Maysee, Um Toque do Mar [Parte 6]: Devidas Explicações

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Chalé das Conchas

Claud perdeu o chão. Parecia estar próximo de descobrir algo importante, aquela fotografia da “sobrinha neta” de Emilly o fez sentir um insight, mas o som que veio de trás de si o trouxe a uma realidade que ele jamais esperou enfrentar.

Em um instante Emy estava parada entre a poltrona e a mesa de centro, ele apenas virou-se para procurar o que havia visto na foto, onde suas suspeitas cresceram mais ainda. No outro momento o baque alto, de madeira e osso se chocando.

Lá estava o amor da sua vida estendida no chão, infelizmente pendera para o lado oposto ao assento, e sua cabeça batera diretamente na quina da mesa de centro. E agora estava ali à sua frente, estendida, idosa e frágil e – o que ele mais queria errar – provavelmente morta.

Rápido, sem pensar correu para ela e pôs a mão em seu pescoço, enquanto checava o pulso. Um alívio gelado o dominou quando percebeu que ainda pulsava. Levantou as pálpebras, mas os olhos estavam revirados. Com muito cuidado analisou o crânio, encontrando o relevo onde havia ocorrido a pancada. Ele não era médico, mas lutara em muitas batalhas e socorrera muitos feridos, incluindo ele próprio e sabia exatamente como manusear o corpo em busca de fraturas. Aparentemente o maior choque atingira a têmpora esquerda de Emilly, mas nenhum osso estava visivelmente quebrado. Precisaria de um raio-X ou ressonância para ver mais detalhadamente.

Amaldiçoou-se silenciosamente, pois se ela tivesse o relicário estaria bem logo, mas quando ela abriu mão, ele não o buscou para guardar pra posteridade. Foi muita estupidez na época, mas naquele tempo tudo parecia permanente. Agora ela estava ali, a mercê de uma ambulância. E como explicaria isso aos médicos? E suas sobrinhas quando voltassem para casa?

Delicadamente puxou o corpo frágil de Emilly, apoiando-o sob seus braços fortes e a levou até o sofá da sala, onde a deitou com mais conforto. Se, e era apenas um se, ela acordasse, sentiria dores por todos os lados e ainda mais com aquela idade, ela provavelmente não teria forças. O que fizera? Porque não a deixou sentada mais tempo? Fora ideia dele irem até a biblioteca…

Encostou o ouvido sobre o coração dela e percebeu que ele batia fracamente, o corpo cedendo ao tempo e agora à pancada. Alisou os cabelos brancos da sua esposa com carinho, pensando na linda cor que eles possuíam quando eram jovens. Ela tinha tanta vida dentro de si, e essa vida estendia-se por todo o seu corpo, daí seu nome “Redy”, que ele mesmo colocara nela e ela adotara. Acariciou a face enrugada, de pele fina e cheia de sardas e sentiu saudade da energia que apenas um modo de olhar dela podia transpassar, podia ser raiva, amor, felicidade ou tristeza.

Rapidamente inclinou-se para frente e roçou os lábios nos dela. Tão suave que ela nem teria sentido, se estivesse consciente. Voltou a levantar-se, percebendo como ela parecia vazia e o chalé mais vazio ainda com aquela cena.

Começou a caminhar de um lado para o outro da sala, pensando no que fazer. “Se pudesse levá-laTálassa certamente ajudaria a irmã, mesmo que tenha renunciadoEla ainda tem sangue real nas veias e o direito de ser curada, mesmo que não voltasse…” Parou no mesmo instante. Ela não sobreviveria a uma viagem tão longa até seu reino, não nesse estado.

Teria que chamar uma ambulância antes que ela piorasse ou que as sobrinhas chegassem, concluiu e voltou-se para buscar o telefone da casa. A porta da frente se abriu revelando duas silhuetas jovens, que o sobressaltou.

Uma garota ruiva, de aparência suja e abarrotada apoiava-se em Golde, que estava com a roupa rasgada e suja de sangue. Olhou de um para o outro enquanto a garota o encarava aturdida e o seu ajudante o olhava surpreso.

– Quem é você e o que faz em minha casa? – Ela perguntou ao mesmo tempo em que Golde abria a boca para falar.

– O que faz com ela Golde? – Claud falou de volta.

– Onde está minha tia? – Loreena desesperou-se com aquele estranho em sua sala e seguiu o olhar de Claud. – O que você fez com ela? – Gritou e tentou se soltar de Golde para ir de encontro à tia estirada no sofá, mas devido ao ferimento perdeu o equilíbrio e caiu de frente ao chão. Golde foi socorrê-la enquanto Claud recuava com uma expressão triste.

– Ele é meu superior. – Golde explicou. – Não tenha medo, ele também pode ajudar.

– Mas e minha tia? – Ela sussurrou com os olhos cheios de lágrimas. Golde a guiou até Emilly e ela sentou-se no sofá ao lado da tia.

– Eu a conheço há muito tempo… – Claud finalmente explicou e Loreena o encarou, estava escuro na sala, mas algo nele a fazia lembrar… – Estávamos conversando na biblioteca e vi uma foto sua e da sua irmã, suponho que seja Loreena… Então ela simplesmente desmaiou e bateu a cabeça na mesa de centro.

