O Sangue da Meia Noite – Capítulo 02

Escrito por Natasha Morgan

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Gwen não esperou que a atendessem na secretaria, entrou de fininho pelo portão azul e seguiu apressada pelo pátio. Por sorte estava tudo vazio. Os alunos já deviam estar dentro de suas salas.

Quando chegou ao imenso corredor que levava às salas seu coração começou a bater mais forte, como se alguma coisa estivesse prestes a acontecer. Ela não fazia idéia de como sabia disso. Só sabia que tinha que pegar Erika e dar o fora daquele lugar.

Estava quase alcançando a esquina entre as salas quando esbarrou em alguém. O susto foi tão grande que ela quase gritou. Mas ao olhar bem para o garoto a sua frente percebeu que ele era o menor de seus problemas.

– Está atrasada. – a voz de Thomas era amarga, como se o fato de vê-la fosse desagradável. E, de fato, era. Desde que havia quebrado o pé em três lugares no acidente da quadra mês passado ele a evitava. Era como se ele soubesse que ela fora a culpada – o que era impossível.

– Eu não vim para a aula hoje. – ela se obrigou a responder, a voz no mesmo tom amargo que a dele.

– Que sorte a nossa, não é mesmo? – ele deu um sorriso falso.

– Você, por acaso, viu a Erika? – Gwen perguntou, ignorando o sarcasmo dele.

– Por quê? São amiguinhas agora?

– Deixa pra lá.

Gwen virou as costas para ele e continuou a seguir o corredor interminável. Assim que alcançou a sala em que assistia às aulas bateu na porta educadamente.

Uma mulher alta e morena atendeu, a expressão nada amistosa.

– O que faz aí fora, Srta. Alles? – ela perguntou.

– Estou procurando a Erika. – Gwen se apressou em dizer, como se o tempo estivesse ficando cada vez mais curto. – Erika Bloom.

A mulher franziu o cenho, desconfiada. Não era nenhum segredo para os professores que ela e Erika eram inimigas mortais, embora não usasse essas palavras. O fato de estar procurando pela garota era estranho.

Mas, aparentemente, os professores não estavam preocupados em se meter em brigas de alunos, pois a mulher voltou-se para a sala e chamou Erika.

A garota estava sentada na última carteira, isolada de todo mundo. – O que não era nem um pouco normal uma vez que ela era a popular da escola e se sentava sempre nas primeiras mesas. Mas ultimamente nada em Erika era normal. Ela mudara muito desde o mês passado.

Sua expressão não era das melhores, aparentava cansaço e havia olheiras embaixo dos olhos. O cabelo loiro estava desarrumado e as roupas não eram nada elegantes. Ela até usava uniforme.

Quando viu Gwen parada na porta da sala esperando, seus olhos se acenderam, entrando em foco. Automaticamente ela olhou em volta da sala e para o corredor.

– O que foi? – ela perguntou, tensa.

– Precisamos ir embora. – disse Gwen, apressada.

– Hein? – Erika a fitou sem entender.

– Você sente alguma coisa diferente? – Gwen a fitou com profundidade.

Erika correspondeu o olhar.

– Merda! – ela xingou, correndo para dentro da sala novamente.

A garota recolheu o material, apressada. Quando voltou para a porta da sala, lançou um olhar de desculpas para a professora e saiu junto de Gwen.

– Vai me contar o que está acontecendo? – ela perguntou assim que se afastaram o suficiente. – A energia está densa por aqui desde manhã cedo. – ela comentou.

– Eu sei. Também senti. – disse Gwen, puxando a garota com mais pressa. – Temos que ir logo.

– Para onde?

– Brasov.

– Como é? – Erika parou no meio do corredor, encarando-a com descrença.

– Estamos em perigo aqui. – Gwen sussurrou para ela. – Os Filhos da Noite estão atrás de nós. Precisamos ir embora e Brasov é o lugar mais seguro para nós duas nesse momento.

