A Garota Má (Pt.17): A caçada da Leoa Indomável – Gosto de Sangue.

Escrito por Natasha Morgan.

Bóris gargalhou, batendo palmas.

– Ah, minha doce, doce e amada Solina! – cantarolou ele, animado. – Aqui estamos nós dois novamente! Como esperei por esse momento!

Ele se aproximou alguns passos, com ansiedade.

– Desejei tanto nosso encontro que me recuso a te enfrentar armado. – ele jogou sua pistola no chão e a chutou para longe. Seus olhos encontraram-se novamente com o cinza tempestivo dos dela e então ele abriu os braços num gesto nobre. – Venha, minha amada! Mostre-me sua tão temida fúria. Eu estou pronto.

O sorrisinho infame dele serviu para desencadear a fúria em massa de Cherry, pois a garota soltou um rosnado do fundo da garganta e avançou contra o maldito magnata.

Ela se chocou contra ele, afundando as unhas nos ombros musculosos como uma leoa, sentindo-as afundar contra a camisa e penetrar a carne pútrida. Bóris soltou um pequeno gemido de dor e se permitiu deleitar com aquele confronto. Puxou os cabelos longos e macios com brusquidão, forçando-a encarar seu rosto.

Cherry lhe deu uma cabeçada e o chutou, afundando o salto da bota na ferida em sua coxa.

Bóris não pôde deixar de uivar de dor, tremendo o corpo todo e rangendo os dentes.

Cherry se aproximou com elegância, alisando os cabelos dele com suavidade antes de puxá-los com força da mesma forma que fizera com ela, forçando-o a encará-la.

– Bem vindo ao inferno, búlgaro. – ela disse e o socou no rosto, com força.

Bóris tombou, beijando o chão.

A garota gargalhou, certificando-se em pisar em seu corpo insolente enquanto andava pela sala, observando a decoração sofisticada. Caminhou até o bar destruído, esmagando o vidro das garrafas estilhaçadas com a sola da bota pesada. Seus dedos acompanharam o balcão de mezanino, encontrando um pequeno bastão de sinuca. Ela o apanhou nas mãos, analisando-o com atenção.

Um sorriso se formou em seus lábios.

Voltou a caminhar pela sala, esbanjando sensualidade em seus passos leoninos. Aquela Lingerie com que a vestiram quando havia chegado lhe caíra muito bem. Ela sempre gostara de vermelho. Parecia um demônio vingador.

Seu olhar endureceu quando fitou o búlgaro retorcendo-se no chão de mármore.

– Diga-me, seu porco, encostou em Willa?

Bóris riu, fazendo força para se virar de barriga para cima.

– Sim. –ele lambeu os lábios com malícia. – Fiz com ela tudo o que tinha direito! Queimei-a por dentro com minha luxúria desenfreada.

Cherry o encarou em silêncio, absorvendo o gosto amargo que se infiltrou em sua boca.

– Se isso for verdade, vou guardar a melhor parte para ela.

A assassina se aproximou do maldito, agarrando-o pelo colarinho da camisa e aproximando o rosto dele do seu, congelando-o com seu olhar sombrio.

– Eu esperei demais por esse momento, búlgaro. Tanto que quase posso vibrar de satisfação. Seria inconcebível dividir essa vingança com alguém. No entanto, se tocou num só fio do cabelo dela é meu dever dividir sua carcaça.

– Tome tudo o que quiser! Eu sou inteiramente seu, minha adorada.

– Você não está levando isso a sério, está? – Cherry se irritou. – Acha que de alguma forma vai escapar de minhas garras novamente. Mantém a doce ilusão de que me enganará de novo.

Ela o soltou.

– Ah, búlgaro. Isso está longe de ser verdade. Nunca mais cederei a você.

Ele voltou a rir, pousando a cabeça no mármore com tranquilidade.

Cherry voltou a andar, rodeando-o enquanto brincava com o taco de sinuca.

– O que acha de sentir na pele o que faz às mulheres? O que acha de experimentar um pouco de luxúria forçada e sadismo?

O sorriso morreu quase que imediatamente no rosto de Bóris. Ele se levantou de um pulo do chão.

– Vamos nos divertir um pouquinho.

Bóris tentou fugir, correndo, mas escorredor no piso molhado da sacada. Cherry o apanhou no ar, grudando sua garganta com a mão crispada e apertando-a. Ele se engasgou, forçando os pulmões a puxar o ar.

Cherry alisou seu rosto com a ponta do taco de madeira numa carícia ameaçadora. Os olhos dele se encheram de um terror mórbido. E ela se deleitou com aquela expressão.

Aterrorizado, Bóris tentou chutá-la, livrar-se de suas garras, mas estava fraco demais para isso.

Cherry o jogou sobre o sofá de cashmere, vendo-o se estatelar nas almofadas macias. Aproximou-se rodando o taco no ar, o sorriso impiedoso estampando o olhar.

– Isso não vai ser agradável. Não serei delicada. Mas prometo ficar para sempre em seus sonhos mais aterrorizantes. – ela repetiu as palavras que ele usara na primeira vez em que a violentou. E então avançou contra ele com o bastão em riste.

 *-* *-*

O grupo se uniu no segundo andar, voltando à ativa depois do susto no elevador. Fridda e King montaram guarda na frente, vasculhando o corredor comprido enquanto os outros davam cobertura passando pelas portas fechadas que rodeavam o hangar.

Sander arrebentava a trinca quando estavam trancadas, com a pistola em riste e vasculhava os aposentos. Em sua maioria eram quartos simples e vazios. Ele achou duas salas de recreação e um banheiro comunitário.

Klaus seguia junto, com Halle logo atrás, ajudando na limpeza.

Mas a coisa só ficou séria quando eles passaram pelo arco de uma elegante sala de estar. O recinto estava vazio e eles atravessaram numa boa, encontrando um outro corredor logo à frente. Desta vez os quartos estavam ocupados e a surpresa não foi nem um pouco agradável.

Quando Sander forçou a fechadura de uma das portas e constatou que estava trancada, arrombou a trinca com um chute e o que encontrou lá dentro fez a cólera que crescia dentro de si aumentar exponencialmente.