– E PORQUE VOCÊ NÃO CHAMOU UMA AMBULÂNCIA? – Loreena gritou histérica.

– Era exatamente o que ia fazer quando chegaram… Ela não tem nenhuma fratura, eu mesmo examinei. – Falou e Golde assentiu, confiando nele.

– Você é médico? – Loreena disse e na mesma hora voltou-se para Golde. – Ele é médico?

– Não, mas já lutamos em muitas batalhas e sabemos como tratar feridos muito mais graves que sua tia. – Golde falou como se fosse a coisa mais comum do mundo.

– E o que houve com vocês? – Claud perguntou apontando para os ferimentos e sangue.

– Telquines nos atacaram senhor. Cinco deles. Consegui matar dois, mas os outros fugiram. – Golde falava novamente como um oficial passando um relatório ao superior.

– E o que queriam? – Perguntou franzindo o cenho.

– Não sei, Divere. Mas eles tentaram levá-la. – Disse apontando para Loreena que sobressaltou-se lembrando do ataque. As feridas estavam ardidas e pulsavam, mas tudo isso foi ignorado ao ver sua tia naquele estado.

Analisou tia Emy, que parecia dormir em sono tranquilo, enquanto um pandemônio se instalava em sua volta. Tudo que Loreena conhecia estava diferente e estava piorando a cada segundo. Estava absorta nos pensamentos quando percebeu que ainda falavam dela.

– A encontrei no Festival, – Golde ainda passava um relatório e ela ficou constrangida em perceber que não ouviu se ele falou do momento dos fogos – uma Filha da Areia estava a ponto de bater-lhe quando interrompi. Ela diz não saber nada sobre a Corte ou sobre os Filhos da Areia, mas a Filha da Areia a chamou de Filha das Conchas… – O olhar de Claud pesou sobre Loreena, os olhos azuis escuros emitiam um brilho sólido e analítico, que dava medo e ao mesmo tempo fascínio. – E tem mais… – Golde ainda falava. – Ela estava usando um Relicário que disse ter ganhado de uma amiga. Ele estava esquentando e a incomodando muito. E isso só quer dizer uma coisa…

– Que está próximo do dono. – Falou Claude, vindo em direção a Loreena – Como você ganhou esse Relicário? – Perguntou e instintivamente ela o segurou com as duas mãos, e contou a história que Charlotte a falara mais cedo. Os olhos de Claud cerraram-se e a cor sumiu de seu rosto. Voltou a caminhar pela sala e Golde veio até Loreena.

– Como estão seus ferimentos? – Perguntou sem um pingo de emoção na voz.

– Não estou ligando para isso no momento. – Ela respondeu e olhou a tia novamente.

– Preciso ver esse Relicário – Claud sobressaltou-a novamente – agora. – Estendeu a mão e Loreena apertou mais ainda a sua mão sobre ele para em seguida gritar ao perceber que agora queimava ao toque.

– AH!- falou soltando a pedra e recebendo uma rajada de luz vermelha que a pedra emitia.

– Dê-me isto aqui. – Claud pegou o colar no ar quando Loreena o atirou para longe. Correu para a cozinha, onde o pôs dentro de uma panela com água e ligou o fogão. Em poucos instantes voltou com a panela borbulhante até eles. – Veja, está limpando. É preciso ferver em água doce e limpa para que purifique e ele mesmo está fervendo a água.

Loreena viu que a cada instante a pedra ficava mais limpa e emitia brilho de cada parte polida que surgia, e como desconfiara, era um rubi. A água evaporava mais e mais até que sobrou apenas o colar sobre a panela de ferro. Claud puxou pelo cordão e sob a luz vermelha que o colar emitia seu rosto estava apavorado e estranhamente assombrado.

– Não pode ser! Não posso crer que é! – Dizia enquanto olhava o cristal brilhante escarlate. – Sim, Golde, está tão próximo do dono que brilha e precisa se conectar a ele. E olhem que ironia do destino, o dono está necessitado dele mais do que qualquer outra coisa!

Loreena não entendeu e Claud veio até ela, com o colar estendido, mas não era realmente para Loreena que ele se dirigia e com muito cuidado colocou o cordão no colo de Emilly, levantando suavemente a cabeça dela enquanto passava a corda sob o pescoço. A pedra encaixou-se perfeitamente no colo magro e pálido de sua tia desfalecida. O brilho vermelho dava um tom péssimo para o hematoma em sua têmpora.

– Fechem os olhos! – Claud avisou e Loreena cobriu a visão bem a tempo de ver que haveria uma explosão de luz. Como um pulsar o Relicário de Emilly reconheceu sua dona, como um filho reconhece a mãe pelo cheiro, um disco de luz vermelha transpassou a casa até o mar e quilômetros adentro, mas nem todos podiam ver. O som veio logo em seguida aos ouvidos de Loreena, como se várias vozes melodiosas sussurrassem em concordância “Mah-yh-shhh” e sumiu em seguida.

A sala voltou à penumbra e Loreena percebeu que o colar voltou ao normal, com apenas o brilho liquido interno do rubi. Claud olhava para Emilly com expectativa e Golde não sabia o que pensar daquela sucessão de acontecimentos. Aos poucos o galo na têmpora de Emilly começou a clarear e diminuir de tamanho, muito devagar e quase imperceptível, mas ela permaneceu desacordada.