Merda!

– Sabe, você podia falar menos palavrão.

– Eu sabia que havia alguma coisa errada desde que acordei essa manhã. – disse Erika, ignorando o comentário da outra. – Por que estão atrás de nós?

– O lobo que você surrou naquele labirinto quis retaliação, mas Morris não ousaria enfrentar uma bruxa como Helve e te entregar. Então o lobo/vampiro se juntou aos exilados e contou sobre mim.

– E agora eles estão atrás de nós. – Erika concluiu.

– Sim. E uma vez que você e eu temos que ficar juntas, você precisa vir comigo!

– E abandonar tudo? – Erika a fitou com indignação.

– Não é uma decisão fácil, mas é o melhor para nós duas.

– Fale por você. Eu tenho uma vida aqui!

– Como se você ainda fosse a garota popular de antes. – Gwen rebateu, zangada com a atitude mesquinha da outra. – Você deixou de ser a sensação dessa escola faz muito tempo. Agora você é uma bruxa, mesmo que não queira aceitar a sua herança. Você está em perigo e eu vim até aqui para te levar comigo para Brasov na tentativa de te salvar de ser comida por aquelas bestas do inferno. Então se quiser vir bem e se não quiser então fique aqui sozinha!

Erika fitou a garota com espanto. Era difícil ver Gwen exaltada.

– Vejo que você mudou bastante seu jeito educado. – comentou.

– Só estou cansada de estarmos aqui perdendo tempo. Você vem ou não?

– Eu vou. – Erika disse decidida. – Sou bonita demais para morrer.

Gwen revirou os olhos e continuou o caminho pelo corredor, sendo seguida por Erika.

– Será que eu poderia perguntar como é que vamos chegar à Brasov? – disse Erika enquanto caminhavam.

– Dimitri vai nos levar.

– Dimitri? – Erika a fitou com as sobrancelhas erguidas.

– Sim, Dimitri.

– Eu não quero ser rude, mas esse não é o vampiro malvado que seu namorado a alertou para ficar longe?

– Heron o enviou para nos levar até Brasov. – disse Gwen, segura. – Ele vai nos proteger.

– Que legal! – Erika murmurou, irônica e não disse mais nada.

Quando chegaram ao portão, aquela sensação esquisita de alerta aumentou de proporção, fazendo-as arfar.

Gwen avistou o carro de Dimitri do outro lado da rua e se permitiu se sentir aliviada. Era só atravessar a rua e pronto, estariam seguras.

Erika agarrou-lhe a mão, sentindo a energia fluir com intensidade. De repente uma força mística e poderosa invadiu as duas, ondulando por todos os lados. Helve tinha razão quando disse que era importante que as duas se mantivessem juntas. A união delas fortalecia não só a energia, mas a magia de ambas.

Gwen puxou Erika em direção ao carro, segurando forte a mão da colega. Sentia-se corajosa o suficiente para chegar até o outro lado, mesmo que a energia ali estivesse casa vez mais densa.

Eram as sombras… As sombras nas quais ela estava acostumava a dançar. Mas agora essas sombras eram pegajosas, densas e traiçoeiras. Como se a própria maldade estivesse espreitando no fim da rua.

Seus olhos vagaram ao redor, procurando pelo perigo que as cercava, mas não encontrou nada além de casas, árvores e carros estacionados.

Mas então, cedo demais para comemorar a vitória de estar em segurança, a porta do carro preto do outro lado da rua se abriu e Dimitri saiu. Sua expressão era tensa, o corpo parecia uma muralha, pronto para qualquer coisa. E pelo jeito ele enxergou o perigo que elas não haviam visto, porque seus olhos dilataram, fixos num ponto distante.

– Gwen. – a voz dele reverberou por toda a rua, poderosa. – Entre no carro!

Sem esperar para ver o que ele estava encarando, Gwen disparou pelo meio da rua, puxando Erika pela mão. Ao alcançar o carro, ambas entraram o mais rápido o possível e bateram a porta, olhando assustadas para a rua silenciosa.