Havia uma mulher dentro do quarto. Uma menina de poucos anos, trajando uma Lingerie que nada condizia com seu olhar ingênuo. A menina se apressou em se encolher assustada no canto da cama quando o ruivo invadiu seu quarto, os olhos espantados espiando ao fundo do quarto.

Sander se aproximou com cuidado, tentando não assustar a garota.

– Qual é o seu nome? – perguntou.

A menina se encolheu mais ainda.

– Não precisa ter medo de mim. – ele pareceu se enfurecer com tal fato.

A menina o avaliou por longos minutos antes de ter coragem de responder.

– Melinda. – sussurrou baixinho.

Sander assentiu, fitando-a com uma expressão dura.

Remexeu em seu coldre, retirando uma faca de cabo negro.

A garota emitiu um pequeno gemido quando viu a lâmina ameaçadora.

Sander a ergueu pelos ombros com firmeza, encarando aqueles olhos assustados com intensidade. Colocou a faca nas mãos pequeninas.

– Segure isso! Você agora é uma mulher livre! Quero que pegue essa faca e se defenda caso precise. Há mais garotas nesse andar?

A menina assentiu em silêncio.

– Centenas.

– Nos quartos ao lado?

– Por todo o andar. É onde nos mandam ficar até que sejamos solicitadas. –ela franziu o cenho.

Sander assentiu.

– Liberte suas companheiras. Junte-se a elas e saia daqui! Entendeu? Quero que se junte às outras e vão embora daqui. São livres agora!

Sander a arrastou para fora do quarto.

Os outros fitaram a menina, confusos.

– Nos outros quartos. – Sander apontou para a porta ao lado e para as milhares de outras pelo corredor extenso. – Escravas de Bóris.

Fridda retorceu o lábio numa careta de ódio e deu um chute na porta mais próxima, libertando a menina confinada.

Juntos, eles foram arrombando as portas e libertando todas as escravas que encontraram.

A garota que Sander resgatara estancou no meio do caminho, olhando assombrada para o caos que se instalava no corredor. Milhares de meninas seminuas corriam pelo carpete bordô, amedrontadas e livres.

– N-Não. – Melinda sussurrou, alarmada. – O Senhor não vai gostar disso.

– Duvido que vá sobrar algo do seu senhor para que se importe de verdade. – Sander disse, antes de marchar pelo corredor novamente.

 *-* *-*

Alline corria pelos corredores do quinto andar, ansiando chegar à escadaria e dar o fora daquela maldita mansão antes que os Von Kern a achassem. Podia suportar a ideia de morrer pelas mãos de Cherry, mas nunca pelas mãos da Família. Aqueles miseráveis não tinham direito nenhum sob sua alma. Nenhum deles tinha! Ela era uma Borsahy… E Borsahys eram eternos.

Estava quase alcançando a escadaria e o alívio lhe preenchia os nervos. Seria fácil sair da mansão. Conhecia um caminho que a levariam diretamente para o térreo, uma saída pelos fundos, especial para momentos de emergência. Como os túneis da outra mansão.

Só esperava que Savedra tivesse feito como ordenara. Deixado os portões dos fundos destrancados para que ela pudesse passar. Seus planos foram meticulosamente orquestrados e até aquele momento tudo estava dando certo… Mesmo com a invasão inesperada.

Alline sempre tinha um Às na manga.

Ela riu novamente, deixando os traços presunçosos tomar seu rosto.

Podia avistar o início da escadaria, a torre que levava em curvas até os andares de baixo. Talvez fosse sábio entrar pela passagem secreta no terceiro andar e se deixar levar por um caminho pouco acessível. Duvidava muito que os Von Kern se atreveriam usar o elevador novamente… Ou o que quer que houvesse sobrado dele.

Alline ouviu tiros vindo ao longe e resolveu apressar sua corrida até a escadaria. Estava quase alcançando o corrimão aveludado quando a viu.

Imponente, a Mercenária subia a escadaria com tranquilidade.

Alline derrapou, obrigando-se a parar no meio do caminho para não se chocar com a assassina.

Seu coração deu um pulo dentro do peito e então começou a bater descompassadamente.

 *-* *-*

Meera terminava de subir a longa escadaria, na esperança de encontrar um exército lá em cima, pronto para exterminar os intrusos quando se deparou com a traidora. Viu-a frear no meio do caminho com aquele olhar de pânico assumindo seu rosto destruído.

A Mercenária estancou, no topo da escadaria, surpresa também pelo encontro.

Alline olhou no fundo de seus olhos, tentando buscar alguma coisa em que pudesse confiar. Qualquer indício de que quem estava ali era sua antiga amiga de combate. Mas tudo o que encontrou foi o frio congelante da alma Borsahy.

Ela recuou um passo.

Meera sorriu, um repuxar lento de lábios numa sensual expressão sarcástica.

– Aonde pensa que vai, fujona?

Alline recuou mais uma vez num passo estudado.

– Como vai Meera? – disse numa voz educada. – Já faz um tempo.

– Muito tempo. – a mercenária assentiu.

– Vejo que está em nova companhia. O que houve com seus votos de não se envolver com essa gente?

– Eu vou onde o dinheiro me leva. – deu de ombros, avançando lentamente.

Alline recuou mais uma vez, atenta aos movimentos da outra.

Elas se estudaram por alguns breves segundos.

– Eu ouvi falar sobre seus serviços. Mata por dinheiro agora. Nunca pensei que fosse abandonar a Ordem um dia.

– E eu nunca pensei que você fosse uma cadela mentirosa.

Alline se empertigou.

– Você sempre me subestimou, não é mesmo? – forçou um sorriso.

– Prometo não cometer esse erro novamente.

– Não faça isso, Meera! Não deixe o dinheiro dessa Família comprar o valor de uma amizade antiga. Posso te perdoar facilmente por ter se metido nos meus planos uma vez. É só esquecer que me viu aqui hoje.

– Está me implorando? – Meera pareceu achar graça.

– Estou te alertando a não fazer nada estúpido.

– Estupidez é uma especialidade sua. Foi sua burrice que te colocou nessa posição. Agora é hora de colher as sombras causadas pela ignorância.