– O que é isto? – Loreena assombrou-se com o que viu, reconhecendo agora o colar da foto de sua tia na escada.

– Isto era o Relicário que Emilly jogou no mar quarenta anos atrás quando renunciou. – Claud falou suavemente e Loreena o olhou incapaz de compreender.

– Quando ela renunciou ao que? – Perguntou.

– Ao berço, ao sangue, à Corte. – Claud explicou. “Ao nosso casamento.” Ocultou o pensamento sabendo que deveria ser demais para a garota descobrir que ele era o marido de Emilly, quando agora ele parecia 40 anos mais jovem do que deveria estar.

– Essa Corte novamente! – Loreena explodiu, perdendo a paciência. – O que isso quer dizer? Que berço? Que sangue? – Seus olhos se encheram de lágrimas. – Eu não aguento mais! – Disse, se dando conta que realmente não agüentava mais nada, mais nenhuma revelação, mais nenhum ataque, mais nenhuma dor. – Eu não aguento mais nada! – E pôs-se a chorar, sentindo a perna latejar, como se estivesse inchada.

Limpou as lágrimas e constatou que os arranhões causados pelo Telquine estavam inflamados, inchados, expelindo sangue e com uma aparência horrível. Golde seguiu seu olhar e ajoelhou-se na mesma hora para examinar.

– Ela precisa de remédio. – Falou para Claud – O veneno dos Telquines está começando a agir.

– Você também está machucado! – Ela exclamou lembrando-se do ombro de Golde.

– Eu estou bem! – Ele disse puxando o estranho colar de ônix e ouro para mostrar a ela. – Vê?

– Não, mas eu vi seu lado esquerdo arranhado… – Ela disse e ele puxou a blusa branca rasgada para mostrar que realmente estava bem.

De fato ainda estava ferido, mas os arranhões dele não estavam nem perto dos dela. Não havia inchaço e o sangue já secara, talvez ainda doesse, mas ele podia lidar com essa dor. Loreena engoliu o nó que subiu por sua garganta para não surtar de vez. “Ok. Cura rápida. Posso lidar com isso…”, pensou, mas não se sentia tão certa disto.

– Não se preocupe, está bem? – Ele disse com todo o peso dos olhos dourados e ela quase se convenceu que não deveria se preocupar, mas a dor que sentia na perna não permitiu.

Estava olhando os cabelos dourados de Golde quando sentiu uma vibração intensa e em seguida o toque do seu celular. Deve ter saltado uns 30 centímetros com o susto que levou e nervosamente o puxou da bolsa que ainda pendia em seu ombro.

– Alô? – Sua voz era quase desesperada.

Loree? – Jane falou do outro lado da linha. – Que silêncio! Você já está em casa? Te acordei?

– Eh… – Loreena gaguejou – Sim… – Não deixou explicito se já estava em casa ou havia sido acordada.

Eu te vi andando com um gatinho pelo festival e pensei que você fosse ficar até o fim dos shows… – Disse com uma voz insinuadora e depois riu.

– Eu falei que só ficaria até os fogos… – Ela respondeu, ainda com a voz estranha, sem conseguir decidir o quanto revelar à irmã.

Escuta! Eu vou para a casa de Mary Ann, vou passar o resto do fim de semana lá… – Jane falou sem dar atenção para a tensão de Loreena – Avisa a Tia Emy que volto segunda, depois da escola… Pode ser?

– Hmmm… – Loreena ponderou, de certo modo, seria ótimo Jane passar dois dias fora até a tia se recuperar. – Ok. – Até Lore se recuperar também.

Vai encontrar aquele gato de novo no Festival amanhã? – Jane falava e Loreena olhou instintivamente para Golde, que havia ido para a cozinha e sussurrava com Claud.

– Talvez, Jane. – Falou evasiva. – Preciso dormir. Estou com… Muita dor de cabeça. – Olhou para as pernas arranhadas.

Ok maninha! Beijoooo! – Falou e desligou. Deixando Loreena com o celular na mão, olhando para a tia adormecida ao seu lado.

O rosto de Emilly parecia mais corado, de certa forma, mais saudável. Aparentemente o colar estava ligado à força vital dela. “Todos devem estar ligados.”, pensou lembrando-se do colar de Golde e seu ombro ferido. “Isso me dará mais tempo”, concluiu lembrando que a irmã passará dois dias e meio fora.

– Senhorita Loreena, – ela ouviu a voz grave do homem familiar – precisamos conversar.

Ela encarou aquele homem de talvez uns trinta anos, alto e forte, e barba feita. Agindo como um comandante, um general, o “superior” de Golde, segundo o rapaz. Como disse se chamar? Divere? Nome estranho. Homem estranho. Mas aqueles olhos a traziam um dejávü.

– Realmente, precisamos. – Falou tomando fôlego e coragem. – Mas antes, preciso tomar um banho para esfriar minha cabeça. – Ele assentiu. – Depois de todos esses acontecimentos eu não sei se consigo fazer mais nada antes de um banho. – Ela completou, pensando que aquilo seria a única fuga que teria de toda aquela realidade que tomara seu mundo.

