – Gwen também sorriu.

– Você estava destinada a nos conhecer – disse Kell. – De um jeito ou de outro você acabaria sendo envolvida pela meia-noite.

– Não tenho muita certeza quanto a isso – Erika sorriu.

Nesse momento, Heron apareceu e automaticamente roubou toda a atenção para si. Ele caminhou suavemente naquela direção, os olhos amendoados mais claros até se tornarem quentes quando se fixaram em Gwen. Naquele pouco tempo em que ficou distante, ele já sentia saudades.

Gwen o fitava, fascinada. Amava aquele olhar caloroso que ele costumava lhe lançar. Amava cada gesto doce daquele vampiro, cada toque, cada palavra. Amava-o por inteiro. E a cada dia que passava, ela se dava conta de como aquele sentimento crescia consideravelmente. Mas antes que ela pudesse dar dois passos a frente e alcança-lo, Kell saiu correndo de onde estava e se atirou nos braços dele, toda sorridente.

A princípio, Gwen não soube o que pensar daquela atitude. Seus olhos fixaram-se naquela cena curiosa, vendo Heron abraçar a garotinha com um carinho doce. Não houve ciúmes ou raiva, apenas admiração. Não estava acostumada a vê-lo tratar as pessoas daquele jeito… A não ser ela mesma. Ele era gentil na maioria das vezes, mas aquela atitude doce era reservada a poucos.

Heron deu um beijo suave na testa de Kell e voltou os olhos amendoados novamente para Gwen. A hesitação era evidente em seu olhar, parecia preocupado com a reação dela para com sua atitude inesperada. Mas Gwen não estava disposta a deixa-lo pensando. Ela deu dois passos e o abraçou suavemente.

Ele sorriu, pressionando os lábios nos dela. O beijo doce a embriagou, enchendo-a de alegria. Se pudesse, ela reservaria um dia inteiro somente para sentir o toque de seus lábios.

Heron a apertou em seus braços, afundando o rosto nos cabelos macios.

– Senti sua falta, mici – ele sussurrou.

– Eu também.

– Ah, os apaixonados – Helve sorriu.

Heron libertou Gwen de seu abraço, mas a manteve junto de si. Seus olhos vagaram para a sacerdotisa com um calor inconfundível e então pousaram em Erika. O sorriso que se seguiu foi bem malicioso.

– Hum… – ele suspirou – O vermelho lhe cai muito bem.

Erika se sentiu um tanto intimidada com aquele olhar, mas ao fitar a expressão tranquila no rosto de Gwen percebeu que era apenas uma brincadeira. Voltando a ser ela mesma, Erika sorriu e voltou sua atenção à Kell e as outras sacerdotisas que estavam rodeando a fonte sagrada.

Helve sorriu, amistosa.

– Acho que já terminamos por aqui – ela disse – Se quiser pode levar sua Gwen. Vejo que está louco de saudades.

– Certamente – Heron sorriu mais uma vez.

Helve se despediu da jovem e deixou que eles partissem. Seus olhos sábios estavam sempre colados naquele casal, mas Gwen não tinha certeza do que via naquele olhar. Talvez fosse apenas admiração… Ou, talvez, cautela.

No entanto, não se importou muito com aquilo. No momento se permitiu ficar feliz em estar nos braços de seu amante vampiro.

 *-* *-*

 Heron caminhava suavemente ao lado de Gwen pelo caminho de cascalho, os braços envolvendo-lhe a cintura. Seu humor estava completamente diferente do que ela havia visto na noite passada. Ele parecia feliz.

E como ela amava aquele calor suave que o envolvia. Era como se a frieza não existisse mais.

– O que vamos fazer agora? – ela perguntou, mais do que feliz por estarem juntos.

– O que você acha de darmos um pequeno passeio? – Heron perguntou, o sorriso arteiro no rosto jovem.

– Passeio? – ela ergueu as sobrancelhas. – Não é perigoso sair dos limites do castelo?

– Estará em perfeita segurança do meu lado – ele disse com intensidade.

Gwen o olhou dentro dos olhos com a mesma intensidade. Era ridículo ela achar que não estaria segura na presença dele. Heron já havia dado provas o suficiente de que estava disposto a enfrentar qualquer coisa para protegê-la. E ele, de fato, enfrentou.

– Quero lhe mostrar uma coisa – ele insistiu.

Gwen sorriu, concordando. Ele a levou até a garagem escondida entre as muralhas e pegaram um dos carros que estavam à disposição dos guarda. Heron abriu a porta como um verdadeiro cavalheiro para que ela entrasse e depois assumiu o volante.

Gwen não pôde deixar de sentir medo quando eles saíram pelo enorme portão de ferro. Pensar que estavam do lado de fora das muralhas a lembrou do ataque que sofrera na escola…

– Vai ficar tudo bem – Heron disse gentilmente, segurando-lhe a mão que repousava no banco. Seu olhar era doce.  – Você está segura comigo.