– Não. Faça. Isso.

– Foi um prazer revê-la novamente, Vedrana.

Meera apontou sua espada para ela, num gesto de desafio, convidando-a à luta.

Mas ao invés da mulher aceitar seu desafio honroso, como era costume entre sua gente, Alline virou-se e saiu correndo.

A Mercenária riu.

– Isso! Corra Cadela!

Meera desatou a correr atrás da outra, os passos pesados das botas ecoando no corredor de mármore. A perseguição durou por apenas alguns segundos antes que suas mãos agarrassem com força os longos cabelos cor de mogno que dançavam no ar.

Alline foi puxada para trás com violência e caiu no chão aos pés da mercenária. Uma mão agarrou sua garganta num aperto de aço, sua cabeça virada bruscamente para encarar aqueles olhos impiedosos.

– Onde está a menina?

Alline riu com escárnio num claro deboche.

Meera lhe deu um tapa com as costas da mão, tirando sangue dos lábios da outra.

– Onde está a criança, sua cretina!

– Willa está em boas mãos. – riu a sérvia.

Meera a agarrou pelo pescoço novamente, trazendo-a para mais perto para encarar aquele rosto sombrio.

– Está achando tudo muito engraçado, não é mesmo? Ainda não se deparou com seu destino, kardeş[i]? Tem um monte de leões sedentos por seu sangue e sua carne lá fora, não tem ideia do que eles farão com você.

– Fodam-se! – Alline cuspiu, dando uma cotovelada no estômago da rival.

Conseguiu se livrar das garras letais e apanhou sua faca afiada no cano da bota, apontando-a para Meera ameaçadoramente e tomando o cuidado de ficar a uma distância segura de seus golpes eficientes.

A mercenária ergueu uma sobrancelha.

– Vai me enfrentar com essa faquinha?

– Não quero brigar com você, Meera!

– Você não quer brigar? – ela riu. – Achei que se orgulhasse de ser uma Borsahy. Não é isso o que vem espalhando por aí? Manchando nosso nome com suas imundices! Tem alguma ideia de como a Ordem está furiosa com você? À essa altura os Von Kern não são os únicos que estão te caçando!

– Foi por isso que veio? Mandaram você entregar minha cabeça?

– Você é o prêmio mais caro de todo o milênio. – Meera assumiu uma expressão sombria.

Alline sentiu o pânico se instalar dentro de si.

– É o fim da linha, Vedrana.

– Não!

Alline voltou a correr, desviando-se das obras de arte e conseguindo passar pela mercenária. Voltou aos corredores que a levariam diretamente à escadaria, apressando suas pernas a correrem o máximo que conseguiam. Precisava chegar à passagem! Precisava sair dali desesperadamente.

Podia lidar com uma Família poderosa. Mas não poderia, de forma alguma, enfrentar a Ordem.

Seus passos desenfreados a levaram até a torre da escadaria, ela conseguiu alcançar o primeiro degrau, tocando o corrimão aveludado com segurança. Dali podia ver a Passagem. Uma pequena fenda nas pedras da parede. Apenas um empurrão gentil e a entrada secreta se revelaria. Apenas mais alguns degraus e chegaria à sala de controle, onde passaria pelos corredores centrais até o portão dos fundos.

A liberdade estava a apenas alguns passos.

E lhe fora roubada bruscamente num piscar de olhos.

Meera a alcançou no segundo degrau, grudando seus ombros e a puxando para trás.

kardeş! – implorou.

Mas Meera a ignorou. Jogou-a no chão e a afastou da escadaria.

Alline rastejou pelo mármore, tentando fugir novamente. Mas a mercenária estava preparada logo atrás e num movimento único e preciso, encaixou algo em seu pescoço.

Alline deu um grito, surpresa. E levou as mãos à garganta, apalpando freneticamente.

A coleira de ferro tinha pontas afiadas apontadas para dentro e ostentava um estranho mecanismo que ela conhecia muito bem. Os Borsahys tinham costume de usar tal objeto para prender pessoas para interrogatório. O mecanismo de engrenagens meticulosas consistia em alongar aquelas pequenas pontas no interior da coleira, perfurando a garganta da vítima e silenciando-a para sempre.

Alline mesmo já havia utilizado aquele colar inúmera vezes quando trabalhava para a Ordem.

Seus olhos se voltaram para a mercenária, cheios de um terror vívido.

Meera sacudiu uma pequena caixinha preta por entre os dedos, dando um de seus sorrisinhos sombrios.

Alline se desesperou, soltando um guincho do fundo da garganta e tentando freneticamente abrir o fecho da coleira. Seus dedos se espetaram com as pontas afiadas.

– Eu não faria isso se fosse você. – Meera a alertou, encaixando uma guia de titânio na coleira. – Agora você está sob o meu poder. Não faça nada estúpido.

– Não! – Alline se sacudiu. – O que vai fazer?

– Entregar sua cabeça, é claro. Só não sei para qual dos lados. – a mercenária deu uma gargalhada.

Alline voltou a se sacudir, tentando se livrar do ferro em seu pescoço. O pânico se instalou dentro de seu peito, ameaçando jogá-la num abismo sombrio.

Meera puxou a guia e as engrenagens da coleira começaram a se mover com um barulho ameaçador.

Alline estancou.

– Não seja estúpida. Não perca a cabeça antes do tempo previsto!

– Meera…

– Cale-se! – a mercenária puxou a guia até que seus rostos estivessem próximos um do outro. – Você prendeu, torturou e vendeu uma criança ao mais maligno dos homens. Você sujou o nome da Ordem e matou milhares de inocentes sob o codinome Borsahy. Desonrou a todos nós! Não se atreva a dirigir a palavra a mim! Ou juro pelos demônios mais sombrios que corto sua língua e a ofereço numa bandeja.

Meera a puxou novamente, em direção aos corredores.

– Você vai pagar por seus crimes, Vedrana. Já está na hora.

 *-* *-*

Willa corria pelos corredores acarpetados como se a sanidade de sua alma dependesse disso. Contava com a chegada à escadaria, com certeza os outros estariam lá embaixo tentando adentrar a mansão. O som dos tiros deixava claro que Bóris tinha companhia.