– E tratar seus ferimentos. – Golde completou, recebendo um olhar curioso de Divere, ao qual deu de ombros. – Estão inflamados e infeccionados, ela vai desmaiar a qualquer instante.

Loreena não achava que iria desmaiar, mas sentia-se febril e dolorida de uma forma que jamais sentira. Tentou levantar, mas do mesmo modo que antes não conseguiu ir e sentou-se novamente antes que caísse no chão. Golde deu alguns passos è frente. “Ótimo!” bufou, “Ser levada ao banheiro como uma criancinha por um completo estranho!” e ruborizou “Não tão estranho… Mas não é tão íntimo assim também!”.

– Eu te ajudo. – Ele falou com o braço estendido e ela apoiou-se nele. Como se lesse seus pensamentos a encarou de um jeito engraçado. – Ou prefere que Divere a leve? – Completou com sarcasmo. Claud o ignorou, imerso em seus próprios pensamentos com relação àquela noite.

– Escada acima. – Informou e seguiu com ele.

Subiram pesadamente – ao menos para ela -, porque a cada passo que dava com a perna machucada uma dor perfurava seus ossos como ferro na brasa. Golde sustentava bem seu peso, então ele deveria ser muito forte. Loreena tentou ignorar o fato de antes eles terem ficado tão intensamente e agora tudo acontecia como se procedesse a uma tragédia.

Indicou o quarto no final do corredor, voltado para frente da casa. Precisava pegar roupas para vestir após o banho, não queria vestir novamente aquelas cheias de sangue, areia e lembranças. Ele ajudou-a a entrar no quarto pequeno e a se apoiar na porta do guarda roupas para pegar as roupas limpas. Deu as costas para dar a ela privacidade e ficou olhando pela janela do quarto, que dava uma bela visão do mar.

Ainda estava escuro, mas deveria ser umas 3 da manhã. Nuvens arroxeadas formavam-se no horizonte sobre o mar, cobrindo aquele azul profundo estrelado. Os relâmpagos podiam ser vistos vindos do sudeste, provavelmente choveria no dia seguinte, lavando os rastros da luta e sangue de Telquines da praia, limpando as lembranças daquela noite sombria e agitada.

Loreena se pegou com a nécessaire na mão olhando para Golde de costas, que continuava a encarar o mar, como se nem estivesse no Chalé. Ela viu o reflexo dele no vidro da janela perceber que ela o encarava e virou-se oferecendo novamente apoio para tirá-la do quarto. A expressão no rosto dele era séria e nada tinha a ver com o rapaz animado de mais cedo. Isso a fez ficar calada. Informou apenas que o banheiro era no final do corredor e ele a deixou na porta.

Sua perna estava rígida. Não queria olhar para os ferimentos, mas precisava encará-los. Sorte que seu banheiro era pequeno e tinha barras de apoio para Emilly, que nunca as usou, sendo forte como um touro até esta noite. Tirou as roupas apressadamente, ignorando o ardor ao tirar a parte de baixo e esta roçar nos arranhões. Encheu a banheira e entrou nela sentindo um fogo inexplicável em seus ferimentos. A água escureceu com o sangue que estava por todo seu corpo.

Precisou secar e encher a banheira mais duas vezes para que parasse de ficar escura. Tomou coragem e encarou os arranhões na perna direita. Eram profundos e sob a água tinham uma cor esverdeada e doentia. Ela ficou enjoada com aquela visão, mas era seu corpo e precisava cuidar dele. Passou suavemente sabonete antibacteriano ao redor dos quatro ferimentos que iam da parte superior da coxa até os joelhos e o quinto passava da parte de trás do joelho até a frente do tornozelo.

Encolheu-se de dor, mas não gritou. A água quente a fez relaxar um pouco e isso trouxe as lágrimas que prendeu desde o momento do ataque até aquela hora. Tudo veio à sua mente como se fosse um filme com detalhes e borrões. Mas começou mesmo com Charlotte lhe contando a história da pedra e lhe dando de presente… Logo depois apareceu aquela mulher estranha querendo brigar e a chegada de Golde. As palavras trocadas “Filha das Conchas”, “Filha da Areia”, “Corte” retumbavam em sua mente tentando se encaixar em seu vocabulário, mas não tinham um lugar certo. Simplesmente não faziam sentido.

Depois entregar-se às emoções na hora dos fogos. E achar ter visto em Golde o que ela estava procurando – ela mesma, seu interior – e sentir dele a mesma coisa e criar esperanças – coisa que jamais fizera desde a morte de seus pais. Foi tão… Surreal! Ainda podiam estar ali, naquele show, apenas curtindo e esperando o sol nascer. Não haveria ataque de… Telquines!

“Oh!” Exclamou afundando na banheira até a água cobrir sua cabeça. Ficou sob a água até quase não ter mais fôlego, o que levou um tempo considerável o qual ela sempre tentava prolongar mais e mais e sempre conseguia. Emergiu a cabeça novamente mesmo ainda tendo fôlego para ficar mais tempo. “Seres mitológicos atacando a praia de Bluecastle em pleno século XXI…” Era demais para si mesma.