– Eu sei que sim – ela sorriu, sincera.

Heron deu um sorriso presunçoso e seguiu com o carro. A paisagem era muito bonita, as montanhas cercavam a estrada num monte de verde. A luz do sol era fraca, mas ainda assim capaz de iluminar as árvores que constituíam a maior parte das montanhas. Era absolutamente lindo… E surreal aos olhos humanos.

Gwen sempre teve vontade de conhecer alguns países europeus, mas a Romênia nunca foi parte de seus planos. Olhando para a magia de Brasov ela pensava em como estava enganada. Não trocaria a beleza daquele lugar por nada.

Seus olhos se distanciaram um momento da paisagem e se focaram em Heron. Ele dirigia habilmente por entre as estradas estreitas, os olhos atentos. De vez em quando lançava olhares em sua direção, com o sorriso satisfeito nos lábios. Parecia feliz com a admiração dela por seu país.

– Então… – Gwen começou, cautelosa. – Kell ficou muito feliz em ver você.

– Ela é uma garotinha muito especial – Heron sorriu.

– É mesmo – Gwen concordou.

– Está com ciúmes, Gwen? – ele perguntou com um sorriso divertido no rosto.

– É claro que não – ela riu também – Só estava pensando no modo como ela o abraçou… Foi muito carinhoso.

Heron suspirou e algo naquele suspiro saiu estranho… Desconfortável.

– Kell e eu nos damos muito bem. Somos grandes amigos há muito tempo – ele explicou – Ela é filha de Helve, uma menina adorável. É meio difícil não gostar dela depois que a conhece.

– É – Gwen sorriu – Ela é encantadora.

– Você não me parece estar com ciúmes – ele a fitou com humor.

– E não estou, como já disse – ela assentiu – Só estou pensando no que você, supostamente, está me escondendo.

– Por que você acha que eu estou lhe escondendo alguma coisa? – Heron perguntou, sério.

Gwen se limitou a encará-lo.

Heron esboçou um sorriso.

– Bruxas – ele murmurou.

– Espero que isso não tenha sido um insulto – Gwen riu.

Heron resmungou alguma coisa em outro idioma e acariciou-lhe a bochecha suavemente com o polegar. Os olhos estavam sempre atentos na estrada, mas se arriscavam a olha-la.

– Ah, mici – ele suspirou – Fica cada vez mais difícil de esconder minhas emoções de você.

– E eu fico muito contente com isso – ela disse, presunçosa. – Não gosto quando você me esconde as coisas.

Ele suspirou mais uma vez, cedendo.

– Helve lhe contou sobre Kell, eu suponho – ele disse em tom de pergunta.

– Contou.

– Ela mencionou sobre o pai?

– Helve não disse quem ele era. Só me contou que era um dos guerreiros do castelo. Ao que parece esse era um assunto proibido.

Heron assentiu em silêncio.

– Você sabe alguma coisa sobre isso? – Gwen perguntou.

– Você precisa entender que esse é um segredo guardado a sete chaves – Heron disse, muito sério.

– Eu entendo.

Heron respirou fundo. Odiava ter que esconder a verdade de Gwen, mas algumas coisas eram inevitáveis. Para o próprio bem dela. Sua mão encontrou a dela e apertou-a suavemente.

– Kell é muito importante para mim – ele disse com intensidade. – Você não faz ideia do quanto.

Um longo silêncio se fez enquanto ele seguia pela estrada estreita que beirava o precipício. As montanhas eram menos verdes naquela área, um tanto sombrias. E Gwen aproveitou aquela paisagem menos bonita para pensar.

– Ela é sua irmã – disse de repente.

Heron a fitou tão logo ela disse, os olhos fixos no rosto belo. Nem um pouco preocupado com a estrada, ele não precisava se importar. O carro não oscilou nem sequer uma vez.

Seus lábios se repuxaram num sorriso presunçoso.

– Você é esperta – disse ele.

– É claro que eu sou. – ela deu um sorriso breve.

– Eu deveria saber que você deduziria. Não se pode esconder nada das bruxas – seu riso era divertido.

– Eu confesso que havia pensado na possibilidade de ela ser a sua filha – Gwen disse com cautela. – Mas então me lembrei de que você jamais me esconderia tal coisa… E que você vê Helve como uma mãe.

– Se eu fosse o pai dela você seria a primeira a saber – ele disse, o olhar intenso.

Gwen assentiu em silêncio.

– Foi há muito tempo – Heron continuou – Eu já havia completado minha transformação e meu pai já pensava em deixar o reino, não aguentava mais ter de ver minha mãe nos braços de Morris…

– Espere –Gwen pediu, confusa – Isso foi há muito tempo! Kell tem no máximo onze anos… – ela fez uma pequena pausa – Quanto tempo um vampiro leva para completar a transformação?