Ainda estava presa nos primeiros corredores, mas em poucos segundo alcançaria a torre. Podia ouvir passos ecoando ao longe, mas não sabia se eram amigos ou inimigos, então se obrigou a continuar correndo. Cherry havia sido muito específica. Precisava sair dali!

Ao pensar em Cherry seu coração acelerou.

Era quase injusto que a assassina tivesse o sopro final do búlgaro em suas mãos, sem ninguém para compartilhar aquela morte. Mas por um lado, Willa já provara bastante daquela vingança. O gosto amargo ainda estava em sua boca.

Tudo o que precisava agora era encontrar os outros.

Sander.

Seu coração se acelerou com a possibilidade de encontrar Sander lá embaixo. Poder abraça-lo novamente, fechar os olhos e se esquecer dos horrores que passara. Talvez esquecer para sempre agora que a vingança estava sendo executada. Mas então fitou a si mesmo, o vestido rasgado que usava, a ausência da calcinha e o sexo quase profanado.

Seus olhos encheram-se de lágrimas.

Talvez não fosse uma boa ideia encontrar Sander novamente.

Talvez, o mais sábio fosse simplesmente passar pelas portas e nunca mais olhar para trás.

Uma nova vida, como sempre desejara.

Ela virou a curva do corredor que dava à torre, pronta para sair daquela mansão maldita e deu de cara com August.

 *-* *-*

Sander esvaziou o último quarto do andar, libertando a escrava que se encolhia embaixo da cama. Foi preciso quase meia hora conversando para conseguir fazê-la confiar na promessa de liberdade até que a menina aceitasse sua mão estendida e corresse para fora do quarto, juntando-se ás outras na escadaria.

Ela olhou por cima do ombro, fixando aqueles olhos azuis no rapaz antes de tomar a decisão de acompanhar o restante das meninas libertas.

Sander assentiu, incentivando-a.

A garota piscou duas vezes, confusa, e com um pequeno aceno de gratidão, correu escada abaixo para sua tão sonhada liberdade.

Sander suspirou, passando a mão pela barba ruiva que começava a apontar. Sua expressão era cansada e os olhos não escondiam o pesar. O olhar da menina tocou fundo seu coração, fazendo-o se lembrar de Willa.

Faltava pouco para encontra-la, assim ele esperava. Poder salvá-la das garras daquele búlgaro miserável era a missão mais honrada a qual ele já tinha participado. Sentia que agora tinha um propósito pelo qual lutar, um propósito para apontar sua arma e atirar até fazer seus inimigos cessarem o som do coração.

Foi naquele momento que ele agradeceu por toda influência que seu pai tinha e todo o treinamento bárbaro ao qual ele o sujeitou. Se era um homem capaz era graças à Klaus.

Esse pensamento o levou a fitar seu pai, dando cobertura no final do corredor. O nórdico – como seus inimigos costumavam chamar -, estava com os olhos fixos na escadaria por onde as garotas fugiam. Parecia triste por elas, mas aquela era apenas uma suposição. Klaus nunca deixava transparecer seus verdadeiros sentimentos. Nem mesmo aos mais próximos. Era um homem misterioso e quieto. Duro, por assim dizer.

Sua arma em riste estava pronta para qualquer tipo de ameaça e ele não hesitaria em atirar.

King parecia um guarda-costas sofisticado ao seu lado, ostentando a bengala afiada.

E Fridda apontava a garrucha para o segundo lance de escadas, batendo o pé no degrau com impaciência. Ao que parecia estava louca para subir mais um lance de escadas até o próximo andar e fazer valer sua força e fama.

Sander não podia culpa-la. Ele mesmo mal podia esperar para acabar logo com aquilo. Aproximou-se dos outros a passos largos.

– Bestemor, faça as honras. – ele apontou para a escadaria logo acima.

Fridda deu um sorrisinho, apressando as botas pesadas a seguirem rumo a cima enquanto o restante do pessoal a seguia. A torre era um tanto fria, lembrando um castelo abandonado. Mas as sombras eram incapazes de assustar leões famintos. Com as pistolas e bengalas em riste, subiram em silêncio até o andar seguinte, encontrando um corredor vazio.

Fridda deu alguns passos à frente, desconfiada. Podia sentir o cheiro de tabaco turco e resquícios de um baseado. E, bem ao longe, o som inconfundível de blues. Ela estreitou os olhos, tentando ver o que havia ao final do corredor. Podia ser uma velha, mas sua visão funcionava perfeitamente.

Havia uma porta de metal entreaberta, por onde escapava fumaça e o som da música misturados ao ruído rouco de algumas vozes.

Não estavam sozinhos.

Fridda fez um aceno com a mão, apontando para a porta ao longo do corredor.

O grupo se empertigou, atentos ao mais sutil movimento perto daquela porta.

Klaus avançou, prostrando-se ao lado da mãe. Juntos, eles seguiram pelo corredor em silêncio absoluto, aproximando-se da porta. Halle, Sander e King foram logo atrás, dando cobertura.

O som de vozes foi ficando mais alta a medida que chegavam mais perto, assim como o cheiro do tabaco e whisky. Uma gargalhada se fez ouvir lá dentro e então mais vozes convergindo umas com as outras numa clara discussão. Alguém chutou uma garrafa, o vidro tilintando enquanto voava para fora da sala e escorregava pelo corredor.

Roth California.

Sander apanhou a garrafa em silêncio, observando o rótulo sofisticado e lamentando estar vazia. Ele sempre apreciara muito aquela Vodka.

Klaus fez um pequeno sinal, indicando que iria invadir o espaço.

Sander sacudiu a cabeça e, ignorando os protestos do restante, caminhou tranquilamente até a porta da sala. Deu um chute no metal que soltou um barulho alto em protesto.

Os homens reunidos dentro da sala congelaram, voltando suas cabeças para a entrada.

Sander parou na soleira da porta, erguendo a garrafa vazia.

– Quem foi que acabou com a vodka?

Num piscar de olhos, o caos se instalou.

Os homens se ergueram de um pulo, sacando suas pistolas e apontando-as para o intruso.

