A fé da gente – Lição 2

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A fé da gente

Lição 2

Escrito por: Zuleika Juliene

  Ao contrário da semana anterior esta não demorou a passar, Catarina continuava ansiosa como sempre, mas após a conversa que teve com Débora ela sentiu-se mais calma, sentiu uma serenidade que nunca havia experimentado, teve a impressão de que seu espírito havia subido um degrau na escala de evolução. Ela não era mais a mesma Catarina de uma semana antes, não era nada que se ela olhasse no espelho seria capaz de ver e consequentemente quem a olhasse também não veria, mas sentia em seu interior, talvez fosse apenas uma pontinha, mas estava lá e Catarina sentia-se orgulhosa por isso.

  A segunda-feira amanheceu ensolarada, podia-se sentir um clima de domingo, quase tão perceptível quanto uma brisa. Era como um daqueles dias em que ao acordar, por um instante confundimos com um final de semana.

  Catarina acordou bem disposta e respirou fundo tentando captar mais profundamente o aroma de rosas que entrava através das frestas da janela, ela acordou sorrindo, pois em Iponéia um aroma como aquele era muito raro, não que fosse um lugar fétido, não, não era isso, mas talvez uma definição aproximada poderia ser sem cheiro algum.

  Ela levantou de ótimo humor e correu para a cozinha para preparar o café para os meninos, devido a um milagre seu marido havia decidido sair para procurar emprego, parecia que naquela manhã tudo estava se harmonizando, tudo tendia a se encaixar de maneira natural e precisa, encaminhando-se para um dia energeticamente bom.

  Durante o período da manhã Catarina trabalhou bem disposta programando a roupa que usaria à noite na palestra de Dona Esperança, seu trabalho rendeu tanto que sua patroa dispensou seus serviços três horas antes do espediente acabar.

  – Vá descansar um pouco Catarina, você está com o serviço todo adiantado, não faz sentido ficar aqui só para cumprir o horário.

  Ela não pensou duas vezes, em anos de trabalho a aquela família Catarina jamais havia faltado, mesmo estando doente, mesmo que os meninos estivessem doentes, então estas três horinhas eram mais como um bônus e incontestavelmente merecido.

  Durante o trajeto de volta para casa Catarina ia tendo ideias – poxa… Se economizássemos um pouquinho mais nas compras talvez esta tarde eu poderia ir ao salão me arrumar um pouquinho. Mas então lembrava que suas compras eram restritas apenas ao essencial de maneira que não havia onde economizar mesmo assim não desistiu. – E se a televisão fosse ligada apenas aos finais de semana? Mas teve dó dos meninos, pois muitas vezes aquela era a única diversão que eles tinham durante a semana. Desistiu.

  Ao descer a rua da igrejinha com vários pensamentos saltitando em sua mente, Catarina avistou algo que lhe chamou a atenção, mesmo com a cabeça longe não conseguiu tirar os olhos daquele objeto brilhante junto à rua de paralelepípedos. Catarina se abaixou e pegou o objeto que havia lhe chamado tanto a atenção. Era uma carteirinha cinza adornada de brilinhos verdes claros e escuros. Ela achou muito delicado o trabalho que era visivelmente artesanal. Mesmo com a carteirinha em mãos ela não percebeu que havia algo dentro dela, mas ainda assim a abriu encontrando dentro dela uma cédula de dinheiro. Catarina fechou os olhos e os abriu quase que instantaneamente tentando testá-los, mas a nota não havia sumido, era uma nota de dinheiro no valor máximo em que a casa da moeda imprimia. Ela não quis acreditar, era muita sorte para apenas um dia. Catarina olhou para todos os lados, mas não havia ninguém nem mesmo nos muros ou janelas, então ela fechou a carteirinha e a jogou dentro da bolsa mudando o roteiro que agora iria ter parada no salão.