As cenas seguiram em sua mente. Como Golde lutava bem! Matara dois deles… E ela ainda conseguira cegar um com um pauzinho de cabelo! Um indício de sorriso brincou em seus lábios, mas desapareceu ao lembrar-se dos ferimentos nas pernas. Aquilo foi terrível. Mancou até em casa sem entender o ataque ou o porque de quererem levá-la. E sentindo todo o fogo que aquele colar estava emanando para dentro de si. Poderia até suportar aquilo, com Golde a ajudando, mas chegou em casa e…

Outro pedaço imaculado de seu mundo havia desmoronado. Sua tia jazia desacordada no sofá que tanto usaram para momentos de conversas boas e chás. Um homem estranho perambulava na sua sala e parecia muito suspeito… Se ela tivesse ficado no show, mesmo sem o ataque dos Telquines, o que aconteceria em sua casa? O que este estranho faria a sua tia? E se enquanto ela tomava banho ele já tivesse roubado o que elas têm de valor e ido embora? Mas Golde o conhecia, não? E se Golde fosse seu cúmplice?

Não… Isso não o explicaria ter falado aquelas coisas. Novamente as palavras “Corte” e “Filha das Conchas” a encaravam. E o colar que aparentemente curara o ferimento de Emilly? Não. Ele certamente está lá em baixo, conversando essas coisas enigmáticas com Golde e velando sua tia…

De repente a ficha caiu. Aqueles olhos são os mesmos que ela vira na fotografia de tia Emy e seu marido, tio Claud! Mas ele não poderia ser aquele homem. Ele morrera há tanto tempo e provavelmente teria setenta e tantos anos, como tia Emy. E se…? Não, ela nunca mencionou, nunca mostrou fotos… Mas…

E se Divere fosse o filho de sua tia? O fruto de seu amor com Claud? Ela pode nunca ter mencionado, mas eles poderiam ter relações difíceis… Ele seria então seu… Primo? Talvez fosse algum tipo de general da marinha e Golde um novato e trabalhassem em causas especiais e por isso estavam ali… Por causa dos monstros! Ele não poderia deixar de avisar a própria mãe… É claro que agora fazia sentido alguma coisa. Mas e o colar?

Porque aquele rubi estava quente e brilhou tanto ao ser posto no pescoço de Emilly e fizera sumir o hematoma? Tudo bem, se existem seres mitológicos então, provavelmente existe algo próximo da… Magia?

Um toque na porta a sobressaltou. Ela pulou dentro da banheira sentindo um choque horrível na perna ferida.

– Loreena? Você está bem? – A voz de Golde veio do lado de fora. Ela suspirou.

– Sim… – Respondeu achando a voz. – Estou terminando o banho.

– Já tem meia hora que você entrou aí… Pensamos que havia desmaiado.

Meia hora? Com todos esses pensamentos parecia muito menos.

– Já estou saindo. – Falou abrindo o ralo para a água escorrer. Apoiou-se na beira da banheira e enrolou-se na toalha. Pôs um vestido para que uma calça não ficasse magoando suas feridas. Apoiou-se nas barras e alcançou a porta.

Golde estava do lado de fora, esperando encostado no corrimão da escada. Ainda vestia a blusa rasgada e suja de sangue. Ela sentiu-se levemente culpada.

– Preciso entrar neste primeiro quarto, por favor. – Falou indicando o quarto da tia, que ficava ao lado do banheiro. Ele a levou até lá e ela abriu a última gaveta, onde Emilly escondia aquela fotografia.

Encarou as figuras lado a lado, com sorrisos apaixonados e abraçados em frente ao Chalé. Suas dúvidas sumiram. Divere era idêntico à Claud, com a diferença que Claud parecia o Adam Levine barbado nesta foto e Divere era um Adam mais jovem, provavelmente por estar sem barba já que de qualquer forma aquele rosto tinha a mesma aparência, então a mesma idade. Os olhos eram tão iguais que davam o mesmo medo e fascínio em Loreena.

– Este é Divere? – Golde estava muito próximo a ela. – Quem é esta ao lado dele? Parece você só que mais velha!

– Esta é tia Emy. – Ela falou olhando nos olhos dourados do garoto. – E este era o marido dela, Claud.

– Não, – Ele disse balançando a cabeça – tenho certeza que é Divere.

– Não pode ser por que meu tio faleceu há quarenta anos. – Ela disse e lembrou-se do que Divere dissera antes. “Isto era o Relicário que Emilly jogou no mar quarenta anos atrás quando renunciou.”. E quando perguntou ao que renunciara ele dissera “Ao berço, ao sangue, à Corte.” Será que… Não pode ser… – Eu acho que Divere pode ser filho deles. – Ela disse séria e viu toda a incredulidade nos olhos de Golde.

– Acho melhor você perguntar a ele enquanto fazemos curativos em você. – Disse pegando a foto de sua mão gentilmente e passando o braço de Loreena sobre seus ombros. – Vamos.

– Você precisa trocar de camisa… – Ela constatou e ele deu de ombros.

– Isso não é uma prioridade. – E desceram para a sala.