Sander ergueu as mãos como quem se rende, derrubando a garrafa que se espatifou no chão. Os cacos voaram para todos os lugares.

– Oooops!

Ele se curvou como quem fosse limpar a baderna, mas ao invés disso, suas mãos foram para o coldre preso ao peito, de onde retirou as duas pistolas que carregava e apontou na direção  aos homens furiosos lá dentro.

Sander puxou o gatilho, mandando bala para tudo quanto é canto.

Klaus, Fridda, Halle e King se juntaram à ele, invadindo a sala com elegância.

Quando a munição acabou, tudo o que restou foram corpos amontoados no tapete persa e um monte de obras de arte danificadas. A fumaça flutuava no ar, vindo do narguilé abandonado ao lado das almofadas.

Incomodada com o cheiro, Fridda o chutou, fazendo-o tombar no meio dos corpos.

Klaus respirou fundo, acalmando sua respiração ofegante. Limpou o suor e as manchas de sangue grudadas no rosto. Seus olhos se voltaram para a manga de sua camisa, observando o ombro baleado. O tecido fino estava encharcado de sangue.

Halle se aproximou dele, estendendo uma faca.

– Será melhor se cuidar disso agora.

Klaus voltou seus olhos para o caçador.

– Não temos tempo para isso.

– Temos sim. – Fridda concordou. – Faremos uma pequena parada.

Mor

– Klaus, não seja uma criança. Cuide de seu ferimento e então voltaremos à luta. Você está sentindo dor e isso atrapalha seus movimentos.

– Vocês ficam aqui, recuperem-se e voltam à ação. Eu vou continuar pelo andar e ver o que tem lá em cima. Preciso achar Willa. – Sander se apressou em dizer, voltando pelo corredor.

Fridda assentiu em concordância.

– Te damos cobertura.

– Obrigado, Bestemor.

– Vá procurar sua garota, menino. – Fridda lhe incentivou, voltando seus olhos para o filho carrancudo.

Sander não esperou que lhe atrasassem mais, correu em direção à escadaria novamente. Não parou nos outros andares, seguiu diretamente para a cobertura onde sua intuição lhe dizia que era onde ela estava.

De certo esperava encontrar um andar lotado de seguranças armados, mas o que realmente encontrou foi um corredor vazio cheirando a antiguidades. Nenhum capanga, nenhuma escrava e nenhum prisioneiro.

Ele relaxou a pistola, dando alguns passos a mais.

Havia algumas portas espalhadas pelo hall, todas abertas e revelando salas vazias com mobílias antigas e sofisticadas. Sander não se demorou naqueles aposentos, apenas se certificou que estivessem limpos.

Seguiu em frente, rumo à outras portas e corredores longos, procurando.

 *-* *-*

August foi incapaz de disfarçar sua surpresa ao topar com Willa nos corredores.

O que estaria a menina fazendo fora do quarto ele não sabia dizer, ainda mais com Bóris tão empenhado em fazê-la sofrer. Tudo o que ele sabia é que era estúpido ela estar correndo por ali, tentando fugir.

O pavor no rosto dela quando se deparou com ele bloqueando sua saída quase tocou seu coração. Mas ele soube se controlar muito bem e manter tais sentimentos bem longe da superfície gelada de sua alma. Há muito tempo se tornara um homem frio, isento de qualquer tipo de piedade. O açoite de Petrov extirpou sua humanidade, deixando marcas profundas para que nunca mais se esquecesse de onde era seu lugar.

Assim como as escravas, August levava na alma uma lição para nunca ser esquecida.

A diferença entre eles é que August abraçara a lição, já Willa brincava com a sorte.

Ele a fitou com dureza, os olhos sombrios como a noite mais escura e traiçoeira.

Willa ajeitou o que lhe sobrou das vestes e recuou um passo.

– O que está fazendo neste corredor? – August inquiriu.

– Saindo desta maldita casa.

Ele estreitou os olhos.

– E se eu fosse você, também sairia. Antes que as coisas fiquem realmente feias para o seu lado.

– Eu não vou sair do meu posto. Tampouco você abandonará a casa do seu senhor.

– Bóris Petrov não é o meu senhor! Ele não é senhor de ninguém.

– Willa, nesses longos anos em que passou sob as mãos dele, não aprendeu nada, não é mesmo? – August balançou a cabeça com pesar. – Ainda não entendeu quem é que manda? Você é uma tola, menina. Vai acabar se matando.

– O único tolo aqui é você. Saia da minha frente!

August cruzou os braços, bloqueando a passagem da garota.

– Você não vai sair. Vai voltar para o seu quarto agora mesmo e esperar que seu senhor tenha piedade de sua alma. Mais uma vez vai colher os frutos de sua própria teimosia. É uma pena. Não posso fazer mais nada por você.

Willa se empertigou, sentindo a raiva crescer dentro de si.

– August, não me obrigue a te machucar. Saia da minha frente agora mesmo!

O rapaz apanhou uma Beretta preta da cintura e a apontou para a menina, sua expressão ainda mais séria toldou o ar ao seu redor, carregando-o de sombras.

– Eu não quero atirar em você, Willa. Deus sabe das maldades que já lhe causei. Por favor, não manche mais minha alma do que eu mesmo já manchei.

– Deus não tem nada com isso! Vá se foder! Fica aí se lamentando das merdas que já fez, mas não move uma palha para concertá-las! Talvez você só seja como o restante dos seguranças de Bóris, um tarado louco para desfrutar das sobras do mestre. Vá se danar, August! Não vai desfrutar de nada além do chão sujo onde ele pisa. Sabe, eu estava mesmo querendo ir embora sem sujar minhas mãos com você, mas talvez você mereça uma lição pelas coisas horríveis que me fez passar. Pelas mentiras que me contou.

August destravou a arma.

– Não estou brincando, Willa. Afaste-se!

Willa lhe mostrou o dedo.

August suspirou, ignorando a criancice dela. Sua expressão séria não se alterou, nem mesmo quando ele estendeu a mão na tentativa de agarra-la pelo ombro e fazê-la retroceder até seu quarto.