  Catarina rodou toda Iponéia e já estava ficando tarde, sentiu um tipo de frustração que só pessoas que têm o ordenado contado todo mês sabem como é, você não ter dinheiro e aparecerem mil coisas e oportunidades que você irá perder e finalmente quando um pouquinho de dinheiro lhe sobra todas aquelas coisas desapareceram como se fossem miragens feitas especialmente para te chatear ainda mais nos momentos de aperto.

  A questão era muito simples, as segundas-feiras os salões de beleza não abriam, mas esta oportunidade só apareceu para ela naquela segunda-feira.

  Ela já estava indo para casa quase conformada quando encontrou sua comadre no meio do caminho questionando o que ela estava fazendo naquele pedaço de Iponéia, Catarina não queria dar muitas explicações, então acabou dizendo que estava procurando um salão para cortar as pontas dos cabelos que estava enfraquecido. Sua comadre falou o que ela já sabia que os salões não abrem as segundas, mas que ela conhecia uma cabeleireira que atendia em casa e que para ela não tinha este negócio de dia não, qualquer dia era dia para ela ganhar o seu dinheiro, disse que não poderia acompanhá-la, mas explicou direitinho onde era e falou para que quando Catarina chegasse lá avisasse que foi recomendação dela.

  Os olhos de Catarina voltaram a brilhar – será que ela saberia fazer aqueles penteados bonitos aos quais ela vinha sonhando há tempos? Catarina apressou o passo para chegar o quanto antes.

  Quando chegou a frente da casa avistou uma plaquinha simples de madeira escrita a mão informando que ali havia uma cabeleireira e manicure, Catarina foi ao céu, agora só restava saber se ela era boa mesmo.

  Após bater palmas Catarina observou a robusta mulher com bobs no cabelo meio escondidos por baixo de um lenço colorido abrir a porta e perguntar o que ela desejava, Catarina falou o que precisava, falou da recomendação da comadre e Carmelita abriu um largo sorriso a convidando a entrar.

 Catarina saiu de lá pouco antes das vinte e duas horas preocupada com a janta das crianças e sentindo agulhadas de rancor por saber que certamente o marido acomodado como era não teria preparado nada e ainda estaria exigindo o jantar quando ela chegasse. Pensou que pelo menos comida pronta ela tinha na geladeira, bastaria esquentar e fritar um ovo e pronto, é o que teria para hoje. O importante é que ela estava com um belíssimo coque trabalhado com uma trança ao redor muito elegante e bem parecido com o que Dona Divina estava no dia em que deu a primeira palestra e suas unhas estavam impecavelmente feitas, Catarina só lamentava não estarem decoradas, mas em conversa solta com Carmelita, esta disse que só a periferia usava decorar unhas, gente fina mesmo achava aquilo uma breguice, ela não engoliu muito aquela história, achou que na realidade Carmelita que não sabia decorar, mas tudo bem de uma maneira ou de outra ela sentia-se belíssima.

  Quando ela chegou a casa seus olhos não puderam acreditar no que viam, seu marido e as crianças em volta da mesa jantando um cozido que ela já havia sentido o cheiro antes mesmo de chegar ao portão. Ela fechou a porta beijou as crianças e olhou o marido percebendo que aquela altura nem mesmo uma mudança de comportamento a faria sentir algo há muito tempo morto e enterrado em seu coração, ainda assim o cumprimentou de maneira respeitosa e avisou que iria sair.

  Catarina chegou até que cedo, mas todos já estavam lá, parecia que estavam a esperando para começar, mesmo tendo esta sensação ela olhou ao redor vendo que muitas coisas haviam mudado, a sala estava muitíssimo clara e as cadeiras de madeira haviam sido substituídas por outras mais modernas em plástico verde, percebeu que o salão não estava tão cheio quanto à palestra passada e que a palestrante, Dona Esperança, era uma mulher linda de longos cabelos negros e com um sorriso confortante.

  – Estou muito feliz por tê-los aqui hoje. Faremos algumas reflexões sobre nossas vidas, tudo que nos desagrada, tudo o que nos incomoda.

  Dona Esperança ia dizendo cada palavra se tirar o sorriso do rosto nem sequer um instantinho.