Mas Dimitri não as seguiu. Continuou parado ao lado de fora, a postura de um verdadeiro guerreiro enquanto os olhos atentos e poderosos observavam o inimigo. Ele parecia furioso, como se o fato de um exilado estar ali fosse uma afronta.

Quando o som estridente de um uivo quebrou o silêncio, Dimitri sorriu maliciosamente.

Gwen estremeceu, aterrorizada. Já havia escutado aquele som antes e as lembranças não eram nem um pouco agradáveis. Ela se lembrava muito bem do mês passado quando Heron fora atacado… Lembrava-se dos uivos impiedosos dos Exilados que o emboscaram. E principalmente, ela sabia do que eles eram capazes.

Ela olhou, ansiosa, para a postura de Dimitri, esperando que ele parasse de encarar o horizonte e entrasse logo no carro. Mas isso não ia acontecer. A postura dele indicava que ele não estava com vontade de ir embora…

Aquele Imbecil queria lutar!

Gwen abriu a porta do carro e, ignorando os avisos de Erika, saiu correndo em direção ao vampiro parado no meio da rua. Ela agarrou o braço de Dimitri com toda a sua força.

– Vamos embora! – guinchou.

– Eles estão aqui. – disse Dimitri sem tirar os olhos do fim da rua. Ele parecia estar em transe, como se capturado pela sedução da caça.

– É exatamente por isso que precisamos sair daqui! – ela disse.

– Ainda não. – disse ele, sombrio.

– Como é? – ela arfou em pânico.

– Eu não vou embora até que eles apareçam. – a voz dele saiu derretida, sensual. Como se aquele fosse um convite aberto para a caça sair do esconderijo.

– Você ficou maluco? Quer morrer?

– Ah, não, Gwen. – ele sorriu ardiloso. – Os únicos a morrer aqui hoje são eles.

Gwen recuou. Dimitri não era mais o civilizado agora. Ele era o monstro… O cruel impiedoso que sentia prazer em matar. Ele estava caçando!

Quando mais um uivo feroz cortou o ar, Gwen ignorou totalmente a ameaça mortal que era o vampiro ao seu lado e o agarrou pelo braço mais uma vez, chacoalhando-o.

– Dimitri! – ela gritou, obrigando-o a olhá-la.

No momento em que os olhos dele encontraram os dela, Dimitri perdeu toda aquela fúria homicida. A vontade louca e insana de caçar se desfez quase que imediatamente e ele se permitiu relaxar.

Gwen sentiu seu corpo afundar naquele estranho formigamento, os olhos presos naquele olhar profundo de obsidiana. Ela se perguntava que mistérios ele teria escondido ali. Talvez um dia pudesse descobrir…

– Gwen! – o grito de Erika os trouxe de volta à realidade.

Dimitri piscou duas vezes, confuso. E então voltou a sua postura de guerreiro, pondo-se na frente de Gwen para protegê-la dos lobos imensos e ferozes que se aproximavam.

Os exilados eram muito diferentes do lobo bonito em que Heron havia se transformado. Esses não eram belos, a beleza majestosa era escondida sob a máscara feroz e homicida. Os dentes afiados eram ameaçadores e estavam lambuzados de sangue fresco. Os olhos hipnóticos não tinham cores diferentes, eram todos de um vermelho vivo, como se o poder do sangue estivesse se infiltrado nas íris brilhantes.

Gwen recuou um passo para trás, cravando as unhas no braço de Dimitri na tentativa de puxá-lo para dentro do carro. Mas ele não colaborou muito, o corpo tenso paralisado naquela postura de guerreiro.

– Volte para o carro. – ele disse e apenas os lábios se moveram.

Imediatamente ela obedeceu, cambaleando para dentro do carro e fechando a porta. Erika a agarrou no instante em que entrou, surpreendendo a ambas. A verdade é que naquele momento o instinto de bruxa foi o que a comandou. Estava assustada demais.