Willa se esquivou num gesto simples e o atacou com uma rasteira. O rapaz cambaleou, oscilando perigosamente em direção ao chão, mas não chegou a cair. A garota torceu seu braço para trás, erguendo-o naquela onda nauseante de dor. Ela o forçou a ficar de pé naquela postura desagradável, ameaçando quebrar seu braço caso ele se mexesse apenas um centímetro em direção à ela.

Surpreso com o ataque, August se distraiu e acabou cedendo às ordens daquela menina.

Ela o prensou contra a parede, enfiando sua cara no meio dos quadros importados. Seu nariz foi esmagado e ele soltou um pequeno chiado em protesto – o que só deu à Willa mais ideias impiedosas do que fazer com ele.

Ela o revistou com uma mão, jogando no chão todas as armas que encontrou escondidas. Chutou-as para longe através do carpete. Aliviou um pouco a pressão e o virou para que pudesse encará-la.

Com um movimento rápido e preciso, lhe virou um soco bem no meio do rosto, acertando-lhe o olho.

August bateu a cabeça na parede com o impacto do golpe, praguejando.

– Dê-se por satisfeito que eu não tenha lhe aberto as tripas! Seu filho da puta!

Ela apontou a Beretta para ele.

August estancou, cauteloso.

– Vai atirar em mim agora?

– É menos do que merece.

Ela voltou o cano da pistola para o joelho dele e disparou.

August urrou de dor, curvando-se em direção ao ferimento.

– Isso garante que você não tente me impedir de sair. Como eu disse, é menos do que merece. Mas não vou perder meu tempo torturando você. Vou deixa-lo vivo para enfrentar a fúria dos outros. – ela se agachou para fita-lo nos olhos. – Um dia, num passado muito distante, você me disse que eu teria a oportunidade de uma vida nova, um recomeço onde ninguém nunca tivesse me visto. Estou abraçando essa oportunidade agora, como você deveria ter feito quando lhe era possível. Adeus, August. Espero que você sofra como eu sofri.

Willa lhe deu as costas e seguiu pelo corredor.

August deixou seu corpo pender até o chão, sentindo o torpor tomar conta de sua perna. Seus olhos avistaram a garota se afastando pelo corredor. Ele se esticou no carpete persa, estendendo a mão numa súplica desesperada até alcançar a arma jogada ali perto. Apanhou-a com sofreguidão e mirou na direção da menina.

O som do tiro ecoou pelo corredor, assustando Willa.

Ela se virou para trás, surpresa e encontrou o corpo caído de August. Sua cabeça raspada estava deitada numa poça de sangue. Ergueu os olhos um pouco mais, seguindo o par de botas paradas ao lado do corpo.

Sander a encarava do outro lado do corredor, a Glock em riste. Em seu rosto bonito, manchas de sangue fresco.

Willa sentiu seu coração dar um pulo dentro do peito e disparar. E, de repente, todas as regras que havia criado já não valiam mais.

– Ele ia atirar em você. – foi tudo o que Sander conseguiu dizer antes de se aproximar a passos largos.

Willa desatou a correr em sua direção e se atirou nos braços dele, ignorando o vestido rasgado, a alma profanada e os horrores que passara naquela mansão. Sander a segurou com cuidado, mas não houve delicadezas quando seus lábios se encontraram com a maciez dos dela. Ele a beijou com sofreguidão e foi correspondido com a mesma intensidade.

– Sinto muito. Sinto muito. – murmurou ele, entre beijos. – Sinto muito ter deixado que ela a levasse!

Willa balançou a cabeça, deixando as lágrimas despencarem.

– Eu sinto muito. – Sander repetiu.

Ela o beijou novamente, silenciando seus lamentos.

Sander a ergueu com delicadeza, deixando-a enlaçar suas pernas em sua cintura. Apertou-a com força, querendo se certificar de que estava segura ali em seus braços protetores. Willa enroscou os dedos em seus cabelos, puxando-o para mais perto. Seus lábios eram quentes e urgentes nos dele.

– Eu te amo. – ele deixou escapar em seu ouvido.

Willa gemeu uma vez, como se concordasse com a revelação.

– Você nunca mais vai me escapar. Nunca mais vou deixar levarem-na de mim. Eu prometo, Willa! – seus olhos a fitaram com intensidade. – Dentre todas as promessas que posso lhe fazer, essa é uma que assino com sangue. Vou proteger você! Vou ensiná-la a se proteger por si mesma. Eu prometo que nunca mais se encontrará numa situação como essas.

Willa alisou seu rosto com carinho, passando os dedos na barba ruiva.

– Não tenho a intensão de ir a lugar nenhum. Não mais. Onde quer que você vá, eu estarei ao seu lado se assim quiser. – ela disse e o beijou novamente.

Sander se entregou àqueles lábios devassos, rendendo-se ao calor que eles proporcionavam até se esquecer de quem era… Até que a única coisa que lhe restasse fosse o gosto doce da boca dela.

Willa obrigou-se a se afastar. Seus olhos tornaram-se sérios e cheios de terror.

– Cherry. – foi tudo o que disse.

Sander a abaixou, permitindo que ela se ajeitasse.

– Onde ela está?

– Na cobertura. Com Bóris.

O ruivo rosnou.

Willa deu um sorrisinho.

– À essa altura eu duvido que tenha sobrado algo do búlgaro para você desfrutar.

– Vamos nos certificar disso.

Sander conduziu Willa pelo corredor.

– Tem alguma arma aí? – ele a fitou com hesitação.

Ela apanhou a Beretta das mãos estáticas de August.

Sander balançou a cabeça em desaprovação. Fuçou no coldre peitoral e lhe entregou uma de suas pistolas.

– Essa é melhor. E combina com você.

Willa sorriu.

– Sabe atirar, não sabe? Meu pai lhe ensinou bem.

– Não tive problemas com o joelho desse aí.

Sander deu um sorrisinho.

– Essa é minha garota.

Eles saíram em direção à cobertura, de mãos dadas e pistolas em riste.

 *-* *-*

Foi preciso apenas a singela ameaça de mexer com sua masculinidade para fazer Bóris suspender aquela expressão arrogante do rosto.