  – Temos que ter em mente que todos os dias nos é dada uma nova oportunidade, temos que ter a consciência de que podemos mudar qualquer situação que não nos faça bem, a questão é conseguir sair da zona de conforto. Às vezes mantemos uma situação que não nos faz bem simplesmente porque ela nos é confortável, podemos ter medo, mas devemos arriscar, pode não ser de um dia para o outro, mas devemos começar.

  Como sempre começou uma inquietação nas cadeiras vizinhas a de Catarina e ela própria sentiu-se inquieta, pois este assunto remetia seus pensamentos a Alfredo, seu marido. Havia muito tempo que Catarina não parava para pensar sobre seu relacionamento, de certa maneira sua rotina também não abria brechas para que ela pensasse muito nisso, mas naquela segunda-feira já era a segunda vez que aquele assunto batia a porta de seus pensamentos.

  Após beber um copo d’água, Dona Esperança continuou:

  – Se você não está feliz em seu emprego, você pode mudar, não há nada que o prenda, não há nada te segurando. Contas, estas sempre existirão, obrigações e responsabilidades também. Estude, faça um curso, melhore! Hoje oportunidades não faltam para quem quer se desenvolver, hoje são ofertados vários cursos a preços baixos e até mesmo gratuitos, só depende de você.

  – Se não está feliz com seu relacionamento, termine. Lembre-se que a primeira coisa que devemos fazer é amarmos a nós mesmos em primeiro lugar, quem não se ama não pode amar o outro. E principalmente não se esqueça que você jamais irá mudar as outras pessoas, você só pode mudar um ser em todo o mundo e este ser é você.

  Após estas palavras Catarina pensou imediatamente no número três, era a terceira vez que pensava em seu relacionamento em um mesmo dia. Mesmo imersa em seus pensamentos, reparou que algumas pessoas se levantavam e saiam, achou aquilo falta de respeito, se não estavam gostando deveriam ter pelo menos a consideração de esperar a palestra terminar para então saírem. Escutou alguns cochichos sobre “falar é fácil”, “se tudo fosse como gostaríamos”, “essa dona sorrindo o tempo todo só pode estar debochando da nossa cara”, e outras coisas que ela achou o fim ter que escutar.

  – Se você estiver doente lembre-se que ainda está vivo e que enquanto houver vida há possibilidades, mude o tratamento se este não estiver dando resultados.

  – Se tiver algum desafeto, perdoe, lembre-se que ao perdoar alguém você não está fazendo mais do que se dar uma nova oportunidade, está limpando sua alma e a purificando.

  Neste momento Catarina percebeu olhares raivosos voltados a Dona Esperança como se fosse realmente o pior ponto da palestra – Perdoar? Se tínhamos algum desafeto este certamente havia feito algo imperdoável. Catarina neste aspecto não via assim, ela achava que realmente todos tinham direito a uma segunda chance, todos estavam sujeitos a errar, mas aparentemente apenas ela e talvez mais duas ou três pessoas pensavam assim, incluindo a este número a palestrante.

  Dona Esperança fez os agradecimentos finais e dispensou a todos, mas durante seu encerramento começou uma chuva muito forte fazendo com que várias pessoas saíssem correndo, de repente a luz acabou e Catarina também saiu correndo, mas quando chegou à rua não havia mais ninguém, então correu para casa na tentativa de se molhar o menos possível.

Continua

4 comentários em “A fé da gente – Lição 2

  1. Duas coisas me incomodando: por que as pessoas já sumiram? :v
    E essa sorte milagrosa da Catarina?

    Eu já tinha lido até aqui, mas estou relendo porque parei no cap 4 😀
    Muito bom mesmo, Zuzu. Vc pega nos pontos que mais doem rs
    Confesso que sou umas das pessoas que não curtem muito essa coisa de perdão, POR OUTRO LADO, para que eu não queira perdoar é porque o negócio foi feio ahuahauahauh juro que vou tentar melhorar :V

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