 

_X_

Divere estava em pé de frente ao sofá, olhando a silhueta adormecida de Emilly. O céu, janela afora, estava coberto de nuvens e raios cortavam o céu. Mas as luzes estavam acesas e deixavam o ambiente quase confortável. Golde deixou Loreena sentada na poltrona e puxara o descanso de pernas para apoiar a perna ferida da moça. Ela estava um pouco constrangida, pois tivera que subir o vestido até o topo da coxa. Mas de qualquer forma a aparência doentia daqueles arranhões tiraria o apetite curioso de qualquer cara.

Claud entregou a Golde uma pasta feita por ele mesmo enquanto Loreena estava tomando banho. Era viscosa e tinha uma cor esverdeada que a deixou nauseada. Mas o cheiro agradável de aloe vera a deixou menos apreensiva.

– Podemos começar por partes? – Loreena quebrou o silêncio, sem aguentar mais um minuto de curiosidade, raiva e todos os outros sentimentos que passara naquela noite. Claud olhou para ela como se já tivesse visto aquela cena milhões de vezes, e Loreena mal sabia que sim. Sua tia agia da mesma forma quando era jovem e ficava irritada e Tálassa também. – Em primeiro lugar, qual sua relação com tia Emy? Qual sua verdadeira relação com minha tia?

– Eu a conheço há muitos anos… – Ele respondeu cuidadoso, pois não sabia o quanto aquela garota sabia e nem se ela era realmente quem achava ser.

– Não minta, por favor. – Ela disse tão fria que ele sentiu um arrepio, lembrando de sua Redy quando ele escondia algo. Não sabia se fora sua criação ou… Não, tinha que estar errado. – Eu sei que você não só a conhece, mas tem alguma coisa a mais. Eu tenho olhos, sabia? Vi a foto dela com meu tio! Você é filho dela?

Aquela frase ele não esperava e não conseguiu guardar a gargalhada que soltou, deixando Loreena com a expressão lívida diante aquela reação. Golde ignorava concentrado em aplicar o unguento nas feridas de Loreena.

– Filho? De Emilly? – Ele disse, recuperando a postura, mas ainda rindo e olhando para sua amada, imaginando o que ela diria se ouvisse aquilo. Loreena estava com a cara fechada.

– E como explica sua semelhança com meu tio? – Falou pegando a foto que Golde largara no braço do sofá e mostrando a Claud. A cor sumiu de seu rosto. Ela analisou sua cor voltar aos poucos e assumir uma tonalidade rosada, quase como se estivesse constrangido.

Ele pegou a foto e a olhou com carinho. Como se tivesse recordando ou sentindo uma forte emoção ao ver aquela imagem. Ele se demorou, admirando aquela lembrança dos poucos anos que puderam viver felizes naquele Chalé, o único verdadeiro lar que Emilly considerou.

– Loreena, eu responderei a sua pergunta, – ele disse finalmente – mas antes preciso que você me fale o que sabe sobre sua tia e sobre sua própria vida.

Ela estranhou o que ele disse e ponderou um pouco. Sentindo pequenas pontadas de dor enquanto os ferimentos absorviam o remédio que Golde aplicava delicadamente. Não tinha nada a perder. Pelo menos, não mais do que já perdera nas últimas horas: sua vida normal e seu sossego.

– Minha tia, Emilly Sweem, tem 72 anos. Vive neste chalé há mais de quarenta anos e era irmã da minha avó, Lígia Normand, que era mãe de minha mãe e faleceu há dez anos. Minha mãe se chamava Léa e conheceu meu pai, Harry Oseen quando ainda eram crianças, se casaram e me tiveram e depois a Jane. Eles faleceram dois anos atrás e viemos morar com tia Emilly, a única familiar viva da mamãe, pois era filha única e a família do meu pai nunca quis nos conhecer.

– E você tinha contato com Emilly antes do acidente? – Claud perguntou suavemente, vendo que a história batia com a que Emilly contou mais cedo.

– Sim, crescemos com frequentes visitas dela e umas duas ou três aqui… – Ela falou sentindo-se vazia.

– Sabe mais alguma coisa sobre sua tia? – Ele incentivou. – Sobre essa fotografia?

– Tia Emy foi casada com um pescador, chamado Claud Sweem. Ele faleceu a mais de quarenta anos em uma viagem ao mar. – Ela disse vendo-o contrair-se ao ouvir o nome. Incrivelmente Golde deu uma risadinha baixa quando ela disse isso, o que a irritou por não entender o sarcasmo dele.

– Então foi isso que ela disse a você? – Divere perguntou a Loreena. – Que seu marido se perdeu no mar?

– Eu nem sabia que ela tinha marido até ano passado, quando achei a fotografia e ela explicou isso. – Loreena disse e franziu o cenho. – Então, responda a minha pergunta agora… Quem é você e qual a sua verdadeira ligação com minha tia?

– Meu nome é Claud Divere Sweem. Sou o marido da sua tia. – Ele disse observando Loreena ficar sem expressão e depois rir.

– Há, há, há, há! – Gargalhou. – Agora sério, me diga, quem é você de verdade?