Seu grito ecoou pelas vidraças da cobertura num lamento quase agressivo. Ele se virou bruscamente para sua agressora, dando-lhe um soco que a empurrou em direção ao chão. Bóris se ergueu com imponência, livrando-se do taco de sinuca. Jogou-o longe e se aproximou de Cherry.

A garota se levantava do chão quando o chute dele a acertou com força na cabeça, fazendo seu mundo rodar por incontáveis minutos. Ela piscou, atordoada e forçou seus olhos enxergarem.

Bóris já estava em cima dela, agarrando-a pela garganta num aperto de aço. Sua expressão não trazia nada daquela arrogância debochada. Ele estava furioso. Os olhos ardendo em chamas.

Cherry esboçou um sorriso.

– O que foi, Bóris. Não tem graça quando você é a vítima?

Ela gargalhou, a risada maligna ressoando pela sala à céu aberto.

Bóris se sentiu ainda mais insultado com a chacota dela e seu aperto se intensificou na garganta da assassina, ele a forçou encará-lo e esmagou os lábios contra os dela num beijo agressivo.

Cherry unhou o rosto dele com as garras afiadas e cuspiu seu nojo.

– Você quer se divertir, não? É para isso mesmo que estamos aqui. Vou lhe retribuir o favor, minha querida vadia! – ele jogou no sofá desarrumado, forçando o corpo sobre o dela e esfregando-se de modo asqueroso.

Cherry tentou levantar, mas o búlgaro era deveras pesado. Ele puxou seus longos cabelos para trás num apertão doloroso e a fitou com um olhar impiedoso e cheio de sombras maldosas.

– Se eu bem me lembro, você adora sexo bruto. – ele forçou a calcinha da Lingerie vermelha para baixo, dominando-a completamente.

Cherry deu uma cabeçada com força para trás, acertando o nariz dele antes que o maldito pudesse ter qualquer presunção ao seu respeito. Ela não estava blefando quando disse que jamais cederia a um homem novamente. Os demônios dentro dela não se rendiam facilmente.

Bóris cambaleou só por um pequeno instante, mas o suficiente para a assassina tomar conta da situação e o empurrar com força do sofá, vendo-o se estatelar no chão. Cherry se ergueu com elegância e arrumou a calcinha no lugar. Voltou seus olhos para o búlgaro, encarando-o com a mesma sombriedade que ele.

Bóris se ergueu de um pulo, enfrentando a adversária.

Eles se atracaram de novo, lutando pela cobertura, deslizando na chuva como verdadeiras feras selvagens. Escorregando no mármore molhado e recuperando a compostura em gestos elegantes.

Em dado momento, Bóris tentou apanhar sua arma para tentar dominar a garota novamente, mas foi interceptado com um golpe preciso que o derrubou no chão molhado. Ele virou-se de barriga para cima, encarando o céu turvado e a tempestade descendo sua fúria sobre eles.

Cherry se aproximou com aqueles passos felinos que a faziam uma caçadora tão bela e o agarrou pelo pescoço, forçando-o a se levantar.

– Vamos, Bóris. Está velho e gordo demais para me acompanhar nessa dança? – ela o chutou na perna machucada, avivando sua raiva.

Bóris foi para cima dela, ignorando os protestos do próprio corpo exausto e ferido. Ele tropeçou e caiu, estatelando-se no chão novamente.

– O que é? Só sente prazer em lutar com garotinhas? Só tem graça quando são mais fracas que você? Seu porco! – ela o chutou com força no queixo.

O búlgaro cuspiu sangue, junto com alguns dentes.

– Vadia!

– Ah, eu sou. Uma vadia livre! – ela o acertou novamente.

Aproximou-se com elegância.

– E sabe o que tenho vontade de fazer? – deu um sorriso maléfico. – Levá-lo lá para baixo, onde as outras estão, e dar àquelas coitadas a oportunidade de te ferir como fez com elas.

Bóris balançou a cabeça, como quem implora.

– Tem alguma ideia de que tipo de demônios criou?

– Todos somos atormentados por demônios, querida vadia. Nem todos cedem á eles. – ele se levantou com dificuldade, forçando-se a permanecer de pé e encarar sua tão amada vingadora.

Cherry permitiu que ele rondasse a sala, observando-o com os olhos de uma caçadora.

– Você foi a que eu mais amei. – disse Bóris ao acaso, fitando-a com adoração.

– Eu fui a que você mais feriu e atormentou. – ela o corrigiu.

– É verdade. – ele riu um pouco. – Exceto por Willa. Não sabe os horrores que fiz aquela garotinha passar.

Cherry estreitou os olhos, alertando-o.

– Adorada Solina, não tem ideia dos demônios dentro de sua amiga. Eu mesmo me esforcei muito em coloca-los lá.

Cherry avançou sobre ele, furiosa.

Bóris abriu os braços para recebe-la. Quando os corpos se chocaram com violência, ele sacou o objeto pontudo e o cravou com força no quadril da adversária.

Cherry gritou, cambaleando pela sala. Olhou para o quadril ferido, examinando-o, e puxou o furador de gelo cravado em sua carne. A ferida aberta verteu sangue, ainda não estava cem por cento curada do tiro que levara alguns dias antes.

Voltou seus olhos para o búlgaro, cheios de ódio.

Ele apontava uma pistola preta para ela agora, exibindo aquele sorriso imbecil.

 *-* *-*

Meera arrastava Alline pelos corredores enquanto cantava uma música antiga em turco. Alline a acompanhava a contragosto, a coleira machucava seu pescoço, os espinhos de metal afiado arranhando a pele delicada. Seus ossos doíam à beça, cada ferimento que tinha ecoando dolorosamente. E havia o medo também. O medo profundo que a sufocava a cada passo que dava.

Fitou as mãos arruinadas, as unhas em carne viva, alguns dedos quebrados. O joelho ainda ferido com o tiro que levara quando fora capturada por Fridda, o maxilar que fora socado inúmeras vezes. As lembranças de seu rosto no espelho eram o que mais a aterrorizava. Seu lindo rosto destruído por hematomas.

As lágrimas encheram seus olhos diante daquele horror.