Dimitri ainda estava observando as feras se aproximarem, a postura feroz. Ele enfiou a mão dentro do bolso da calça larga, mas antes que pudesse pegar qualquer coisa, o ataque ganhou proporção. Dois dos lobos que estavam à frente saltaram para cima dele, rosnando loucamente. Dimitri desviou das feras habilidosamente, mas não teve tempo para escapar do terceiro, que o espreitava, e foi atingido no rosto por uma patada.

Gwen gritou dentro do carro, agarrando a mão de Erika com mais força. Mas Dimitri não havia caído, ele se virou graciosamente no ar e devolveu o golpe violento, lançando seu agressor para o outro lado da rua.

Os outros dois lobos, aproveitando sua distração, aproximaram-se do carro sorrateiramente, os olhos vermelhos faiscando de ódio.

Gwen os avistou assim que tomaram a decisão de atacar, mas antes que pudesse gritar ou fazer alguma coisa Erika ergueu as mãos no pequeno espaço e concentrou toda a sua energia em um feitiço. Ela simplesmente agitou o ar com as mãos em direção às duas feras assassinas.

Uma onda feroz de energia atingiu os dois lobos numa violência inacreditável, lançando-os contra o muro do outro lado da rua.

– O que foi que você fez? – Gwen a encarou com ceticismo.

– Um feitiço repelente. – Erika disse com simplicidade.

– E onde foi que você aprendeu isso?

– No livro que Helve me deu. – Erika franziu o cenho. – Parece surpresa. Nunca conseguiu fazer nada parecido?

Mas antes que Gwen pudesse responder, a porta do carro se abriu com violência e Dimitri entrou. Ele não disse uma só palavra, simplesmente pisou no acelerador. O carro saiu cantando pneu na rua silenciosa, deixando os três lobos furiosos para trás.

Gwen encarou o vampiro com admiração contida, ele era mesmo um guerreiro. Lutou com habilidade, coragem e uma força sobrenatural. Seus olhos vagaram pelo rosto sério e belo, detendo-se no corte profundo na bochecha. As três linhas fundas formavam a garra de um lobo.

Instintivamente, ela passou para o banco da frente, aproximando-se lentamente para ver melhor o arranhão. Iria inflamar logo se ele não cuidasse.

– Você deveria ter entrado no carro quando eu disse. – disse ela, olhando para ele.

– Eu não podia deixá-los nos seguir. – ele explicou.

– Eles sabem para onde vamos.

– Provavelmente. – Dimitri assentiu, concentrado na estrada.

– Você quase me matou de susto! – ela o acusou.

– Bom. – ele sorriu um pouco.

– Não tem graça, Dimitri! – Gwen o repreendeu. – Podia ter morrido… Ou nos matado.

– Dificilmente. – ele disse, arrogante. – Vocês estão bem?

– Tirando o quase ataque cardíaco estamos ótimas. – Erika disse, soando bastante zangada. – Mas talvez, da próxima vez você possa controlar os seus instintos de caça e nos levar direto para o aeroporto.

Dimitri sorriu mais uma vez, sentindo a dor incômoda em sua bochecha.

– Que bom que estão bem. – ele disse e continuou o caminho pela estrada pouco movimentada.

Depois disso a viagem até o aeroporto transcorreu tranquila. Não havia sinais dos Filhos da Noite, parecia que eles haviam desistido… Ou simplesmente resolveram não mexer com uma bruxa.

Dimitri ficou calado a maior parte do tempo, concentrado na estrada. O arranhão em seu rosto não estava mais sangrando, mas tampouco havia cicatrizado. A mancha vermelha na bochecha tinha secado, dando uma aparência sinistra.

Erika limitou-se a ler um livro, livrando-os de seus comentários insolentes.