O olhar dele permaneceu sólido e sério sobre Loreena até que ela parou de rir e começou a ficar zonza. A semelhança, o modo de olhar para tia Emilly, o jeito como olhou para a fotografia saudosamente… Os olhos perturbadores…

– Eu sei o que deve estar pensando. – Ele falou ao ver que ela não encontrava a voz. – Como ainda estou jovem? Como estou do mesmo jeito que nesta fotografia, tirada há quarenta anos, enquanto Emilly está idosa? – Loreena apenas assentiu, ainda sem ar, ainda sem palavras. – Isto é o que me mantém jovem. – Falou puxando um colar com um pingente dourado que certamente era de ouro. – Isto é o meu Relicário, é que me faz permanecer jovem. É o que auxilia na recuperação de ferimentos. Por isso Jonathan está praticamente curado dos Telquines.

– Isto não faz sentido algum! – Loreena finalmente exclamou, chutando sem querer o peito de Golde que começara a enfaixar sua perna. A dor pelo movimento brusco nos arranhões a fez encolher. – Desculpe… – Disse a Golde que lhe lançou um olhar brincalhão – Mas isto realmente não tem sentido!

– De onde viemos – Claud falava andando em círculos agora – todos tem um Relicário como este, e servem para os mais diversos propósitos. São cristais especiais e essenciais para nossa vida. É de onde podemos adquirir mais energia, juventude, resistência e curar nossos ferimentos… É o que nos permite… – Interrompeu-se, sem querer assustar mais ainda a garota. – Ser o que somos. Filhos das Conchas.

– Filhos das Conchas? – Loreena repetiu – Novamente isto! E o que isso quer dizer? O que significa Filhos das Conchas, Filhas da Areia, Filhos do sei lá o que? O que é a Corte?

– São títulos. Filhos do Mar seria muito abrangente. – Golde falou interrompendo o que Claud iria dizer e Loreena o encarou horrorizada. Claud o olhou com severidade. – Que é? Ela precisa saber de qualquer forma! – Golde defendeu-se.

– De uma maneira mais delicada, Golde, por favor! Não vê que a garota está sob extremo estresse? – Claud disse.

Como assim Filhos do Mar? – A voz de Loreena subiu uma oitava, sentia que poderia ter um ataque histérico de verdade.

– Filhos do Mar são todos e quaisquer seres que tenham seu berço, sua origem marinha. Filhos da Terra são todos e quaisquer seres que tenham sua origem na terra, no Continente. Todos somos filhos de Gaia, mas há a divisão de Filhos da Terra e Filhos do Mar. E de cada um vem as subdivisões e as classes, os híbridos e as Famílias. – Explicou, mas duvidava que Loreena estivesse compreendendo. – Dos Filhos da Terra, temos os Filhos do Barro, que você Chama de Humanos, Filhos do Ar, que são as aves e seres que tenham poder de voar… Filhos das Garras, que são as feras, e assim por diante.

– Tá, mas e os F… Filhos do Mar? – Loreena perguntou engolindo em seco enquanto Golde concluía a atadura e sentava-se no chão a seus pés.

– Dos Filhos do Mar temos os Filhos das Algas, que são as plantas marinhas, Filhos das Barbatanas, que são os peixes, Filhos dos Crustáceos, e assim por diante e, nós… Os Filhos das Conchas somos Sereias e Tritões, no seu vocabulário. Temos esse nome por causa da Deusa Tethys, que “Passeia pelo mundo numa concha de marfim, puxada por cavalos brancos.” E é a mãe de todos os nossos ancestrais marinhos, incluindo as oceânides, golfinhos e nereidas. Viemos de um lugar há muito tempo perdido e procurado por vocês, Atlântida. – Ele disse observando a incredulidade se consolidando nos olhos verdes de Loreena.

– Isso não é possível. – Ela disse simplesmente.

– Então como explica a Serpente Marinha? – Golde falou aos seus pés. – Os Telquines? Se eles são possíveis, isso também é. Nós somos Filhos das Conchas.

– E o que é essa Corte? – Loreena estava desesperada. – E o que isso tem a ver com minha tia?

– A Corte é nosso, como posso dizer “Reino”. – Claud retomou a palavra. – É nossa organização social, nosso palácio, Reis e Rainhas. Nossas leis e nosso ponto de apoio. A principal Corte é onde nossa família real mais importante vive, sob as bênçãos de Poseidon. É de lá que Golde, eu e Emilly viemos.

– De onde? Do fundo – Loreena sentiu a compreensão baixando – do mar?

– Sim. – Claud assentiu e voltou a olhar para Emilly adormecida no sofá. – Ela não é sua tia de verdade. A verdadeira irmã dela é nossa Rainha, Tálassa. – Falou e o nome fez Loreena sentir uma corrente elétrica passar pelo corpo. – Emilly e eu servimos à corte por muitos anos, mas em um momento de crise no reino ela renunciou à vida marinha, ao trono e à mim por que não queria causar problemas com a irmã.

– COMO ASSIM? – Loreena gritou de verdade, perdendo o controle. – MINHA TIA É UMA PRINCESA?

– Como falei, ela não é sua tia de verdade. – Claud estava calmo e parecia anos mais velho. – Emilly e Tálassa são irmãs gêmeas, filhas de filhas de Tethys, em homenagem à Deusa e Terkie Marsea.

– Marsea? – Ela repetiu a palavra reconhecendo de algum lugar.