– Nós crescemos até os vinte e poucos anos e então paramos de envelhecer. É um processo lento – ele deu de ombros.

Gwen assentiu, pensativa.

– Meu pai soube sobre Kell depois de ter partido – Heron continuou.

– Aposto como Dolan ficou feliz – Gwen sorriu.

– Ah, ele ficou sim – Heron também sorriu.

– Certa vez ele me disse que sempre quis ter uma filha.

– Ele vê você como uma filha –Heron contou –Todas as vezes que olha para você ele vê a doçura e o amor que há em Kell.

– Eu entendo agora porque ele sempre me tratava com tanto carinho – ela sorriu, lembrando-se do padrasto de quem tanto gostava. – Ele deve sentir muitas saudades de Kell. Helve me disse que ele raramente a visita.

– Não queremos chamar a atenção. – Heron explicou.

– Eu não entendo –Gwen disse, frustrada – Por que é tão errado que Helve tenha tido uma filha? Qual o problema de Dolan ser o pai? Não é por causa de Astrid, certo? Afinal ela parece amar Morris…

– O problema, Gwen – Heron a interrompeu, tenso – É que meu pai desobedeceu à regra de não tocar em uma sacerdotisa… Especialmente em Helve.

– Por quê? – a indignação tingiu-lhe a voz.

– Morris é muito invejoso – Heron contou, amargo.

– O que você quer dizer com isso? Helve tem todo o direito de ter um consorte! Isso não é da conta de ninguém além dela!

– Eu me esqueci que você não sabia –Heron a fitou com um sorriso amargo – Morris foi apaixonado por Helve séculos atrás. Foi por esse motivo que ele lhe deu a imortalidade. Ele não sabia que o beijo da meia-noite agia diferente em uma bruxa. Ele a queria como companheira.

Ele fez uma pausa, vendo o descontentamento no olhar de Gwen.

– Ela sempre o renegou – continuou ele – Jamais aceitou o fato de ter sua mortalidade roubada, era contra sua natureza. Ela o odiou por isso, chegou a amaldiçoa-lo. E isso o enfurece até hoje. Ter sido rejeitado foi uma ofensa imperdoável.

– Então é por isso que ninguém pode saber…

– O fato de Helve ter se deitado com alguém e tido uma criança o afrontou por demais. No entanto ele jamais ousou enfrenta-la para conseguir uma resposta. Ele a teme até os dias de hoje, conhece a força do poder dela. Mas nada o impediria de castigar o guarda que lhe desobedeceu às regras e se deitou com a mais proibida das sacerdotisas.

– Isso é ridículo! Ele não pode controlar a vida das pessoas desse jeito.

– Aqui em Brasov é ele quem manda, Gwen – Heron explicou e seu rosto não estava contente. – Todos o veem como o soberano. Ninguém o enfrenta senão Helve. Mas até ela se deu conta de que guardar segredo é a melhor coisa a se fazer.

– Ele ainda é apaixonado por ela?

– E quem sabe dizer o que habita aquele coração negro? – Heron perguntou mais para si mesmo.

– Mas e quanto a sua mãe?

– Morris se apaixonou perdidamente pela minha mãe assim que a viu. Creio que Helve não lhe ocupa mais o coração. Mas ele faz questão de puni-la pela recusa. Morris jamais vai deixar que alguém a toque uma vez que ele mesmo não teve esse privilégio.

– Mais uma vez eu digo: injusto e ridículo!

– A vida não é lá muito justa, Gwen, você tem que admitir.

– Isso não é verdade – Gwen contestou. – Todo mundo está acostumado a dizer isso porque não tem a coragem de lutar por uma vida justa. Mas ela é justa! São as pessoas que fazem as injustiças.

Heron a fitou por um longo momento, os olhos ardendo naquele tom amendoado.

– Ah, mici – ele sorriu, totalmente apaixonado – Essa sua doçura me encanta. Como fui demorar tanto para encontra-la?

– Você estava se divertindo com as mulheres erradas – Gwen sorriu, esquecendo-se por um momento de sua raiva.

– Você não sabe o quanto eu anseio por você. – a voz dele saiu arrastada, ronronando até ela numa onda suave de calor – Perder-me dentro de você.

Gwen desviou o olhar, corada. Às vezes a intensidade de Heron passava dos limites, levando-a a um estado de pura excitação. O calor era tão quente que chegava a arder no fundo da alma e se ela não se controlasse corria o risco de se incinerar.

Seus olhos se voltaram para a estrada, agora mais ampla e cercada de montanhas verdes novamente. Ela não fazia ideia de que lugar era aquele, o ar era denso… Frio.

– Onde estamos indo? – ela perguntou com um arrepio.

– Está sentindo a energia, não é? – ele a fitou, percebendo a hesitação.  – Não se preocupe. Está perfeitamente segura comigo.

[1] Sabbath da fertilidade.

[2] Mãe – Gaélico Irlandês.

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