Malditos Von Kern! Era graças àquela família amaldiçoada que sua vida virara de ponta cabeça. Já não bastava aquela vadia louca ter matado seu precioso Lucien. As lembranças do amante só serviram para aumentar a tristeza sombria dentro dela.

E agora estava sendo levada, como uma cadela, para os malditos nórdicos!

Ela fitou a antiga colega, lembrando da imponência que Meera sempre tivera. E a força bruta com a qual atacava. Um dia lutaram juntas, mataram juntas e até repartiram o vinho. Mas agora ela não passava de uma mercenária. A traição doeu em seu peito.

Ao longe, pode ouvir passos pesados e a voz inconfundível de Fridda. O restante da família vinha pelo corredor de encontro a Meera.

A possibilidade de ser morta por um deles a aterrorizou e a chama fraca da mulher que um dia foi se acendeu dentro dela, dando à Alline a coragem da qual precisava. Uma Borsahy não se rende nunca!

Ela freou no meio do caminho, interrompendo sua caminhada.

Meera olhou por sobre o ombro, repreendendo-a, e puxou a guia uma vez. Os espinhos metálicos da coleira arranharam o pescoço de Alline, mas ela não prosseguiu. Os olhos fitando a outra com terror.

– Não seja estúpida, Vedrana! Falta pouco. Logo encontrará a paz da qual necessita… Ou as labaredas do inferno. Vejamos como Nosso Senhor será com você.

– Nosso senhor não existe. E eu não vou queimar no inferno! – com um puxão preciso e um pouco de pressão na área certa, Alline conseguiu soltar a guia das engrenagens da coleira e viu-se livre das rédeas de Meera.

Antes que a mercenária pudesse agarrá-la novamente, Alline lhe deu um chute com toda sua força, fazendo-a cair de joelhos. Aproveitando-se da pequena fraqueza, fechou o punho e desceu o braço no rosto belo da adversária.

Meera agarrou o punho bem a tempo de virar o braço de Alline para trás numa torcida dolorosa e acertar-lhe o rosto com o punho fechado.

Alline cambaleou e tentou revidar o golpe, mas foi empurrada com força para trás.

Meera se ergueu com a espada em punho.

– E então? Vai me enfrentar como uma Borsahy ou sair correndo como uma franguinha, como fez há pouco?

Alline pareceu refletir sobre aquilo, mas o som dos passos e vozes a alcançaram novamente, cada vez mais perto. O terror se apoderou de seu coração, lembrando-a porque escolheu arriscar sua vida e arrebentar aquela guia.

Num giro rápido, saiu correndo na direção oposta do corredor.

Meera riu, sem conseguir se conter. A vadia não tinha para onde fugir. Estava encurralada naquele andar, como uma porquinha prestes a ser abatida.

– Covarde! – gritou, a voz reverberando pelas paredes vazias.

 *-* *-*

Alline ouviu o insulto, mas não deixou seu orgulho a comandar.

Um dia se encontraria com Meera novamente e então lhe mostraria quem era a covarde.

Continuou correndo pelo corredor longo até encontrar-se sem saída.

Maldição!

Ela derrapou no meio do caminho, sem saber para onde correr. Do seu lado direito havia o caminho que a levaria diretamente para os quartos luxuosos de onde correra mais cedo. E à sua esquerda o corredor ornamentado que levava à cobertura.

Sabia que se corresse para o lado de Bóris estaria encurralada do mesmo jeito. Mas acabou cedendo à possibilidade de ter uma chance se ficasse ao lado do búlgaro. Correu pelo mármore até as portas fechadas da sala da cobertura aliviando-se ao se deparar com um pequeno grupo de homens armados.

Seguranças de Bóris.

Savedra estava entre eles, furioso, ditando ordens aos outros.

Alline se aproximou a passos largos, tentando esconder a expressão alarmada.

– Savedra! – gritou ela.

– Madame, Jovanović. – ele fez uma pequena mesura. – Não deveria estar andando por aí sem escolta. A mansão foi invadida. Estamos tentando lidar com o problema…

– Eu seu disso, seu idiota! – ela soou ríspida. – Como chegou até esse andar? Eles bloquearam a escadaria e o elevador já era.

– Pela escada interna da torre. Trouxe o restante dos guardas comigo para…

– Ótimo! – Alline correu até a porta, mas sua atenção foi capturada pelos dois corpos de guardas no chão. Ela fitou a porta, aterrorizada. – Onde está Bóris?

Savedra engoliu em seco.

– Achamos que esteja aí dentro… Com quem quer que tenha matado os guardas.

Alline amaldiçoou em voz baixa.

– Vamos invadir a sala…

– Não! – Alline arrancou a pistola que ele carregava. – Vocês fiquem do lado de fora. Defendam a porta! Ninguém entra nesta sala!

– Sim, senhora. – um dos guardas assentiu, entusiasmado em poder ajudar.

Alline destravou a arma.

– Eu mesmo lidarei com quem está lá dentro. – ela disse e entrou.

 *-* *-*

Cherry riu na cara de Bóris.

– Vai atirar em mim?

O búlgaro apertou os lábios furiosos.

– Não pense que sou incapaz de mata-la, Solina!

– Não tenho medo de morrer.

– Pois deveria. Considerando as milhares de almas que roubou, você não é bem vinda no paraíso.

– Nesse caso, tomarei um drink com o Diabo.

Bóris a fitou como se fosse uma louca.

– O que foi? Um homem com tantos pecados nas costas não aguenta uma pequena blasfêmia?

– Você é louca!

– Não é a primeira pessoa que me diz isso. Quando é que vai aprender, búlgaro, que não sou sua Solina? Meu nome é Cherry Vicious e eu vim atrás da minha vingança!

Num movimento ágil, ela chutou a arma das mãos dele. Apanhou a Beretta e a encostou na testa do búlgaro.

– Diga adeus, Petrov.

O som de uma arma sendo engatilhada cortou o silêncio tenso da sala.

– Solta ele, Vadia!

Cherry voltou os olhos para trás e deu de cara com Alline, apontando um revolver de cano longo diretamente para seu peito.

Continua!

[i] Irmã

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