– Era o sobrenome Real, mas após a crise, quando Tálassa assumiu o trono ao lado de Nered, o sobrenome foi adaptado à Nova Era, e se tornou Maysee.

– E por que ela renunciou? – Loreena perguntou, com o nome Maysee repetindo em sua mente, tentando lembrar-se de algo.

– Emilly sempre disse que não nasceu para governar. Ela não tinha o dom, mas Tálassa tinha. Emilly queria apenas dançar e nos casamos, tendo uma licença para viver aqui e lá, sendo ela da família real, nós tínhamos certas regalias. Claro que seu povo não pode saber de nossa existência. Vivemos muitos anos felizes, mas uma crise estourou no reino quando Terkie foi morto em uma batalha com os monstros das profundezas. Tethys já havia falecido vários anos antes, então só restava às duas herdeiras assumir o trono.

“Emilly era mais velha, nascera primeiro que Tálassa, e casara primeiro, portanto tinha prioridade em assumir. Mas assuntos relacionados ao governo sempre tem pressão e o povo atlante pressionava que a herdeira assumisse no máximo um mês após a morte do nosso Rei, ou então os outros Reinos entrariam em Guerra para tentar assumir o trono. Tálassa e Emilly eram tão unidas e uma queria que a outra assumisse ao trono, pois uma achava a outra mais sábia. Eu era um soldado, assim como Nered, lutávamos juntos em todas as batalhas e também tínhamos medo, não queríamos ser reis.

“Então um dia Emilly convocou uma reunião no palácio, com todos os Lords e reis dos outros reinos. Todos achavam que ela iria assumir… Inclusive Tálassa, que estava feliz pela irmã. Eu temia, mas a acompanhei até o Salão e lá ela fez uma revelação surpreendente. ‘Eu, Emilly Redy Marsea renuncio ao meu nome, ao meu berço e ao meu direito de governar. Renuncio às minhas origens e ao povo do mar para que haja paz e tranquilidade neste Reino. Os deuses sabem que não tenho o dom de governar e não seria sábia a decisão de me tomar como rainha. Deixo hoje à minha irmã, Tálassa Marsea a decisão de tomar a coroa e unir novamente este reino, enquanto deixo para trás toda essa vida e o Relicário. A partir de hoje me chamo Emilly Oseen e viverei como uma Filha do Barro.’

“E assim, partiu, deixando a mim a escolha de segui-la ou ficar. Tálassa assumiu o trono, junto a Nered e reafirmou as lealdades dos reinos. Eu era o guardião real. Eu cuidava da segurança pessoal dos reis e não pude ir com minha Redy. Precisei ficar, pois mesmo com tudo, Tálassa seria mãe e o herdeiro real precisava de proteção. Nered governaria enquanto eu protegeria sua família, e Redy entendeu isso mais tarde naquele mesmo dia, quando despediu-se de mim e largou seu Relicário… Este Relicário – apontou para o rubi no colo de Emilly – no fundo do mar e partiu.

“Pensei que nunca mais a veria. Pensei que tinha feito a escolha correta até certa noite, quando houve uma emboscada e os Filhos de Ceto invadiram nosso palácio… Eles me encurralaram e mataram o herdeiro real… Eu fui preso, pois pensaram que eu estava envolvido. Mas anos depois Tálassa teve outro herdeiro, uma menina, e eu estava preso quando a sequestraram e por isso Tálassa conseguiu convencer a Nered que eu não estava envolvido, que sua irmã jamais teria casado com um traidor. Fui solto sob uma condicional, eu não poderia renunciar e teria que resgatar a filha roubada deles.

“Procurei pelo oceano e até pela superfície. Nenhum sinal da herdeira Maysee. Nenhum sinal de sangue ou morte, mas também nenhum sinal de vida. Os Filhos de Ceto simplesmente desapareceram com a princesa real e o Reino vive novamente sob tensão e ataques cada vez mais frequentes de monstros. Alguns outros reinos não dão resposta, como se ainda decidissem de que lado lutar nessas batalhas… Mas uma coisa é certa: uma guerra está próxima, e não são apenas os Filhos do Mar que sentirão seus efeitos.”

Claud terminou de contar a história e Loreena estava extasiada. Não tinha reação, não tinha sentimentos mais que coubessem dentro de si. Então a única família que pensara ter, não era sua família. Ela tinha apenas a Jane, e Jane a ela. Mas Emilly ainda assim cuidara delas e as acolhera e protegera. Emilly as amara mais do que as pessoas que tinham seu sangue puderam fazer. Seus olhos se encheram de lágrimas e percebeu que Golde a encarava.

Desviou o olhar para a janela e viu que estava clareando, mas o sol não podia ser visto através das nuvens espessas que haviam bloqueado o céu. A chuva logo chegaria como dois dias atrás, mas agora tudo estava mudado, tudo estava diferente e Loreena não sabia mais o que era real.

_______________________________________

Continua…

7 comentários em “Maysee, Um Toque do Mar [Parte 6]: Devidas Explicações

  1. Ainda estou absorvendo toda essa reviravolta, meu Deus tá incrível. Priminha linda do meu coração, posta mais, não sei se vou aguentar esperar tanto tempo.

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