A fé da gente -Lição 2 aprendida

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A fé da gente

Lição 2 aprendida

Escrito por: Zuleika Juliene

  Catarina havia sido chamada para trabalhar no feriado, Dona Esther nunca fazia um pedido como este, mas como precisava de ajuda para empacotar algumas cestas básicas para doação fez um acordo com Catarina lhe oferecendo uma quantia generosa por este dia extra de trabalho.

  Catarina pensou que na atual circunstância ela não poderia recusar dinheiro, então aceitou sem protelar, na verdade havia até achado bom. Chegou cedo à casa de Dona Esther, onde encontrou várias caixas vazias empilhadas de um lado e outras pilhas de mantimentos espalhadas pela sala, sentiu a primeira vista que seria trabalho para um dia inteirinho, mas analisou que talvez fosse bom, poderia aproveitar para conversar com a patroa, levantar as questões que havia escutado na palestra e ter uma segunda opinião, também considerou a ideia dela não querer falar sobre o assunto, Catarina sabia que muitas pessoas não gostavam de falar sobre religião, pois muitas vezes a divergência de opiniões resultava em brigas muitas vezes irreversíveis. Ela preferiu ficar quieta, já havia até desistido e se concentrava intensamente na separação e embalagem dos alimentos quando Dona Esther perguntou:

  -Há algo de errado Catarina? Estou te achando um tanto preocupada.

  – Bobagem Dona Esther, bobagem…

  – Sinto que você me acha incapaz de compreender seus problemas, talvez ache até que é perda de tempo, na verdade penso que você me acha fútil e…

  – Imagina Dona Esther, apenas não quero chateá-la com bobagens.

  – Já parou para pensar que talvez o que você considera bobagem pode não ser para mim.

  – Dona Esther, a senhora acha que desistir dos problemas possa ser uma solução viável?

  – Como assim desistir dos problemas? Não temos como desistir dos problemas, não temos como colocá-lo de lado ou os jogar fora, onde estivermos eles estarão conosco, eles nos seguirão por onde formos.

  – Eu sei, mas e um marido? Temos que ficar com um marido que não é nosso companheiro há anos?Que só nos dá dor de cabeça?

  Quando Catarina proferiu estas palavras elas exprimiam mais que dúvidas, seu tom de voz era carregado de mágoa e revolta beirando a histeria, Dona Esther estava vermelha e a olhava com olhos arregalados e marejados de lágrimas.

  – Catarina, eu sei que esta é minha realidade, mas acho que sem o Nicolas eu não sou ninguém…

  Catarina tornou-se extática imediatamente, jamais havia reparado qualquer coisa de anormal na relação da patroa e mesmo que tivesse reparado jamais cometeria a indelicadeza de comentar, de repente ficou sem palavras, sentiu-se como em uma via de mão única, não havia espaço para contornos, não havia como recuar e chegando ao final havia percebido que era uma rua sem saída. Dona Esther não parava de chorar de maneira que se Catarina não se pronunciasse, ficaria cada vez mais difícil desfazer o mal entendido.

  – Desculpa Dona Esther, não me referia ao senhor Nicolas, me referia ao Alfredo, meu marido.

  Ambas ficaram apenas se olhando durante alguns segundos, então explodiram em um riso como aqueles que melhores amigas dão quando se flagram cúmplices.

  Catarina enxergou pela primeira vez Dona Esther apenas como uma mulher e Dona Esther viu naquele momento que Catarina era uma possível amiga. Conversaram durante um longo tempo e chegaram à conclusão que deviam enxergar a si mesmas, deveriam se conscientizar do quanto forte eram e então não dependeriam de ninguém.

  As cestas pareciam se multiplicar, mas o volume do trabalho não tinha mais importância, haviam nutrido ali coisas muito mais fortes, confiança e esperança.

  Catarina percebeu que o quanto podia ser perigoso deixar sua felicidade nas mãos de outras pessoas e só se sentia triste pelo fato de isso a fazer lembrar que Alfredo não era seu único problema, pois ela também gostaria de mudar de emprego, mas agora não iria sentir-se bem por abandonar Dona Esther.

  – Sabe Catarina, se eu realmente tiver coragem de deixar o Nicolas, se eu tiver realmente esta força toda, não ficarei aqui, irei para Itália.

  Catarina sentiu-se aliviada e com coragem para ariscar:

  – Acho que quero mudar de ramo, talvez manicure…

  – Acho ótimo Catarina, vamos brindar ao nosso recomeço.

  Aquela tarde ensinou a Catarina que ela não era a única a ter que tomar decisões, que não era a única a ter problemas, mas que uma coisa era certa, tudo dependia apenas dela.

 Continua

5 comentários em “A fé da gente -Lição 2 aprendida

  1. putz…. quando a Catarina falou do marido, eu pensei que ela falava de si mesma de fato…
    😦
    Pior que essa é uma realidade de muitas mulheres… espero que as duas possam se reconciliar com seus maridos ou conseguirem seus recomeços.
    Todos nós merecemos…

    Curtir

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