E Gwen… Gwen foi a única que se sentiu entediada. Depois de todo aquele susto na escola, agora ela se sentia inteiramente entediada com a viagem silenciosa. Ver os outros dois calmos e relaxados a irritou ainda mais, dando-lhe uma vontade insana de dar um tapa em cada um. Ela era a única ali que não tinha distrações.

Por sorte aquele silêncio insuportável não durou muito. Logo estavam no aeroporto, rodeados por muitas pessoas barulhentas e apressadas. Dimitri as guiou para dentro, certificando-se de que estavam seguras.

A mulher da recepção não falou nada sobre o ferimento no rosto dele, mas seu olhar era atento. Rapidamente indicou uma pequena sala reservada e eles seguiram para lá em silêncio.

– Morris é muito influente nos negócios humanos. Temos um trato com o aeroporto e vários jatinhos particulares, inclusive um avião vetado somente para o nosso dispor.– Dimitri se viu obrigado a explicar diante da expressão confusa de Gwen.

– Vocês têm um avião particular? – Erika elevou a voz, espantada.

– Como acha que chegou em Brasov da última vez? – ele ergueu as sobrancelhas.

– Ah.

– Uma das muitas vantagens de ser um vampiro hoje em dia. – Dimitri sorriu, um tanto malicioso.

Erika o acompanhou no sorriso.

A sala era pequena e extremamente luxuosa, as enormes janelas eram do mesmo vidro fumê do carro importado que usaram, os três sofás eram de couro negro e as paredes pintadas de um vermelho vivo.

– Um pouco chamativo, não acha? – Gwen perguntou.

– Gostamos dessa cor. – Dimitri disse com divertimento. – E não há motivos para não esbanjar luxo, ninguém vem aqui além de nós.

Erika sentou-se em um dos sofás sofisticados, totalmente à vontade.

– Eu gostei. – ela aprovou.

– Só precisamos esperar o avião estar pronto. – Dimitri as alertou, sentando-se também.

Gwen olhou a seu redor, imaginando em que outros lugares os vampiros estariam infiltrados. Era tudo muito surreal, luxo demais, sensualidade demais, muita sofisticação… Vermelho demais.

Ela teve o cuidado de se sentar no sofá ao lado de Dimitri, evitando olhar para ele. Mas o esforço foi em vão, seus olhos a traíram e se focaram no rosto absurdamente lindo. O arranhão na bochecha chamou-lhe a atenção. Estava inflamado… E sangrando de novo.

Preocupada, ela fuçou em sua bolsa e tirou um pacote de lenço de papel, umedecendo-o com um pouco de água. Cautelosa, Gwen se aproximou de Dimitri e encostou o lenço úmido na bochecha machucada, tendo o cuidado de se manter fiel à sua decisão de evitar o olhar dele.

Ele gemeu um pouco.

– Vai infeccionar se você não cuidar. – ela disse, limpando suavemente a ferida.

– Eu havia me esquecido disso. – Dimitri disse, os olhos fixos nela.

– Está doendo?

– Não. – ele sussurrou. – Vai cicatrizar. Só leva um pouco mais de tempo porque foi um exilado quem fez.

– Eu sei. Heron me contou quando estava ferido. – ela disse e se arriscou a olhar para ele. Os olhos dele a aprisionaram no mesmo instante, fazendo-a mergulhar num abismo profundo e escuro. A intensidade daquele olhar a fez estremecer, era como se ele sugasse todos os seus sentimentos e deixasse apenas… A intensidade pura e sedutora da qual ele era feito.

Ela desviou o olhar.

– Obrigado. – Dimitri disse. – Por cuidar do arranhão.

Gwen assentiu sem olhar para ele.

Quando estava tudo pronto para partirem, a mesma recepcionista de antes foi avisá-los, indicando o caminho. O avião chegava a ser tão luxuoso quanto a sala de espera particular deles. Como tudo no mundo dos vampiros.

Gwen se sentou em uma das elegantes poltronas cinza urano, esperando que Erika parasse de fitar a decoração com os olhos vidrados e fosse se sentar junto com ela. Mas não aconteceu.

Ainda encantada demais com a sofisticação do lugar, ela rodeou o avião inteiro antes de escolher uma poltrona a frente de Gwen, finalmente se sentando toda a vontade.

– Tem champanhe? – ela teve a audácia de perguntar.

Dimitri riu, realmente se divertindo.

– Tem. – ele disse, sentando-se ao lado de Gwen. – Mas não vou correr o risco de ser processado por oferecer bebidas alcoólicas para menores de idade.

– Vampiros não são processados. – Erika rebateu.

– Não. Mas ainda tenho princípios.

– Desde quando? – ela ergueu a sobrancelhas.

Dimitri virou-se para Gwen com o olhar sério.

– Você vai se zangar se eu deixar sua amiga beber? – perguntou.

– Provavelmente ela vai beber você deixando ou não. – Gwen respondeu, escondendo o sorriso.

Erika riu, toda contente e se encaminhou para o fundo do avião, voltando alguns minutos depois com uma garrafa de champanhe aberta.

Gwen revirou os olhos e se acomodou na poltrona, puxando seu mp3 da bolsa e colocando os fones de ouvido. Quando a música começou a tocar ela fechou os olhos, decidindo que a viagem seria tranquila. A presença de Dimitri não era tão incômoda como antes. O formigamento ainda a perturbava, mas não era tão insistente.

Mas mesmo assim ela não se atreveu a olhar para o lado. Sabia que ele a estava olhando, podia sentir o olhar dele queimar sua pele. E não estava pronta para encarar aqueles olhos escuros novamente, já fora o bastante da última vez. Então concentrou toda a sua atenção nas poucas nuvens vistas pela janela e pensou em Heron.

Nem acreditava que estava prestes a vê-lo. Pensar em abraçá-lo e beijar os lábios frios novamente fez com que um arrepio de ansiedade percorresse seu corpo. Ah, como ela queria estar nos braços de Heron de novo. Nunca amou ninguém como amava a ele.

Pensar nisso a lembrou do modo turbulento em que deixou sua mãe. Nunca haviam se afastado antes e a saudade já começava sufocá-la. Amava a mãe com todas as suas forças, ela fora a mulher que sempre a ajudou e protegeu, não tinha palavras para descrever o quão forte era a relação entre as duas. Lembrou-se do dia em que chegou de Brasov, o dia em que Heron foi obrigado a deixá-la… O desespero de Elin ao ver o rosto da filha foi o que a manteve firme por todo esse tempo. Não podia desapontar a mãe, não podia desabar e fazê-la sofrer. Foi por isso que lutou tanto para se reerguer e seguir em frente por mais que doesse ele estar longe.

Agora ela sabia que havia, de fato, desapontado a mãe quando partiu mais cedo. Ela desistiu afinal, não aguentou sua vida sem ele. Mas a verdade era que ela aguentou sim. Por mais doloroso que fosse ficar sem ele, ela iria esperar até ele voltar. Seguiria em frente como uma mulher forte… Mas a tragédia chegou antes. Ela fora obrigada a partir. Teve que fugir das feras selvagens.

Ela não havia desistido!

Perdida em seus pensamentos, Gwen se distraiu totalmente. Tanto que levou um susto quando Dimitri puxou um dos fones de ouvido que ela escutava e encaixou na própria orelha. Sua expressão era relaxada, como se não estivesse fazendo nada demais.

– Hum… – ele suspirou, divertindo-se. – Mais músicas Punk.

– O que? Uma garota como eu deveria ouvir Taylor Swift ou algo do gênero? – ela sorriu um pouco.

– Não. Com certeza não. Importa-se se eu ouvir com você? – ele perguntou.

– Na verdade não.

Dimitri assentiu uma vez e então encostou a cabeça na poltrona, totalmente à vontade e fechou os olhos.

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